Desescolarizar

A linda da Renata Correa indicou um vídeo que me rendeu muitos insights: uma conversa de quase uma hora com a professora Ana Thomaz.

Ana Thomaz fala da opção que fez de tirar o filho da escola, quando ele ia começar o ensino médio. E explica porque ela achou que a escola não era um lugar para o filho dela. E conta como foi que ela mesma começou a ensiná-lo (seria esse o verbo?) e a aprender com ele. E de como esse processo foi conduzido.

O vídeo não se restringe ao ato em si, de retirar o próprio filho da escola. Ele mostra um pouco de quem é Ana Thomaz, como ela pensa, como ela está no mundo, que experiências ela passou e qual o sentido que ela tem para a vida.

E como ela mesma diz, é um paradoxo: ser professora e rejeitar a escola. É aqui que eu mais me identifiquei com ela: sou jornalista e rejeito o jornal. É um grande alívio perceber que pessoas de outras áreas, outras profissões, também têm dilemas parecidos com os meus.

Só que ela foi longe, muito mais longe do que eu: ela abriu mão da escola e ensinou alguém. Continuou sendo professora, ensinando – e fez isso sem a escola, mas dentro da estrutura que estava ao alcance dela. Ela se colocou esse desafio (que não tem garantia nenhuma de que vai “dar certo”) e está vivendo de acordo com ele. E vivendo bem.

Mas esse é só um dos “insights” – o vídeo bateu o meu recorde de insights por minuto. Ainda estou processando tanta informação. Porque não parece à primeira vista, mas é um vídeo extremamente político. Espero que vocês curtam tanto quanto eu curti. E valeu, Renata Corrêa, pela indicação!

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Tudo o que você queria saber sobre corrupção e vai continuar sem saber

Em tese todo mundo é contra a corrupção nem que seja pra ser simpático, ganhar votos, parecer uma pessoa bacana…. E se todo mundo é contra a corrupção, todo mundo sabe o que é corrupção. Certo?

Errado. Para o Fantástico, ninguém sabe o que o corrupção.

Então vamos analisar o texto do site da Globo que trata do Fantástico de um domingo qualquer:

“Licitações com cartas marcadas, negociatas, combinações indecorosas de suborno, propinas, truques para escapar da fiscalização. Certamente, você já ouviu falar muito de corrupção. Mas hoje você vai conhecer a cara dela. E do jeito mais deslavado”.

Veja bem: você sempre ouviu falar de corrupção e agora, UAU, você vai conhecer A CARA da corrupção. Sim. A corrupção tem UMA CARA! Eu pensei que fossem várias caras, vários tipos de corrupção, mas agora sei que corrupção tem uma cara e que, puxa, eu preciso conhecer essa cara! Afinal… Pelas palavras do Fantástico:

“Entre quatro paredes, o que a gente paga em impostos e que deveria ser destinado à saúde, à educação e outros serviços vai parar no bolso de empresários inescrupulosos e funcionários públicos corruptos. Uma vergonha”.

Olhem a sutileza da redação: o seu trabalho é pagar imposto. Quer dizer, monitorar, cobrar, sugerir mecanismos de participação e transparência, pensar (!), reivindicar ou qualquer coisa parecida já é sofisticado demais pra você, cidadão de bem afinal tu é homer simpson ou é rebelde/comunista/petralha. Outra sutileza: os empresários  são inescrupulosos,  funcionários públicos são corruptos. É sutil. Pode parecer uma bobagem, mas… Vamos acompanhar o restante do texto, que bate na tecla da “novidade”.

“O Fantástico mostra agora o mundo da propina, da fraude, da corrupção. De um jeito como você nunca viu. E vale a pena você ver: É o seu dinheiro que eles estão roubando. ”

É o voyerismo da informação: não basta você saber pelo portal do TCU, pelo Ministério Público, pela Polícia Federal ou o que seja.Você precisa de uma câmera escondida pra ver a cara da corrupção. Afinal, só a TV pode mostrar a corrupção, nenhum outro órgão ou entidade tem credibilidade pra ver esse problema e combatê-lo!

