Desescolarizar

A linda da Renata Correa indicou um vídeo que me rendeu muitos insights: uma conversa de quase uma hora com a professora Ana Thomaz.

Ana Thomaz fala da opção que fez de tirar o filho da escola, quando ele ia começar o ensino médio. E explica porque ela achou que a escola não era um lugar para o filho dela. E conta como foi que ela mesma começou a ensiná-lo (seria esse o verbo?) e a aprender com ele. E de como esse processo foi conduzido.

O vídeo não se restringe ao ato em si, de retirar o próprio filho da escola. Ele mostra um pouco de quem é Ana Thomaz, como ela pensa, como ela está no mundo, que experiências ela passou e qual o sentido que ela tem para a vida.

E como ela mesma diz, é um paradoxo: ser professora e rejeitar a escola. É aqui que eu mais me identifiquei com ela: sou jornalista e rejeito o jornal. É um grande alívio perceber que pessoas de outras áreas, outras profissões, também têm dilemas parecidos com os meus.

Só que ela foi longe, muito mais longe do que eu: ela abriu mão da escola e ensinou alguém. Continuou sendo professora, ensinando – e fez isso sem a escola, mas dentro da estrutura que estava ao alcance dela. Ela se colocou esse desafio (que não tem garantia nenhuma de que vai “dar certo”) e está vivendo de acordo com ele. E vivendo bem.

Mas esse é só um dos “insights” – o vídeo bateu o meu recorde de insights por minuto. Ainda estou processando tanta informação. Porque não parece à primeira vista, mas é um vídeo extremamente político. Espero que vocês curtam tanto quanto eu curti. E valeu, Renata Corrêa, pela indicação!

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Nem filmando

Neste final de semana nós fomos brindados com um caso suspeitíssimo de machismo que foi filmado e divulgado pela TV paga em tempo real, e a reação de incredulidade das pessoas “de bom senso” foi a de sempre: “não houve abuso, não houve nada de concreto”, “não dá pra concluir nada das imagens”. Isso quando não fomos obrigados a ouvir as pérolas dos machistas de plantão: “Estava bêbada, logo pediu por isso”. No domingo a Globo não demonstrou o menor interesse em pedir investigação policial pra apurar o suposto que crime que teria acontecido no programa. Nada. Nadinha de apuração. Estava todo mundo se ajeitando pra botar panos quentes e seguir com o “espetáculo” .

Uma simples apuração, gente. Por que é tão difícil defender a apuração de denúncias mesmo quando a denúncia é baseada em imagens fortíssimas que foram veiculadas ao vivo pela televisão, para milhares de testemunhas? Por que as pessoas de bom senso de plantão não se dignaram a pedir pelo menos a apuração do ocorrido? E se a produção do BBB combinou com os participantes essa vergonhosa cena de violência, que mundo é esse que alavanca ibope com um assunto tão delicado e de forma tão grotesca?

Se nem filmando o machismo a gente consegue combatê-lo, o que fazer para sensibilizar as autoridades?

Pronto, desabafei.

Acabo de ler que a Globo expulsou o participante do programa, sem dar muitas explicações. Espero que exista uma investigação policial adequada sobre o caso e que, se comprovado o crime, que o agressor seja punido de acordo com as leis desse país.

Veja aqui um resumo feminista dessa polêmica que rolou no BBB
.

Rosângela Santos: atleta, negra, medalhista e… patinho feio (?!?)

Rosângela Santos
Rosângela Santos

Neste ano, o portal UOL colocou na sua home page a foto da atleta negra Rosângela Santos que conquistou medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de Guadalajara.  O texto da legenda era “Pan: patinhos feios salvam Brasil com ouros inesperados”, e um link para a reportagem: Patinhos feios salvam o dia do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. A legenda da foto causou indignação entre os internautas – até hoje os comentários estão disponíveis, questionando inclusive o motivo do portal ter mudado a chamada da matéria repentinamente, sem dar explicações aos leitores.

Acredito que o preconceito não foi intencional – a matéria oferece indícios suficientes para entendermos outros sentidos para o texto da chamada. No entanto, a chamada infeliz foi suficiente para atingir os leitores, que estão a cada dia mais atentos aos sinais de racismo que possam aparecer, mesmo que involuntariamente, nos textos jornalísticos.

