Movimentos sociais, imprensa e democracia

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Moro em Brasília desde 2004 – e posso dizer que essa cidade mudou a minha percepção política. De esquerda acho que sempre fui, mas não, eu não tinha a menor noção da quantidade de marchas e manifestos que correm quase que semanalmente na Esplanada dos Ministérios. Às vezes nem morando aqui a pessoa se dá conta disso, da efervescência que é a Esplanada e todos os manifestantes que por ali desfilam.

Além de ser jornalista, sou ativista: colaboro com movimentos feministas, LGBTs, causas indígenas e entre outros. Considero isso um dado importante da minha vida pois é “fazendo” o movimento que aprendo coisas que o jornalismo não ensina.

O tempo dos protestos, por exemplo. Nem sempre a imprensa explica para os leitores como é que nasce um protesto: como é que as pessoas se juntam, trocam ideias, se engajam, traçam uma estratégia, escolhem uma data para um protesto acontecer. É uma pena! Teríamos uma democracia mais fortalecida se a imprensa estivesse habituada a mostrar sistematicamente como os movimentos se formam, como as pessoas se engajam na política.

A formação dos movimentos é outro exemplo. A imprensa tem o hábito de procurar o líder dos movimentos – e ultimamente tem aparecido muito movimento horizontal, sem líder, autogestionado, sem grana de terceiros ou partido político para dar suporte. Isso poderia ser melhor abordado pela imprensa, mas por uma série de razões isso acaba ficando em segundo, terceiro plano. E isso poderia ser melhor explicitado pela imprensa – afinal, a forma de um grupo se organizar diz muito sobre as intenções políticas desse grupo.

Em resumo: a minha vida de ativista me faz ver a imprensa com outros olhos.

A imprensa colabora para a democracia quando retrata manifestantes como tais, ou seja, cidadãos descontentes com algum aspecto de sua vida social e política. Toda vez que ela faz isso, está cumprindo com seu papel de informar e fortalecer a cidadania, independentemente das questões partidárias.

Por outro lado, a imprensa pode atuar criminalizando os movimentos sociais, retratando os manifestantes como um vândalos, oferecendo uma desculpa ideológica para justificar ações policiais junto à opinião pública. Sim, a imprensa tem lado! E nas manifestações do Movimento Passe Livre todos puderam constatar a mudança de lado que ocorreu na imprensa – no começo houve uma demonização dos manifestantes, editoriais raivosos, jornalistas chamando ativistas de baderneiros. Depois o tom do discurso ficou mais ameno.

O que me interessa aqui é constatar que houve essa mudança, que o discurso da imprensa não é neutro, nem eterno. Existe lado, a imprensa pode ser questionada pelas pessoas e pode mudar de ideia, a depender da conjuntura política. Criticar a imprensa não é censura! Criticar a imprensa é um exercício democrático.

Por isso, se você está começando a querer se manifestar nas ruas agora, fica a dica: leia, se informe, se organize, conheça pessoas e instituições que tenham algum tipo de afinidade com você. Isso leva tempo! Não é da noite para o dia que se consegue mudar um país. Acredite! Muita gente tem tentado mudar as coisas, e as coisas mudam sim. Devagar e sempre, a imprensa noticiando ou não.

É importante se reunir e dialogar com as pessoas. Vá para rua sabendo que nem sempre suas reivindicações serão atendidas como num passe de mágica (raramente governantes atendem reivindicações de imediato). Vá para a rua sabendo que nem sempre a polícia vai te tratar bem. Vá para a rua sabendo que a imprensa tem lado – ela pode ouvir suas reivindicações com mais ou menos simpatia. Vá para a rua sabendo que tem gente que ocupa as ruas há mais tempo que você – converse com essas pessoas. Mesmo que elas tenham opiniões diferentes das suas, lembre-se que vocês têm uma coisa em comum: estão ocupando as ruas de um país democrático.

*Esse texto é um compartilhamento de experiências bem pessoais e está aberto a pitacos alheios (desde que educados, ok?). E faz parte da blogagem coletiva pela democracia –>

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Algumas palavras sobre a ingênua e necessária Marcha contra a Corrupção

Todo mundo quer combater a corrupção. Difícil encontrar alguém que em sã consciência vá pregar pelo direito de ser corrupto. Pois bem, se a Marcha contra a Corrupção sinaliza alguma coisa, aponta em primeiro lugar uma vontade legítima do povo em reagir a uma série de casos de corrupção que vem sendo amplamente divulgados pelos jornais.

