Desescolarizar

A linda da Renata Correa indicou um vídeo que me rendeu muitos insights: uma conversa de quase uma hora com a professora Ana Thomaz.

Ana Thomaz fala da opção que fez de tirar o filho da escola, quando ele ia começar o ensino médio. E explica porque ela achou que a escola não era um lugar para o filho dela. E conta como foi que ela mesma começou a ensiná-lo (seria esse o verbo?) e a aprender com ele. E de como esse processo foi conduzido.

O vídeo não se restringe ao ato em si, de retirar o próprio filho da escola. Ele mostra um pouco de quem é Ana Thomaz, como ela pensa, como ela está no mundo, que experiências ela passou e qual o sentido que ela tem para a vida.

E como ela mesma diz, é um paradoxo: ser professora e rejeitar a escola. É aqui que eu mais me identifiquei com ela: sou jornalista e rejeito o jornal. É um grande alívio perceber que pessoas de outras áreas, outras profissões, também têm dilemas parecidos com os meus.

Só que ela foi longe, muito mais longe do que eu: ela abriu mão da escola e ensinou alguém. Continuou sendo professora, ensinando – e fez isso sem a escola, mas dentro da estrutura que estava ao alcance dela. Ela se colocou esse desafio (que não tem garantia nenhuma de que vai “dar certo”) e está vivendo de acordo com ele. E vivendo bem.

Mas esse é só um dos “insights” – o vídeo bateu o meu recorde de insights por minuto. Ainda estou processando tanta informação. Porque não parece à primeira vista, mas é um vídeo extremamente político. Espero que vocês curtam tanto quanto eu curti. E valeu, Renata Corrêa, pela indicação!

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Um corpo carbonizado

Se você estvisse numa caminhada ecológica e de repente se deparasse com um corpo carbonizado de uma criança no meio do mato, o que você sentiria? O que você faria? Chamaria a polícia? Certamente você seria ouvido, um inquérito seria aberto, haveria um processo na justiça. Talvez sua história poderia ser contada por um grande veículo de comunicação. Quem sabe? Mas haveria um inquérito, nosso país tem leis que devem ser respeitadas por todos.

Certo?

Em tese deveria ser assim. Mas em certas regiões do Brasil o que existe não é a lei, é a barbárie. Em outubro de 2011, um índio guajajara se deparou com um corpo carbonizado, aparentemente de uma criança de oito anos, na cidade de Arame, região central do Maranhão. Dizem até que ele filmou com um celular, mas as imagens não vieram a público. O fato é que ele procurou uma autoridade competente – a Funai – e esta ainda não pôde verificar a denúncia. Motivo? A Funai informa: “Como é uma região de conflitos, é bastante perigoso andar por lá”. Até hoje, 8 de janeiro de 2012, nada foi esclarecido.

Ou seja, há uma denúncia, há um corpo carbonizado, mas não se apura nada porque a autoridade não consegue sequer chegar ao local perigoso. E sem poder apurar a denúncia, como fazer valer a lei? Os poucos jornais que acolheram a denúncia do índigena que encontrou o corpo carbonizado ainda padeceram do descrédito: “Será que esse corpo existe mesmo? Será que é mesmo de uma criança assassinada?”. Perguntas que ficam entre o excesso de zelo ( sim, jornalismo é verificar, verificar, verificar) ou cinismo puro e simples (assassinatos em conflitos agrários são possíveis num país que já teve Chico Mendes, Dorothy Stang, Maria do Espírito Santo da Silva e José Claudio Ribeiro da Silva e outros tantos outros mortos…)

Sim, eu reconheço que, por princípio, cabe ao acusador o ônus da prova, e toda notícia precisa se checada. Acho válido tudo isso. Mas ao mesmo tempo eu me preocupo muito quando a bandidagem dá xeque-mate nas regras. Qual é o jornalista em sã consciência que vai se meter a entrar numa região em que nem a Funai acha seguro entrar? Ou será que a bandidagem venceu, e nem Funai pode apurar, nem jornalista pode ousar escrever a história sem ferir as próprias regras?

Se você for seguir rigorosamente o princípio de só se publicar uma notícia de um corpo carbonizado ao ver o corpo carbonizado, como faz? Deixa de noticiar? Deixa a bandidagem acreditar que a voz de um indígena não é uma voz, portanto basta deixar uns pistoleiros de tocaia pra atacar o primeiro não-indígena que experimentar conferir o corpo carbonizado?

É ou não é sério, Brasil? Confiamos ou não confiamos em nossos índios nesse contexto de conflito? Ao menos para iniciar uma investigação?

