A história das coisas e Belo Monte

“E as pessoas que vivem aqui [no terceiro mundo]? Bem de acordo com estes sujeitos [as pessoas do primeiro mundo], eles [os do terceiro mundo] não são donos desses recursos mesmo que vivam lá há gerações. Não são donos dos meios de produção nem compram muitas coisas. Nesse sistema, quem não possui, nem compra muitas coisas, não tem valor”

Respeito muito quem acredita que a construção de uma hidrelétrica do porte da de Belo Monte é imprenscindível para o Brasil. Pessoas inteligentes vêm defendendo essa causa com números e argumentos técnicos. Tudo isso devidamente sustentado na crença de que o impacto na natureza é inevitável, só que dessa vez haverá compensações satisfatórias aos prejudicados imediatos dessa obra e os benefícios gerados para o país são maiores do que as perdas. Aceito de bom coração quem pensa assim. Acho que é uma postura pragmática, de quem consegue ver desenvolvimento sob a ótica do atual sistema econômico-financeiro mundial.

No entanto, peço licença para apresentar outro ponto de vista. E trouxe o vídeo “A história das coisas”, que eu considero uma importante referência e que traduz de forma didática meu atual modo de ver o mundo. É um vídeo que mostra um contexto mais amplo em que uma obra como a de Belo Monte se situa. Acredito que construir grandes hidrelétricas não é a única solução energética disponível para o Brasil. Aceitar esse projeto como único seria como desconsiderar  a diversidade do país, a quantidade enorme de estudos e técnicas que existem para se obter energia e seria, sobretudo, dizer que só é possível desenvolver o Brasil passando por cima daquelas pessoas que sempre viveram ali, mas não são donas dos meios de produção.

Podem me chamar de sonhadora, eu aceito. Porque é isso que eu sou. Eu vejo vídeos como “A história das coisas” e me identifico profundamente. Eu vejo o Brasil ali, cumprindo aquele papel de país de terceiro mundo que investe recursos na produção de coisas, e que coloca as pessoas em segundo, terceiro plano – o custo pessoas é externalizado, não aparece nas planilhas! Vejam a segunda parte do vídeo:

“É por isso que após o 11 de setembro, quando nosso país [no caso os EUA] estava em choque, o presidente Bush poderia ter sugerido fazer luto, rezar, ter esperança. Mas não: ele disse para fazermos compras, compras. Nos tornamos uma nação de consumidores. A nossa principal identidade passou a ser de consumidores, não mães, professores, agricultores, mas consumidores.”

Sonho com um Brasil que invista na criatividade de seus pesquisadores, que mantenha os laboratórios adequadamente equipados e que tenham condições de pensar o Brasil em longo prazo. Sonho com o dia em que os técnicos possam sentar pra discutir COM os ribeirinhos e índigenas sobre soluções viáveis que os incluam de fato. Porque chegar neles e falar ” a gente vai fazer uma hidrelétrica aqui, quanto é que vocês querem pra ir embora com um sorriso no rosto?” não me parece um jeito democrático de se trabalhar.  A falta de diálogo com as comunidades afetadas é gritante – veja o histórico de ações movidas pelo Ministério Público Federal para entender o tamanho do problema.

Sonho demais?

Para não dizerem por aí que vivo apenas de sonhos, tenho plena consciência dos obstáculos impostos pela realidade político-partidária do Brasil. Estou cansada de fazer de conta que o Sarney não tem nenhuma influência política fora do Maranhão. Gostaria muito de acreditar que o fato do partido dele tomar conta do ministério de Minas Energia é só mais um fato diante de tantos outros, e que não existe influência significativa dele na tomada de decisão em se fazer uma hidrelétrica como a de Belo Monte. Gostaria de acreditar que a nossa estrutura política partidária (sobretudo no quesito financiamento de campanha) não tenha nenhum peso na decisão de um governo na hora de se decidir investir em grandes construções no lugar de adotar soluções locais, de pequeno e médio porte, com uso de soluções criativas. Gostaria, mas minha vivência política me tornou desconfiada demais em relação a esses pontos.

Queria deixar uma pergunta pra vocês: e se não fosse o Sarney, e se no Brasil não tivesse minérios, e se nosso país não ocupasse o papel de exportador de bens de baixo valor agregado… Será que Belo Monte ainda seria a solução energética mais adequada de todos os tempos para a nossa população? Essa é a minha dúvida atual. Posso rever meus conceitos, mas já adianto que não abro mão de sonhar com um país que priorize as pessoas, que tenha uma perspectiva de desenvolvimento que não é só financeira, mas também cultural, ética e política.