Em Brasília, especificamente, o caso da Jaqueline Roriz é o mais emblemático do momento pois existiam vídeos e provas de que ela estava envolvida em maracutais, mas ela foi absolvida pelos seus colegas parlamentares. Só esse caso já merecia  uma passeata pois a indignação aqui em Brasília, onde moro, é grande e ampla, vai da atendente do café até as camadas ditas esclarecidas. Talvez isso explique porque em Brasília essa marcha juntou tanta gente (dizem alguns jornais que juntou 30 mil pessoas) ao contrário de São Paulo (dizem que não passou de 400 pessoas). Também é bom lembrar que 7 de setembro já junta um volume grande de pessoas na Esplanada dos Ministérios – então, né, quem foi pra um evento pode muito bem ter ficado pro outro, concordam?

Mas divago. Queria dar meu relato pessoal. Antes queria perguntar pra vocês uma coisa: digamos que eu conheço um parente que trabalha na Polícia Federal. Daí eu preciso de um passaporte pra dali, sei lá, dois dias, só que o meu está vencido e há uma fila para ser atendida e que provavelmente pelos meios normais eu não conseguiria ter o meu passaporte. Vocês recorreriam ao parente para obter uma solução mais rápida do que a fila normal? Ou vocês consideram que isso é tráfico de influência? Quase uma corrupção ou uma corrupção completa?

Pois bem, a pessoa que me convidou para ir pra Marcha contra a Corrupção utilizou esse expediente achando inclusive que isso não tinha nenhum problema porque “nesse país as coisas não funcionam então a gente é obrigada a dar um jeito”. Bom. Isso é só um detalhe pra vocês terem uma noção do quanto o conceito de corrupção é amplo. Eu até queria ir na tal Marcha, pra ver qual era, mas não deu, eu precisava passear com a minha filha, que tem pouco mais de um ano, e ela não ia aguentar o calorzão de Brasília.

Mesmo sem ter participado da Marcha, passei pela Esplanada pra poder chegar no clube – então vi, do meu carro, uma parte da Marcha, de relance. E o que eu vi foi um cidadão segurando uma grande bandeira vermelha do PCdoB e entre outras bandeiras que não consegui identificar. Vi muito lixo espalhado nos arredores (saco plástico, copos, latinhas) e muitos carros estacionados em cima dos gramados (será que era do povo que foi pra ver o desfile de 7 de setembro ou do povo da Marcha ou os dois? Não dá pra dizer). Incrível como os fotógrafos da imprensa não registraram nem o lixo, nem os carros sobre o gramado e nem a bandeira do PCdoB (pelo menos na busca geral do google).

Divaguei. Deixa eu voltar.

O que eu queria dizer mesmo, sobre a Marcha contra a corrupção, são duas coisas: primeiro que ela é necessária. Hoje a gente tem exemplos claros e límpidos de corruptos que não sofrem punição e isso ocorre não só de forma isolada, pessoal, mas é uma coisa meio que institucionalizada: não temos mecanismos para punir ou tentar coibir a corrupção. Isso é sim muito grave e as pessoas sentem essa fragilidade do nosso sistema.

A segunda coisa é que a Marcha é absolutamente ingênua. Fico imaginando os corruptos assistindo televisão achando tudo aquilo muito lindo, muito genérico, muito superficial, inócuo. Aquelas carinhas pintadas pedindo “Fora Lula” (A revolução não partirá dovão livre do Masp) não ameaçam em nada o statusquo. Gritam tal qual crianças birrentas: elas sabem o que querem (combater a corrupção) mas não sabem o que fazer para conseguirem alcançar aquele objetivo. Então esperneiam frases feitas e palavras vazias diante de quem sabe fazer política feito gente grande.

Na hora de botar a cabeça pra funcionar e propor mecanismos que possam punir corruptos e tornar os processos mais transparentes, aí sim, minha gente, eu queria ver. Queria ver juntar na Esplanada e na Av. Paulista, meia dúzia de gatos pingados que conseguirem alcançar um consenso de como lidar com essa situação, com a corrupção que atinge as diversas instâncias governamentais e estatais (viram que eu não estou me referindo só a categoria dos políticos, né? Vamos evitar os preconceitos…).

Vamos ficar de olho – porque o povo já está se sentindo acuado e a coisa mais perigosa é aparecer um líder carismático pra se aproveitar dessa birra e emplacar medidas autoritárias. Mas por agora, eu acho necessário que exista uma marcha como essa, para que uma parcela da esquerda possa sair da letargia. Ah! O texto do Raphael Tsvakko faz uma interessante abordagem sobre a repercussão da Marcha entre as camadas da esquerda governsta, leiam De inocentes úteis a golpistas.

Marcha da liberdade – informe-se

O desembargador Paulo Rossi, do TJ/SP, proibiu a manifestacao. Mesmo assim os manifestantes estao dispostos a continuar com a marcha.

