Movimentos sociais, imprensa e democracia

marcha_vadias010

Moro em Brasília desde 2004 – e posso dizer que essa cidade mudou a minha percepção política. De esquerda acho que sempre fui, mas não, eu não tinha a menor noção da quantidade de marchas e manifestos que correm quase que semanalmente na Esplanada dos Ministérios. Às vezes nem morando aqui a pessoa se dá conta disso, da efervescência que é a Esplanada e todos os manifestantes que por ali desfilam.

Além de ser jornalista, sou ativista: colaboro com movimentos feministas, LGBTs, causas indígenas e entre outros. Considero isso um dado importante da minha vida pois é “fazendo” o movimento que aprendo coisas que o jornalismo não ensina.

O tempo dos protestos, por exemplo. Nem sempre a imprensa explica para os leitores como é que nasce um protesto: como é que as pessoas se juntam, trocam ideias, se engajam, traçam uma estratégia, escolhem uma data para um protesto acontecer. É uma pena! Teríamos uma democracia mais fortalecida se a imprensa estivesse habituada a mostrar sistematicamente como os movimentos se formam, como as pessoas se engajam na política.

A formação dos movimentos é outro exemplo. A imprensa tem o hábito de procurar o líder dos movimentos – e ultimamente tem aparecido muito movimento horizontal, sem líder, autogestionado, sem grana de terceiros ou partido político para dar suporte. Isso poderia ser melhor abordado pela imprensa, mas por uma série de razões isso acaba ficando em segundo, terceiro plano. E isso poderia ser melhor explicitado pela imprensa – afinal, a forma de um grupo se organizar diz muito sobre as intenções políticas desse grupo.

Em resumo: a minha vida de ativista me faz ver a imprensa com outros olhos.

A imprensa colabora para a democracia quando retrata manifestantes como tais, ou seja, cidadãos descontentes com algum aspecto de sua vida social e política. Toda vez que ela faz isso, está cumprindo com seu papel de informar e fortalecer a cidadania, independentemente das questões partidárias.

Por outro lado, a imprensa pode atuar criminalizando os movimentos sociais, retratando os manifestantes como um vândalos, oferecendo uma desculpa ideológica para justificar ações policiais junto à opinião pública. Sim, a imprensa tem lado! E nas manifestações do Movimento Passe Livre todos puderam constatar a mudança de lado que ocorreu na imprensa – no começo houve uma demonização dos manifestantes, editoriais raivosos, jornalistas chamando ativistas de baderneiros. Depois o tom do discurso ficou mais ameno.

O que me interessa aqui é constatar que houve essa mudança, que o discurso da imprensa não é neutro, nem eterno. Existe lado, a imprensa pode ser questionada pelas pessoas e pode mudar de ideia, a depender da conjuntura política. Criticar a imprensa não é censura! Criticar a imprensa é um exercício democrático.

Por isso, se você está começando a querer se manifestar nas ruas agora, fica a dica: leia, se informe, se organize, conheça pessoas e instituições que tenham algum tipo de afinidade com você. Isso leva tempo! Não é da noite para o dia que se consegue mudar um país. Acredite! Muita gente tem tentado mudar as coisas, e as coisas mudam sim. Devagar e sempre, a imprensa noticiando ou não.

É importante se reunir e dialogar com as pessoas. Vá para rua sabendo que nem sempre suas reivindicações serão atendidas como num passe de mágica (raramente governantes atendem reivindicações de imediato). Vá para a rua sabendo que nem sempre a polícia vai te tratar bem. Vá para a rua sabendo que a imprensa tem lado – ela pode ouvir suas reivindicações com mais ou menos simpatia. Vá para a rua sabendo que tem gente que ocupa as ruas há mais tempo que você – converse com essas pessoas. Mesmo que elas tenham opiniões diferentes das suas, lembre-se que vocês têm uma coisa em comum: estão ocupando as ruas de um país democrático.

