Movimentos sociais, imprensa e democracia

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Moro em Brasília desde 2004 – e posso dizer que essa cidade mudou a minha percepção política. De esquerda acho que sempre fui, mas não, eu não tinha a menor noção da quantidade de marchas e manifestos que correm quase que semanalmente na Esplanada dos Ministérios. Às vezes nem morando aqui a pessoa se dá conta disso, da efervescência que é a Esplanada e todos os manifestantes que por ali desfilam.

Além de ser jornalista, sou ativista: colaboro com movimentos feministas, LGBTs, causas indígenas e entre outros. Considero isso um dado importante da minha vida pois é “fazendo” o movimento que aprendo coisas que o jornalismo não ensina.

O tempo dos protestos, por exemplo. Nem sempre a imprensa explica para os leitores como é que nasce um protesto: como é que as pessoas se juntam, trocam ideias, se engajam, traçam uma estratégia, escolhem uma data para um protesto acontecer. É uma pena! Teríamos uma democracia mais fortalecida se a imprensa estivesse habituada a mostrar sistematicamente como os movimentos se formam, como as pessoas se engajam na política.

A formação dos movimentos é outro exemplo. A imprensa tem o hábito de procurar o líder dos movimentos – e ultimamente tem aparecido muito movimento horizontal, sem líder, autogestionado, sem grana de terceiros ou partido político para dar suporte. Isso poderia ser melhor abordado pela imprensa, mas por uma série de razões isso acaba ficando em segundo, terceiro plano. E isso poderia ser melhor explicitado pela imprensa – afinal, a forma de um grupo se organizar diz muito sobre as intenções políticas desse grupo.

Em resumo: a minha vida de ativista me faz ver a imprensa com outros olhos.

A imprensa colabora para a democracia quando retrata manifestantes como tais, ou seja, cidadãos descontentes com algum aspecto de sua vida social e política. Toda vez que ela faz isso, está cumprindo com seu papel de informar e fortalecer a cidadania, independentemente das questões partidárias.

Por outro lado, a imprensa pode atuar criminalizando os movimentos sociais, retratando os manifestantes como um vândalos, oferecendo uma desculpa ideológica para justificar ações policiais junto à opinião pública. Sim, a imprensa tem lado! E nas manifestações do Movimento Passe Livre todos puderam constatar a mudança de lado que ocorreu na imprensa – no começo houve uma demonização dos manifestantes, editoriais raivosos, jornalistas chamando ativistas de baderneiros. Depois o tom do discurso ficou mais ameno.

O que me interessa aqui é constatar que houve essa mudança, que o discurso da imprensa não é neutro, nem eterno. Existe lado, a imprensa pode ser questionada pelas pessoas e pode mudar de ideia, a depender da conjuntura política. Criticar a imprensa não é censura! Criticar a imprensa é um exercício democrático.

Por isso, se você está começando a querer se manifestar nas ruas agora, fica a dica: leia, se informe, se organize, conheça pessoas e instituições que tenham algum tipo de afinidade com você. Isso leva tempo! Não é da noite para o dia que se consegue mudar um país. Acredite! Muita gente tem tentado mudar as coisas, e as coisas mudam sim. Devagar e sempre, a imprensa noticiando ou não.

É importante se reunir e dialogar com as pessoas. Vá para rua sabendo que nem sempre suas reivindicações serão atendidas como num passe de mágica (raramente governantes atendem reivindicações de imediato). Vá para a rua sabendo que nem sempre a polícia vai te tratar bem. Vá para a rua sabendo que a imprensa tem lado – ela pode ouvir suas reivindicações com mais ou menos simpatia. Vá para a rua sabendo que tem gente que ocupa as ruas há mais tempo que você – converse com essas pessoas. Mesmo que elas tenham opiniões diferentes das suas, lembre-se que vocês têm uma coisa em comum: estão ocupando as ruas de um país democrático.

*Esse texto é um compartilhamento de experiências bem pessoais e está aberto a pitacos alheios (desde que educados, ok?). E faz parte da blogagem coletiva pela democracia –>

Histórias que teimam em brotar

Flor no asfalto
Flor no asfalto

Se a gente tirar do ser humano a capacidade de contar e de ouvir histórias, o que é que sobra? Contar e ouvir histórias é como organizar mentalmente nossos sentidos, como encontrar uma bússola no deserto das aparências. Alguns podem dizer que não gostam desse negócio de ficção que o negócio é vida real – mas ainda assim, a vida real a gente traduz é em história, é contando sucessos, angústias, falando da vida alheia, criando segredos.

