Histórias que teimam em brotar

Flor no asfalto
Flor no asfalto

Se a gente tirar do ser humano a capacidade de contar e de ouvir histórias, o que é que sobra? Contar e ouvir histórias é como organizar mentalmente nossos sentidos, como encontrar uma bússola no deserto das aparências. Alguns podem dizer que não gostam desse negócio de ficção que o negócio é vida real – mas ainda assim, a vida real a gente traduz é em história, é contando sucessos, angústias, falando da vida alheia, criando segredos.

Segredos. Que necessidade é essa que temos de colocar pedras (ou mesmo asfalto) sobre determinados assuntos? Como se o asfalto impedisse a terra de ser terra, a semente de ser semente, e a vida de procurar luz.

Daí que as verdades sempre vão brotar por esse mundo. Sempre. É com essa certeza que as pessoas vivem, é por essa certeza que as pessoas sobrevivem.

“Como eu já afirmei publicamente em outras ocasiões, durante muito tempo, no meu período de exílio, fui perseguido pelo fantasma das torturas. Depois de muito esforço consegui perdoar os torturadores e também os que me denunciaram. A partir daí os pesadelos desapareceram. Foi um processo terapêutico para mim, uma forma que encontrei de vencê-los. Já disse também que há situações em que o perdão é mais importante para quem perdoa do que para quem é perdoado. Mas isso, em minha opinião, só faz sentido no âmbito subjetivo, nas relações interpessoais. No âmbito político, essas pessoas têm que ser responsabilizadas judicialmente porque seus crimes não foram somente contra os presos políticos individualmente, mas principalmente contra a sociedade brasileira. E a sociedade tem o direito e a obrigação de responsabilizá-los judicialmente.” – Anivaldo Padilha

As verdades vão continuar brotando aqui e ali. Resta saber quando é que o Estado brasileiro vai continuar se prestando a esse papel desumano de tentar escondê-las.

Este texto faz parte da VII Blogagem Coletiva do #desarquivandoBR

Anúncios

Mês da mulher

Neste mês de março quero registrar algumas coisas sobre a temática da mulher. A primeira delas é que estou lendo um livro fantástico da Ivone Gebara: “Vulnerabilidade, justiça e feminismos“. É uma coletânea de textos com a qual estou me identificando plenamente e que eu só sinto por não ter tido acesso antes. É motivo de felicidade saber que temos uma teóloga feminista tão fantástica entre nós! Um trecho sobre o que ela fala sobre o pluralismo:

Hoje, por isso e por outras razões, estamos sem referências unificadoras ou referências capazes de fazer uma unidade mínima para uma convivência mais ou menos decente entre os diferentes grupos e pessoas. É esta a questão central do pluralismo. Hoje tomamos consciência, mais uma vez e de forma crítica, de que somos plurais e de que nesse pluralismo estaria a razão de nossas discórdias, mesmo se concordamos que esse pluralismo é igualmente a razão de nossa riqueza. Descobrimos que nos falta uma ética comum que possa nos ajudar a renegociar nossa convivência, que nos falta um modus vivendi mais respeitoso de nossos direitos e aspirações. Falta-nos redescobrir caminhos de convivência com o “próximo” e redescobri-lo na sua integridade e originalidade.

Em segundo lugar, gostaria de registrar que publiquei no portal Blogueiras Feministas uma entrevista com a Olívia Muniz Wanderley, uma indígena Pataxó Hãhãhãe que está denunciando ameaças de estupro na comunidade dela que fica no sul da Bahia. É muito triste que situações como essa ainda aconteçam em regiões de conflito em nosso país. Mais lamentável ainda saber que há uma pendência legal rolando há 20, 30 anos (já nem sei contar mais…) e que talvez os senhores juízes e demais autoridades pouco se impotem com as conseqüências da lentidão desse processo.