Ouvi de um jornalista que já trabalhou diretamente com indígenas, no Maranhão, há 20 anos, e que hoje acompanha as notícias via entidades não-governamentias e sites alternativos: “Se a Polícia Federal aparecer naquela região haverá uma trégua. Mas assim que a Polícia sair do local, tudo voltará a ser como antes: pistolagem, assassinato, intimidação”. Daí eu perguntei pra essa pessoa o que é que precisa ser feito pra se resolver esse conflito todo. E a pessoa me respondeu, resignadamente: não há o que ser feito.

Quando a bandidagem consegue paralisar até as esperanças das pessoas é porque algo de muito grave está acontecendo. É porque a bandidagem está vencendo! Precisamos urgentemente, em primeiro lugar, recuperar as esperanças, debater soluções, colocar o assunto na roda, encontrar alternativas.

Repudio qualquer ato de indignação covarde, do tipo querer o linchamento dos responsáveis pela morte da criança carbonizada (como fizeram com a mulher que bateu no cachorro até a morte). Mas acredito que o meu papel, por agora, é cobrar, principalmente do governo federal, a imediata apuração dessa denúncia. Em segundo lugar, cobrar um plano urgente pra essas regiões de conflito que não fosse só uma ação militar, mas que também fosse um plano social-ambiental-jurídico-econômico de médio prazo. Um PAC do conflito agrário ou algo do tipo, que pudesse dar conta especificamente das regiões que passam por esses problemas. Em terceiro lugar cobrar das pessoas que não têm nem esperança, que se mobilizem! Que denunciem, que pressionem por uma solução, porque pressionar, a essa altura do campeonato, é um gesto de coragem – mesmo que uma ou outra pessoa apareça para desqualificar esse tipo de ação. Em quarto lugar, e não menos importante: vamos dar crédito para os blogs independentes, jornais comunitários e veículos alternativos no geral – apoiar a diversidade de fontes é importante para dificultar o trabalho da bandidagem.

A história das coisas e Belo Monte

“E as pessoas que vivem aqui [no terceiro mundo]? Bem de acordo com estes sujeitos [as pessoas do primeiro mundo], eles [os do terceiro mundo] não são donos desses recursos mesmo que vivam lá há gerações. Não são donos dos meios de produção nem compram muitas coisas. Nesse sistema, quem não possui, nem compra muitas coisas, não tem valor”

Respeito muito quem acredita que a construção de uma hidrelétrica do porte da de Belo Monte é imprenscindível para o Brasil. Pessoas inteligentes vêm defendendo essa causa com números e argumentos técnicos. Tudo isso devidamente sustentado na crença de que o impacto na natureza é inevitável, só que dessa vez haverá compensações satisfatórias aos prejudicados imediatos dessa obra e os benefícios gerados para o país são maiores do que as perdas. Aceito de bom coração quem pensa assim. Acho que é uma postura pragmática, de quem consegue ver desenvolvimento sob a ótica do atual sistema econômico-financeiro mundial.

No entanto, peço licença para apresentar outro ponto de vista. E trouxe o vídeo “A história das coisas”, que eu considero uma importante referência e que traduz de forma didática meu atual modo de ver o mundo. É um vídeo que mostra um contexto mais amplo em que uma obra como a de Belo Monte se situa. Acredito que construir grandes hidrelétricas não é a única solução energética disponível para o Brasil. Aceitar esse projeto como único seria como desconsiderar  a diversidade do país, a quantidade enorme de estudos e técnicas que existem para se obter energia e seria, sobretudo, dizer que só é possível desenvolver o Brasil passando por cima daquelas pessoas que sempre viveram ali, mas não são donas dos meios de produção.

Podem me chamar de sonhadora, eu aceito. Porque é isso que eu sou. Eu vejo vídeos como “A história das coisas” e me identifico profundamente. Eu vejo o Brasil ali, cumprindo aquele papel de país de terceiro mundo que investe recursos na produção de coisas, e que coloca as pessoas em segundo, terceiro plano – o custo pessoas é externalizado, não aparece nas planilhas! Vejam a segunda parte do vídeo:

“É por isso que após o 11 de setembro, quando nosso país [no caso os EUA] estava em choque, o presidente Bush poderia ter sugerido fazer luto, rezar, ter esperança. Mas não: ele disse para fazermos compras, compras. Nos tornamos uma nação de consumidores. A nossa principal identidade passou a ser de consumidores, não mães, professores, agricultores, mas consumidores.”