Segredos. Que necessidade é essa que temos de colocar pedras (ou mesmo asfalto) sobre determinados assuntos? Como se o asfalto impedisse a terra de ser terra, a semente de ser semente, e a vida de procurar luz.

Daí que as verdades sempre vão brotar por esse mundo. Sempre. É com essa certeza que as pessoas vivem, é por essa certeza que as pessoas sobrevivem.

“Como eu já afirmei publicamente em outras ocasiões, durante muito tempo, no meu período de exílio, fui perseguido pelo fantasma das torturas. Depois de muito esforço consegui perdoar os torturadores e também os que me denunciaram. A partir daí os pesadelos desapareceram. Foi um processo terapêutico para mim, uma forma que encontrei de vencê-los. Já disse também que há situações em que o perdão é mais importante para quem perdoa do que para quem é perdoado. Mas isso, em minha opinião, só faz sentido no âmbito subjetivo, nas relações interpessoais. No âmbito político, essas pessoas têm que ser responsabilizadas judicialmente porque seus crimes não foram somente contra os presos políticos individualmente, mas principalmente contra a sociedade brasileira. E a sociedade tem o direito e a obrigação de responsabilizá-los judicialmente.” – Anivaldo Padilha

As verdades vão continuar brotando aqui e ali. Resta saber quando é que o Estado brasileiro vai continuar se prestando a esse papel desumano de tentar escondê-las.

Este texto faz parte da VII Blogagem Coletiva do #desarquivandoBR

O Mundo Amanhã – comunista x sionista

O intelectual superstar Slavoj Žižek é conhecido por suas contribuições à teoria da psicanálise, à crítica cultural e à política, na qual sempre se engajou para além das discussões acadêmicas – ele foi candidato à presidência da Eslovênia nos anos 90. Cultuado pela jovem vanguarda intelectual europeia, esse notório provocador se define como leninista mas também como lacaniano. Já David Horowitz é um soldado linha dura do pensamento conservador americano – e um sionista sem o menor pudor. Nos anos 60 e 70, foi uma liderança de esquerda na cidade californiana de Berkeley. Depois de colaborar com os Panteras Negras, começou seu caminho sem volta para a direita. Hoje, seu instituto faz campanhas contra influências islâmicas e de esquerda na mídia, na academia e na política.

Este encontro entre mentes tão diferentes é, no mínimo, acalorado. “Você é um apoiador da coisa mais próxima que temos do nazismo”, diz Horowitz. “Você apoia os palestinos. Eu não vejo como diferenciar os palestinos, que querem matar os judeus, dos nazistas”.

Irritado, o esloveno dispara: “Desculpe, você já foi à Cisjordânia?”.

Em alguns momentos, Assange tem que segurar o exaltado Žižek, embora seu adversário esteja em outro continente.

“Nós, totalitários das antigas, deveríamos, nos juntar  e nos livrar deste liberal aqui!” brinca Žižek para Horowitz, referindo-se a Assange.

O tom da conversa varia entre o antagônico e o bem humorado; os três falam de personalidades que vão de Stalin a Obama, do conflito entre Israel e Palestina, do desejo da liberdade ao Estado de vigilância,– passando, é claro, pelo trabalho o WikiLeaks, considerado “perigoso” por Horowitz.

No final, Žižek conclui: “Isso foi uma loucura!”.

Clique aqui para baixar a entrevista completa.

O Mundo Amanhã: Julian Assange entrevista Sayyed Hassan Nasrallah (ep.1)

O Mundo Amanhã: Julian Assange entrevista líderes políticos e ativistas
Julian Assange – O Mundo Amanhã

Inaugurando a nova fase desse blog, vou publicar, em parceria com a Agência Pública, a série de entrevistas “O Mundo Amanhã”, realizada pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia. São 12 episódios: o combinado é publicar semanalmente às quartas-feiras, 18 horas, a partir do dia 3 de outubro (hoje!). Sim, eu vou tratar de cumprir o combinado! Cada episódio tem cerca de meia hora de duração.