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Atualização do dia 5 de dezembro de 2012
Na mesma linha desse post, ou seja, reivindicando um modelo que dialogue com ribeirinhos e indígenas, e que procure uma forma diferente de produzir coisas (uma política de desenvolvimento e geração de energia diferente da que está colocada pelo governo na construção de Belo Monte, enfim) temos também os seguintes links:

1. “Passamos há muito o limite da demagogia e andamos, atualmente, na via do deboche escancarado, esquina com cagamos pros direitos humanos” — Eletric Funeral –> http://godotnaovira.wordpress.com/2011/12/01/eletric-funeral/

2. “Não nos preocupamos com a natureza como se fôssemos exteriores a ela, somos natureza.”  — A natureza é mundo –> http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/12/a-natureza-e-mundo.html

3. Um biólogo falando sobre Belo Monte, em vídeo (já que estudantes e artistas podem fazer vídeos, então biólogos também podem!) –> http://www.youtube.com/watch?v=xnitmB22JtQ&feature=youtu.be

 

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5 comentários sobre “A história das coisas e Belo Monte

  1. Eu adoro esses vídeos. Antes de tudo eu te respondo na lata correndo o risco de vc não gostar de mim logo de cara: sim, vc sonha demais. Energia é importante porque gera desenvolvimento, empregos, melhores condições de saúde, etc. Sem energia, sem desenvolvimento. E as riquezas da Amazônia não têm qualquer valor enquanto não estivermos sentados em cima delas e nunca extrairmos nada.

    Calma, descupla meu pragmatismo, não rebata ainda com “você precisa de energia ou precisa de floresta?” Nós precisamos DOS DOIS. As verdades do vídeo “A história das coisas” são tão verdades aqui quanto nos EUA onde foi produzido, mas o contexto lá e diferente do de cá. Me permita mostrar alguns números (tá eu sei que “não se pode analisar Belo Monte apenas com números frios, mas números frios antecedem a análise antes que as coisas fiquem quentes). No Google Docs há uma planilha pública com o consumo de energia per capita do mundo e de cada país (http://www.google.com/publicdata/explore?ds=d5bncppjof8f9_&met_y=eg_use_pcap_kg_oe&tdim=true&dl=pt-BR&hl=pt-BR&q=consumo+de+energia+per+capita+no+mundo#ctype=l&strail=false&bcs=d&nselm=h&met_y=eg_use_pcap_kg_oe&scale_y=lin&ind_y=false&rdim=country&ifdim=country&tdim=true&hl=pt_BR&dl=pt_BR)

    Nela dá pra comparar a média do consumo do mundo e com de vários outros países, ao clicar em Brasil vemos de cara que estamos muito abaixo da média mundial. Se clicarmos em Alemanha que muitos ambientalistas pintam como “o exemplo a ser seguido” vemos que consomem muito mais do que nós, se apertarmos Estados Unidos (origem desse filme) vemos o gráfico praticamente explodir… sabe qual é um dos países no mundo tem consumo per capita parecido com o nosso? Tenta Botswana.

    Os números frios nos dizem que mesmo que todos nós praticássemos o consumo consciente nosso povo consome muito pouca energia, não por consciência, mas por pobreza mesmo. Sabe, eu também sonho, e no meu sonho toda pessoa pobre tem condições mínimas de qualidade de vida, banho quente, água tratada, acesso a educação. Mesmo que todos nós que somos elite (só 20% dos brasileiros acessam Internet, acho que é isso) passemos a praticar o consumo consciente ainda assim precisaremos de energia. A necessidade não foi criada pelo Sarney, nós precisamos mesmo, de verdade.

    E mais, precisamos de energia mesmo lá no Pará, na região Norte, o centro-sul está bem abastecido, o nordeste razoavelmente, o norte não. Os ambientalistas dizem “a usina está no norte mas os maiores consumidores está no sul”. Claro, porque a falta de infraestrutura lá inviabiliza a maior parte dos empreendimentos.