Daí você lê mais um pouco e descobre que na verdade não existe notícia! Explico:  o repórter em questão não “descobriu” possíveis corruptos, mas sim escolheu quatro empresas, sendo que três delas já eram investigadas pelo Ministério Público, por diferentes irregularidades. Em bom português: que denúncia é essa que o Fantástico está fazendo, que até o Ministério Público já está apurando? Como andam essas apurações? O que o Ministério Público tem de concreto e já pode divulgar pra imprensa sem prejudicar sua própria investigação?

É claro que o Fantástico não explicou nada disso, afinal… A pauta não era “as empresas investigadas pelo Ministério Público”, a pauta era “vamos brincar de mostrar a corrupção?”. Quer dizer você tem uma puta pauta matéria super relevante pra fazer, investigar os meandros das investigações que cercam os crimes relacionados à corrupção e tal, mas isso tudo é deixado de lado pra satisfazer a platéia.

Daí que o Fantástico conseguiu filmar a(s) cara (s) da corrupção! UAU! E o circo estava pronto, com as caras dos “empresários safados” e  a declaração de uma fonte da CGU:

“Existe uma noção pré-concebida contra o funcionário público, que ele é o mau, ele é o corrompível. Enquanto que o empresário, o setor privado, é puro, é eficiente, é eficaz. Associada à noção de que a empresa tem que entrar nesse jogo, porque senão ela não leva vantagem porque as outras vão fazer. Isso distorce o mercado, distorce a competição e no longo prazo prejudica todo mundo”

Sério, Fantástico? Cêjura? Engraçado, quer dizer que precisa de um cara da CGU pra chegar a essa brilhante conclusão?

Mas o Fantástico é o show da vida, a matéria não podia terminar com esse incrível chavão, tinha que ter uma gracinha:

“Eles [os corruptos] não sabiam que estavam sendo filmados. Mas sabiam bem o que estavam fazendo.”

Moral da história: se não é a Globo pra mostrar pra gente o que é corrupção a gente nunca saberia o que é isso, não é verdade?!?

Quer dizer, a reportagem acabou e você se sente bem informado pois tudo o que você já sabia sobre corrupção se confirmou: a reportagem apenas reiterou uma série de clichês mais ou menos disseminados na população sem apresentar nada de novo do que você já está careca de saber.

Questões que a Globo não aborda – e que poderiam ser exploradas:

– Como os órgãos/instituições/instâncias lidam com denúncias de corrupção? Há eficiência desses órgãos? Como ela é mensurada?
– Que riscos correm as pessoas que denunciam determinados tipos de corrupção?
– Quantas pessoas já foram presas por crimes relacionados à corrupção?
– Como eu faço pra saber quanto de recurso um hospital público recebeu e quanto ele está gastando? Quais dados são abertos, quais são fechados?
– Qual o papel do Ministério Público? Ele está investigando as empresas que foram apontadas na matéria como corruptas, mas como está investigando? Quem denunciou?
– Qual o papel da Polícia Federal? Qual é a dificuldade em se obter dados de crime de colarinho branco no Brasil?
– Qual o papel dos movimentos sociais organizados que lutam para combater os diversos tipos de corrupção ou pra criar mecanismos dêem mais transparência ao uso dos recursos públicos?

Enfim, o Fantástico acha que está informando. E eu não duvido que muita gente termine de assistir à matéria e se sinta plenamente informado com aquilo.

Mas eu acho que Fantástico está, na verdade, deseducando: porque a pessoa tem a sensação de que está informada quando na verdade não está. E isso é mais perigoso do que se supõe! Reiterar lugares-comuns não faz pensar, não mobiliza, não envolve a sociedade, não promove mudanças.

É possível que o Fantástico tenha conseguido a proeza de conscientizar alguém que sempre achou que empresário é santo e funcionário público é que é sempre corrupto… É possível.

Mas será que essa foi a única coisa que se salvou na reportagem inteira, de vários minutos? A única coisa que precisava ser dita sobre corrupção era isso “empresários também corrompem”?

Ok. Desculpem meu desabafo, talvez eu seja mesmo uma criatura muito estressada.

Uma perdigota

Algumas pessoas acreditam que as denúncias gravadas nesse vídeo não passam de boato – um delírio coletivo numa situação de tragédia, nada mais nada menos do que isso. E pode ser que seja tudo mentira. Mas quem sou eu pra julgar que essas pessoas são mentirosas? Prefiro divulgar o vídeo e pedir apuração das denúncias. Prefiro ser vista como perdigota, como pessimista ou irresponsável a correr o risco de passar pra história como aquela que julgou e desqualificou sumariamente a voz de um ser humano que perdeu uma casa não num alagamento causado por chuvas ou fenômeno da natureza, mas de uma forma perfeitamente evitável. Perfeitamente evitável, essa miséria.