Sonho com um Brasil que invista na criatividade de seus pesquisadores, que mantenha os laboratórios adequadamente equipados e que tenham condições de pensar o Brasil em longo prazo. Sonho com o dia em que os técnicos possam sentar pra discutir COM os ribeirinhos e índigenas sobre soluções viáveis que os incluam de fato. Porque chegar neles e falar ” a gente vai fazer uma hidrelétrica aqui, quanto é que vocês querem pra ir embora com um sorriso no rosto?” não me parece um jeito democrático de se trabalhar.  A falta de diálogo com as comunidades afetadas é gritante – veja o histórico de ações movidas pelo Ministério Público Federal para entender o tamanho do problema.

Sonho demais?

Para não dizerem por aí que vivo apenas de sonhos, tenho plena consciência dos obstáculos impostos pela realidade político-partidária do Brasil. Estou cansada de fazer de conta que o Sarney não tem nenhuma influência política fora do Maranhão. Gostaria muito de acreditar que o fato do partido dele tomar conta do ministério de Minas Energia é só mais um fato diante de tantos outros, e que não existe influência significativa dele na tomada de decisão em se fazer uma hidrelétrica como a de Belo Monte. Gostaria de acreditar que a nossa estrutura política partidária (sobretudo no quesito financiamento de campanha) não tenha nenhum peso na decisão de um governo na hora de se decidir investir em grandes construções no lugar de adotar soluções locais, de pequeno e médio porte, com uso de soluções criativas. Gostaria, mas minha vivência política me tornou desconfiada demais em relação a esses pontos.

Queria deixar uma pergunta pra vocês: e se não fosse o Sarney, e se no Brasil não tivesse minérios, e se nosso país não ocupasse o papel de exportador de bens de baixo valor agregado… Será que Belo Monte ainda seria a solução energética mais adequada de todos os tempos para a nossa população? Essa é a minha dúvida atual. Posso rever meus conceitos, mas já adianto que não abro mão de sonhar com um país que priorize as pessoas, que tenha uma perspectiva de desenvolvimento que não é só financeira, mas também cultural, ética e política.

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Tudo o que eu ja li sobre Belo Monte e vale a pena compartilhar
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Belo Monte: notas de um jornalismo deselegante
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Atualização do dia 5 de dezembro de 2012
Na mesma linha desse post, ou seja, reivindicando um modelo que dialogue com ribeirinhos e indígenas, e que procure uma forma diferente de produzir coisas (uma política de desenvolvimento e geração de energia diferente da que está colocada pelo governo na construção de Belo Monte, enfim) temos também os seguintes links:

1. “Passamos há muito o limite da demagogia e andamos, atualmente, na via do deboche escancarado, esquina com cagamos pros direitos humanos” — Eletric Funeral –> http://godotnaovira.wordpress.com/2011/12/01/eletric-funeral/

2. “Não nos preocupamos com a natureza como se fôssemos exteriores a ela, somos natureza.”  — A natureza é mundo –> http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/12/a-natureza-e-mundo.html

3. Um biólogo falando sobre Belo Monte, em vídeo (já que estudantes e artistas podem fazer vídeos, então biólogos também podem!) –> http://www.youtube.com/watch?v=xnitmB22JtQ&feature=youtu.be

 

Uma doçura diabólica ou publicidade para leigos

A publicidade chega de leve na casa das pessoas, seja pela televisão, seja pelo rádio ou jornais e revistas. Chega tão de mansinho que a gente convive diariamente com ela como se fosse uma visita comportada: “Ah! Como é bonita, né? Tão bom receber pessoas assim afáveis, simpáticas, alegres – insira aqui um adjetivo que mostre sua satisfação

A convivência com a publicidade é algo tão “natural” que no senso comum as pessoas tendem a acreditar que conhecem bem quem está ali, na sua casa todos os dias. A publicidade é praticamente um membro da família, acima de qualquer suspeita. Daí que qualquer crítica ou comentário que se queira tecer sobre publicidade é subestimada pelo público leigo – é automaticamente colocada como algo supérfluo diante de tantos outros problemas sérios que assolam a humanidade.

Nada é por acaso
O que pouca gente desconfia é que a publicidade hoje nunca quer “só” vender. Atrás de uma “inofensiva” publicidade operam os profissionais de publicidade e marketing, pessoas treinadas para entender o comportamento de outras pessoas, e trabalhar de forma a sensibilizar as massas. Vender sim, mas também se possível, fidelizar um cliente (fazer com que ele compre sempre), fazer com que ele recomende a marca para outras pessoas também comprarem.  Não se espantem se uma publicidade fizer com que você se sinta muito mal se ousar cogitar em não comprar o que é “oferecido”. A publicidade quer uma cadeira cativa na sua lembrança, na sua memória – sem nenhum exagero. Estão aí as pesquisas de lembrança de marca que não me deixam mentir sobre esse preocupação dos publicitários profissionais.