Na série,  o fundador do Wikileaks Julian Assange vai entrevistar pensadores e líderes políticos em busca de ideias que podem mudar o mundo. No primeiro episódio, Assange entrevista o líder do Hezbollah Sayyed Hassan Nasrallah. Nos demais episódios teremos Noam Chomsky, Tariq Ali, , Moncef Marzouki e Rafael Correa. Aguardem o link com o vídeo para a entrevista, pois só poderei divulgar a partir das 18h.

Tudo o que você queria saber sobre corrupção e vai continuar sem saber

Em tese todo mundo é contra a corrupção nem que seja pra ser simpático, ganhar votos, parecer uma pessoa bacana…. E se todo mundo é contra a corrupção, todo mundo sabe o que é corrupção. Certo?

Errado. Para o Fantástico, ninguém sabe o que o corrupção.

Então vamos analisar o texto do site da Globo que trata do Fantástico de um domingo qualquer:

“Licitações com cartas marcadas, negociatas, combinações indecorosas de suborno, propinas, truques para escapar da fiscalização. Certamente, você já ouviu falar muito de corrupção. Mas hoje você vai conhecer a cara dela. E do jeito mais deslavado”.

Veja bem: você sempre ouviu falar de corrupção e agora, UAU, você vai conhecer A CARA da corrupção. Sim. A corrupção tem UMA CARA! Eu pensei que fossem várias caras, vários tipos de corrupção, mas agora sei que corrupção tem uma cara e que, puxa, eu preciso conhecer essa cara! Afinal… Pelas palavras do Fantástico:

“Entre quatro paredes, o que a gente paga em impostos e que deveria ser destinado à saúde, à educação e outros serviços vai parar no bolso de empresários inescrupulosos e funcionários públicos corruptos. Uma vergonha”.

Olhem a sutileza da redação: o seu trabalho é pagar imposto. Quer dizer, monitorar, cobrar, sugerir mecanismos de participação e transparência, pensar (!), reivindicar ou qualquer coisa parecida já é sofisticado demais pra você, cidadão de bem afinal tu é homer simpson ou é rebelde/comunista/petralha. Outra sutileza: os empresários  são inescrupulosos,  funcionários públicos são corruptos. É sutil. Pode parecer uma bobagem, mas… Vamos acompanhar o restante do texto, que bate na tecla da “novidade”.

“O Fantástico mostra agora o mundo da propina, da fraude, da corrupção. De um jeito como você nunca viu. E vale a pena você ver: É o seu dinheiro que eles estão roubando. ”

É o voyerismo da informação: não basta você saber pelo portal do TCU, pelo Ministério Público, pela Polícia Federal ou o que seja.Você precisa de uma câmera escondida pra ver a cara da corrupção. Afinal, só a TV pode mostrar a corrupção, nenhum outro órgão ou entidade tem credibilidade pra ver esse problema e combatê-lo!

Daí você lê mais um pouco e descobre que na verdade não existe notícia! Explico:  o repórter em questão não “descobriu” possíveis corruptos, mas sim escolheu quatro empresas, sendo que três delas já eram investigadas pelo Ministério Público, por diferentes irregularidades. Em bom português: que denúncia é essa que o Fantástico está fazendo, que até o Ministério Público já está apurando? Como andam essas apurações? O que o Ministério Público tem de concreto e já pode divulgar pra imprensa sem prejudicar sua própria investigação?

É claro que o Fantástico não explicou nada disso, afinal… A pauta não era “as empresas investigadas pelo Ministério Público”, a pauta era “vamos brincar de mostrar a corrupção?”. Quer dizer você tem uma puta pauta matéria super relevante pra fazer, investigar os meandros das investigações que cercam os crimes relacionados à corrupção e tal, mas isso tudo é deixado de lado pra satisfazer a platéia.