*Esse texto é um compartilhamento de experiências bem pessoais e está aberto a pitacos alheios (desde que educados, ok?). E faz parte da blogagem coletiva pela democracia –>

Histórias que teimam em brotar

Flor no asfalto
Flor no asfalto

Se a gente tirar do ser humano a capacidade de contar e de ouvir histórias, o que é que sobra? Contar e ouvir histórias é como organizar mentalmente nossos sentidos, como encontrar uma bússola no deserto das aparências. Alguns podem dizer que não gostam desse negócio de ficção que o negócio é vida real – mas ainda assim, a vida real a gente traduz é em história, é contando sucessos, angústias, falando da vida alheia, criando segredos.

Segredos. Que necessidade é essa que temos de colocar pedras (ou mesmo asfalto) sobre determinados assuntos? Como se o asfalto impedisse a terra de ser terra, a semente de ser semente, e a vida de procurar luz.

Daí que as verdades sempre vão brotar por esse mundo. Sempre. É com essa certeza que as pessoas vivem, é por essa certeza que as pessoas sobrevivem.

“Como eu já afirmei publicamente em outras ocasiões, durante muito tempo, no meu período de exílio, fui perseguido pelo fantasma das torturas. Depois de muito esforço consegui perdoar os torturadores e também os que me denunciaram. A partir daí os pesadelos desapareceram. Foi um processo terapêutico para mim, uma forma que encontrei de vencê-los. Já disse também que há situações em que o perdão é mais importante para quem perdoa do que para quem é perdoado. Mas isso, em minha opinião, só faz sentido no âmbito subjetivo, nas relações interpessoais. No âmbito político, essas pessoas têm que ser responsabilizadas judicialmente porque seus crimes não foram somente contra os presos políticos individualmente, mas principalmente contra a sociedade brasileira. E a sociedade tem o direito e a obrigação de responsabilizá-los judicialmente.” – Anivaldo Padilha

As verdades vão continuar brotando aqui e ali. Resta saber quando é que o Estado brasileiro vai continuar se prestando a esse papel desumano de tentar escondê-las.

Este texto faz parte da VII Blogagem Coletiva do #desarquivandoBR

O Mundo Amanhã – comunista x sionista

O intelectual superstar Slavoj Žižek é conhecido por suas contribuições à teoria da psicanálise, à crítica cultural e à política, na qual sempre se engajou para além das discussões acadêmicas – ele foi candidato à presidência da Eslovênia nos anos 90. Cultuado pela jovem vanguarda intelectual europeia, esse notório provocador se define como leninista mas também como lacaniano. Já David Horowitz é um soldado linha dura do pensamento conservador americano – e um sionista sem o menor pudor. Nos anos 60 e 70, foi uma liderança de esquerda na cidade californiana de Berkeley. Depois de colaborar com os Panteras Negras, começou seu caminho sem volta para a direita. Hoje, seu instituto faz campanhas contra influências islâmicas e de esquerda na mídia, na academia e na política.

Este encontro entre mentes tão diferentes é, no mínimo, acalorado. “Você é um apoiador da coisa mais próxima que temos do nazismo”, diz Horowitz. “Você apoia os palestinos. Eu não vejo como diferenciar os palestinos, que querem matar os judeus, dos nazistas”.

Irritado, o esloveno dispara: “Desculpe, você já foi à Cisjordânia?”.

Em alguns momentos, Assange tem que segurar o exaltado Žižek, embora seu adversário esteja em outro continente.

“Nós, totalitários das antigas, deveríamos, nos juntar  e nos livrar deste liberal aqui!” brinca Žižek para Horowitz, referindo-se a Assange.

O tom da conversa varia entre o antagônico e o bem humorado; os três falam de personalidades que vão de Stalin a Obama, do conflito entre Israel e Palestina, do desejo da liberdade ao Estado de vigilância,– passando, é claro, pelo trabalho o WikiLeaks, considerado “perigoso” por Horowitz.