Pinheirinho: para onde as famílias serão levadas?

Roosevelt Cássio
Roosevelt Cássio

Nunca vi reintegração de posse tranquila – sempre rola algum tipo de tensão, choro, um sentimento amargo de injustiça por mais “dentro da legalidade” que a tal reintegração seja. Mas essa do Pinheirinho, que rolou em plena manhã de domingo, foi especialmente dolorosa – há um histórico jurídico-político no mínimo obscuro a respeito de quem teria a posse do terreno, a legalidade da ação de reintegração está sendo seriamente questionada, os moradores estavam completamente vulneráveis quando a PM chegou, vários relatos de abuso circularam pelas redes sociais, houve tentativas de dificultar o trabalho da imprensa no local do conflito, enfim. A situação é caótica. Chega uma hora em que todos nós precisamos nos solidarizar com esses moradores. Chega uma hora em que a gente precisa rever seriamente os conceitos de “neutralidade” ensinados nas profissões por aí. Chega uma hora em que a gente precisa descer do muro confortável da “neutralidade” e ouvir os moradores do Pinheirinho! Ouvir as queixas pra depois apurar as informações. Solidariedade. Empatia. É isso o que a situação pede.

Para onde as famílias serão levadas? Precisamos cobrar das autoridades uma solução para isso. A especulação imobiliária não pode passar por cima do direito à moradia.

Para saber mais: http://solidariedadepinheirinho.blogspot.com/

Um corpo carbonizado

Se você estvisse numa caminhada ecológica e de repente se deparasse com um corpo carbonizado de uma criança no meio do mato, o que você sentiria? O que você faria? Chamaria a polícia? Certamente você seria ouvido, um inquérito seria aberto, haveria um processo na justiça. Talvez sua história poderia ser contada por um grande veículo de comunicação. Quem sabe? Mas haveria um inquérito, nosso país tem leis que devem ser respeitadas por todos.

Certo?

Em tese deveria ser assim. Mas em certas regiões do Brasil o que existe não é a lei, é a barbárie. Em outubro de 2011, um índio guajajara se deparou com um corpo carbonizado, aparentemente de uma criança de oito anos, na cidade de Arame, região central do Maranhão. Dizem até que ele filmou com um celular, mas as imagens não vieram a público. O fato é que ele procurou uma autoridade competente – a Funai – e esta ainda não pôde verificar a denúncia. Motivo? A Funai informa: “Como é uma região de conflitos, é bastante perigoso andar por lá”. Até hoje, 8 de janeiro de 2012, nada foi esclarecido.

Ou seja, há uma denúncia, há um corpo carbonizado, mas não se apura nada porque a autoridade não consegue sequer chegar ao local perigoso. E sem poder apurar a denúncia, como fazer valer a lei? Os poucos jornais que acolheram a denúncia do índigena que encontrou o corpo carbonizado ainda padeceram do descrédito: “Será que esse corpo existe mesmo? Será que é mesmo de uma criança assassinada?”. Perguntas que ficam entre o excesso de zelo ( sim, jornalismo é verificar, verificar, verificar) ou cinismo puro e simples (assassinatos em conflitos agrários são possíveis num país que já teve Chico Mendes, Dorothy Stang, Maria do Espírito Santo da Silva e José Claudio Ribeiro da Silva e outros tantos outros mortos…)

Sim, eu reconheço que, por princípio, cabe ao acusador o ônus da prova, e toda notícia precisa se checada. Acho válido tudo isso. Mas ao mesmo tempo eu me preocupo muito quando a bandidagem dá xeque-mate nas regras. Qual é o jornalista em sã consciência que vai se meter a entrar numa região em que nem a Funai acha seguro entrar? Ou será que a bandidagem venceu, e nem Funai pode apurar, nem jornalista pode ousar escrever a história sem ferir as próprias regras?

Se você for seguir rigorosamente o princípio de só se publicar uma notícia de um corpo carbonizado ao ver o corpo carbonizado, como faz? Deixa de noticiar? Deixa a bandidagem acreditar que a voz de um indígena não é uma voz, portanto basta deixar uns pistoleiros de tocaia pra atacar o primeiro não-indígena que experimentar conferir o corpo carbonizado?