    E sim, precisamos da Belo Monte. E aqui me sinto a vontade pra dizer porque sou engenheiro e estudo o assunto e não trabalho nenhuma das empresas envolvidas (estudo justamente energia eólica e eficiência energética). Pra essa monta que, saliento precisamos, é a que apresenta o melhor custo-benefício, inclusive ambiental, já que seriam necessários muito mais área desmatada (e muito mais dinheiro) para construir usinas assim. O vídeo dos artistas globais me causou repulsa absurda porque reduziu a discussão a uma mediocridade enorme, iludiu as pessoas, por mais boa vontade em ajudar que os artistas tivessem (eu não acho que ator tenha que saber o que é uma turbina Francis por exemplo, mas eles podiam ligar pra alguém que sabia antes de sair falando bobagem no Youtube).

    Não sou otimista quanto ao governo, nem acho que os executivos da Norte Energia morrem de amor pelos índios e pela floresta, e pra te falar a verdade desconfio que muito ambientalista e líder indígena também tem zero de boa vontade em querer ouvir engenheiro falar. Não gosto do jeito que as coisas foram conduzidas, mas que precisa construir, precisa.

    Acho sinceramente que toda a “energia” utilizada em atacar o projeto (agora depois que começou até a ser construído) deveria ser direcionada a cobrança séria para que o consórcio dê aos ribeirinhos, índios e moradores locais a compensação que assinaram em contrato de modo a tornar a vida digna, e a cobrar das autoridades os investimentos também prometidos em infra, saúde, segurança, mitigação de impactos ambientais. Porque além de sonho eu também tenho um pesadelo, a que depois do Natal ninguém lembre mais de Belo Monte, a obra termine, uns poucos encham os bolsos enquanto toda região em volta apodrece.

    • Rogério,

      Poderia concordar muito com você, mas se você clicar na parte que mostra o histórico do Ministério Público você há de concordar que não houve nenhuma boa vontade em ouvir nem índios nem ribeirinhos. E eu acho que eles têm algum saber, eles também devem ter números a me mostrar e significados de vida. E eu discordo de você quando você diz que esse pessoal que hoje tá na miséria pra sair “precisa ter acesso a água encanada e a banho quente” porque eu já vi engenheiros colegas seus criarem sítios com energia solar com baixo investimento, fazer permacultura, ter um banho quente sem precisar de um hidrelétrica para isso. É possível desenvolver aquela região com outras estratégias que de fato beneficiem aquela população. Aliás, se você prestar atenção ao vídeo história das coisas verá que retirar as pessoas dos seus locais nem sempre equivale dar a elas mais desenvolvimento. Elas podem ir pra uma periferia de uma cidade, ter água encanada, luz elétrica, um emprego péssimo, com um salário aviltante e eu não vou chamar isso de desenvolvimento, por mais que os seus números venham aqui me dizer o contrário.

      Mesmo assim agradeço o seu comentário porque ele enriquece o debate. Espero que outras pessoas que passem por aqui possa ler e comentar o que você escreveu.

      Abraços,

      Amanda

      • Não quis dizer de maneira nenhuma que os índios e ribeirinhos não tinham saber, o que eu sei é que lendo muita discussão na internet sobre o assunto esses dias vi muita posição radical, li textos das ONGs que são contra Belo Monte e me dá a impressão algumas vezes que a postura não é de querer consenso.

        Digo impressão, não sei. O que eu sei é que tem muita gente que se apega a sua própria opinião, abraça ela forte e não quer largar de jeito nenhum, mesmo que o bom senso mostre o contrário ela vai continuar com ela.

        Muita gente a que indiquei um vídeo em que um colega engenheiro demonstra em cálculos que Belo Monte é a melhor resposta técnica devolveu com um “são números frios, não quero ver isso, não me interessa isso”. Elas poderiam muito bem argumentar que “é a melhor solução técnica, mas não é a melhor solução humana”, poderia concordar ou não, mas elas simplesmente rejeitam os números só porque não apóiam o lado delas.

        Você se referiu aos dados da planilha como “seus números”, não são meus números, são de levantamentos do Banco Mundial, fonte segura e isenta nessa questão, dizer que são meus dá a impressão que eu os inventei.

        Você também resumiu a meu sonho que as pessoas tenham melhor qualidade de vida a “água quente”. Ok, talvez eu tenha me expressado mal, mas não é só água quente que garante qualidade de vida para pessoas.