Em terceiro lugar gostaria de registrar que é muito difícil falar sobre o dia internacional da mulher (que já passou, foi no dia 8 de março, eu sei…;-P) porque há sim, muita coisa pra comemorar: o fato de eu estar aqui escrevendo foi uma conquista de mulheres muito guerreiras que vieram antes de mim (é sempre bom lembrar que se hoje nós mulheres temos algum resquício de eqüidade ela não caiu do céu, como querem algumas pessoas), o voto da mulher, a mulher presidenta e talz tudo isso é ótimo. Mas aqui no Brasil ainda estamos sendo mal remuneradas (mulheres nas mesmas funções de homens estão recebendo salário inferior), violentadas (mês passado os jornais registraram estupro coletivo, nete mês o caso escandoloso da vez foi o estupro de uma senhora de 72 anos) e sofrendo uma série de preconceitos que só fazem piorar uma situação que já é delicada.

Cada vez mais tendo a acreditar que nós precisamos de uma revolução no campo das ideias: é preciso uma educação que possa desconstruir o machismo que ainda permeia nossas relações. É preciso que exista uma educação para que as pessoas possam repensar suas atitudes, sua própria cultura, seus valores. É preciso discutir piadas sexistas, livros sexistas, programas de televião sexistas, publicidades sexistas e todas as expressões que sustentam o machismo, esse monstro que não escolhe raça, cor, credo, sexo (sim, existem mulheres machistas, infelizmente) situação financeira ou intelctual, e que leva a mulher a uma situação de inferioridade na esfera pública e privada.

Mas tudo isso são palpites. Posso mudar de ideia.

A vergonha é de quem comete o estupro!

Isabela e Michele

Isabela Pajussara Frazão Monteiro (27 anos) e Michele Domingues da Silva (29 anos) foram estupradas e mortas num crime terrivelmente bárbaro (não consigo classificar de outra forma): foram vítimas de um estupro coletivo oferecido como presente de aniversário de um irmão para o outro. Os dois irmãos que organizaram o evento teriam simulado um assalto, com a ajuda de outros homens, para violentar as mulheres convidadas, usando capuzes e máscaras de carnaval. Seis mulheres foram agredidas e estupradas.

A notícia me deixou muito angustiada. Na verdade, no momento em que eu li a notícia eu não consegui pensar em nada – só me deu vontade de vomitar. Passado o choque inicial, a notícia chamou a minha atenção pelos seguintes fatores:

1. Os estupradores eram “amigos” das vítimas – o que desmitifica aquela história de que só maníacos desconhecidos atacam mulheres nas ruas, num beco, num local de pouca circulação

2. Os estupradores planejaram o estupro, ou seja: vários homens premeditaram o ato. Cai por terra aquela velha desculpa
esfarrapada de que homem só comete estupro porque não consegue conter um impulso sexual “provocado” por alguma atitude/comportamento da vítima.

3. O fato de um “estupro” ser percebido não por um, mas por vários homens, como um “presente” de aniversário – em algum lugar da nossa cultura machista mora a ideia de que o “estupro” é uma espécie de brincadeira, uma contravenção, é como jogar ovo e farinha num aniversariante, é banalizado e entendido como uma atitude bem humorada.

4. A imprensa fez uma cobertura muito fraca sobre o caso, o que me espanta pois é uma história de alto interesse jornalístico para se debater políticas públicas de proteção às mulheres. É o momento ideal para que jornalistas pudessem entrevistar mulheres, sociólogxs, criminalistas, psicólogxs e, enfim, tirar o tema do sensacionalismo lugar-comum e propor ações coletiva de enfrentamento à essa violência tão cruel contra a mulher que é o estupro.

Um passeio pelos portais de notícias brasileiros nos dá a ideia de como as pessoas entendem o estupro: há uma parcela da sociedade que clama simplesmente pela pena de morte para os estupradores – mesmo sabendo que não existe pena de morte na nossa legislação. Há outra parcela que insiste em colocar a culpa na própria mulher, ora questionando as companhias que ela escolhe, ora questionando o tamanho da saia, o tipo da roupa, o local que ela frequenta, etc. Poucos ousam sair desses extremos – poucos procuram entender melhor o problema, saber mais sobre o assunto para melhor lidarem com ele.

Há uma ignorância coletiva que em nada contribui para a transformação da realidade. Afinal, o que podemos fazer para evitar os estupros? Como criar uma sociedade em que homens respeitem as mulheres?

Como evitar?
Não, eu não tenho todas as respostas e acredito que ninguém sozinho as tenha. Também não posso me dar ao luxo de testemunhar esse problema e me esconder nas cavernas. Tenho alguns palpites que gostaria de compartilhar.