Os jornais estao dizendo que a Marcha da Liberdade eh a marcha da maconha, com outro nome. Isto eh um erro de enormes proporcoes, nao acredite nisso. A Marcha da Liberdade eh um movimento amplo que defende liberdade de expressão, de organização, de manifestação; liberdades individuais e pelos direitos humanos, de forma tranversal. A marcha eh descentralizada e aberta para todos que dela queiram participar.

Caso queira participar, da Marcha da liberdade acesse o site deles ou veja a seguir algumas instrucoes.

Marchemos pela liberdade! Orientações e rota

Marcharemos pela liberdade. Marcharemos para libertar o direito de pensar. Marcharemos porque não podemos ficar parados enquanto eles esmagam nossos sonhos. E marcharemos para chegar ao final e poder marchar de novo. Para que isso se concretize, e todos possam comemorar o sucesso da marcha, fique atento às orientações da comissão de segurança do ato:

1 – haverá pessoas da comissão espalhadas por toda a marcha, que serão facilmente identificáveis por panos coloridos. se você tiver alguma dúvida, sugestão, reclamação, angústia, confissão ou quiser contar uma piada, procure algum desses bravos que estará lá para tomar porrada por você. claro que antes disso eles buscarão acalmar, organizar, controlar e dialogar com a manifestação e com a polícia.

2 – se todos os nosso planos de paz derem errado, também procure o pessoal das faixas coloridas. eles estarão em contato direto com uma central de mídia e com uma equipe de advogados pro nta para resolver qualquer infeliz incidente.
Trajeto

* Seguimos a Paulista até o fim
* Descemos toda a Consolação
* Até virar Xavier de Toledo e vamos até o fim.
* Chegando na Praça Ramos, viramos à esquerda e pegamos aquelas “ruas-calçada” do centro.
* Seguimos nela até virar a Barão de Itapetininga.
* Seguindo em frente,chegamos à Praça da República.

3 – respeitem o espaço delimitado para o ato. voluntários para o cordão humano que ficará na lateral da marcha são bem vindos.

4 – a comissão terá kits básicos de primeiros socorros para atender uma eventual emergência. quem puder, traga gaze, esparadrapo, algodão, atadura, água, tesourinha sem ponta, soro fisiológico ou luvas descartáveis. novamente, entregue para alguém que esteja trajando o pano colorido. sua contribuição pode ser muito útil numa hora de aperto.
Vinagre num pano é a melhor arma contra gás lacrimogênio. Uma solução de uma parte de xampu infantil com duas de água pode aliviar os efeitos do spray de pimenta.
Não jogue água na cara depois de receber qualquer gás. Isso só piora o efeito.

5 – tragam suas filmadoras para registr armos possíveis agressões. se nada disso acontecer, guarde sua filmagem para um edição coletiva do filme oficial da marcha.

6- não tragam armas brancas, disfarçadas de bandeiras ou não. Consideramos também inadequado sentar ou deitar
se houver repressão.

7 – venham de de bom humor, em clima pacífico e festivo, com roupas coloridas, pesadas, que cubram todo o corpo, usando tênis, não portar bolsas soltas ou grandes.

8- Ignorem qualquer provocação nazifascista que aparecer na manifestação. Caso note algo estranho, comunique a comissão de segurança. Na dispersão do ato, principalmente a noite, ande em grupos, evite emboscadas. Eles costumam atacar sempre assim. Saiba identificá-los: http://vimeo.com/23776230

Protestos na Espanha: furando a bolha de informação

Está rolando um protesto na Espanha, promovido pela juventude, e que já está se espalhando pra toda a Europa. O jornal da família Mesquita deu uma nota pequenina na seção internacional, bem escondida mesmo. Nada saiu na capa (e olha que até Dia do Orgulho Nerd coube na capa de hoje, hehehehe). Com o intuito de romper esse silêncio, copio para vocês o texto do Carlos Nepomuceno que trata sobre esse asunto. Entendo que tanto a notícia, como a análise, merecem ser divulgados amplamente, uma vez que nossos jornais mais uma vez estão perdendo o bonde da história.

Eu poderia colocar apenas colar um link para o blog da onde eu tirei esse texto? Poderia. Mas já perdi muito material por conta de blogs que retiram do ar seus conteúdos de uma hora pra outra e me deixam cheias de links para lugar nenhum. Então, pra evitar esse problema, eu to copiando o texto também, além do link, ok? O link para o original está aqui: http://nepo.com.br/2011/05/20/revolucao-2-0-na-espanha/

Aproveitem e divulguem vocês também!
***

Revolução 2.0 na Espanha
Carlos Nepomuceno

Hoje, abri o jornal e levei um susto.