É ou não é sério, Brasil? Confiamos ou não confiamos em nossos índios nesse contexto de conflito? Ao menos para iniciar uma investigação?

Ouvi de um jornalista que já trabalhou diretamente com indígenas, no Maranhão, há 20 anos, e que hoje acompanha as notícias via entidades não-governamentias e sites alternativos: “Se a Polícia Federal aparecer naquela região haverá uma trégua. Mas assim que a Polícia sair do local, tudo voltará a ser como antes: pistolagem, assassinato, intimidação”. Daí eu perguntei pra essa pessoa o que é que precisa ser feito pra se resolver esse conflito todo. E a pessoa me respondeu, resignadamente: não há o que ser feito.

Quando a bandidagem consegue paralisar até as esperanças das pessoas é porque algo de muito grave está acontecendo. É porque a bandidagem está vencendo! Precisamos urgentemente, em primeiro lugar, recuperar as esperanças, debater soluções, colocar o assunto na roda, encontrar alternativas.

Repudio qualquer ato de indignação covarde, do tipo querer o linchamento dos responsáveis pela morte da criança carbonizada (como fizeram com a mulher que bateu no cachorro até a morte). Mas acredito que o meu papel, por agora, é cobrar, principalmente do governo federal, a imediata apuração dessa denúncia. Em segundo lugar, cobrar um plano urgente pra essas regiões de conflito que não fosse só uma ação militar, mas que também fosse um plano social-ambiental-jurídico-econômico de médio prazo. Um PAC do conflito agrário ou algo do tipo, que pudesse dar conta especificamente das regiões que passam por esses problemas. Em terceiro lugar cobrar das pessoas que não têm nem esperança, que se mobilizem! Que denunciem, que pressionem por uma solução, porque pressionar, a essa altura do campeonato, é um gesto de coragem – mesmo que uma ou outra pessoa apareça para desqualificar esse tipo de ação. Em quarto lugar, e não menos importante: vamos dar crédito para os blogs independentes, jornais comunitários e veículos alternativos no geral – apoiar a diversidade de fontes é importante para dificultar o trabalho da bandidagem.

Fatos e pitacos sobre a Marcha do dia 12 em Brasília

No dia 12 de outubro aconteceu em Brasília a segunda onda da popular (e insuspeita) “Marcha contra a corrupção”. Por continuar sem um foco (como já expliquei nesse post, corrupção por si só é um conceito amplo e ingênuo, ineficaz), o evento acabou, novamente, reunindo um balaio de gatos no Eixo Monumental Brasília. Como considero o fenômeno interessante – pelo atual contexto político e pelo uso de redes sociais em sua divulgação, resolvi compartilhar aqui algumas ideias. Mas antes gostaria de pontuar alguns fatos:

Fato 1: o evento foi divulgado nas redes sociais – aqui está o site oficial do movimento: http://www.movimentocontraacorrupcao.org.br , que se diz apartidário e tem todo um discurso genérico, que cabe qualquer coisa, que acaba atraindo a simpatia imediata das pessoas. Guardem essa informação. Vejam o banner que circulou pelas redes sociais como twitter, facebook e afins:

Banner do movimento contra a corrupção

Fato 2: diferentemente de São Paulo, Brasília é famosa pelo caso de corrupção envolvendo Arruda, primeiro governador na história do Brasil que foi encarcerado – e que foi de fato afastado do poder em decorrência das investigações. Também é famosa por não ter punido a Jaqueline Roriz, que foi flagrada recebendo dinheiro do delator do mensalão do DEM e mesmo assim foi absolvida pelos colegas. Ou seja, os corruptos aqui têm NOME, HISTÓRIA e PARTIDO POLÍTICO (ambos estão no campo da direita). Guardem essa informação.

Fato 3: apesar de toda a divulgação frisar o caráter “apartidário” e “apolítico” (sic), os organizadores do movimento pertencem aos partidos identificados com a direita. Guardem essa informação.

Interpretações

Qual é o resultado de um movimento organizado pela direita (ainda que não abertamente), apartidário (em tese poderia servir a uma esquerda que quer punir, por exemplo, Jaqueline Roriz) e num contexto político recente que envolveu figuras famosas da direita? Não vou responder, quero apenas ressaltar a complexidade do fenômeno e dizer que nesse caso eu me reservo nodireito de desconfiar de simplificações rasteiras.