Por ter ouvido e lido muitas histórias de mulheres que sofreram abusos sexuais, sei que há um fator de fragilidade que atinge a todas nós, mulheres: é a vergonha. Mesmo para uma mulher madura ciente de seus direitos denunciar um estupro é um ato de coragem, na nossa cultura. O grande número de mensagens nas caixas de comentários dos portais de notícias culpabilizando a mulher pela violência que ela sofreu são indícios de que infelizmente há uma corrente forte de pessoas que compactuam com esse comportamento machista.

Por isso, se eu fosse iniciar qualquer campanha nas escolas, nas igrejas, nos bares, nos teatros, na televisão, nos programas de humor, eu diria o seguinte: a vergonha é toda deles, que cometem o estupro! Cometer estupro é um ato que deveria envergonhar todos os homens, toda a humanidade. Cometer estupro é um ato extremamente covarde e assim deve ser repudiado.

A gente precisa começar a inverter essa lógica da nossa cultura que culpabiliza mulheres pelos estupros que sofrem. A mulher não tem culpa de ser mulher, de ser mulher e andar na rua, de ser mulher  e usar saia curta, de ser mulher e participar de uma festa! Homem que estupra é que é responsável por cometer estupro, ele é que precisa abrir mão do comportamento violento dele. A mulher não deve abrir mão de ser livre!

Essa é a minha pequena contribuição para a blogagem coletiva em repúdio ao caso de estupro e assassinato como presente de aniversário. Espero poder ler mais gente falado sobre o tema bem como participar de ações que possam reduzir ou quem sabe erradicar o problema do estupro em nossa sociedade.

Rosângela Santos: atleta, negra, medalhista e… patinho feio (?!?)

Rosângela Santos
Rosângela Santos

Neste ano, o portal UOL colocou na sua home page a foto da atleta negra Rosângela Santos que conquistou medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de Guadalajara.  O texto da legenda era “Pan: patinhos feios salvam Brasil com ouros inesperados”, e um link para a reportagem: Patinhos feios salvam o dia do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. A legenda da foto causou indignação entre os internautas – até hoje os comentários estão disponíveis, questionando inclusive o motivo do portal ter mudado a chamada da matéria repentinamente, sem dar explicações aos leitores.

Acredito que o preconceito não foi intencional – a matéria oferece indícios suficientes para entendermos outros sentidos para o texto da chamada. No entanto, a chamada infeliz foi suficiente para atingir os leitores, que estão a cada dia mais atentos aos sinais de racismo que possam aparecer, mesmo que involuntariamente, nos textos jornalísticos.

Esse episódio nos faz pensar sobre algumas coisas: primeiro, como a imprensa retrata as mulheres negras na mídia – será que Rosângela Santos não merecia uma notícia mais bem escrita para guardar de recordação sobre sua carreira? Fiquei imaginando a atleta, depois de conquistar uma medalha de ouro e talvez o melhor tempo de sua vida, ainda ter a sua história contada sob a perspectiva negativa, de um patinho feio. É com essa disposição que a gente conta a história dessas mulheres? Da onde vem essa má vontade? Para a nossa sorte, os jornalistas hoje podem contar com cursos sobre gênero, raça e etnia, ou seja, existem alternativas para quem quer se aperfeiçoar e errar menos.

Em segundo lugar,  nos faz pensar em como a internet está conseguindo causar mudanças antes nunca imaginadas. Os leitores reclamaram na caixa de comentários da matéria e rapidamente os editores do UOL tiveram que modificar a chamada. Nos velhos tempos de jornal impresso, nunca saberíamos quantos leitores reclamariam de um texto com índicios racistas e se os jornalistas estariam dispostos a mudar de atitude diante dessa reivindicação.

A blogueira Lola Aronovich escreveu um artigo mais aprofundado falando sobre esse racismo velado, que vem disfarçado de “feio”. Destaco esse trecho aqui:  “Poucas pessoas assumem que foram e continuam sendo condicionadas a achar que o belo é ter olho claro, cabelo liso e de preferência loiro, traços “finos”, e pele branca com um pouco de bronzeado. A galera que acha sexy os lábios carnudos da Angelina Jolie parece achar horríveis os lábios carnudos de tantos negros. Mas essa gente nunca assume seu racismo. Diz apenas que é uma total coincidência não gostar de negros”.