O Globo, por cegueira ou manipulação, não publicou uma linha sobre os acontecimentos na Espanha.
Que não aparecesse na capa, tudo bem, mas nada na parte de dentro? O WP abriu o tema na primeira página esta semana:
É o principal interesse nos artigos do WP hoje:
http://www.washingtonpost.com/blogs/blogpost/post/spainish-demonstrations-continue-around-country-for-fourth-day/2011/05/19/AFbBUC7G_blog.html

O movimento na Espanha tem um fato histórico muito importante para quem estudo política e, principalmente, a Internet:

– é um movimento em um país considerado desenvolvido;
– não é articulado por meios tradicionais, mas todo dentro do ambiente da rede, assim como aconteceu nos países árabes;
– não tem um pedido específico, mas deseja reformar o sistema político e econômico, de maneira geral, querem uma reforma ampla, que chamam de democracia real ( o site está fora do ar, devido ao intenso movimento).
– é baseado na juventude que quer um novo futuro e uma nova civilização.
O fato é novo, as manifestações se espalham, inclusive para outros países europeus.

A Folha hoje não coloca o tema na sua capa.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/
O Estadão idem:

http://www.estadao.com.br/internacional/
Ou não conseguem perceber a consequência, que é mais provável, ou não querem fazer fumaça, o que é pouco provável, pois não se combina coisas desse tipo.

Ou seja, estão considerando algo eleitoral e não o sentido que o movimento tem na história.

O resumo que apontaria os rumos do processo, que indicam o início de uma revisão do atual ambiente de poder, que mesmo que não ocorra na Espanha, que é bem provável, apontaria um norte para o movimento da juventude e para o questionamento futuro seria (colhido do manifesto que peguei na rede do site “democracia real ya”):

1.Nós somos pessoas comuns. Estamos indefesos, sem voz. É preciso mudar as coisas, o tempo para construir uma nova sociedade;
2.O estado atual do nosso sistema de governo e de economia não cuidam desses direitos e, em muitos aspectos, é um obstáculo ao progresso humano;
3.A democracia pertence ao povo (demos = povo, krtos = governo), a maioria da classe política nem sequer nos ouvir, facilitando a participação política dos cidadãos através de canais diretos
4.A vontade eo propósito do atual sistema é a acumulação de dinheiro, e não sobre a eficiência eo bem-estar da sociedade. Desperdício de recursos, destruindo o planeta, criando desemprego e consumidores insatisfeitos.
5.Somos anônimos, mas sem nós nada disso existiria, porque move o mundo.
6.Podemos eliminar os abusos que todos nós estamos sofrendo.
7.Precisamos de uma revolução ética. Em vez de colocar o dinheiro acima de seres humanos, devemos colocá-lo de volta ao nosso serviço. Somos pessoas e não produtos. Eu não sou um produto do que eu compro.

O manifesto compeleto (traduzido da versão em inglês pelo Google):

Nós somos pessoas comuns. Nós somos como você: pessoas que se levantam todas as manhãs para estudar, trabalhar ou procurar emprego, pessoas que têm família e amigos. Pessoas que trabalham duro todos os dias para proporcionar um futuro melhor para aqueles que nos rodeiam.

Alguns de nós nos consideramos progressivo, outros conservadores. Alguns de nós são crentes, outros não. Alguns de nós temos claramente definido ideologias, outros são apolíticos, mas estamos todos preocupados e irritados com as perspectivas políticas, económicas e sociais que vemos ao nosso redor: a corrupção entre políticos, empresários, banqueiros, deixando-nos indefesos, sem voz.

Esta situação tornou-se normal, um sofrimento diário, sem esperança. Mas se juntarmos forças, podemos mudá-lo. It’ss tempo para mudar as coisas, o tempo para construir uma sociedade melhor juntos. Portanto, é altamente argumentam que:

As prioridades de qualquer sociedade avançada deve ser a igualdade, o progresso, a solidariedade, a liberdade de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento, bem-estar ea felicidade das pessoas.

Estas são verdades eternas que devemos respeitar em nossa sociedade: o direito à habitação, emprego, cultura, saúde, educação, participação política, desenvolvimento pessoal livre, e os direitos do consumidor para uma vida saudável e feliz.

O estado actual do nosso sistema de governo e de economia não cuidar desses direitos e, em muitos aspectos, é um obstáculo ao progresso humano.

A democracia pertence ao povo (demos = povo, krtos = governo), o que significa que o governo é feito de cada um de nós. Contudo, em Espanha a maioria da classe política nem sequer nos ouvir. Os políticos devem estar levando a nossa voz para as instituições, facilitando a participação política dos cidadãos através de canais diretos que oferecem o maior benefício para toda a sociedade, não para ficar rico e prosperar em nossa despesa, atendendo apenas à ditadura das grandes potências económicas e exploração no poder através de um bipartidism chefiada pelo imóvel sigla PP e PSOE.

