Histórias que teimam em brotar

Flor no asfalto
Flor no asfalto

Se a gente tirar do ser humano a capacidade de contar e de ouvir histórias, o que é que sobra? Contar e ouvir histórias é como organizar mentalmente nossos sentidos, como encontrar uma bússola no deserto das aparências. Alguns podem dizer que não gostam desse negócio de ficção que o negócio é vida real – mas ainda assim, a vida real a gente traduz é em história, é contando sucessos, angústias, falando da vida alheia, criando segredos.

Segredos. Que necessidade é essa que temos de colocar pedras (ou mesmo asfalto) sobre determinados assuntos? Como se o asfalto impedisse a terra de ser terra, a semente de ser semente, e a vida de procurar luz.

Daí que as verdades sempre vão brotar por esse mundo. Sempre. É com essa certeza que as pessoas vivem, é por essa certeza que as pessoas sobrevivem.

“Como eu já afirmei publicamente em outras ocasiões, durante muito tempo, no meu período de exílio, fui perseguido pelo fantasma das torturas. Depois de muito esforço consegui perdoar os torturadores e também os que me denunciaram. A partir daí os pesadelos desapareceram. Foi um processo terapêutico para mim, uma forma que encontrei de vencê-los. Já disse também que há situações em que o perdão é mais importante para quem perdoa do que para quem é perdoado. Mas isso, em minha opinião, só faz sentido no âmbito subjetivo, nas relações interpessoais. No âmbito político, essas pessoas têm que ser responsabilizadas judicialmente porque seus crimes não foram somente contra os presos políticos individualmente, mas principalmente contra a sociedade brasileira. E a sociedade tem o direito e a obrigação de responsabilizá-los judicialmente.” – Anivaldo Padilha

As verdades vão continuar brotando aqui e ali. Resta saber quando é que o Estado brasileiro vai continuar se prestando a esse papel desumano de tentar escondê-las.

Este texto faz parte da VII Blogagem Coletiva do #desarquivandoBR

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Nós não morremos com a ditadura

Primeiro vamos nos acalmar: este artigo não é escrito para agradar a esquerda, nem pra fazer coro com uma ideologia vermelha. Também não é feito por uma especialista em política, nem em sociologia. Esse artigo não quer discutir o certo, nem o justo.

Esse artigo quer simplesmente existir, tornar visível uma situação que alguns querem esconder. Quebrar um tabu? Talvez.

Feita essa introdução, vamos aos fatos: o que é que aconteceu no Brasil nas décadas de 1960 e 1970, nos períodos tidos como mais violentos da ditadura? Já estamos em 2011 e infelizmente só temos algumas pistas que compõem essa resposta.

Algumas pessoas passaram esse período caladas e seguras em suas casas. Sim. É preciso registrar isso: teve muita gente que se enquadrou no regime e aqui não cabe nenhum juízo de valor. Quero apenas destacar a existência dessas pessoas que sobreviveram ao “regime” e estão aí, vivendo, se aposentando, quiçá com os filhos criados. E o principal: o “regime” não tirou delas o direito de elas contarem hoje suas próprias histórias.

Mas nem todas as pessoas que viveram naquela época têm hoje esse direito. Algumas passaram momentos de terror e pânico por conta do tal “regime de exceção” e perderam para a ditadura seus pais, filhos, irmãos, maridos, esposas.
Querer fazer de conta que essas famílias não foram prejudicadas é o mesmo que querer tapar o sol com a peneira: por mais que as pessoas tenham sido assassinadas e enterradas pelo “regime” em locais desconhecidos, as famílias dessas pessoas estão aí, vivas, respirando o mesmo ar que nós respiramos.

Essas famílias atingidas pelo “regime” não podem ser ignoradas, tratadas como se tivessem morrido juntamente com o “regime”. As famílias não acabaram: elas estão aí, querendo ter o que parece ser um privilégio: o direito de contar suas próprias histórias.

Simples, não? Será que é difícil de enxergar a dor de uma família que não sabe até hoje o paradeiro de um parente?

E é nosso dever estar ao lado dessas famílias e dizer: “Nós não morremos com a ditadura”. Abrir os arquivos da ditadura é uma questão de respeito a essas famílias, de respeito a nossa história e à democracia. Continuar escondendo esses arquivos é perpetuar uma crueldade que há muito já devia ter terminado. Está na hora da gente se somar a essas famílias e cobrar do governo uma providência para estancar de vez essa violência.

Obs. Esse artigo faz parte da Blogagem coletiva Desarquivando o Brasil – iniciativa da Niara de Oliveira – www.pimentacomlimao.wordpress.com