Esse episódio nos faz pensar sobre algumas coisas: primeiro, como a imprensa retrata as mulheres negras na mídia – será que Rosângela Santos não merecia uma notícia mais bem escrita para guardar de recordação sobre sua carreira? Fiquei imaginando a atleta, depois de conquistar uma medalha de ouro e talvez o melhor tempo de sua vida, ainda ter a sua história contada sob a perspectiva negativa, de um patinho feio. É com essa disposição que a gente conta a história dessas mulheres? Da onde vem essa má vontade? Para a nossa sorte, os jornalistas hoje podem contar com cursos sobre gênero, raça e etnia, ou seja, existem alternativas para quem quer se aperfeiçoar e errar menos.

Em segundo lugar,  nos faz pensar em como a internet está conseguindo causar mudanças antes nunca imaginadas. Os leitores reclamaram na caixa de comentários da matéria e rapidamente os editores do UOL tiveram que modificar a chamada. Nos velhos tempos de jornal impresso, nunca saberíamos quantos leitores reclamariam de um texto com índicios racistas e se os jornalistas estariam dispostos a mudar de atitude diante dessa reivindicação.

A blogueira Lola Aronovich escreveu um artigo mais aprofundado falando sobre esse racismo velado, que vem disfarçado de “feio”. Destaco esse trecho aqui:  “Poucas pessoas assumem que foram e continuam sendo condicionadas a achar que o belo é ter olho claro, cabelo liso e de preferência loiro, traços “finos”, e pele branca com um pouco de bronzeado. A galera que acha sexy os lábios carnudos da Angelina Jolie parece achar horríveis os lábios carnudos de tantos negros. Mas essa gente nunca assume seu racismo. Diz apenas que é uma total coincidência não gostar de negros”.

Dia 20 de novembro é o Dia da Consciência Negra – é dia de pensar no racismo que está escondido dentro de nós, no nosso inconsciente, e que precisa ser desconstruído cotidianamente. Aproveito para parabenizar a nossa atleta Rosângela Santos, que merece uma brilhante comemoração pelo excelente resultado conquistado nos Jogos Panamericanos de Guadalajara. Rosângela, nós temos muito orgulho de você!

* Esse texto faz parte da blogagem coletiva do portal www.blogueirasfeministas.com – leia também os outros posts que também participaram dessa chamada

Quem tem medo do feminismo?

Selo Desmitificando o feminismo

Eu mesma nunca fui capaz de saber exatamente o que o feminismo é: apenas sei que as pessoas me chamam de feminista toda vez que expresso sentimentos que me diferenciam de um capacho de porta. Rebecca West, Escritora inglesa, 1892 – 1983

É esperado que os machistas de plantão rejeitem o feminismo. Sim, machistas, no geral homens, têm medo do feminismo, têm medo que uma mulher se torne, aos seus olhos, seres humanos! Machistas têm medo de lavar uma louça, medo de chorar em público, medo de usar uma camisa da cor rosa, medo de ganhar o mesmo salário que a mulher, medo de olhar uma gostosa na rua e não conseguir se comportar como uma pessoa civilizada (sem agressão). Medo de ouvir um não de uma mulher e ter que lidar com essa rejeição.

As mulheres machistas, por outro lado, têm medo da liberdade que o feminismo traz. Sobretudo a liberdade de serem elas mesmas, sem precisarem da aprovação prévia do olhar masculino/machista.  Pensam elas que, se elas não seguirem as regras machistas dos homens, nunca serão amadas por eles. Uma mulher machista no fundo, no fundo, é uma mulher insegura, que coloca as necessidades dos seu parceiro acima das necessidades próprias. A mulher machista quer saber primeiro o que querem os homens (e os outros), para primeiro se adequar a essas vontades e só depois saber o que se passa dentro dela mesma.

Humanismo

Que os machistas tenham medo do feminismo é compreensível. Mas o que me deixa realmente intrigada de queixo caído e olho arregalado é como é que essa palavra – feminismo – vem sendo tão atacada e difamada a ponto de humanistas (!) a rejeitarem. Vejo pessoas bacanas, de bom senso e cheias de feminismos nas atitudes, dizerem até com certo orgulho nos olhos:

 Eu não sou feminista! Sou humanista.

Fico realmente chateada quando escuto essa pérola. Porque mesmo sem querer tenho a impressão de que o interlocutor está me dizendo que o feminismo é desumano. Ou, se não é desumano, é uma luta menor pois já existe o humanismo, que já dá conta da humanidade. Será?