O desejo pelo poder e seu acúmulo em apenas alguns, criar tensão, a desigualdade ea injustiça, o que leva à violência, que nós rejeitamos. O obsoleto e antinatural econômica combustíveis modelo da máquina social em uma espiral crescente de que se consome, através do enriquecimento de uns poucos e envia para a pobreza do resto. Até o colapso.

A vontade eo propósito do actual sistema é a acumulação de dinheiro, e não sobre a eficiência eo bem-estar da sociedade. Desperdício de recursos, destruindo o planeta, criando desemprego e consumidores insatisfeitos.

Os cidadãos são as engrenagens de uma máquina concebida para enriquecer uma minoria que não respeita as nossas necessidades. Somos anônimos, mas sem nós nada disso existiria, porque move o mundo.

Se, como sociedade, aprendemos a não confiar em nosso futuro para uma economia abstrata, que não volta mais benefícios para a maioria, podemos eliminar os abusos que todos nós estamos sofrendo.

Precisamos de uma revolução ética. Em vez de colocar o dinheiro acima de seres humanos, devemos colocá-lo de volta ao nosso serviço. Somos pessoas e não produtos. Eu não sou um produto do que eu compro, porque eu posso comprar e que eu comprar.

Por tudo o exposto, estou indignado.

Eu acho que pode mudar isso.

Eu acho que posso ajudar.

Eu sei que juntos nós can.I acho que posso ajudar.

Eu sei que juntos nós podemos.

Campanha: Sejamos gays. Juntos

Vamos aderir ao Projeto Eu Sou Gay?

Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta na pequena cidade de Tarumã, Goiás, no último dia 6. O fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, um de 17 e outro de 13 anos, estão detidos e são acusados do assassinato. Segundo o delegado, o crime é de homofobia. Adriele era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas. E ainda que essa suspeita não se prove verdade, é preciso dizer algo.

Eu conhecia Adriele Camacho de Almeida. E você conhecia também. Porque Adriele somos nós. Assim, com sua morte, morremos um pouco. A menina que aos 16 anos foi, segundo testemunhas, ameaçada de morte e assassinada por namorar uma outra menina, é aquela carta de amor que você teve vergonha de entregar, é o sorriso discreto que veio depois daquele olhar cruzado, é o telefonema que não queríamos desligar. É cada vez mais difícil acreditar, mas tudo indica que Adriele foi vítima de um crime de ódio porque, vulnerável como todos nós, estava amando.

Sem conseguir entender mais nada depois de uma semana de “Bolsonaros”, me perguntei o que era possível ser feito. O que, se Adriele e tantos outros já morreram? Sim, porque estamos falando de um país que acaba de registrar um aumento de mais de 30% em assassinatos de homossexuais, entre gays, lésbicas e travestis.

E me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão, todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual.

Ser gay é uma questão de posicionamento e atitude diante desse mundo tão miseravelmente cheio de raiva.

Ser gay é ter o seu direito negado. É ser interrompido. Quantos de nós não nos reconhecemos assim?

Quero então compartilhar essa ideia com todos.

Sejamos gays.

Independente de idade, sexo, cor, religião e, sobretudo, independente de orientação sexual, é hora de passar a seguinte mensagem pra fora da janela: #EUSOUGAY

Para que sejamos vistos e ouvidos é simples:

1) Basta que cada um de vocês, sozinhos ou acompanhados da família, namorado, namorada, marido, mulher, amigo, amiga, presidente, presidenta, tirem uma foto com um cartaz, folha, post-it, o que for mais conveniente, com a seguinte mensagem estampada: #EUSOUGAY

2) Enviar essa foto para o mail projetoeusougay@gmail.com

3) E só :-)

Todas essas imagens serão usadas em uma vídeo-montagem será divulgada pelo You Tube e, se tudo der certo, por festivais, fóruns, palestras, mesas-redondas e no monitor de várias pessoas que tomam a todos nós que amamos por seres invisíveis.

A edição desse vídeo será feita pelo Daniel Ribeiro, diretor de curtas que, além de lindos de morrer, são super premiados: Café com Leite e Eu Não Quero Voltar Sozinho.

Quanto à minha pessoa, me chamo Carol Almeida, sou jornalista e espero por um mundo melhor, sempre.

As fotos podem ser enviadas até o dia 1º de maio.

Como diria uma canção de ninar da banda Belle & Sebastian: ”Faça algo bonito enquanto você pode. Não adormeça.” Não vamos adormecer. Vamos acordar. Acordar Adriele.