O inconsciente
Uma peça publicitária tem a capacidade de entrar no seu inconsciente, ou seja, sem que você se dê  conta, sem que você possa se defender ou pensar a respeito, colocar a prova, duvidar. A publicidade tem a capacidade de  manipular os seus desejos, principalmente para que você sinta vontade de comprar (seja uma ideia, seja um produto). Só que a publicidade não vai trabalhar com você individualmente: ela é feita para atingir você e toda uma massa de pessoas ao mesmo tempo, o que só torna a situação ainda mais complexa. Qualquer ação publicitária de uma empresa tem um efeito coletivo, tem uma responsabilidade social muito grande, que não pode ser subestimada.

Profissionais de marketing estudam tendências de comportamento humano para criarem peças publicitárias cada dia mais convincentes, que aumentem as vendas, que visem lucros. A manipulação dos desejos humanos são o pilar da publicidade:

As necessidades e os desejos dos seres humanos estão organizados de uma maneira hierárquica em cinco aspectos, de acordo com Abraham Maslow, psicólogo: 1) fisiológicas (sede, fome e sexo); 2) segurança e necessidade de garantia e proteção; 3) sociais (sentido de pertencer e sentir-se amado); 4) estima e necessidades de satisfação do ego (auto-estima, reconhecimento e status); 5) necessidades para auto-atualização (auto-desenvolvimento e realização)*.

Todas as publicidades, sem exceção, trabalham com uma ou mais dessas necessidades. Daí porque elas são tão parecidas – os desejos mais básicos são iguais pra todo mundo. Todas as publicidades querem ocupar um pedaço do latinfúndio do seu inconsciente – e é no campo do desejo que elas vão operar. Porque é lá que os desejos mais fortes são plantados. Um desejo inconsciente sempre é mais forte do que uma argumentação racional, consciente.

Linguagem
Mas como acessar o insconsciente? Como gerar o desejo? O bom publicitário sabe com qual desejo ele quer trabalhar, geralmente em conjunto com as informações levantadas pelo profissional de marketing. Esses profissionais vão procurar uma linguagem que esteja em consonância com as pessoas que ele deseja atingir, a depender do produto a ser comercializado e entre outros fatores.

É importante que a linguagem seja devidamente agradável, palátavel, porque o prazer, a alegria, a beleza estética, todos esses fatores que agradam os sentidos e servem para entrar no nosso insconsciente sem maiores questionamentos. O que nos leva a uma constatação interessante e paradoxal: por mais que a publicidade queira criar um desejo onde ele não existe (seja decomprar um produto, ou uma ideia), a forma com que ela se aproxima das pessoas há que ser um caminho velho, conhecido, confiável, em uma palavra: tradicional. Todo publicitário que se preze, por mais criativo que seja, desenvolve um radar estético e social do que pode ou não ser rejeitado logo de cara por seu público.

O que a publicidade é e o que não é

A publicidade não é, em si, machista, homofóbica, racista ou preencha aqui com o preconceito que você já detectou por aí . Não podemos achar que todas as mazelas sociais nasceram com a publicidade ou que a publicidade criou um preconceito onde não havia nada. Isso é ingenuidade. Também não dá pra obrigar que cada peça publicitária seja um exemplo de vanguarda – raramente isso acontece. Porque a vanguarda sempre vai correr o risco de desagradar uma certa ordem estabelecida e poucos publicitários querem se arriscar a caírem na rejeição do público.

Por outro lado, a  publicidade revela sim o machismo, a homofobia, o racismo e entre tantos outros preconceitos que já estão presentes na sociedade. Querer fingir que a publicidade está livre de cometer esses erros, ou ainda, livre de alimentar essas mazelas, ainda que involuntariamente, é um erro grande.

Existe sim uma parcela de responsabilidade que cabe aos publicitários e empresas. Devemos sim, questionar, por que, podendo usar outras estratégias, a publicidade resolveu utilizar um caminho preconceituoso? Será que o preconceito está assim tão sólido e arraigado que os publiciários estão tendo dificuldades de utilizar outras linguagens para criar os desejos e promover as trocas?

Questionar os preconceitos presente nas peças publicitárias jamais pode ser encarado como uma censura. Porque debater o fazer publicitário é tão vital quanto debater a ética em qualquer outra profissão! É um debate que deveria ser natural não só entre os publicitários, mas entre toda a sociedade que está interessada num país verdadeiramente democrático.

E vou mais longe: podemos e devemos, sim, questionar: qual o limite da criação de desejos? Será que alguns casos de depressão não são agravados com essas mensagens subliminares que criam desejos irrealizáveis? Qual será o efeito de publicidade na cabeça de uma criança, por exemplo?

