O mercado não é bonzinho

O mercado não tem dinheiro pra cobrir o aumento reivindicado pela categoria. O mercado não tem dinheiro pra oferecer descontos aos consumidores. O mercado não tem dinheiro pra pagar direitos trabalhistas. O mercado não tem dinheiro pra pagar licença-maternidade. O mercado não tem dinheiro pra reduzir a jornada das pessoas. O mercado paga mal os professores. O mercado paga mal os médicos.

O mercado é um safado – só acredita na bondade do mercado quem nunca estudou história ou economia.

Mercado nada faz de bom sem a velha pressão social. Que nasce da união das pessoas que se sentem incomodadas e que fazem a maior gritaria sobre a opressão que sentem e sobre a necessidade de se propor regras claras pra se frear os excessos do mercado.

Se você está lendo um texto que “espera” uma mudança vinda da “boa vontade” do mercado, pode ter certeza: é um texto classista.

Esperar a boa vontade do mercado é classista.

Esperar é a nova forma de mandar o movimento social ficar quietinho num canto, sem fazer barulho, porque se você agir, o mercado… vai pegar você!

RÁ!

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O Mundo Amanhã: Assange entrevista o líder do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah

É, esse post deveria ter sido publicado às 19h. Mas eu tive uns contratempos. Em todo caso, vamos lá!

Esta é a primeira entrevista de Nasrallah feita em inglês em uma década. Enquanto os conflitos se acirram no Oriente Médio, Assange aborda temas espinhosos como a posição de Hezbollah – visto como grande aliado do regime de Assad – no conflito da Síria. “Somos amigos da Síria, mas não agentes da Síria”, responde o libanês, antes de revelar que o Hezbollah procurou setores da oposição síria para pedir que dialogassem com Assad, sem sucesso.

Impossibilitado de deixar a Inglaterra, onde estava em prisão domiciliar, Assange entrevista Nasrallah através de um videolink na casa onde esteve por mais de 500 dias. Por sua vez, Hassan Nasrallah participa da entrevista na sede do Hezbollah no Líbano, cuja localização exata é mantida em segredo por segurança. É lá que ele trabalha sob constante medo de ser assassinado por diferentes grupos e Estados.

Assista a seguir a entrevista, ou clique aqui para baixar o texto completo.

Comunidade Pataxó Hãhãhãe da TI Caramuru-Paraguaçu denuncia abusos da Polícia Federal

Direto de Salvador (BA): acredito que essa denúncia merece investigação. A nossa imprensa não cobre conflitos de terra entre indígenas e fazendeiros – até quando?

***
A comunidade Pataxó Hãhãhãe tomou conhecimento de que o comandante que está conduzindo as operações da Policia Federal na Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu foi o mesmo policial que atirou na perna de um indígena da comunidade Tupinambá de Olivença. O indígena teve que se submeter a operação de amputação de sua perna em razão deste tiro. A operação da Policia Federal na área Tupinambá foi considera pelos indígenas e por todas as organizações indigenistas, assim como de direitos humanos, como abusiva e extremamente autoritária.

Recebemos também a notícia de que a Polícia Federal esteve agora pela tarde em uma das áreas recentemente ocupada da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, onde está instalada a “fazenda” Oriente, acompanhada do “dono” da “fazenda” e seus “funcionários” revistando as coisas dos indígenas sob alegação de que estavam buscando objetos roubados pelos indígenas. Chegaram à área dizendo que os indígenas haviam roubado os pertences dele (o fazendeiro). A polícia os acompanhando deixou o fazendeiro e seus “funcionários” à vontade para revirar as sacolas etc. dos indígenas. A Polícia Federal junto com o fazendeiro obrigaram a indígena Maria Souza Melo que estava na área a assinar um documento do qual ela não tinha nenhum conhecimento do conteúdo, em flagrante infração à lei.

A comunidade Pataxó Hãhãhãe está revoltada diante dos fatos narrados, e considerando que a operação da Policia Federal está criando mais insegurança para a comunidade e aumentando a violência contra os indígenas, solicia a imediata substituição dos policiais federais e de seu comandante.