— Convido a todos os blogueiros de plantão a dar um Ctrl C + Ctrl V neste texto e saírem replicando essa iniciativa —

Mais informações: http://projetoeusougay.wordpress.com/2011/04/12/sejamos-gays-juntos/

A sociedade do espetáculo

Fiquei indignada com a notícia publicada no dia 17 de junho no site do STJ que levou praticamente uma semana pra começar a aparecer, timidamente, na mídia, enquanto outros espetáculos sobre o nada (grampos sem prova, “spams” que ganham capa de jornal) se multiplicam com um estardalhaço injustificável.

Por que as notícias realmente relevantes passam despercebidas? E por que os espetáculos têm tanto espaço?

Não tenho resposta para essas perguntas. Mas vejo a realidade, leio blogs e converso muito com militantes dos mais diversos movimentos sociais. Vejo – e isso é empírico – que muitas reivindicações de movimentos sociais e/ou sindicais merecem ser elevadas a categoria de notícia (ou pelo menos compor uma das vozes na notícia) e, assim, deveriam ter espaço em páginas de jornal, em matérias jornalísticas de rádio e TV. No entanto, há algo que impede essa participação, e não é só a barreira da linha editorial ou da vontade do dono do veículo: é mais do que isso. É o tal do espetáculo, desconfio.

A necessidade do espetáculo é tamanha, que as entidades freqüentemente reúnem milhões de pessoas, pintam caras, acendem velas, param o trânsito, ocupam terras, fazem panfleto, criam banners, faixas, cartazes, enfim, usam todos os truques da publicidade. Toda a publicidade que não seria necessária se os assuntos fossem devidamente tratados na esfera pública, com seriedade e serenidade.

Usar ou não usar o show para atingir o público?
Ok, vamos usar o show. Porque as versões têm que aparecer, as informações devem circular, custe o que custar. Mas e quando o show diminui uma causa? E quando o show dá tão certo (como show) que acaba até prejudicando a causa?! Daí que estudantes viram vagabundos, agricultores sem terra viram baderneiros, ecologistas viram ecochatos, cientistas viram criaturas excêntricas, sociólogos viram alienígenas, jornalistas viram cozinheiros (!), juízes se tornam pequenos ditadores, desempregados se tornam pessoas sem caráter, crianças se tornam bandidas desde o nascimento, e por aí vai… Toda a sorte de preconceitos pode brotar de uma publicidade deseperada!

Respostas?
Repito: não tenho resposta para essas situações todas que citei acima. Não mesmo. Apenas listei algumas percepções, sem nenhuma pretensão intelectual. Coloco aqui, nesse humilde blog, a título de reflexão. Porque perguntas, simples perguntas, são bem vindas nessa tal sociedade do espetáculo.

Ok, um texto mais acadêmico…
Se é pra ter uma visão mais acadêmica sobre esse tema, recomendo o artigo do jornalista e professor da ECA, Eugênio Bucci, publicado hoje no site do Observatório da Imprensa. Pode não ser exatamente a resposta para os problemas que descrevi acima. Mas traz uma importante reflexão a respeito do livro “A sociedade do espetáculo” (Guy Debord) e o episódio dos policiais que entraram na USP para “conter” um ato político.

O espetáculo da “mídia”, para a “mídia” – e pelos contestadores
Por Eugênio Bucci em 23/6/2009

Sempre que pipoca uma greve alguém se lembra do nome dele. Sempre que a juventude vai protestar contra a globalização nesses encontros de cúpula em que os presidentes das principais economias do mundo se juntam para falar em público sobre o que já foi combinado ou para desconversar em privado sobre o que ninguém sabe como resolver, alguém se lembra dele. Quando há um piquete mais barulhento também. Principalmente quando há uma ocupação, dessas que dão direito a colchonete nas salas mais solenes das mais circunspectas repartições, aí sim é que o pessoal fala muito dele.

Ele é o francês Guy Debord (1931-1994), autor de um livro espantosamente ambicioso e, não obstante, monumental, de fato: A sociedade do espetáculo, lançado em 1967 em Paris e publicado em português pela Contraponto, em 1997. Para alguns, a obra antecipou o maio de 68. Para outros, como Jean-Jacques Pauvert, ela anteviu nada menos que o século XXI.

A partir da década de 50, esse personagem misterioso e polêmico liderou o “situacionismo”, ou, melhor, a Internacional Situacionista (I.S.). Tudo o que a I.S. queria era precipitar situações em que as distinções entre a vida e a arte desaparecessem, deixando em seu rastro a abertura para ações revolucionárias. Os situacionistas operavam as fissuras da vida cotidiana, pois aí é que nasceriam as energias da ruptura com o capitalismo e com a ordem por ele imposta. Consta que, no início dos anos 60, a Internacional Situacionista se dissolveu, mas sobre isso ainda pairam controvérsias. Que não importam agora.