O que me incomoda nos debates entre leigos ou pessoas que até têm boa vontade de defender ideias libertárias mas não têm muito conhecimento das técnicas publicitárias é essa crença de que o meu inconsciente está aberto para ser manipulado de diversas formas e eu nem posso reclamar se  eu me sentir oprimida por isso.

Porque me parece diabólico eu só receber publicidade o tempo todo, no meu inconsciente, e nem poder discutir sobre como me sinto em relação a isso. Quer dizer, nem posso trazer para o consciente e tentar dialogar com outras pessoas porque automaticamente isso é tachado como “censura”.

Para alguns defensores da “liberdade de expresão dos publicitários” a única reação que eu posso ter é comprar ou deixar de comprar. A sociedade é muito mais do que isso, a publicidade também é muito mais do que aparenta ser. Todo mundo deveria ter a liberdade de conversar sobre seus sentimentos, suas subjetividades, seus incômodos e preconceitos. Criticar a publicidade deveria ser um exercício diário não só do Conar, mas de todas as pessoas que se sentirem desrespeitadas por publicidades que se utilizam do caminho “fácil” do preconceito.

Algumas palavras sobre a ingênua e necessária Marcha contra a Corrupção

Todo mundo quer combater a corrupção. Difícil encontrar alguém que em sã consciência vá pregar pelo direito de ser corrupto. Pois bem, se a Marcha contra a Corrupção sinaliza alguma coisa, aponta em primeiro lugar uma vontade legítima do povo em reagir a uma série de casos de corrupção que vem sendo amplamente divulgados pelos jornais.

Em Brasília, especificamente, o caso da Jaqueline Roriz é o mais emblemático do momento pois existiam vídeos e provas de que ela estava envolvida em maracutais, mas ela foi absolvida pelos seus colegas parlamentares. Só esse caso já merecia  uma passeata pois a indignação aqui em Brasília, onde moro, é grande e ampla, vai da atendente do café até as camadas ditas esclarecidas. Talvez isso explique porque em Brasília essa marcha juntou tanta gente (dizem alguns jornais que juntou 30 mil pessoas) ao contrário de São Paulo (dizem que não passou de 400 pessoas). Também é bom lembrar que 7 de setembro já junta um volume grande de pessoas na Esplanada dos Ministérios – então, né, quem foi pra um evento pode muito bem ter ficado pro outro, concordam?

Mas divago. Queria dar meu relato pessoal. Antes queria perguntar pra vocês uma coisa: digamos que eu conheço um parente que trabalha na Polícia Federal. Daí eu preciso de um passaporte pra dali, sei lá, dois dias, só que o meu está vencido e há uma fila para ser atendida e que provavelmente pelos meios normais eu não conseguiria ter o meu passaporte. Vocês recorreriam ao parente para obter uma solução mais rápida do que a fila normal? Ou vocês consideram que isso é tráfico de influência? Quase uma corrupção ou uma corrupção completa?

Pois bem, a pessoa que me convidou para ir pra Marcha contra a Corrupção utilizou esse expediente achando inclusive que isso não tinha nenhum problema porque “nesse país as coisas não funcionam então a gente é obrigada a dar um jeito”. Bom. Isso é só um detalhe pra vocês terem uma noção do quanto o conceito de corrupção é amplo. Eu até queria ir na tal Marcha, pra ver qual era, mas não deu, eu precisava passear com a minha filha, que tem pouco mais de um ano, e ela não ia aguentar o calorzão de Brasília.

Mesmo sem ter participado da Marcha, passei pela Esplanada pra poder chegar no clube – então vi, do meu carro, uma parte da Marcha, de relance. E o que eu vi foi um cidadão segurando uma grande bandeira vermelha do PCdoB e entre outras bandeiras que não consegui identificar. Vi muito lixo espalhado nos arredores (saco plástico, copos, latinhas) e muitos carros estacionados em cima dos gramados (será que era do povo que foi pra ver o desfile de 7 de setembro ou do povo da Marcha ou os dois? Não dá pra dizer). Incrível como os fotógrafos da imprensa não registraram nem o lixo, nem os carros sobre o gramado e nem a bandeira do PCdoB (pelo menos na busca geral do google).

Divaguei. Deixa eu voltar.

O que eu queria dizer mesmo, sobre a Marcha contra a corrupção, são duas coisas: primeiro que ela é necessária. Hoje a gente tem exemplos claros e límpidos de corruptos que não sofrem punição e isso ocorre não só de forma isolada, pessoal, mas é uma coisa meio que institucionalizada: não temos mecanismos para punir ou tentar coibir a corrupção. Isso é sim muito grave e as pessoas sentem essa fragilidade do nosso sistema.