Salvador, 03 de março de 2012

Samuel Wanderley e Olinda Muniz Wanderley
Correspondentes dos Pataxó Hãhãhãe em Salvador

Uma perdigota

Algumas pessoas acreditam que as denúncias gravadas nesse vídeo não passam de boato – um delírio coletivo numa situação de tragédia, nada mais nada menos do que isso. E pode ser que seja tudo mentira. Mas quem sou eu pra julgar que essas pessoas são mentirosas? Prefiro divulgar o vídeo e pedir apuração das denúncias. Prefiro ser vista como perdigota, como pessimista ou irresponsável a correr o risco de passar pra história como aquela que julgou e desqualificou sumariamente a voz de um ser humano que perdeu uma casa não num alagamento causado por chuvas ou fenômeno da natureza, mas de uma forma perfeitamente evitável. Perfeitamente evitável, essa miséria.

A história das coisas e Belo Monte

“E as pessoas que vivem aqui [no terceiro mundo]? Bem de acordo com estes sujeitos [as pessoas do primeiro mundo], eles [os do terceiro mundo] não são donos desses recursos mesmo que vivam lá há gerações. Não são donos dos meios de produção nem compram muitas coisas. Nesse sistema, quem não possui, nem compra muitas coisas, não tem valor”

Respeito muito quem acredita que a construção de uma hidrelétrica do porte da de Belo Monte é imprenscindível para o Brasil. Pessoas inteligentes vêm defendendo essa causa com números e argumentos técnicos. Tudo isso devidamente sustentado na crença de que o impacto na natureza é inevitável, só que dessa vez haverá compensações satisfatórias aos prejudicados imediatos dessa obra e os benefícios gerados para o país são maiores do que as perdas. Aceito de bom coração quem pensa assim. Acho que é uma postura pragmática, de quem consegue ver desenvolvimento sob a ótica do atual sistema econômico-financeiro mundial.

No entanto, peço licença para apresentar outro ponto de vista. E trouxe o vídeo “A história das coisas”, que eu considero uma importante referência e que traduz de forma didática meu atual modo de ver o mundo. É um vídeo que mostra um contexto mais amplo em que uma obra como a de Belo Monte se situa. Acredito que construir grandes hidrelétricas não é a única solução energética disponível para o Brasil. Aceitar esse projeto como único seria como desconsiderar  a diversidade do país, a quantidade enorme de estudos e técnicas que existem para se obter energia e seria, sobretudo, dizer que só é possível desenvolver o Brasil passando por cima daquelas pessoas que sempre viveram ali, mas não são donas dos meios de produção.

Podem me chamar de sonhadora, eu aceito. Porque é isso que eu sou. Eu vejo vídeos como “A história das coisas” e me identifico profundamente. Eu vejo o Brasil ali, cumprindo aquele papel de país de terceiro mundo que investe recursos na produção de coisas, e que coloca as pessoas em segundo, terceiro plano – o custo pessoas é externalizado, não aparece nas planilhas! Vejam a segunda parte do vídeo:

“É por isso que após o 11 de setembro, quando nosso país [no caso os EUA] estava em choque, o presidente Bush poderia ter sugerido fazer luto, rezar, ter esperança. Mas não: ele disse para fazermos compras, compras. Nos tornamos uma nação de consumidores. A nossa principal identidade passou a ser de consumidores, não mães, professores, agricultores, mas consumidores.”

Sonho com um Brasil que invista na criatividade de seus pesquisadores, que mantenha os laboratórios adequadamente equipados e que tenham condições de pensar o Brasil em longo prazo. Sonho com o dia em que os técnicos possam sentar pra discutir COM os ribeirinhos e índigenas sobre soluções viáveis que os incluam de fato. Porque chegar neles e falar ” a gente vai fazer uma hidrelétrica aqui, quanto é que vocês querem pra ir embora com um sorriso no rosto?” não me parece um jeito democrático de se trabalhar.  A falta de diálogo com as comunidades afetadas é gritante – veja o histórico de ações movidas pelo Ministério Público Federal para entender o tamanho do problema.

Sonho demais?