Daí que o Fantástico conseguiu filmar a(s) cara (s) da corrupção! UAU! E o circo estava pronto, com as caras dos “empresários safados” e  a declaração de uma fonte da CGU:

“Existe uma noção pré-concebida contra o funcionário público, que ele é o mau, ele é o corrompível. Enquanto que o empresário, o setor privado, é puro, é eficiente, é eficaz. Associada à noção de que a empresa tem que entrar nesse jogo, porque senão ela não leva vantagem porque as outras vão fazer. Isso distorce o mercado, distorce a competição e no longo prazo prejudica todo mundo”

Sério, Fantástico? Cêjura? Engraçado, quer dizer que precisa de um cara da CGU pra chegar a essa brilhante conclusão?

Mas o Fantástico é o show da vida, a matéria não podia terminar com esse incrível chavão, tinha que ter uma gracinha:

“Eles [os corruptos] não sabiam que estavam sendo filmados. Mas sabiam bem o que estavam fazendo.”

Moral da história: se não é a Globo pra mostrar pra gente o que é corrupção a gente nunca saberia o que é isso, não é verdade?!?

Quer dizer, a reportagem acabou e você se sente bem informado pois tudo o que você já sabia sobre corrupção se confirmou: a reportagem apenas reiterou uma série de clichês mais ou menos disseminados na população sem apresentar nada de novo do que você já está careca de saber.

Questões que a Globo não aborda – e que poderiam ser exploradas:

– Como os órgãos/instituições/instâncias lidam com denúncias de corrupção? Há eficiência desses órgãos? Como ela é mensurada?
– Que riscos correm as pessoas que denunciam determinados tipos de corrupção?
– Quantas pessoas já foram presas por crimes relacionados à corrupção?
– Como eu faço pra saber quanto de recurso um hospital público recebeu e quanto ele está gastando? Quais dados são abertos, quais são fechados?
– Qual o papel do Ministério Público? Ele está investigando as empresas que foram apontadas na matéria como corruptas, mas como está investigando? Quem denunciou?
– Qual o papel da Polícia Federal? Qual é a dificuldade em se obter dados de crime de colarinho branco no Brasil?
– Qual o papel dos movimentos sociais organizados que lutam para combater os diversos tipos de corrupção ou pra criar mecanismos dêem mais transparência ao uso dos recursos públicos?

Enfim, o Fantástico acha que está informando. E eu não duvido que muita gente termine de assistir à matéria e se sinta plenamente informado com aquilo.

Mas eu acho que Fantástico está, na verdade, deseducando: porque a pessoa tem a sensação de que está informada quando na verdade não está. E isso é mais perigoso do que se supõe! Reiterar lugares-comuns não faz pensar, não mobiliza, não envolve a sociedade, não promove mudanças.

É possível que o Fantástico tenha conseguido a proeza de conscientizar alguém que sempre achou que empresário é santo e funcionário público é que é sempre corrupto… É possível.

Mas será que essa foi a única coisa que se salvou na reportagem inteira, de vários minutos? A única coisa que precisava ser dita sobre corrupção era isso “empresários também corrompem”?

Ok. Desculpem meu desabafo, talvez eu seja mesmo uma criatura muito estressada.

Mês da mulher

Neste mês de março quero registrar algumas coisas sobre a temática da mulher. A primeira delas é que estou lendo um livro fantástico da Ivone Gebara: “Vulnerabilidade, justiça e feminismos“. É uma coletânea de textos com a qual estou me identificando plenamente e que eu só sinto por não ter tido acesso antes. É motivo de felicidade saber que temos uma teóloga feminista tão fantástica entre nós! Um trecho sobre o que ela fala sobre o pluralismo:

Hoje, por isso e por outras razões, estamos sem referências unificadoras ou referências capazes de fazer uma unidade mínima para uma convivência mais ou menos decente entre os diferentes grupos e pessoas. É esta a questão central do pluralismo. Hoje tomamos consciência, mais uma vez e de forma crítica, de que somos plurais e de que nesse pluralismo estaria a razão de nossas discórdias, mesmo se concordamos que esse pluralismo é igualmente a razão de nossa riqueza. Descobrimos que nos falta uma ética comum que possa nos ajudar a renegociar nossa convivência, que nos falta um modus vivendi mais respeitoso de nossos direitos e aspirações. Falta-nos redescobrir caminhos de convivência com o “próximo” e redescobri-lo na sua integridade e originalidade.