Há uma parte da esquerda que se recusou a participar da Marcha simplesmente por saber da informação de que se tratava de uma marcha organizada pela direita, ainda que o todo o discurso que a sustentasse defendesse o tal “apartidarismo”. Essa esquerda acredita que todas as pessoas da marcharam são ou de direita ou são  inocentes úteis que ajudam a  direita. Também considera que as pessoas de esquerda que lá estiveram presentes estavam lá simplesmente porque querem “jogar o jogo da direita” – fazer uma vingança, um “suicídio  político” gratuito.

Acho essa visão respeitável mas um tanto limitada pois ela se fecha numa redoma, a dos “entendidos”. Quem não compartilha dessa visão política é automaticamente rotulado, tratado sem nenhuma consideração. Se a massa apresenta uma ignorância política, essa esquerda prefere que ela continue na ignorância. Se pessoas de diferentes visões partidárias estiveram ali presentes, essas nuances automaticamente são jogadas no balaio da direita, cometendo injustiças do tipo:  e quem foi protestar contra Roriz?  Merece ser jogado no balaio da direita?! Mesmo?

Na minha visão a marcha se torna interessante pois ela serve como um termômetro político  – tenho sempre a curiosidade de saber o que move um cidadão para protestar numa rua, e mesmo que seja pra servir de massa de manobra pra alguém, se a pessoa saiu de casa é porque alguma coisa muito forte a sensibilizou. Acho curioso como nem sempre quem se sensibilizou se alinhou politicamente a quem organizou a marcha. Isso acontece, creio eu, porque a desintermediação (uso da internet como ferramenta de mobilização política)  está cada vez mais presente  e organizadores de qualquer que seja a marcha precisam ter em mente que controlam cada vez menos o público que resolve comparecer e os debates surgidos em torno da pauta.

Também acredito que colocar toda a divergência no balaio oposto é uma tática que está a cada dia funcionando menos. Não é que esquerda e direita deixam de existir: mas é que as interpretações sobre o que é esquerda e o que é direita aumentam exponencialmente. E com a internet os interesses passam ser cada vez mais específicos, diversificados, contestados em tempo real! Precisaremos de novas teorias, novas formas de se fazer política – é para isso que caminhamos!

Um exemplo: o protesto dos professores por melhores salários, piso unificado, porcentagem maior do Orçamento Público para educação, e entre outras demandas é, em tese, uma bandeira clássica da esquerda (a educação deve ser pública, os trabalhadores devem ser valorizados). Já fui chamada de “extrema-esquerda que joga o jogo da direita” por defender essa causa. E aí, será que é isso mesmo? Vamos jogar tudo na conta da direita e encerrar o debate?

A Marcha acaba refletindo esse panorama político – fala-se que ela atende interesses de direita (e atende) mas também aproveita-se para calar assuntos espinhosos dentro da própria esquerda: a questão ambiental, as bandeiras dos LGBTs, os salários dos professores… Se algum professor enxergou na marcha um palanque pra defender sua causa, o seu grau de esquerdice foi automaticamente colocado em dúvida.

Se por um lado temos uma situação econômica favorável frente a países de primeiro mundo que hoje enfrentam níveis dedesemprego na casa dos 20%, por outro lado continuamos com problemas que costumavam ser bandeiras históricas dentro da esquerda tradicional e que hoje são demandas sufocadas por uma parte da esquerda (precarização das relações de trabalho, pobres pagam mais impostos do que ricos, precarização das leis ambientais, mortes de mulheres, homossexuais e negros, racismo institucional).

Avaliação de quem esteve na Marcha em Brasília

Meu amigo Rômulo, que é filiado ao PSB (partido de esquerda),  participou das duas marchas em Brasília. Compartilhei com ele essa minha angústia de ver que há um discurso da esquerda governista que coloca a manifestação toda como coisa da direita e pronto, assunto encerrado. E não está conseguindo enxergar os outros atores que acabam procurando esse palco para manifestar seus descontentamentos como os professores, os ambientalistas, os LGBTs, os revoltados contra o Arruda, enfim. As pessoas que estão nas causas da esquerda são minoria nessas marchas – mas elas existem!  Preoucupa-me essa invisibilidade, esse debate interditado.