No final, Žižek conclui: “Isso foi uma loucura!”.

Clique aqui para baixar a entrevista completa.

O Mundo Amanhã: Julian Assange entrevista Sayyed Hassan Nasrallah (ep.1)

O Mundo Amanhã: Julian Assange entrevista líderes políticos e ativistas
Julian Assange – O Mundo Amanhã

Inaugurando a nova fase desse blog, vou publicar, em parceria com a Agência Pública, a série de entrevistas “O Mundo Amanhã”, realizada pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia. São 12 episódios: o combinado é publicar semanalmente às quartas-feiras, 18 horas, a partir do dia 3 de outubro (hoje!). Sim, eu vou tratar de cumprir o combinado! Cada episódio tem cerca de meia hora de duração.

Na série,  o fundador do Wikileaks Julian Assange vai entrevistar pensadores e líderes políticos em busca de ideias que podem mudar o mundo. No primeiro episódio, Assange entrevista o líder do Hezbollah Sayyed Hassan Nasrallah. Nos demais episódios teremos Noam Chomsky, Tariq Ali, , Moncef Marzouki e Rafael Correa. Aguardem o link com o vídeo para a entrevista, pois só poderei divulgar a partir das 18h.

A vergonha é de quem comete o estupro!

Isabela e Michele

Isabela Pajussara Frazão Monteiro (27 anos) e Michele Domingues da Silva (29 anos) foram estupradas e mortas num crime terrivelmente bárbaro (não consigo classificar de outra forma): foram vítimas de um estupro coletivo oferecido como presente de aniversário de um irmão para o outro. Os dois irmãos que organizaram o evento teriam simulado um assalto, com a ajuda de outros homens, para violentar as mulheres convidadas, usando capuzes e máscaras de carnaval. Seis mulheres foram agredidas e estupradas.

A notícia me deixou muito angustiada. Na verdade, no momento em que eu li a notícia eu não consegui pensar em nada – só me deu vontade de vomitar. Passado o choque inicial, a notícia chamou a minha atenção pelos seguintes fatores:

1. Os estupradores eram “amigos” das vítimas – o que desmitifica aquela história de que só maníacos desconhecidos atacam mulheres nas ruas, num beco, num local de pouca circulação

2. Os estupradores planejaram o estupro, ou seja: vários homens premeditaram o ato. Cai por terra aquela velha desculpa
esfarrapada de que homem só comete estupro porque não consegue conter um impulso sexual “provocado” por alguma atitude/comportamento da vítima.

3. O fato de um “estupro” ser percebido não por um, mas por vários homens, como um “presente” de aniversário – em algum lugar da nossa cultura machista mora a ideia de que o “estupro” é uma espécie de brincadeira, uma contravenção, é como jogar ovo e farinha num aniversariante, é banalizado e entendido como uma atitude bem humorada.

4. A imprensa fez uma cobertura muito fraca sobre o caso, o que me espanta pois é uma história de alto interesse jornalístico para se debater políticas públicas de proteção às mulheres. É o momento ideal para que jornalistas pudessem entrevistar mulheres, sociólogxs, criminalistas, psicólogxs e, enfim, tirar o tema do sensacionalismo lugar-comum e propor ações coletiva de enfrentamento à essa violência tão cruel contra a mulher que é o estupro.

Um passeio pelos portais de notícias brasileiros nos dá a ideia de como as pessoas entendem o estupro: há uma parcela da sociedade que clama simplesmente pela pena de morte para os estupradores – mesmo sabendo que não existe pena de morte na nossa legislação. Há outra parcela que insiste em colocar a culpa na própria mulher, ora questionando as companhias que ela escolhe, ora questionando o tamanho da saia, o tipo da roupa, o local que ela frequenta, etc. Poucos ousam sair desses extremos – poucos procuram entender melhor o problema, saber mais sobre o assunto para melhor lidarem com ele.