Dia 20 de novembro é o Dia da Consciência Negra – é dia de pensar no racismo que está escondido dentro de nós, no nosso inconsciente, e que precisa ser desconstruído cotidianamente. Aproveito para parabenizar a nossa atleta Rosângela Santos, que merece uma brilhante comemoração pelo excelente resultado conquistado nos Jogos Panamericanos de Guadalajara. Rosângela, nós temos muito orgulho de você!

* Esse texto faz parte da blogagem coletiva do portal www.blogueirasfeministas.com – leia também os outros posts que também participaram dessa chamada

E o desejo de ser mãe, onde fica?

Sou mãe de uma menina linda, querida, desejada, amada. A maternidade tem me tornado cada vez mais feminista pois, longe de ser uma idealização, ser mãe é um ato político.  Não se é mãe sozinha: se é mãe dentro de um contexto social que inclui creche/babá/escola, horários flexíveis no trabalho, tempo para levar a criança ao médico, tomar vacina, passear, conviver com outras crianças. E se a gente olhar friamente para a nossa sociedade, ela é muito cruel para com mães e crianças, mesmo aquelas financeiramente privilegiadas. As cobranças de sucesso são grandes, o individualismo é a regra e os incentivos são mínimos.

Mesmo assim escolhi ser mãe: quis trazer para o mundo uma criança, seguindo o meu desejo de criar um ser humano, por mais que isso soe uma ousadia. Trouxe porque acredito no amor e na vontade de ser feliz. Acredito que ser mãe é um risco diário de se decepionar, se trair, errar – e também o risco de ter frágeis momentos de felicidade e completude. Corro o risco diário de ser recompensada com o sorriso de uma criança no meio de um dia derrotado, em que todo o planejamento foi por água abaixo e você só queria deitar e dormir. Daí você percebe  que aquela gargalhadinha é uma versão deliciosa de um travesseiro que você nunca sonhou que pudesse existir.

Sei que pareço estar divagando, caindo em contradição com o que foi escrito no primeiro parágrafo. Mas saiba você, leitor (a), que essa fofurice toda nasce da vontade. Nasce do desejo genuíno de ser mãe para o que der e vier. Para acordar de madrugada é o mínimo – eu me preparo até para o pior dos pesadelos de uma mãe de primeira viagem que tem bebê em casa: para o caso de minha filha adoecer gravemente ou sofrer algum acidente.

Falo tudo isso para lembrar que o debate sobre o aborto precisa passar por uma séria reflexão do que significa a maternidade e o desejo de ser mãe. Como é que a sociedade tem preparado as nossas mulheres para isso? Será que nós, mulheres, estamos recebendo o suporte necessário? Nem me refiro a questão financeira, que também é importante, mas em relação ao psíquico: será que a sociedade está despertando o desejo de ser mãe nas mulheres ou estamos enlouquecendo a mulherada com tantas obrigações?

Tem gente que acha que proibir o aborto é uma forma de conseguir transformar uma mulher em mãe. Bizarro, não?! Como se ser mãe fosse expiar alguma “culpa”  derivada de sexo inseguro, de uma incompetência por não saber tomar uma pílula ou não saber cobrar do homem o uso da camisinha ou coisa que o valha. Estão conseguindo transformar a maternidade em culpa, em desgosto, em castigo, e não na causa amorosa que deveria ser.

Até quando a sociedade vai encarar a maternidade como uma culpa a ser expiada, e não como uma vontade genuína de se criar um ser humano com amor e generosidade? Será que é mantendo uma lei que proíbe o aborto que a sociedade vai conseguir transformar em mãe um a mulher que não deseja ser mãe?!

Em tempo [1]
Não, eu não acho que o aborto é a única solução para o problema das mulheres que não querem ser mães. Mas acho que o tabu e o conservadorismo que povoam esse assunto estão impedindo, por exemplo, que as mulheres sejam decentemente atendidas nos hospitais. E como bem lembrou o Dr. Drauzio Varella, “Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente”. Também acredito que descriminalizar o aborto e legalizar a prática é uma forma de monitorá-lo, de conversar mais com essas mulheres, de saber o que está acontecendo, de efetivamente ajudar a reduzir mortes de mulheres jovens e pobres por esse Brasil.