O que importa mais, no momento, é entender um pouco mais desse sujeito. Para tanto, se me permitem, eu vou explicar. Por isso, preparem-se, senhoras e senhores, para alguns parágrafos de densidade inóspita.

Acreditar para entender

Poucos levaram tão longe como Guy Debord a tese de que um capitalismo totalizante e anti-humano havia se instaurado no planeta feito praga em casca de laranja. Poucos falaram de modo tão peremptório e perfurante – ainda que num tom meio paranóico. Até mesmo clinicamente. Mesmo assim, tenho Debord como um gênio. Ele viu, antes de muitos, que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos”.

Em seu estilo aforístico, o autor não deixou muito espaço para divergências. É um texto estranho o dele, estranho mesmo na tradição marxista. Mais que Adorno, bem mais, ele reclama a fé, mais que a inteligência, daqueles a quem se dirige. Você só entende o que ele escreve se, antes de procurar decifrá-lo, aceitar acreditar nele. E só poderá superá-lo com algum proveito – ou seja, só poderá ir além do que ele foi, subir a altitudes que ele não alcançou – se topar viajar ao menos por um trajeto pelas mãos dele, conduzido por ele. Talvez por esse jeito de discurso iniciático, Debord encontrou muita rejeição entre intelectuais franceses. Com todos os efeitos e para todos os efeitos, ele realmente nunca foi o que pode se chamar de “científico” ou de “acadêmico”. Mas que ele diz algumas verdades, das mais complexas, isso ele diz.

E então? Que história é essa de “imensa acumulação de espetáculos”? Não se trata exatamente da produção industrial e globalizada de imagens, de videoclipes, de games em altíssima definição, de outdoors digitais do tamanho do céu (nós veremos isso já, também). A acumulação de espetáculos é mais que uma saraivada de imagens. É o próprio capitalismo transfigurado em entretenimento, qualquer que seja a área econômica para a qual você olhe. Pode ser a área dos bancos, a agricultura familiar ou o agronegócio, pode ser o camelódromo de uma rua central de qualquer metrópole. Tudo, aos olhos de Debord, oferece bugigangas dotadas de uma poderosa dimensão estética. Tudo integra a grande usina do entretenimento mundial.

Da indústria cultural ao capital que virou imagem

Se Adorno e Horkheimer perceberam que a indústria cultural transformara a produção das chamadas obras de arte em bens de consumo fabricados – como se fossem pasta de dente ou capacete de motociclista –, se eles perceberam que não havia mais diferenças importantes entre a fabricação de um sucesso musical ou cinematográfico e uma botina de plástico ou um pote de margarina, Debord percebeu algo superior e mais sombrio.

Os dois primeiros, expoentes da Escola de Frankfurt, viram que entre a indústria cultural e as demais indústrias (a farmacêutica, a automobilística, a bélica) havia apenas e tão somente um sinal de equivalência. Tanto assim que os gerentes de uma poderiam migrar para outra sem o menor problema. Todas funcionavam nas mesmas bases, todas eram indústrias capitalistas.

O pensador francês – de escola nenhuma, por favor – notou que, em sua época, a década de 60, todas as indústrias, absolutamente todas, convergiam para o espetáculo. Ele notou que as mercadorias circulavam como imagem, não mais como coisas corpóreas, embora ele não tenha usado essa expressão. Um carro, um par de tênis, uma droga estupefaciente, um lápis, o silicone de cirurgia plástica, o café da Colômbia, tudo circula como imagem. Ou, em outros termos: é a imagem quem preside a circulação de todos os bens, não apenas dos bens ditos culturais. Isso significa que todas as mercadorias se apresentam como se fossem bens culturais, como se fossem, numa palavra, “arte”, como se tivessem respostas estéticas para as angústias dos humanos desumanizados.

Assim como todas as indústrias, também a ciência, a guerra, a política e a religião passam a se realizar como se fossem imagem. Sim, sim, eu sei que o nobre leitor até admite concordar com o que poderíamos chamar de “espetacularização” (com o perdão do termo esdrúxulo) da política, mas recusará a espetacularização da religião. Peço apenas que esse leitor olhe para o vertiginoso crescimento – econômico, sobretudo – das religiões da era da TV, as religiões que são um teleshopping de Deus a prestação. Preste atenção a isso e depois jure por Deus que não é exatamente isso o que acontece: religiões espetaculares e espetacularizantes. Ultralucrativas. A guerra, ela também, se põe como espetáculo. A ciência idem. Ou você nunca foi à NASA? Ou nunca viu o filme do Al Gore? Ou ainda acha que as pesquisas com células tronco se resolvem apenas nos laboratórios e nos tribunais, sem ter que passar por manifestações glamourosas diante dos holofotes?