Mas depois eu respiro fundo e penso: ih, deve ser culpa daquele povo que distorce o feminismo – daí começam a dizer que feminista não pinta unha, que feminista não casa, que feminista mata criancinha, que feminista obriga a mulher a trabalhar fora de casa, que feminista quer competir com os homens e dominá-los. Enfim, qualquer generalização sensacionalista sobre mulheres merece esse rótulo, feminismo. Injustamente!

Então, quando você ver alguém comentando sobre um bando de mulheres rindo num programa de tv porque um cara teve seu pênis decepado pela esposa, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém citando apenas Valerie Solanas como a única feminista verdadeira, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém repetindo que as feministas não aceitam que mulheres façam sexo em determinadas posições sexuais, saiba que isso não é feminismo.

Outra explicação para os humanistas não se acharem feministas pode ser a seguinte:  eles devem entender que as conquistas feministas como o voto feminino, o direito à licença maternidade, e entre outras com as quais normalmente as pessoas se identificam já são suficientes. Se esse é o caso, é preciso primeiro fazer uma justiça histórica: foi o movimento feminista (e não humanista) que batalhou por essas conquistas. E segundo, dizer que ainda estamos engantinhando no caminho da igualdade de direitos entre homens e mulheres: hoje é o movimento feminista que vem debatendo , denunciando e enfrentando questões como o tráfico de mulheres, a violência doméstica, o estupro, as práticas sexistas que naturalizam a violência contra a mulher, a igualdade de salários entre homens e mulheres que realizam o mesmo trabalho e outras lutas que os movimentos humanistas podem até apoiar, mas não lideram.

Atualização do dia 6 de agosto de 2011: leiam aqui uma carta de uma mulher explicando como os comportamentos machistas estão espalhados mesmo dentro de círculos humanistas/céticos, locais onde nós normalmente esperamos encontrar pessoas mais esclarecidas quanto ao feminismo – o relato é estarrecedor.

Feminilidade

Outra pérola que escuto é essa aqui:

Eu não sou feminista! Sou feminina.

Adotar uma postura feminista não tira a feminilidade de alguém. O que muda é que a gente começa sim a repensar a questão da feminilidade: somos femininas para nós ou somos femininas para suprir as expectativas dos outros? O feminismo devolve a feminilidade para as mãos das mulheres – ou seja, você quer pintar a unha? Se você gosta, pinte. Se você o faz porque do contrário você vai perder um emprego, aí é uma pressão social que seu colega homem não passa. Se você gosta de salto alto, ótimo, mas se te obrigarem a ter um problema no pé pela obrigação de usar sapatos com salto alto, aí é uma questão a ser discutida. Homem pode chorar em público? O feminismo também trabalha para que essa não seja uma regra compulsória para todos os homens, para que os homens possam chorar sossegados sem que isso seja tido como uma coisa de mulherzinha (e por que essa expressão é tão negativa?!). Portanto, aprendemos outra lição: não existe um feminismo, um líder a ser seguido. Existem feminismos, no plural, para o bem de todos, homens e mulheres.

E por ser um movimento plural, onde cabem muitas interpretações, é fácil você discordar de uma feminista em especial e achar que está discordando do movimento todo. Portanto se você encontrar uma feminista dizendo que mulher tem que tomar pílula pra suspender a menstruação pela vida inteira porque isso traz muitas vantagens, não se preocupe: é apenas UMA feminista. Você vai encontrar duas outras feministas dizendo justamente o oposto, que você possa menstruar em paz, porque o corpo é seu, a feminilidade é sua. O importante para o feminismo é discutir, debater, trazer a tona questões que estão rigidamente colocadas pela sociedade e que podem limitar a sua experiência como mulher (e até como homem) no mundo.

Se você chegou até aqui deve ter percebido que o feminismo é, em resumo, isso que a socióloga Bila Sorj falou por aí:

“Diferentemente dos demais movimentos políticos como o fascismo, o nacionalismo e o comunismo, o feminismo promoveu uma formidável mudança de comportamentos orientada para a promoção de mais liberdade e igualdade entre os sexos, sem aspirar à tomada do poder, sem utilizar a força e sem derramar uma gota de sangue”.

E o feminismo continua discutindo as liberdades das mulheres e transformando a sociedade até hoje.

Então, me diga: você ainda tem medo do feminismo?


Obs. Esse artigo faz parte da blogagem coletiva #mitosfeminismo – veja aqui outros posts que fazem parte desse movimento.