A segunda coisa é que a Marcha é absolutamente ingênua. Fico imaginando os corruptos assistindo televisão achando tudo aquilo muito lindo, muito genérico, muito superficial, inócuo. Aquelas carinhas pintadas pedindo “Fora Lula” (A revolução não partirá dovão livre do Masp) não ameaçam em nada o statusquo. Gritam tal qual crianças birrentas: elas sabem o que querem (combater a corrupção) mas não sabem o que fazer para conseguirem alcançar aquele objetivo. Então esperneiam frases feitas e palavras vazias diante de quem sabe fazer política feito gente grande.

Na hora de botar a cabeça pra funcionar e propor mecanismos que possam punir corruptos e tornar os processos mais transparentes, aí sim, minha gente, eu queria ver. Queria ver juntar na Esplanada e na Av. Paulista, meia dúzia de gatos pingados que conseguirem alcançar um consenso de como lidar com essa situação, com a corrupção que atinge as diversas instâncias governamentais e estatais (viram que eu não estou me referindo só a categoria dos políticos, né? Vamos evitar os preconceitos…).

Vamos ficar de olho – porque o povo já está se sentindo acuado e a coisa mais perigosa é aparecer um líder carismático pra se aproveitar dessa birra e emplacar medidas autoritárias. Mas por agora, eu acho necessário que exista uma marcha como essa, para que uma parcela da esquerda possa sair da letargia. Ah! O texto do Raphael Tsvakko faz uma interessante abordagem sobre a repercussão da Marcha entre as camadas da esquerda governsta, leiam De inocentes úteis a golpistas.

Macho Moderno Engraçaralho

Carta do Macho Moderno Engraçaralho

Rir é bom, rir é um santo remédio. Principalmente rir dos outros. Rir das pessoas é algo que me dá muito orgulho nessa vida: eu poderia ganhar muito dinheiro com isso, de tão natural que é essa minha habilidade. Mas minha especialidade mesmo é rir das mulheres.

Adoro rir das mulheres, sobretudo das feias, gordas e carentes. Ihhhhh. Quando junta essas categorias então, aí é piada pronta! A feia a gente ri depois de comer, é claro. Afinal, é um favor que fazemos à humanidade. A gorda também, a gente come antes de tripudiar, pois, como todos sabem, as gordinhas são devassas, né? E mulher quando dá pra ser carente, então, rende as melhores piadas! E as melhores brincadeiras, né? Eu adoro sacanear uma mulher carente. Adoro. Rende muitas gargalhadas nas rodinhas dos meus amigos, todos machos, modernos e engraçaralhos, como eu.

E quando as mulheres são gostosas também são boas pra fazer piada. Afinal, é tão gostoso dizer que as mulheres gostosas são burrinhas! Porque elas são né, gente? Mulher é um bicho burro que não sabe de muitas coisas, mas principalmente uma: elas não sabem que não têm valor. Hahahahahaha. Elas acham que por serem bonitas, as piadas nunca vão incluí-las! Hahahahahahaha. O mesmo fenômeno ocorre com as mulheres inteligentes – afinal, não existe mulher inteligente e gostosa e que queira dar pra gente, né?

Aliás, quando essas mulheres lindas e inteligentes não dão pra gente, a gente faz piada, né? Essas mal comidas e infelizes! Frígidas! Essas mulheres que só querem nos censurar, sabe? Como se a gente não pudesse dizer o que dá na telha, como se a gente não pudesse humilhar as mulheres em paz, como sempre fizemos.

E quando as gostosas e inteligentes dão pra gente, gargalhamos horrores: a gente dá nota pro desempenho sexual delas e ainda compartilha detalhes com os colegas machos. Se brincar, ainda contamos vantagens praquela categoria de mulheres que são quase machos, e que acham que nunca serão incluídas nas piadinhas porque… Sei lá porque! Hahahahahah! Eu não falei que mulher é bicho burro? E eu já não falei que não importa, mulher é sempre um motivo de piada?!

Elas ainda não perceberam que não importa o que digam, ou o que sejam, elas não têm valor! É por isso que a gente usa mulher mesmo, principalmente pra fazer piada. Pra fazer piada e ganhar dinheiro, então, é um pulo, é uma honra. É um saudável sinal de virilidade.

Assinado: Macho Moderno Engraçaralho

CCMME – a campanha

E você, também adora rir das mulheres?

Pois eu não acho graça nenhuma. E vou lhe explicar meus motivos.

A sociedade está tão cínica que hoje em dia a misoginia e o preconceito são semeados sob a máscara do “senso de humor”. E o pior: esse tipo de humor que exalta a depreciação da mulher é tido como um humor “moderno”, e orgulhosamente ostenta o rótulo do “politicamente incorreto”, sobrevivendo com lucros e audiência cativa na blogosfera brasileira.