        Você quer que elas tenham bons empregos, correto? Boa educação? Condições de saúde? Em palavras isso significa hospitais, escolas, indústrias, comércio, sistemas de tratamento de água e esgoto, tratamento de lixo… e como propiciar isso tudo sem energia? Por que consumimos hoje o mesmo que Botsuana? Porque os números dizem que consumimos menos que a média mundial hoje, porque a condição social da maior parte da população é ruim, a partir do momento que ela começar a melhorar o consumo de energia irá aumentar. Por isso que eu disse que a necessidade é real e não foi criada pelas mineradoras ou pelo Sarney. É justamente o que você chama de desenvolvimento (boa condição de vida, bons empregos, boa educação) demanda energia.

        Ok, eu sei que vc não é contra a energia em si, mas o meio de obtê-la “existem outras soluções” mas quais? Daí vc cita a solução de aquecer água a baixo custo com energia solar. Vamos devagar, o que funciona bem para uma fazenda ou até para uma pequena localidade nem sempre é uma solução possível para cidades e até estados inteiros.

        Primeiro o que você provavelmente viu são coletores solares, eles aproveitam a luz do sol para aquecer água, muitos condomínios populares construídos no Brasil já vem adotando essa solução, além de mais ecológicos que os chuveiros elétricos convencionais elas representam substancial redução das contas de energia elétrica, que fazem diferença nas famílias mais pobres. O que gera energia elétrica a partir do sol são fotocélulas, o princípio é até o mesmo, mas a aplicação é outra.

        Coletores e fotocélulas são boas soluções em lugares isolados e como fontes complementares a um sistema de energia maior já existente, mas imagina cidades inteiras sendo alimentadas assim? Imagina um hospital só a energia solar? E a noite quando o sol se por, o que vai ser dos pacientes em UTI? Entendeu que não é bem assim “ah se tem solar, não precisa de hidrelétrica”? Coisas similares acontecem com outras fontes, energia eólica por exemplo só funciona quando venta, e não venta tanto assim na Amazônia. Essa solução pode ser adequada para algumas aplicações, algumas propriedades, e até vilarejos, mas não para substituir uma Belo Monte.

        Ainda sobre energia solar, sabe do que são feitas essas placas solares? Silício. E sabe como se obtém? Do minério. Então, considerando toda a cadeia, a adoção em larga escala dessa solução seria um desastre ambiental muito pior que advogam ser Belo Monte: se extrai o minério, vende barato pro Japão (ou quem mais fabrique) que refina e fabrica as placas, que nos revende muito caro para termos energia para refinar mais minério para termos mais placas… lembrou da história das coisas aqui?

        E já que falamos e minério e já que escrevi demais mesmo tem outro assunto que colocam por aí que me incomoda muito porque eu sei ser meia verdade. “Essa usina só está sendo construída para atender as mineradoras que vão comprar energia a preço de banana”.

        Que mineradora vai ter mais oferta de energia é fato. Mas que a usina está sendo construída só pra elas não. O consórcio Norte Energia só venceu a concessão porque garantiu a venda de 70% de sua produção PARA AS DISTRIBUIDORAS, que são as empresas que revendem a energia basicamente pra residências, pequenos comércios e pequenas indústrias. Só os outros 30% podem ser vendidos para empresas como grandes mineradoras. Esses 30% dificilmente será tão barato quanto se alardeia, ainda mais se a usina for, como alguns dizem que é, inviável economicamente. As grandes empresas também pode se quiserem comprar das distribuidoras que compraram dentro dos 70% já mencionados, mas dificilmente farão isso porque será mais caro (fica mais caro porque tem a distribuidora como intermediária). Pode parecer bobagem mas faz muita diferença saber esse detalhe. É claro que a usina atende também as mineradoras, mas dizer que é só pra isso é exagero.

        Enfim, desculpa pela resposta longuíssima, é que a questão tem muito “i”s despontuados. 🙂

        Abraços,

        Rogério

  2. Ai Rogério,

    Acho que entre nós há uma diferença de concepção de mundo mesmo. Por exemplo, você cita o Banco Mundial como uma instituição isenta para esse debate. Eu não considero. Se você clicar nos outros links de artigos que já escrevi, você vai ver colegas seus engenheiros defendendo outras soluções mais diversificadas para o problema da energia.

    É concepção de mundo mesmo. Acho que você já colocou sua concepção de mundo e de forma muito clara. Agradeço mais uma vez pela sua participação.

    Abraços,

    Amanda

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