Recadinho pro Pondé

Querido Pondé,

Gostaria de lhe agradecer pelo seu poder de síntese claramente demonstrado em seu mais recente artigo. Graças a ele mulheres como eu podem responder de uma vez só a uma série de platitudes que vem sendo manifestadas de forma diluída por homens e mulheres dos mais diferentes perfis econômicos, sociais e culturais.

Pensar na mulher como objeto de prazer é uma ideia tão velha quanto a profissão mais velha do mundo. Sugerir  que há alguma filosofia superior nesse pensamento tão antigo e corriqueiro equivale a dizer que vivemos num  mundo repleto de filósofos. Por favor, não é que eu seja uma pessoa pessimista, mas convenhamos: faltam filósofos no mundo! Mas sobretudo faltam antropólogos: será que é tão difícil encarar a mulher como um ser humano dotado de vontades e desejos singulares?

Lamento lhe informar, caro Pondé, mas tratar mulher como objeto (de prazer) não é uma das formas mais profundas de amor que um homem pode sentir por uma mulher. Se realmente levarmos a sério essa sua teoria, chegaremos à conclusão de que as putas são as mulheres mais profundamente amadas do mundo, a julgar pela atividade que escolheram para ganhar a vida. Desconfio que elas, mesmo com a “profissão” que escolheram, também têm necessidades de serem amadas profundamente em toda a sua essência e plenitude, para além da questão de serem objetos de alguém.

Pondé, eu confesso que não entendi suas referências às pessoas que tomam banho depressa e aos ciclistas mal educados. O que elas têm em comum com as mulheres que você queria elogiar? Ah! Você descobriu que essa gente politicamente correta também é ser humano? Sim, pessoas politicamente corretas erram, não perdem sua humanidade por defenderem o que defendem. Se o prazer delas é abraçar o planeta, em que isso lhe incomoda? Em que abraçar o planeta lhe diminui?

Querido, o seu conceito de solidão está ultrapassado. Uma mulher sozinha, por exemplo, é muito mais feliz sozinha do que acompanhada pelo senhor – não se sinta ofendido, mas é que gosto não se discute, e eu realmente não curto o seu estilo. Se por acaso o senhor encontrar uma mulher sozinha na rua e supor que ela, coitada, tenha necessidade de ser seu objeto, pense bem antes de partir para a ação. Por que haja filosofia e advogado no  mundo pra te livrar do crime de estupro! Mulheres têm o direito de se recusarem a ser objetos de quaisquer homens. Mulheres têm todo o direito de andarem sozinhas pela vida, se assim elas desejarem. E têm esse direito de andarem sozinhas sem terem suas escolhas questionadas por articulistas que escrevem em jornais de grande circulação!

Saiba, meu querido, que homens não perdem a masculinidade por considerar mulheres como seres humanos. Mas perdem a humanidade quando insistem em reduzir mulheres a meros objetos. Casos de violência contra  mulheres acontecem justamente quando um homem tenta fazer com que uma mulher seja seu objeto. E essas mulheres sofrem duplamente: primeiro com as marcas da violência física e psicológica. Segundo, porque as violências mais sórdidas vêm embaladas num discurso bem construído de amor, fazendo com que as mulheres tenham dificuldade de romper com esse ciclo que chama de amor uma relação construída na desigualdade.

Por fim, saiba: o amor, meu bem, só é possível entre seres humanos. Homens e mulheres têm a capacidade de amar – para isso é preciso coragem. Coragem pra enfrentar qualquer tipo de rótulo social que venha tentar estabelecer uma hierarquia entre homens e mulheres. Coragem para que o nosso amor próprio seja maior do que a vergonha de denunciar casos de abuso. Coragem para amar sem reservas, sem medo do ridículo, sem medo de parecer demasiado humano.

Faço votos que um dia você possa amar de verdade uma mulher não para que ela se torne mais importante do que você, ou para que ela esteja acima de você: mas para que você receba as bençãos de quem se humaniza por dentro.

Abraços,

Uma mulher qualquer, que até poderia ser um homem.