Naturalmente, aquilo que converge para o espetáculo, passa pela imagem. Tanto que Debord já avisou: “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”. Mais, muito mais que isso, ele proclama: “O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem”. Essa condição, contudo, ou, mais que essa condição, essa situação, para prestarmos uma homenagem vocabular aos situacionistas dos anos 50, não admite lado de fora, isto é, ninguém escapa ao quadro de determinações descrito por Debord. Ninguém fica de fora. Nem ele mesmo. O espetáculo engole toda forma de atividade social. Isso significa que ele engole também as manifestações políticas antiglobalização. Aí é que mora o problema desse modismo dos espetáculos contestatórios que invocam o nome de Guy Debord, que corre o risco de virar um novo Che Guevara, um “Che Guevara Cabeção”, na camiseta dos manifestantes mais joviais.

O infantilismo esquerdóide da era do espetáculo

Poderíamos variar o subtítulo acima: “O esquerdismo infantilóide do espetáculo”. Daria na mesma. Voltemos ao suposto profeta dos neorrebeldes. O que ele ensina, categoricamente? O seguinte: “Não é possível fazer uma oposição abstrata entre o espetáculo e a atividade social efetiva”. Ou seja, a atividade social não passa por fora dos marcos do espetáculo, ele é sua linguagem, ou, de forma bem explícita, o espetáculo é a linguagem da atividade social. Nos parâmetros de Debord, ele é a única linguagem. Fora dela, portanto, a atividade social inexiste. O que, aliás, encontra ampla sustentação nos fatos. Foi como espetáculo (melodramático) que o MST entrou para o debate do grande público brasileiro: foi com a novela O Rei do Gado, lá se vão muitos anos. Foi como espetáculo que os tais cara pintadas tomaram as ruas para pedir a demissão de Collor. É como espetáculo que a greve da USP finalmente conseguiu aparecer com destaque nos jornais: foi quando a PM entrou no campus jogando bombas de gás para todo lado. Foi um ato deplorável do ponto de vista ético e político, um aviltamento do ambiente democrático, mas, do ponto de vista do espetáculo, foi um impulso formidável para a visibilidade de um movimento que, até o dia anterior, quase não incomodava ninguém.

Na gramática perversa do espetáculo, os grevistas tiveram seu dia de aventura inebriante contra as forças malignas, vivenciaram seu êxtase teatral, sua catarse libertária. Glorificaram-se como alvo da força bruta que, de resto, hoje em dia, é bruta pero no mucho. É quase inócua, no caso, pois, ela também é teatral.

Eis como esses movimentos se transformam em notícia. Não mais pelas idéias que carregam, ou pelos programas que postulam, mas pelas imagens que rendem ao consumo geral de gozo de uma platéia insaciável. O gozo da platéia encontra seu equivalente – necessário – no gozo dos protagonistas. Brigar com a tropa de choque virou uma espécie de item de consumo do entretenimento globalizado, um tipo de esporte radical para quem busca tardes emocionantes antes do jantar.

O mundo das manifestações políticas vai se convertendo num imenso parque temático, um parque vazio de significados e pleno de representações, de imagens e de fulgurações. Nesse parque temático que muda de lugar como um circo mambembe, temos – assim como o sambódromo, que tem um lugar geográfico bem fixo – uma infinidade de outros “ódromos”, que vão mudando de lugar feito uma turnê dos Rolling Sotnes: passeatódromos, invasódromos, ocupaçódromos. Não é mais a tal da “mídia” que é espetacular. São os agentes dos tais movimentos sociais que, alfabetizados pela indústria que culmina com o entretenimento, aprenderam a encenar o “acúmulo de espetáculos” de que nos falou Guy Debord. Eles não são “contra”o espetáculo da “mídia” – são seus funcionários. Com todo o respeito.

O déficit democrático

Guy Debord viu muita coisa, é verdade, mas não entendeu a ideologia, não entendeu o inconsciente, não entendeu principalmente a democracia. Essa é outra discussão, mas eu não a farei aqui. Digo apenas que a solução que ele propõe para superar o quadro que descreve, de um capital catapultado a espetáculo opressivo e ingovernável, é uma solução ridiculamente soviética, que faz lembrar a palavra de ordem de Lênin, em 1917, defendendo “todo o poder aos sovietes”. Debord foi interessante como diagnóstico – e inútil como receita. Tomá-lo por profeta das causas fáceis e aventurosas o desmerece, tende a reduzi-lo a um guia de autoajuda dos revolucionários-das-horas-vagas. O que há de carnavalesco nos movimentos sociais não precisa de teoria. Precisaria apenas de algum comedimento – e de uma crítica menos narcisista.