Sabe como é, é melhor você “rir com eles” por que se não você será a próxima “vítima”. Pois se você acha que estou exagerando, entre no site http://testosterona.blog.br, patrocinado pela MTV Brasil, e confira o conteúdo que é exibido a título de “blog humorístico”.

Se você também se indignou ou conhece alguém que se comporta como um “Macho Moderno Engraçaralho”, participe da Campanha de Combate ao Macho Moderno Engraçaralho – CCMME. Comece no seu dia-a-dia, chamando a atenção do sujeito que destratar uma mulher na sua frente seja por meio de piada, seja por qualquer forma velada de violência. Essas pequenas violências cotidianas precisam ser combatidas na raiz. Reaja! Ficar quieto é criar o clima de omissão que o Engraçaralho encontra pra se desenvolver.

Depois, você pode registrar aqui no meu humilde blog sua indignação em relação ao conteúdo postado no site Testosterona. A minha caixa de comentários está aberta para palavras de apoio, que serão encaminhadas para os responsáveis pelo portal da MTV Brasil. Registre sua queixa também no twitter, citando o @portalmtv e a tag da campanha #engracaralho pra ver se a empresa toma alguma medida de responsabilidade social.

Se você patrocina sites que promovem a misoginia e desrespeito às mulheres, retire imediatamente sua grana do projeto. Com certeza você vai encontrar espaços mais lucrativos pra vender seus produtos, e sem passar por cima da dignidade das mulheres.

Junte-se a nós! Com o seu apoio, o “Macho Moderno Engraçaralho” será, no mínimo, um sujeito envergonhado. E no máximo, um sujeito em extinção!

Atualização no dia 13 de março: a blogueira Cely publicou um texto interessantíssimo sobre essa coisa patética de homem querer ficar rotulando as mulheres – considero uma leitura complementar à campanha, corre lá pra ler também http://whothehelliscely.wordpress.com/2011/03/10/vadia-puta-vagabunda-e-rodada

Curiosidades sobre certos comentaristas

Sempre tive curiosidade para saber o que move aqueles comentaristas raivosos, que entram “cheios de razão” nas nossas caixas de comentários, sem ao menos esboçar um pouco de educação pelo autor do texto sobre o qual resolvem opinar. O que leva uma pessoa a xingar outra gratuitamente nesses espaços da internet? Se não temos uma resposta, ao menos que façamos as perguntas certas. O artigo do Sirio Possenti, que eu copio a seguir, é uma excelente reflexão sobre esse assunto.

***
Só perguntas

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Um fenômeno que se tornou agudo nesta fase da história desafia estudiosos – sociólogos, psicólogos, psicanalistas, antropólogos, cientistas políticos, filósofos, analistas do discurso etc.

(Alguns dirão que eu não deveria me ocupar de questões como esta, que deveria me restringir às questões linguísticas. Ocorre que uma das questões fundamentais das diversas de que tratam os estudos da linguagem é exatamente esta: em cada sociedade, há restrições sobre o que se pode ou não se pode dizer e sobre espaços ou contextos em que se podem dizer coisas que não se podem dizer em outros – por exemplo, quais discursos são privados (e, portanto, mais livres, embora não circulam, ou por isso mesmo) e quais são os discursos pelos quais seus “autores” podem pagar (ou receber): a noção de autoria se caracteriza no ocidente, entre outros, por dois traços complementares: o “autor” pode ser pago por suas obras, mas, em compensação, pode ser responsabilizado – preso ou ameaçado – pelo que diz. A propósito, é claro que neste texto não serão encontradas algumas palavras e expressões que eu diria em outros espaços, para me referir àqueles de que vou falar…).

A questão de que vou tratar muito brevemente foi formulada de forma precisa, a meu ver, por Renato Janine Ribeiro (Para quem não conhece o ‘Estadão’), há quase um ano, em artigo publicado no Estado de S.Paulo. Janine fazia uma análise do comportamento do dito jornal. O mote era a proibição pela justiça de publicar certas notícias sobre o filho de Sarney, Fernando (todos os dias o jornal publica uma nota, cujo título é O Estado está sob censura há XX dias (já são mais de 500). A questão que Janine formulou está expressa no seguinte trecho, que vou comentar brevemente, grifando o que mais me interessa:

“Mas, voltando ao fim da repressão política pelo Estado brasileiro, isso não quer dizer que nossa sociedade tenha reconhecido o direito à divergência. Um espírito maniqueísta, opondo bem e mal, domina muitos cidadãos que falam sobre política, costumes e o que seja em nosso país.