Em tempo [2]
O tabu e o conservadorismo também são responsáveis pelo comodismo que perpassa as políticas públicas voltadas para as mulheres, as mães e as crianças. Em todos os lados se pensa a mulher como uma missionária, que deve arcar com milhões de responsabilidades e sem receber nenhum apoio moral, financeiro ou que o valha. As profissões tidas como femininas têm as menores remunerações, a jornada de trabalho de homens e de mulheres não permite que exista uma convivência maior entre pais e filhos, as creches públicas são raras, o orçamento para educação é ínfimo, o orçamento para combater violência doméstica contra mulheres é pequeno, as mulheres recebem menos quando executam os mesmos trabalhos dos homens e assim caminha nossa agenda pública. Como proibir o aborto não vem surtindo resultado, convido todos os religiosos a apoiarem as causas das mulheres se eles desejarem de fato dar mais suporte à maternidade. 😉

*Hoje é dia 28 de setembro,  dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Esse post faz parte da blogagem coletiva organizada pelo site www.blogueirasfeministas.com

Receita: kibe de berinjela

Faz tempo que quero postar receitas. Mas essa vida de mãe, trabalhadora e ativista tem me deixado sem tempo! E eu adoro descorbrir receitas gostosas, leves, práticas e saudáveis. Ok, nem sempre a gente consegue reunir todas essas qualidades num único prato. O fato é que eu adoro comer bem, e fico muito feliz quando posso compartilhar receitas gostosas para o dia-a-dia.

Sempre gostei de comidas árabes. Depois que parei de comer carne, fiquei um tempo sem comer kibe (no geral esse prato é feito com carne moída). Daí que nessas andanças eu descobri que é possível fazer um bom kibe… de berinjela! E por incrível que pareça é uma receita vegana! Bom demais, hein? Anote os ingredientes e vamos pra cozinha!

Kibe assado de berinjela

Ingredientes

1 xícara de trigo pra kibe
2 berinjelas médias ou 3 pequenas ou uma bem grandona
1 xícara de nozes (ou a castanha de sua preferência) picadas grosseiramente
1 xícara do tempero fresco de sua preferência (salsinha, cebolinha, hortelã ou coentro – pode escolher uma erva ou misturar as que você achar melhor)
1 cebola média
Sal, pimenta síria, pimenta do reino, noz moscada a gosto
Azeite a gosto para refogar

Modo de preparo

Primeiro hidrate o trigo pra Kibe com água filtrada fria – deixe de um dia para o outro, de preferência. Pela manhã, deixe o trigo hidratado escorrer lentamente numa peneira. Dizem os sábios que assim o trigo fica mais fácil de ser trabalhado, inclusive se você mudar de ideia e resolver fazer um tabule. Eu já acelerei o processo de hidratação com água morna, mas o kibe fica meio molenga, enfim, vai do seu tempo e da sua vontade de comer kibe. Não desista! Reserve o trigo hidratado e vá para a berinjela.

Lave bem a berinjela e corte em cubinhos. Aproveite que você está com a faca na mão e já corte a cebola e as ervas. Adoro cebolinha e salsinha! Geralmente uso essas duas para esse prato. Tem gente que usa hortelã. Tem gente que usa coentro. Mas enfim, vai do gosto de cada um. Corte a cebola em quadradinhos, mas se tiver sem muita paciência corta no meio e faça meia-luas com cada uma das metades. Aproveite para picar as nozes: minha sugestão é pegar um pano de prato limpo, colocar as nozes lá dentro e bater com um objeto pesado (pode ser um martelo de carne, por exemplo). Só não vá se empolgar porque, né, você não quer uma farinha de nozes, você quer nozes em pedaços que possam ser identificados ao chegarem na boca!! rsrsrsrsrs

Pronto, o trabalho chato já foi (bem, pra mim é a parte chata, eu gosto é de sentir o cheiro da panela no fogo!). Agoro pegue uma panela, jogue uma quantidade generosa de azeite e refogue primeiro a cebola, depois os temperos (verdes), o sal, depois as pimentas, a noz moscada e talz (se você curtir) e por fim a berinjela. Deixe a berinjela amolecer bem no fogo, com esses temperos. Pode colocar pouca água, só pra não grudar. Após cozinhar bastante e mudar de cor (ficar bem escura) coloque a berinjela no liquidificador ou no mixer, o que você tiver aí mais fácil. Tá vendo porque nem precisava cortar tanto a cebola?!? Talvez no liquidificador você precise jogar um pouco de água pra não travar as lâminas.