Eis o que ele me respondeu (grifos meus):

“Bom, isso é uma preocupação que está me consumindo nesses dias.

Há os dois extremos. A galera dos partidos que não podem ir para a marcha pois será hostilizada (partidos notoriamente com o rabo preso) e tenta minimizar o processo. Por outro lado, parte dos “organizadores” está criando um monstro. Para você ter uma ideia, parece que o dono do escritório de advocacia que está defendendo o Arruda teve uns belos minutos para falar de cima do carro de som. O que me preocupa nisso? Que esse movimento escape das garras de um partido e caia nas garras de gente “sem partido” que, de repente, passa a ter partido.

Não sei se te contei. O Movimento Ficha Limpa do DF que antes da campanha era “apartidário” e estava “sabatinando” candidatos para apoiar, acabou por apoiar um camarada do partido do Roriz. Organizei um debate de candidatos na UnB e convidei o cara que estava sendo apoiado pelo Ficha Limpa (nem sabia o partido). Eis que o cara defende o Roriz durante todo o debate. Fiquei pasmo… Compreende o meu receio?

Aí, durante o evento dessa quarta, a galera de cima do carro de som – a maioria muito pueril ainda nas reflexões políticas – começa a puxar uma hostilização contra uma bandeira que eles acharam que era de partido. Isso num espaço público, no Eixo Monumental, num feriado. Aí alguém explica “não, não é a Eliana Pedrosa, é a Eliana Calmon”. O carinha de cima do carro de som fala: então pode levantar que a gente é a favor. Ora bolas, quem é ele para permitir ou deixar de permitir alguém levantar uma faixa ou uma bandeira de partido, usar uma camiseta, compreende? Ele não é dono do espaço público. É um autoritarismo travestido. O cara que vai para a rua com a bandeira ou camisa do seu partido, voluntariamente, provavelmente está lutando dentro do seu partido contra a corrupção. Esse pessoal tem de entender isso. Não precisa se filiar, mas precisa saber que tem gente partidária que está lutando a mesma luta e, o mais importante, que há partidos mais ou menos comprometidos com essa luta.Hostilizar partidos é colocar tudo no mesmo saco PSOL e PSB na mesma lata que DEM e PR, por exemplo. É que não estarei aqui no dia 15 (nem sei se terá outra), mas seria ótimo tentarmos organizar umas pautas mais concretas – como a corrupção cotidiana, o movimento GLBT, os professores (na primeira marcha o carro de som era do Sindicato da UnB, emprestado. Aí o cara da UnB pegou o microfone para explicar a situação da UnB, o indicativo de greve, etc. o cara da “organização”, desceu do caminhão e começou a falar para o público embaixo: “isso aí não tem nada a ver com o movimento, isso aí não é com a gente”. Achei falta de respeito e um despolitização gravíssima…). No próximo em que eu estiver, eu irei com a camisa do meu PSB tranquilamente. Se houver hostilização, farei tranquilamente esse debate. E seria ótimo que outros grupos (sejam partidos ou não) também começassem a levar as suas bandeiras concretas. Acho que o movimento iria crescer ao invés de diminuir (ouvi o seguinte comentário – se não fosse camisa preta as pessoas não viriam, o que imediatamente me levanta o questionamento: elas não tem nenhuma pauta política? Pois se não tem, tem algo errado. E se têm, levemos para as ruas.).Nessa quarta, a monotonia dos participantes era notória. Nem se compara, por exemplo, com a marcha das vadias, que tinham um ponto claro de pauta. Compreendo o que você diz quando os politizados são minoria, mas precisamos fazer dessa posição que você descreve maioria nessas passeatas. Atualmente, a maioria é composta por pessoas que pouca ou nenhuma clareza tem sobre porque está ali…
Assim, a minha posição não é simples. Estou dizendo algo totalmente diferente do pessoal do carro de som. Estou dizendo que a massa amorfa não vai a lugar nenhum. Prefiro a profusão de bandeiras, cada uma com a sua clareza, do que uma unidade artificial, baseada na semi-ignorância

Vamos organizar a profusão de bandeiras?!”