Há uma ignorância coletiva que em nada contribui para a transformação da realidade. Afinal, o que podemos fazer para evitar os estupros? Como criar uma sociedade em que homens respeitem as mulheres?

Como evitar?
Não, eu não tenho todas as respostas e acredito que ninguém sozinho as tenha. Também não posso me dar ao luxo de testemunhar esse problema e me esconder nas cavernas. Tenho alguns palpites que gostaria de compartilhar.

Por ter ouvido e lido muitas histórias de mulheres que sofreram abusos sexuais, sei que há um fator de fragilidade que atinge a todas nós, mulheres: é a vergonha. Mesmo para uma mulher madura ciente de seus direitos denunciar um estupro é um ato de coragem, na nossa cultura. O grande número de mensagens nas caixas de comentários dos portais de notícias culpabilizando a mulher pela violência que ela sofreu são indícios de que infelizmente há uma corrente forte de pessoas que compactuam com esse comportamento machista.

Por isso, se eu fosse iniciar qualquer campanha nas escolas, nas igrejas, nos bares, nos teatros, na televisão, nos programas de humor, eu diria o seguinte: a vergonha é toda deles, que cometem o estupro! Cometer estupro é um ato que deveria envergonhar todos os homens, toda a humanidade. Cometer estupro é um ato extremamente covarde e assim deve ser repudiado.

A gente precisa começar a inverter essa lógica da nossa cultura que culpabiliza mulheres pelos estupros que sofrem. A mulher não tem culpa de ser mulher, de ser mulher e andar na rua, de ser mulher  e usar saia curta, de ser mulher e participar de uma festa! Homem que estupra é que é responsável por cometer estupro, ele é que precisa abrir mão do comportamento violento dele. A mulher não deve abrir mão de ser livre!

Essa é a minha pequena contribuição para a blogagem coletiva em repúdio ao caso de estupro e assassinato como presente de aniversário. Espero poder ler mais gente falado sobre o tema bem como participar de ações que possam reduzir ou quem sabe erradicar o problema do estupro em nossa sociedade.

Blackout contra o SOPA

Este blog aderiu ao protesto contra o projeto de lei que está sendo apreciado nos EUA, apelidado de SOPA – Stop Online Piracy Act e que, se aprovado, vai cercear a liberdade na internet. Não podemos permitir que leis limitem o acesso ao conhecimento que circula na internet! Participe você também do Blackout contra o SOPA! #sopablackoutBR

Blackout Brasil

Entenda o protesto

No dia 18/01/12 diversos sites, blogs e coletivos irão aderir ao #SOPABlackoutBR da forma que for possível. O ideal é que o site fique fora do ar por 12h (de 8h as 20h), para que as pessoas sintam realmente como seria terrível deixar de ter acesso ao site caso ele seja bloqueado pelo SOPA. O período de tempo e o fato de ficar totalmente fora do ar fica a critério de cada um.

Objetivo

Mostrar às autoridades Brasileiras e grandes grupos econômicos a posição da sociedade Brasileira em relação ao SOPA e demais práticas, normas, medidas judiciais e leis que ameaçam a liberdade na Internet, e aproveitar a oportunidade para expor as ameaças locais.

Por que aderir?

O SOPA apesar de ser um projeto de lei Americano, não afetará apenas os Estados Unidos, pois o país concentra quase todos os serviços e sites que utilizamos diariamente, e que podem ser afetados tais como Youtube, Facebook, WordPress, Google, Gmail, Twiiter, e muitos outros. Temos de lembrar também que muitos sites são hospedados nos EUA, mesmo sem ter TLD americano e outros fora dos EUA com TLD americano como (.com, .net, .org) em ambos os casos o site estará debaixo da legislação Americana.

SOPA também prevê instrumentos para bloquear os serviços de publicidade e pagamento online sob a jurisdição dos EUA, impactando qualquer site no mundo, apenas com base em uma denuncia de suspeita,e sem ordem judicial.