*Também assinam esse recado:

Carlos Emilio
Marcos Faria
Paulo Rená
Srta. Bia

Uma feminista no 2 BlogProg: balanço pessoal

Como você já deve saber, participei do segundo Encontro de Blogueiros Progressistas (#2BlogProg) que rolou aqui em Brasília. Até fiz parte da mesa Mulheres na Blogosfera  (leia aqui um resumo interessante sobre isso), mas a realidade é que antes de ser militante eu sou mãe de uma menina que agora tem 11 meses de idade. E só quem é mãe de um bebê tão pequeno sabe o quanto é difícil ser militante e ser mãe ao mesmo tempo. Por isso, eu não pude participar de todo o evento, como eu gostaria. Mas fiquei bem antenada pela movimentação via amigos, twitter, blogs e afins.

Após essa pequena ressalva, vou tecer um balanço feminista e despretensioso: gostei de ver a presença de mulheres nas mesas e na plateia. Já é um dado importante! A presença de mulheres nos espaços políticos deve ser valorizada, principalmente na cultura política brasileira, onde a representação de mulheres é pequena. Também gostei da mesa que eu participei mais ativamente, das mulheres na blogosfera. Apesar de ter acontecido depois da mesa do Zé Dirceu (era pra ser ao mesmo tempo, em outro espaço, mas não rolou) e ter um quórum relativamente baixo, deu pra ter uma dimensão do quanto é necessário fortalecer o feminismo não só na blogosfera, mas nos espaços de poder, nos fóruns e encontros como esses.

Achei ótimo ter recebido lá em casa a Niara , do blog Pimenta com Limão, gente finíssima, que veio direto do Rio Grande do sul para bagunçar o evento. É uma moça corajosa por manter opiniões que quase sempre incomodam uma parcela da esquerda – a presença dela no #2Blogprog foi fundamental. Também adorei conhecer pessoalmente as mulheres que escrevem blogs interessantíssimos, mas incrivelmente pouco citados pela tchurma da Blogosfera dita Progressista (@Bruxa_OD@bete_davis@ticamoreno@karlavanco@CintiaBarenho @babslopes@ro_anna@jufreitascs). Isso sem contar a companhia das deusas @srtabia e @carineroos que eu já conhecia pessoalmente de outros carnavais.

Até agora só falei das coisas bacanas, mas é claro que eu vi coisas ruins também: achei péssimo colocar a figurinha do Zé Dirceu pra concorrer com um monte de mesa de gente menos famosa (inlcuindo a mesa da qual participei, das mulheres blogueiras, mas não só essa, que fique claro). Esse tipo de esvaziamento das mesas já era uma coisa esperada: assim que nós blogueiras batemos o olho na programação percebemos que isso iria acontecer. Foi uma clara demonstração de “acochambramento” da organização – devem ter pensado: “Ah! Vamos jogar esse povo que reclama em mesa autogestionada, a partir das 14h, que depois ninguém pode reclamar que a gente não incluiu as minorias”. Esse foi o jeito que a organização encontrou para INCLUIR (eu coloco em caixa alta, daqui a pouco vocês vão saber o motivo) alguns setores que são marginalizados na dita grande imprensa (ou PIG – Partido da Imprensa Golpista, como alguns gostam de dizer).

Também achei ruim o fato de não terem incluído, na carta final do encontro, nenhum tópico que aborde os direitos humanos. E aí a culpa nem é dos organizadores, acho que isso reflete uma postura dos participantes desse encontro, que votaram pra carta sair desse jeito. Porque a proposta foi feita, foi levada pelas blogueiras, mas foi voto vencido.

Que tipo de blogosfera progressista é essa que não planta, em seus fóruns, a bandeira da diversidade? Que não consegue incluir, de forma transversal, os direitos humanos? A esquerda tem uma mania de achar que, ao democratizar o acesso à comunicação, questões relativas aos direitos humanos (direito à memória, demandas LGBTs, feminismo, acesso à moradia, acesso à terra, acesso à trabalho e renda, equilíbrio ambiental…) se resolvem automagicamente. Meus caros e minhas caras, não é bem assim: não basta democratizar verba publicitária, não basta votar um marco regulatório decente, não basta oferecer internet de graça para todos: é preciso pensar em formas de incentivar a danada da INCLUSÃO das minorias, dos discursos que atualmente não encontram espaço na grande imprensa.

A questão financeira é importante, claro. Mas sozinha não dá conta de resolver alguns problemas que estão no âmbito da comunicação e da cultura: quem vai estabelecer, por exemplo, que tipos de propaganda podem ser feitas voltadas ao público infantil? Quem vai garantir que uma minoria que lute por reforma agrária não seja criminalizada nos meios de comunicação? Quem vai garantir acessibilidade aos que têm alguma deficiência? Quem vai defender LGBTs da violência que nasce dos discursos de ódio em grande escala? Quem vai defender as mulheres dos discursos que criminalizam vítimas de estupro ou que venham a banalizar esse tipo de violência? A democratização da comunicação por si só não resolve esses problemas que ora são potencializados por uma mídia livre de responsabilidades que hoje temos.