Em segundo lugar, gostaria de registrar que publiquei no portal Blogueiras Feministas uma entrevista com a Olívia Muniz Wanderley, uma indígena Pataxó Hãhãhãe que está denunciando ameaças de estupro na comunidade dela que fica no sul da Bahia. É muito triste que situações como essa ainda aconteçam em regiões de conflito em nosso país. Mais lamentável ainda saber que há uma pendência legal rolando há 20, 30 anos (já nem sei contar mais…) e que talvez os senhores juízes e demais autoridades pouco se impotem com as conseqüências da lentidão desse processo.

Em terceiro lugar gostaria de registrar que é muito difícil falar sobre o dia internacional da mulher (que já passou, foi no dia 8 de março, eu sei…;-P) porque há sim, muita coisa pra comemorar: o fato de eu estar aqui escrevendo foi uma conquista de mulheres muito guerreiras que vieram antes de mim (é sempre bom lembrar que se hoje nós mulheres temos algum resquício de eqüidade ela não caiu do céu, como querem algumas pessoas), o voto da mulher, a mulher presidenta e talz tudo isso é ótimo. Mas aqui no Brasil ainda estamos sendo mal remuneradas (mulheres nas mesmas funções de homens estão recebendo salário inferior), violentadas (mês passado os jornais registraram estupro coletivo, nete mês o caso escandoloso da vez foi o estupro de uma senhora de 72 anos) e sofrendo uma série de preconceitos que só fazem piorar uma situação que já é delicada.

Cada vez mais tendo a acreditar que nós precisamos de uma revolução no campo das ideias: é preciso uma educação que possa desconstruir o machismo que ainda permeia nossas relações. É preciso que exista uma educação para que as pessoas possam repensar suas atitudes, sua própria cultura, seus valores. É preciso discutir piadas sexistas, livros sexistas, programas de televião sexistas, publicidades sexistas e todas as expressões que sustentam o machismo, esse monstro que não escolhe raça, cor, credo, sexo (sim, existem mulheres machistas, infelizmente) situação financeira ou intelctual, e que leva a mulher a uma situação de inferioridade na esfera pública e privada.

Mas tudo isso são palpites. Posso mudar de ideia.

Lançamento do livro “Por trás da notícia”

Anotem na agenda: o lançamento do livro Por trás da notícia (Summus Editorial), do jornalista Edson Flosi, acontece no dia 13 de março, terça-feira, a partir das 19h, na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista, 509, tel. 0/xx/11/2167-9900. A obra reúne 15 grandes reportagens escritas entre 1968 e 1980, parte delas publicadas na Folha de São Paulo. O professor Edson Flosi dava aulas memoráveis na Faculdade Cásper Líbero – só vim descobrir muito depois a real dimensão das coisas que ele ensinava. O jornalista Claudio Julio Tognolli descreveu Edson Flosi da seguinte forma:

“Quando a ditadura comia solta, sobretudo a partir de 1968, Flosi aprimorou uma técnica marota de avisar aos guerrilheiros urbanos de que eram procurados. Estampava no jornal suas fotos, com a legenda tamanho de pescoços de garrafa de champanhe, gritando “Procurados”. Obvio que a maioria dos insurrectos vermelhos via o jornal e dava no pinote. O estratagema logo foi descoberto pelos homens de verde. Talvez por ser tão assim intimorato, sem medo de nada, Flosi fez-se o jornalista policial mais admirado pelo finado Claudio Abramo. Boa parte de sua vida ele reportou para a Folha de S. Paulo. Até que, em 1990, acometeu-lhe uma síndrome de Teresa Batista Cansada de Guerra. Não alterou um milímetro o seu jeito de ser, só que agora queria ser advogado. O dia D foi uma conversa que travou com o repórter Fausto Macedo, numa praça na zona norte de São Paulo, no começo dos anos 90. “Olhei para o Fausto, ele para mim. Chegamos à conclusão que, das milhares de reportagens, que fizemos contra corruptos, no meu caso por 30 anos, nenhuma havia dado algum resultado. Percebi que, em termos de combate à corrupção, o Brasil era um país falido”.

Ler o livro do Flosi é conhecer uma importante passagem da história da nossa imprensa e também uma oportunidade de resgatar as boas inspirações que ainda movem alguns jornalistas, apesar da hostilidade das modernas redações. 😉

Capa do livro Por trás da notícia