Os problemas não acabam por aí, o SOPA afetará profundamente a liberdade de expressão na Internet, todos os sites se verão obrigados a aplicar mecanismos de auto-censura, e filtrar toda atividade online de seus usuários para evitar serem bloqueados.

E junto com a lei Sinde na Espanha, Hadopi na França, o SOPA pode ser um terrivel instrumento de pressão para que demais países adotem legislações semelhantes. É importante lembrar que a Lei Sinde que aparentemente havia sido brecada por ativistas espanhóis, foi aprovada logo no inicio do novo mandato sob grande pressão Americana.

(Texto copiado do Movimento Mega Não – www.meganao.wordpress.com)

Grata pela atenção

Abraços

Amanda Vieira

Vlado Herzog – Uma história para ser lembrada

Charge sobre a tortura

Neste dia de blogagem coletiva creio ser suficiente divulgar o testemunho do jornalista Sérgio Gomes da Silva sobre a tortura e assassinato do também jornalista Vladimir Herzog (leia após essa breve introdução). Porque tortura não é uma questão ideólogica de esquerda ou direita, tortura é crime contra a humanidade e o Brasil está devendo esse acerto de contas com seu passado. O país que não reconhece a tortura que cometeu contra seus cidadãos deixa a porta aberta para que a tortura retorne sob as mais ridículas justificativas. A ferida continua aberta – precisamos cicatrizar essa nossa história – veja aqui o que as entidades de direitos humanos estão cobrando.  E que a Comissão da Verdade não seja apenas uma farsa. O que a vida quer da gente é coragem, coragem presidenta Dilma! Coragem para que esse triste capítulo de nossa história não se repita.

Prisão, tortura e morte – relatos dos companheiros de Vlado na prisão por Sérgio Gomes

Preso alguns dias antes de Vladimir Herzog, no mesmo Doi-Codi do “Tutóia Hilton”, o já repórter, mas ainda estudante, Sérgio Gomes da Silva chegou a ouvir os gritos que acompanharam a tortura fatal de Vlado. Tendo ele próprio, antes e depois, sido vítima de sessões de tortura, nos mesmos ambientes e sob os mesmos tacões que vitimaram Vlado, Sérgio pensa hoje que é capaz, lembrando o que sofreu, de reconstituir o martírio e a morte do hoje jornalista-símbolo da luta pela liberdade, VIado Herzog.

Sérgio Gomes, hoje (1992) professor universitário e ativo combatente da imprensa sindical, não relembra esses momentos por querer – foi obrigado a relembrá-los em seu depoimento na Polícia de São Paulo, que reabriu o processo da morte de Vlado.

A pedido de Unidade, Sérgio recompôs para o jornalista e professor José Carlos Rocha alguns trechos do que disse ao delegado.

Eu tentei me livrar pelo suicídio, a Vlado ninguém pôde salvar

Naquele dia 25 de outubro de 1975, a equipe de torturadores era dirigida pelo capitão Ramiro. Eram três equipes no Doi-Codi, cada um em plantão de 24 horas, com 48 de folga. O capitão Ramiro tinha um estilo diferente das duas outras equipes. Andava sempre munido de um sarrafo e sabia exatamente onde bater, nos cotovelos, nos joelhos, nos tornozelos – nas articulações. Ele conhecia muito bem a anatomia humana e desmontava uma pessoa com poucos golpes e sem barulho.Tinha prazer especial em amarar as pessoas na chamada cadeira do dragão, que é uma espécie de troninho, de metal, molhado, onde os braços e as pernas, são imobilizados, amarra-se um fio elétrico no pênis, outro na orelha e aí, em seguida, com uma maquininha, um dínamo, chamada de “pimentinha”, iam dando choques. Não é um choque que queima, não sei te dizer se é amperagem ou voltagem. Depois de encapuzar a pessoa, o capitão Ramiro jogava amoníaco sobre a parte frontal do capuz e apertava aqui na parte abaixo do queixo, de tal maneira que a pessoa ficava com aquele capuz bem colado no rosto.