Para não dizerem por aí que vivo apenas de sonhos, tenho plena consciência dos obstáculos impostos pela realidade político-partidária do Brasil. Estou cansada de fazer de conta que o Sarney não tem nenhuma influência política fora do Maranhão. Gostaria muito de acreditar que o fato do partido dele tomar conta do ministério de Minas Energia é só mais um fato diante de tantos outros, e que não existe influência significativa dele na tomada de decisão em se fazer uma hidrelétrica como a de Belo Monte. Gostaria de acreditar que a nossa estrutura política partidária (sobretudo no quesito financiamento de campanha) não tenha nenhum peso na decisão de um governo na hora de se decidir investir em grandes construções no lugar de adotar soluções locais, de pequeno e médio porte, com uso de soluções criativas. Gostaria, mas minha vivência política me tornou desconfiada demais em relação a esses pontos.

Queria deixar uma pergunta pra vocês: e se não fosse o Sarney, e se no Brasil não tivesse minérios, e se nosso país não ocupasse o papel de exportador de bens de baixo valor agregado… Será que Belo Monte ainda seria a solução energética mais adequada de todos os tempos para a nossa população? Essa é a minha dúvida atual. Posso rever meus conceitos, mas já adianto que não abro mão de sonhar com um país que priorize as pessoas, que tenha uma perspectiva de desenvolvimento que não é só financeira, mas também cultural, ética e política.

Posts relacionados

Tudo o que eu ja li sobre Belo Monte e vale a pena compartilhar
https://amanditas.wordpress.com/2011/09/23/tudo-o-que-eu-ja-li-sobre-belo-monte-e-vale-a-pena-compartilhar/

Belo Monte: notas de um jornalismo deselegante
https://amanditas.wordpress.com/2011/11/19/belo-monte-notas-de-um-jornalismo-deselegante/

Atualização do dia 5 de dezembro de 2012
Na mesma linha desse post, ou seja, reivindicando um modelo que dialogue com ribeirinhos e indígenas, e que procure uma forma diferente de produzir coisas (uma política de desenvolvimento e geração de energia diferente da que está colocada pelo governo na construção de Belo Monte, enfim) temos também os seguintes links:

1. “Passamos há muito o limite da demagogia e andamos, atualmente, na via do deboche escancarado, esquina com cagamos pros direitos humanos” — Eletric Funeral –> http://godotnaovira.wordpress.com/2011/12/01/eletric-funeral/

2. “Não nos preocupamos com a natureza como se fôssemos exteriores a ela, somos natureza.”  — A natureza é mundo –> http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/12/a-natureza-e-mundo.html

3. Um biólogo falando sobre Belo Monte, em vídeo (já que estudantes e artistas podem fazer vídeos, então biólogos também podem!) –> http://www.youtube.com/watch?v=xnitmB22JtQ&feature=youtu.be

 

“A gente está descuidando um pouco da preciosidade do fato”

Caco Barcellos faz parte da minha vida desde a adolescência – se é que se pode tratar alguém assim, com essa intimidade que nasceu da leitura de um livro lido em 1998, ou no vestibular, não sei bem ao certo agora. A memória falha! Só sei que o Rota 66 foi um livro que me fez enxergar como era complexa a profissão que resolvi abraçar. Tenho pelo repórter Caco Barcellos uma admiração grande, pois ele consegue se destacar profissionalmente realizando um trabalho muito bonito, a despeito do ambiente nada acolhedor proporcionado pela Rede Globo.

Quando o blogueiro Eduardo Guimarães publicou um post falando de coisas interessantíssimas que o Caco Barcellos teria dito num programa jornalístico, eu logo procurei no youtube pra saber o que realmente havia falado aquele experiente repórter e em que contexto. Primeira pergunta que me ocorreu: como é que o Caco falou coisas tão polêmicas na Globo e não foi demitido na mesma hora? Depois eu fiquei me perguntando qual seria a tal militância política do Caco.