—–>Ah! Um detalhe pra você que tem fome e tem pressa: você pode pular toda essa cortação de legume e jogar a berinjela cortada ao meio, na panela de pressão, com pouca água. Em pouco tempo ela estará cozida e se soltará facilmente da casca, caso você não queira comer a casca da berinjela. Mas eu prefiro refogar os cubinhos no azeite, acho que pega melhor o tempero, pelo menos é minha impressão. <—–

Após bater a massa da berinjela, junte-a com o trigo hidratado numa tigela grande. Após dar uma bela misturada, acrescente as castanhas e misture mais um pouco. Após obter uma massa homogênea, coloque um pouco de azeite no fundo de um tabuleiro onde possa caber toda a massa (no geral é um tabuleiro pequeno porque a massa fica toda apertada dentro da fôrma). Após colocar a massa, faça marcas com o garfo ou decore com folhinhas inteiras das ervas, castanhas pela metade, ou como quiser.

Coloque o kibe para assar em forno baixo, por 20 a 40 minutos, ou até secar a massa e criar uma ligeira casquinha por cima. O tempo varia com a hidratação do trigo, as vezes fica uma massa muito molhada, demora mais pra secar. Bom, pelo menos pra mim, que vou fazendo a receita mais ou menos no olho, deu certo. Bom apetite!

Quem tem medo do feminismo?

Selo Desmitificando o feminismo

Eu mesma nunca fui capaz de saber exatamente o que o feminismo é: apenas sei que as pessoas me chamam de feminista toda vez que expresso sentimentos que me diferenciam de um capacho de porta. Rebecca West, Escritora inglesa, 1892 – 1983

É esperado que os machistas de plantão rejeitem o feminismo. Sim, machistas, no geral homens, têm medo do feminismo, têm medo que uma mulher se torne, aos seus olhos, seres humanos! Machistas têm medo de lavar uma louça, medo de chorar em público, medo de usar uma camisa da cor rosa, medo de ganhar o mesmo salário que a mulher, medo de olhar uma gostosa na rua e não conseguir se comportar como uma pessoa civilizada (sem agressão). Medo de ouvir um não de uma mulher e ter que lidar com essa rejeição.

As mulheres machistas, por outro lado, têm medo da liberdade que o feminismo traz. Sobretudo a liberdade de serem elas mesmas, sem precisarem da aprovação prévia do olhar masculino/machista.  Pensam elas que, se elas não seguirem as regras machistas dos homens, nunca serão amadas por eles. Uma mulher machista no fundo, no fundo, é uma mulher insegura, que coloca as necessidades dos seu parceiro acima das necessidades próprias. A mulher machista quer saber primeiro o que querem os homens (e os outros), para primeiro se adequar a essas vontades e só depois saber o que se passa dentro dela mesma.

Humanismo

Que os machistas tenham medo do feminismo é compreensível. Mas o que me deixa realmente intrigada de queixo caído e olho arregalado é como é que essa palavra – feminismo – vem sendo tão atacada e difamada a ponto de humanistas (!) a rejeitarem. Vejo pessoas bacanas, de bom senso e cheias de feminismos nas atitudes, dizerem até com certo orgulho nos olhos:

 Eu não sou feminista! Sou humanista.

Fico realmente chateada quando escuto essa pérola. Porque mesmo sem querer tenho a impressão de que o interlocutor está me dizendo que o feminismo é desumano. Ou, se não é desumano, é uma luta menor pois já existe o humanismo, que já dá conta da humanidade. Será?

Mas depois eu respiro fundo e penso: ih, deve ser culpa daquele povo que distorce o feminismo – daí começam a dizer que feminista não pinta unha, que feminista não casa, que feminista mata criancinha, que feminista obriga a mulher a trabalhar fora de casa, que feminista quer competir com os homens e dominá-los. Enfim, qualquer generalização sensacionalista sobre mulheres merece esse rótulo, feminismo. Injustamente!