Ao mesmo tempo, Ramiro dava porradas, gritos, choques elétricos e jogava amoníaco no capuz – a pessoa ia respirando esse amoníaco. À medida que o choque elétrico se dá, se você estiver expirando, você não consegue inspirar, e se você estiver inspirando, não consegue expirar. Então, como os choques são dados aos trancos, você vai ficando com a respiração completamente descontrolada e esse amoníaco entra pelas suas narinas, invade o cérebro como se fosse uma batalha de espadas, uma coisa maluca, cortando seu cérebro de todo jeito – e você ali imobilizado, levando choques, porrada, gritos. Tudo isso (…)…arma uma situação que é como se fosse surreal, você já não tem mais noção de se é com você mesmo que está acontecendo, começa a ficar confuso, não há saída para aquilo, você está amarrado.”

Entre a loucura e a morte

“Fui submetido a isso muitas vezes e percebi em mim que a qualquer momento morreria, a qualquer momento podia ter um derrame, um colapso, a coisa ia se desagregar. Sentia essa proximidade. Você vai ficando completamente fora de si. É uma coisa que até precisaria ser vista por médicos neurologistas, para saber o que acontece, porque eu soube depois que, frente a situações-limite, como esta, de dores muito agudas e aflições muito intensas, o cérebro dá um tipo de descarga e mata o indivíduo para salvá-lo do enlouquecimento. Se a pessoa sofre um acidente de automóvel e tem esmagamento da coluna, por exemplo, que dizem ser a mais terrível das dores, o sujeito morre de dor, morre para fugir dessa dor, que é tão lancinante que a pessoa vai enlouquecer. Então, antes de enlouquecer, a pessoa se salva morrendo”.

A morte como alternativa

“Eu senti isso. Tanto é que, numa dessas ocasiões, depois de passar por uma dessas sessões do capitão Ramiro, me desamarraram, me tiram o capuz, me deixaram lá, eu vomitei bílis, vomitei uma coisa como se fosse placenta, eu estava todo erodido, me lembro que abriram a porta do lugar onde estava, trouxeram uma pessoa, que não sei quem é, que tinha sido recentemente presa, e lhe disseram:

“Olha, é melhor colaborar senão vai acontecer com você a mesma coisa que está acontecendo com esse cara aí, que já está no fim”. Isto me deixou com uma mistura de cagaço e humilhação, porque eu estava sendo usado a essa altura já como exemplo do estrago que se pode fazer com um ser humano”.

“Depois de vários dias eu tinha emagrecido bem, estava todo arrebentado, minha condição era usada para produzir pavor nos outros”.

“Estou ali e vejo sobre um banquinho, um vidro de amoníaco, o vidro que o capitão Ramiro usava. Então fico olhando para aquele vidro e resolvo me suicidar, porque a coisa tinha passado do que parecia suportável, eu ia enlouquecer. Pego o vidro e tento tirar a tampa de plástico, dessas que tem como se fosse um biquinho de peito para dentro, cuja borda de plástico praticamente adere ao gargalo. Você tem de ter uma unha muito boa para conseguir separar esse plástico, que tem uma certa pressãozinha que resiste, ou então você tem de tirar com o dente. Eu estava com a boca toda fodida, então estava tentando tirar com o dente e com a mão, torcendo para que engolir o amoníaco daquele vidro fosse suficiente para me matar logo. Estou nessa tentativa desesperada para me matar quando entram o capitão Ramiro de novo e o seu grupo, me arrancam aquele vidro, me reamarram na cadeira do dragão e, aí começa outra sessão indescritível, coisa maluca”.