Foi com esse espírito que eu procurei o vídeo na internet, e percebi que só havia mesmo um trecho muito pequeno disponibilizado pela Globo. Liguei para a emissora, dizendo que precisava de uma cópia do programa na íntegra, para fins educativos  e a emissora me negou esse material. A Globo pediu para eu procurar uma empresa terceirizada parceira deles, que também se negou a atender o meu pedido. Recorri ao último recurso: procurei empresas que trabalham com “clipping” aqui em Brasília, e felizmente uma empresa conseguiu me atender. Foi assim que consegui obter o material que já está no youtube, dividido em 4 vídeos – clique para assistir primeira parte, segunda parte, terceira parte e trecho polêmico.

Foi com alegria que recebi o material: Caco Barcellos deu uma aula de jornalismo em praticamente todas as intervenções que fez no programa. Fez um relato sobre a marcha da corrupção que havia acabado de acontecer no Rio de Janeiro, chamando a atenção para a falta de protesto contra os corruptores. Também mencionou a presença de bombeiros, de moradores que não estavam recebendo a indenização por terem perdido casas nas enchentes, e outras demandas cotidianas. Ele deixou claro as limitações dele como repórter, se abstendo de responder coisas das quais ele não tinha conhecimento – explicou que estava na manifestação mais precoupado em saber porque as pessoas estavam ali.

As colocações são didáticas e diplomáticas. Não perdeu a linha em momento algum: foi bem educado ao falar sobre a Abraji e devolveu elegantemente uma pergunta para a sua colega Cantanhede. Adorei a forma como ele chamou a atenção para a importância dessa coisa que parece tão simples que é contar histórias: “A gente está descuidando um pouco da preciosidade do fato” – ele disse a certa altura do programa (veja no segundo vídeo, perto dos onze minutos). Achei libertador!

Há uma militância dentro da esquerda que precisa muito aprender a dar valor à preciosidade do fato. Sinto falta disso nas minhas leituras. Por exemplo: se numa manifestação social existem pessoas de x,y,z,w posicionamentos partidários, há sempre uma turma que tende a homogenizar essas diferenças – isto é, mesmo que elas existam de fato, elas são tratadas como uma coisa só. Parece uma bobagem, mas é a tal preciosidade do fato. Repórter bom vai pra rua e tenta identificar quais são aquelas pessoas, o que elas fazem ali, o que as motiva. O que eu vejo nas minhas leituras é gente enquadrando politicamente organizadores de marchas e depreendendo automaticamente o que aconteceu nas ruas a partir somente desse dado, sem precisar pisar numa marcha, sem verificar o que de fato aconteceu entre a intenção de quem organizou e as motivações de quem de fato saiu de casa e fez a marcha acontecer.

Há uma militância dentro da esquerda que é rápida em criticar o PIG (Partido da Imprensa Golpista) quando o método de certa camada da imprensa brasileira consiste em inventar aspas* para um entrevistado (como foi o caso da revista Veja quando fez matéria com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro). Uma parte considerável da imprensa de fato  merece esse puxão de orelha – eu mesma faço esse tipo de crítica de vez em quando, para elevar o nível do debate, para dizer que colocar palavras na boca de alguém é incaceitável num jornal. O que me incomoda é sentir que, quando precisamos fazer essa crítica para dentro da militância, entre os blogueiros, há uma demora grande em se reconhecer essas falhas (quando ocorre), que são avaliadas como uma mero detalhe,  uma coisa praticamente aceitável.

Quanto a mim, sigo acreditando que é possível fazer bom jornalismo de esquerda, sem medo de encarar a realidade das ruas, sem medo de lidar com as críticas e sem medo de enfrentar as contradições de ser uma militante de um partido de esquerda que hoje está no poder. Sigo acreditando que o apego aos fatos deveria ser mais valorizado entre militantes de qualquer partido de esquerda. Que os vídeos do Caco Barcelos sejam fontes de inspiração para aqueles que quiserem obter mais credibilidade na blogosfera.
*Aspas: em jornalismo, coloca-se uma frase entre aspas quando o repórter quer reproduzir ipsis litteris (literalmente) o que um entrevistado pronunciou. Interpretações devem ser colocadas de outras formas.

** Agradeço o apoio do professor Carlos Emilio e da jornalista Letícia Sallorenzo que me ajudaram a obter o vídeo do programa.