Em São Paulo – O blogueiro Eduardo Guimarães fez um relato interessante sobre o perfil dos participantes da Marcha que ocorreu em São Paulo. Também fez questão de publicar a repercussão de seu post. Achei curioso que ele não tenha encontrado nenhuma criatura de esquerda. A Maria_Fro encontrou um cidadão aparentemente de esquerda (criticava a corrupção do governador de São Paulo)  e que não aparceu nem na matéria do Eduardo e nem nas reportagens da Rede Globo. Se não apareceu nem no site do Edu e nem na Globo, será que esse cidadão de esquerda na marcha de Sampa realmente existiu? 😉

Tudo o que eu já li sobre Belo Monte e vale a pena compartilhar

A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte está longe, muito longe de ser um consenso entre os brasileiros. E como tenho lido uma avalanche de artigos, textos e vídeos sobre esse tema, resolvi publicar um post organizando um pouco essa bagunça. Não tenho a pretensão de ter a palavra final sobre esse assunto, mas se eu conseguir pelo menos compartilhar links e divagações relevantes, já está bom demais por agora.

1. Quando nasceu o projeto de se construir uma hidrelétrica de Belo Monte?
A ideia de se construir uma hidrelétrica na região de Belo Monte é antiga – data pelo menos de1975 – como pode ser lido nesse artigo. É importante saber desse dado pois o projeto vem sofrendo mudanças técnicas e políticas ao longo dos anos, fica difícil situar o debate atual. Sempre há o risco de se ler uma crítica consistente, só que se referindo a um detalhe do projeto que já foi modificado. E sempre há o risco, por parte do governo, de manipular o debate alegando que certos especialistas não detêm conhecimento sobre o atual projeto.

2. No que consiste o projeto atual?

Segundo fontes governamentais,  a usina hidrelétrica de Belo Monte é um projeto do planejamento energético brasileiro, a ser implantada no rio Xingu, no estado do Pará, região Norte do Brasil. Com a usina, o governo acrescentará pouco mais de 11 mil megawatts (MW) de capacidade instalada à matriz energética nacional. Belo Monte será a segunda maior hidrelétrica do Brasil, atrás apenas da usina Itaipu binacional.

A divulgação do projeto pelo governo está muito fragmentada: uma busca no portal do Ministério de Minas e Energia, por exemplo, rende poucos retornos em relação ao projeto em si. É mais fácil encontrar dados no Blog do Planalto, ainda que sejam  notícias referentes aos projetos sustentáveis na região de Altamira. Também encontramos, no Google, muitas reações do governo, isto é, quando ele se posiciona em resposta às críticas das entidades da sociedade civil organizada, aos grupos de cientistas, especialistas, antropólogos e afins.

Ao contrário da comunicação oficial, dispersa e enfadonha, o Jornal Nacional (da rede Globo) publicou um conjunto de reportagens num tom adoravelmente didático sobre Belo Monte. Mostrou, sim, as vozes das pessoas que moram naquela região e as queixas dos ambientalistas. Mas também pegou super leve com o governo. Na última reportagem da série, a repórter, em alusão ao aniversário de Altamira, classificou Belo Monte como “um presente carregado de polêmicas, um passo ainda incerto rumo ao futuro”. Presente pra mim é uma coisa boa – então eu acho que rolou um otimismo com o governo federal. Mas fiquem a vontade para discordar da minha interpretação, assistam: primeira parte do especial da Globo sobre Belo Monte – pronto, agora aqui a segunda parte e, por fim, a terceira parte 3 do especial da Globo sobre o tema.

3.Existe algum consenso sobre a construção da hidrelétrica Belo Monte ?

Para os tucanos no geral (veja o que escreveu Reinaldo Azevedo que não me deixa mentir) e também muitos petistas – (veja o que registrou Paulo Henrique Amorim e o AlePorto) a construção da usina é inevitável. Em outras palavras: sem a tal hidrelétrica, estaremos fadados ao atraso, faltará energia em nossas casas, chegam a alardear alguns. O consenso entre tucanos e petistas termina aqui.

Tucanos criticam a gestão do projeto – nesse artigo eles chegam a ironizar que a obra começou no carnaval e que isso seria um indício de fracasso. Também é bom lembrar que o Pará, estado onde vai acontecer as obras, é governado pelo PSDB, e vai acompanhar os recursos as obras então, né, num dá pra gente ser ingênuo de achar que eles vão dizer que não querem hidrelétrica ali…

Tirando as pessoas que estão discutindo o assunto por paixões estritamente partidárias, sobra aquela ralé barulhenta que tem ocupado o Google mais que MST em terra improdutiva. Vejam vocês. Caso não estejam felizes com o Google, experimentem o Youtube. Existem pessoas das mais variadas origens intelectuais e políticas que são contra a construção da hidrelétricade Belo Monte em si!