Então, quando você ver alguém comentando sobre um bando de mulheres rindo num programa de tv porque um cara teve seu pênis decepado pela esposa, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém citando apenas Valerie Solanas como a única feminista verdadeira, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém repetindo que as feministas não aceitam que mulheres façam sexo em determinadas posições sexuais, saiba que isso não é feminismo.

Outra explicação para os humanistas não se acharem feministas pode ser a seguinte:  eles devem entender que as conquistas feministas como o voto feminino, o direito à licença maternidade, e entre outras com as quais normalmente as pessoas se identificam já são suficientes. Se esse é o caso, é preciso primeiro fazer uma justiça histórica: foi o movimento feminista (e não humanista) que batalhou por essas conquistas. E segundo, dizer que ainda estamos engantinhando no caminho da igualdade de direitos entre homens e mulheres: hoje é o movimento feminista que vem debatendo , denunciando e enfrentando questões como o tráfico de mulheres, a violência doméstica, o estupro, as práticas sexistas que naturalizam a violência contra a mulher, a igualdade de salários entre homens e mulheres que realizam o mesmo trabalho e outras lutas que os movimentos humanistas podem até apoiar, mas não lideram.

Atualização do dia 6 de agosto de 2011: leiam aqui uma carta de uma mulher explicando como os comportamentos machistas estão espalhados mesmo dentro de círculos humanistas/céticos, locais onde nós normalmente esperamos encontrar pessoas mais esclarecidas quanto ao feminismo – o relato é estarrecedor.

Feminilidade

Outra pérola que escuto é essa aqui:

Eu não sou feminista! Sou feminina.

Adotar uma postura feminista não tira a feminilidade de alguém. O que muda é que a gente começa sim a repensar a questão da feminilidade: somos femininas para nós ou somos femininas para suprir as expectativas dos outros? O feminismo devolve a feminilidade para as mãos das mulheres – ou seja, você quer pintar a unha? Se você gosta, pinte. Se você o faz porque do contrário você vai perder um emprego, aí é uma pressão social que seu colega homem não passa. Se você gosta de salto alto, ótimo, mas se te obrigarem a ter um problema no pé pela obrigação de usar sapatos com salto alto, aí é uma questão a ser discutida. Homem pode chorar em público? O feminismo também trabalha para que essa não seja uma regra compulsória para todos os homens, para que os homens possam chorar sossegados sem que isso seja tido como uma coisa de mulherzinha (e por que essa expressão é tão negativa?!). Portanto, aprendemos outra lição: não existe um feminismo, um líder a ser seguido. Existem feminismos, no plural, para o bem de todos, homens e mulheres.

E por ser um movimento plural, onde cabem muitas interpretações, é fácil você discordar de uma feminista em especial e achar que está discordando do movimento todo. Portanto se você encontrar uma feminista dizendo que mulher tem que tomar pílula pra suspender a menstruação pela vida inteira porque isso traz muitas vantagens, não se preocupe: é apenas UMA feminista. Você vai encontrar duas outras feministas dizendo justamente o oposto, que você possa menstruar em paz, porque o corpo é seu, a feminilidade é sua. O importante para o feminismo é discutir, debater, trazer a tona questões que estão rigidamente colocadas pela sociedade e que podem limitar a sua experiência como mulher (e até como homem) no mundo.

Se você chegou até aqui deve ter percebido que o feminismo é, em resumo, isso que a socióloga Bila Sorj falou por aí:

“Diferentemente dos demais movimentos políticos como o fascismo, o nacionalismo e o comunismo, o feminismo promoveu uma formidável mudança de comportamentos orientada para a promoção de mais liberdade e igualdade entre os sexos, sem aspirar à tomada do poder, sem utilizar a força e sem derramar uma gota de sangue”.

E o feminismo continua discutindo as liberdades das mulheres e transformando a sociedade até hoje.

Então, me diga: você ainda tem medo do feminismo?


Obs. Esse artigo faz parte da blogagem coletiva #mitosfeminismo – veja aqui outros posts que fazem parte desse movimento.