Na manhã do dia 25

“Então, eu tinha passado por isso várias vezes. E lá naquela cela solitária, com o ouvido na janelinha, eu podia ouvir os gritos: “Quem são os jornalistas? Quem são os jornalistas? “Pô, o que é que podia ser? Não tinha idéia de que fosse o Vlado, não tinha a menor idéia. Pelo tipo de luta, pelo tipo de grito, pelo tipo de porrada, sabia que estava sendo feito com alguém exatamente aquilo pelo que eu tinha passado e sabia o que podia acontecer”.

“Algum tempo depois, um grande silêncio. Mais um pouco de tempo e há um remanejamento, deslocam-se pessoas de um lado para outro dentro daquelas instalações lá na delegacia, desse ambiente onde eles tinham gente presa. Mais tarde sou informado por um médico chamado David Rumell que tinham apagado um cara, não sabia ainda quem era. Só venho a saber de quem se trata no dia seguinte, quando o Paulo Sérgio Markun, que foi um dos dois jornalistas que teve direito de ir ver o corpo, se encontra comigo numa das salas e me diz que tinham matado o Vlado”.

“Foi de manhã, lá pela hora do almoço há uma azáfama, uma correria. Ele foi torturado durante toda a manhã e lá pela hora do almoço se dá o tal silêncio. A pessoa pára de ser torturada e em seguida há uma azáfama, uma correria, a gente percebe que tem alguma coisa estranha acontecendo. Eles tinham acabado de matar o Vlado.”

Suicídio que não houve

“Sobre a hipótese de suicídio, inclusive a foto que eles divulgaram, tenho a dizer que eu estive preso numa daquelas celas. Por esse tempo todo fiquei preso em praticamente todas as celas ali. Não há nenhuma possibilidade de suicídio. Ninguém ficava com cinto, ninguém podia ficar com cinto. Depois da morte do Vlado, eles fazem justamente o remanejamento das pessoas dentro do Doi-Codi, para deslocar o corpo, montar a farsa, bater as fotografias. A cela onde eles tiraram a foto do Vlado era uma das celas que estava toda ocupada por pessoas presas. Quer dizer, o Vlado jamais esteve preso numa dessas salas que correspondiam às celas da delegacia. Ele foi torturado lá dentro, na sala especial onde ficava a cadeira do dragão. As pessoas não eram torturadas nas celas, eram torturadas lá dentro. Então o Vlado nunca esteve no lugar onde dizem que ele se suicidou. Ele estava sendo torturado daquela maneira que eu descrevi de forma simples e eu tenho para mim que ele morreu disso, de derrame, de colapso, pois foi uma longa sessão de terrível tortura. Não sei se é possível, se a religião judaica admite que se faça a exumação do corpo, porque, se fizerem certamente encontrarão traços de amoníaco”.

“Quanto a esse depoimento do japonês chamado Paulo, que se suicidou agora, que disse ter sido o Vlado morto de madrugada, não pelo capitão Ramiro, mas por outro, e que foi afogado numa lata com água e enxofre, isso é alucinação. O Vlado não foi assassinado de madrugada e eu não vi ninguém ser torturado ou afogado em água com enxofre. Isso não era o que se fazia ali”.

“Então, eu afirmo: o Vlado não se suicidou. O Vlado foi assassinado, sob o comando da equipe dirigida pelo capitão Ramiro. Na manhã do dia 25 de outubro ele foi submetido à tortura, amarrado à cadeira do dragão, sob choques elétricos, possivelmente um fio amarrado ao sexo e outro à orelha, levando porrada de ripa nas articulações; e sendo asfixiado com amoníaco que era derramado sobre o capuz de lonita que se usava para impedir que os presos vissem os torturadores”.

* Sérgio Gomes da Silva é jornalista.
Depoimento publicado no Jornal Unidade de outubro de 1992.
Fonte: http://www.vladimirherzog.org/vlado/index/depoimentos

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Desarquivando o Brasil.