É preciso ter liberdade na rede? Sim, é preciso. Mas simplesmente deixar de legislar (como alguns parecem defender) não vai garantir a privacidade na rede, o direito dos blogueiros e ativistas digitais possam de fato exercerem sua liberdade. Nós temos que nos preparar para combater qualquer forma de vigilância na rede, a exemplo do projeto do Azeredo (o AI5 Digital)? Sim, nós temos. Mas temos que ir além, temos que construir um Marco Civil da Internet alinhado com os direitos humanos.

Também queremos, por que não, propor uma agenda de movimentos coletivos: fortalecer a rede, promover blogagens coletivas, somar dentro da divergência. Operar em outra lógica, mais horizontal, mais cooperativa, participativa. Existe muito a se fazer nesse campo, e esse tipo de articulação foi o que menos se fez num evento desse porte (para o meu espanto!). Ninguém pensou em estratégias de comunicação na rede para as defesas das bandeiras que foram acordadas no encontro, e que estão contidas na carta final do evento! Na mesma data estava rolando, por exemplo, a marcha das vadias e marcha da liberdade. Por que esses eventos não foram incorporados ao encontro? E esses eventos foram chamados pela web, tiveram um caráter político e não necessariamente partidarizado.

Bem, acho que sem querer acabei escrevendo que tipo de Encontro de Blogueiros Progressistas eu gostaria de ver lá na Bahia, em 2012: um evento em que a INCLUSÃO seja mais do que uma intenção bonitinha politicamente correta, mas que apareça de forma transversal na organização do evento, nas discussões, nas mesas, nas propostas… Que as feministas tenham um espaço para propor mudanças, bem como as demais minorias também possam trazer suas contribuições, suas propostas de blogagem coletiva, seus pontos em comum.

No próximo encontro a diversidade tem que ser o norte da coisa toda: se não o evento vai ficar eternamente com o apelido de governista. Pode até não ser 100% governista, pode até ser que um participante ou dez ou vinte façam perguntas cabeludas pro ministro das Comunicações que foi convidado para ao evento. Vai continuar com cara de governista enquanto não acordar praquela pegada de independência política que só a inclusão de temas “espinhosos” pode dar. Olha só o tamanho do relatório de atividades dos grupos de trabalho, como ficou grande! Veja como o leque da discussão foi amplo e como a carta final dos blogueiros progressistas ficou pequena diante das demandas dos grupos .

Enfim, eu acho que um encontro que seja genuinamente de blogueiros progressistas tem que se pautar mais pela diversidade da rede (fomentar mais debates sobre demandas dos movimentos sociais) e menos pelos blocos político-partidários que se revezam no poder. Pode convidar os deputados e políticos? Pode e deve, desde que eles tenham algo realmente interessante para contribuir. Em tempo: adorei a participação da Erundina: ela foi um dos pontos mais bonitos do Encontro.

Esse relato está atrasado, eu sei. Mas isso aqui ainda é militância, ainda que tarde! Entendam, é uma mãe de criança pequena quem está escrevendo aqui. E eu não recebo nada por isso. Espero poder escrever com mais rapidez numa próxima ocasião.

As blogueiras estarão presentes!

Antes que algum blogueiro progressista reclame da falta de mulheres blogueiras que falem sobre política (oi!), eu e mais três amigas da blogosfera (Niara, Luka, SrtaBia) estaremos no Encontro Nacional que vai rolar em Brasília a partir de amanhã (17 de junho). A concorrência vai ser grande pois nossa palestra vai acontecer simultaneamente à de vários caras muito mais populares (vai ter o, cof cof, José Dirceu do PT, também o cof cof, Arthur Henrique da CUT, vai ter o sociólogo sabichão da internet, Sérgio Amadeu, e uma série de nomes da imprensa tradicional que eu nem vou mencionar). Mesmo assim a gente vai encarar e mostrar que a mulherada bloga e muito bem, obrigada. E é pra chamar a gente pra entrevistar os puderosos.

Veja o que nós feministas queremos no Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas
. Em breve publicarei link com a transmissão ao vivo da nossa mesa. Até a próxima!