Por incrível que pareça, nesse ponto o Estado brasileiro e suas instituições parecem mais adiantados que a sociedade. Comecei este artigo criticando opiniões de leitores e internautas, justamente porque eles condenam seus desafetos com mais rapidez do que faria qualquer tribunal, hoje, em nosso país.

Em outras palavras, a democracia por vezes está mais forte nas leis e nas instituições do que no povo do qual – segundo o artigo 1º de nossa Constituição – ela emana. Ela ainda é um texto, mais que uma prática”.

No segundo dos parágrafos citados, Janine se refere ao começo de seu texto, em que comenta que lê “nas cartas de leitores a O Estado de S.Paulo e, sobretudo, nos comentários de internautas em sua página na web …, “expressões preconceituosas, carregadas de ódio”.

Pois bem, este é o problema. O mote poderia ser a tuitada da tristemente famosa Mayara, que, logo depois das eleições recentes, sugeriu que se afogassem nordestinos. Também poderia considerar como pretexto os comentários (se é que assim podem ser chamados) de leitores, em geral anônimos, opinando sobre colunas que tratam de questões polêmicas. O tema pode ser a extradição de Battisti, a eleição de Dilma, uma discussão da pedofilia, ou, o que poderia parecer mais neutro, a questão do feminino da palavra “presidente”.

Há comentários civilizados. Concordam, discordam, são mais ou menos veementes, mas são civilizados. Poderiam ser expostos em público e assinados. Mas muitos são apenas asquerosos: revelam uma burrice espantosa, desconhecimento total do tema. Mas, principalmente, são grosseiros, agressivos e, quase invariavelmente, não são assinados. Ou são assinados por óbvios – em geral, pouco inteligentes – pseudônimos.

O fenômeno permite numerosas perguntas, cujas respostas não são evidentes (só mesmo seguindo o “método” dos comentários alguém poderia supor que tem respostas claras: segundo eles mesmos, esses “comentadores” poderiam ser considerados simplesmente idiotas e seus autores deveriam ser condenados ao linchamento).

Algumas perguntas que me ocorrem são:

a) Esses cidadãos são simplesmente ignorantes ou fingem sê-lo porque acham que dizer baixarias é engraçado? Seu problema é apenas o baixíssimo nível de exigência quando se trata de humor?

b) É o anonimato a condição que lhes permite dizer barbaridades? Em outros termos: essas pessoas diriam as mesmas coisas se fossem identificadas? Ou em público?

c) Suas grosserias são manifestações “fantasiosas”, “ficcionais”, ou são a expressão do que tais pessoas de fato pensam?

d) Seu comportamento é coerente com o que elas escrevem anonimamente, ou trata-se de “gente boa” (bons pais, bons filhos, bons amigos, bons namorados, bons motoristas) que aproveita o anonimato para expressar seu “lado obscuro” (a propósito, vale a pena ler, de Elisabeth Roudinesco, O lado obscuro de nós mesmos; uma história dos perversos. Rio: Zahar)? Vale anotar que os americanos estão discutindo o grau de influência de postagens na internet sobre o rapaz que cometeu o atentado que feriu uma deputada e outras pessoas e matou uma menina na semana passada; Sara Palin patrocinava um espaço no qual cabeças de diversos políticos eram alvos. Brincadeira? O fato é que foram retirados ao ar…

e) A psicanálise ensina que o ser humano não se caracteriza só pela razão, pela consciência, mas também por um conjunto de pulsões, de instintos, que a civilização domina e controla. Se a tese for verdadeira, essas manifestações grosseiras e agressivas seriam apenas a expressão privada e anônima de tais pulsões (de matar, de humilhar, de agredir o diferente, seja uma posição política, uma preferência por um clube de futebol, uma opção sexual etc.)? Se este for o caso, podemos considerar que estamos diante da necessidade de um novo aprendizado em relação ao uso do espaço privado; ou será que os que assim se manifestam o fazem como nos sonhos (não controlamos os sonhos…) ou como se contassem piadas entre amigos depois de beber? É até possível que a grosseria e a agressividade de seus pequenos escritos seja uma das condições para que se comportem civilizadamente em público (ter armas de brinquedo não torna necessariamente as pessoas violentas etc.).

f) Mas será que não são eles/elas que, em grupo (sozinhos, em geral são covardes – aqui, eu reprimo o desejo de escrever outra palavra), atacam os diferentes, nas ruas, nas festas, nos estádios, nas prisões?

g) E se forem doentes, como Jared Lee Loughner, o atirador do Arizona?

Perguntas!

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia. O texto foi publicado originalmente no site do Terra, clique aqui para ler no original.