4.Mas por que diabos tem um povo tão insatisfeito com o projeto da hidrelétrica de Belo Monte?

Para algumas pessoas é inviável do ponto de vista técnico – veja o que diz a antropóloga Cecília Mello. Também existem aspectos legais a serem considerados – veja o que diz o Ministério Público Federal do Pará a respeito do assunto. O procurador da república no Para Felício Pontes Jr escreve artigos sobre as violências do projeto.

O Instituto Socioambiental vem promovendo protestos contra a construção da hidrelétrica. O Movimento Xingu Vivo para Sempre também está promovendo seminário internacional sobre Belo Monte. O professor da Unicamp Oswaldo Seva, engenheiro, doutor em Geografia e que estuda projetos de hidrelétricas há 36 anos e o projeto da usina de Belo Monte há 23, escreveu um artigo colocando em evidência as questões índigena, ambiental e orçamentária do projeto.

Entrando no mérito do projeto, a agência de notícias especializada em meio ambiente, Ambiente Já, divulgou artigo que saiu no El Pais, dizendo: “o grande temor dos ambientalistas é que Belo Monte seja apenas a ponta do iceberg, a primeira de uma série de obras que modificariam irreversivelmente o curso e os equilíbrios internos de um dos maiores afluentes do rio Amazonas. Por enquanto, essa alteração do leito do Xingu inundará uma área de mais de 500 hectares e impactará direta ou indiretamente um território de 5 mil quilômetros quadrados“.

A ambientalista Telma Monteiro rebateu vários argumentos daqueles que insistem em dizer que os problemas técnicos do projeto já foram sanados e rebateu um artigo de um defensor de Belo Monte: “Apesar de nos chamar de “ignocentes” (o que seria, para o neologista Cerqueira Leite, uma mistura de “ignorantes” com “inocentes”), muitos dos críticos à obra têm bastante conhecimento da situação e das suas implicações. E também não são inocentes. Sabem que a luta contra a hidrelétrica é inglória e contra forças muito poderosas, capazes até de arrebanhar em suas hordas a opinião de nomes outrora respeitados. As críticas dos ambientalistas “lucientes” (agora neologismo meu, mistura de “lúcidos” com “experientes”) incluem inúmeros aspectos. Por exemplo, para que a usina funcione a contento no futuro, seriam necessárias novas barragens rio acima para regular o fluxo do rio. Foi prometido que isto não será feito, mas quem acreditar nisto será, este sim, um grande ignocente.

Telma também coloca em dúvida um argumento muito propagandeado pelos defensores da hidrelétrica – a de que ela serviria para iluminar casas “que teria como objetivo iluminar 20 milhões de lares e gerar empregos nas indústrias locais. Depois somos nós que somos “ecopalermas” e “ignocentes”… Será que ele sinceramente acredita nesta mentira? A energia de Belo Monte não tem como foco principal a iluminação residencial. O foco são as grandes mineradoras, vorazes por energia, e que geram poucos empregos e muito desmatamento“.

 Telma também exerga que o Brasil pode viver sem a hidrelétrica Belo Monte e elenca algumas soluções possíveis, como a energia eólica, usada na Alemanha, na Espanha e na Dinamarca “Ela pode sim compor uma porção razoável do sistema, o suficiente para dispensarmos esta obra cara, ineficiente e ambientalmente calamitosa. Ah, e o complemento com energia solar, a eliminação de perdas, a repotenciação de usinas? Parece que nosso bom samaritano simplesmente se esqueceu destas possibilidades.

Os antropólogos da Universidade Federal de São Carlos publicaram o Dossiê Belo Monte, que pode ser acessado aqui. São artigos sobre os impactos que grande obras trazem para as populações indígenas.

Bem pessoal. Agradeço pela paciência. Estes eram os links que eu gostaria de compartilhar. Deixei muito da minha opinião na forma como apresentei os links. Futuramente pretendo publicar um artigo mais hmmm poético sobre esse tema que me encanta. Abraços e até lá!