“A gente está descuidando um pouco da preciosidade do fato”

Caco Barcellos faz parte da minha vida desde a adolescência – se é que se pode tratar alguém assim, com essa intimidade que nasceu da leitura de um livro lido em 1998, ou no vestibular, não sei bem ao certo agora. A memória falha! Só sei que o Rota 66 foi um livro que me fez enxergar como era complexa a profissão que resolvi abraçar. Tenho pelo repórter Caco Barcellos uma admiração grande, pois ele consegue se destacar profissionalmente realizando um trabalho muito bonito, a despeito do ambiente nada acolhedor proporcionado pela Rede Globo.

Quando o blogueiro Eduardo Guimarães publicou um post falando de coisas interessantíssimas que o Caco Barcellos teria dito num programa jornalístico, eu logo procurei no youtube pra saber o que realmente havia falado aquele experiente repórter e em que contexto. Primeira pergunta que me ocorreu: como é que o Caco falou coisas tão polêmicas na Globo e não foi demitido na mesma hora? Depois eu fiquei me perguntando qual seria a tal militância política do Caco.

Foi com esse espírito que eu procurei o vídeo na internet, e percebi que só havia mesmo um trecho muito pequeno disponibilizado pela Globo. Liguei para a emissora, dizendo que precisava de uma cópia do programa na íntegra, para fins educativos  e a emissora me negou esse material. A Globo pediu para eu procurar uma empresa terceirizada parceira deles, que também se negou a atender o meu pedido. Recorri ao último recurso: procurei empresas que trabalham com “clipping” aqui em Brasília, e felizmente uma empresa conseguiu me atender. Foi assim que consegui obter o material que já está no youtube, dividido em 4 vídeos – clique para assistir primeira parte, segunda parte, terceira parte e trecho polêmico.

Foi com alegria que recebi o material: Caco Barcellos deu uma aula de jornalismo em praticamente todas as intervenções que fez no programa. Fez um relato sobre a marcha da corrupção que havia acabado de acontecer no Rio de Janeiro, chamando a atenção para a falta de protesto contra os corruptores. Também mencionou a presença de bombeiros, de moradores que não estavam recebendo a indenização por terem perdido casas nas enchentes, e outras demandas cotidianas. Ele deixou claro as limitações dele como repórter, se abstendo de responder coisas das quais ele não tinha conhecimento – explicou que estava na manifestação mais precoupado em saber porque as pessoas estavam ali.

As colocações são didáticas e diplomáticas. Não perdeu a linha em momento algum: foi bem educado ao falar sobre a Abraji e devolveu elegantemente uma pergunta para a sua colega Cantanhede. Adorei a forma como ele chamou a atenção para a importância dessa coisa que parece tão simples que é contar histórias: “A gente está descuidando um pouco da preciosidade do fato” – ele disse a certa altura do programa (veja no segundo vídeo, perto dos onze minutos). Achei libertador!

Há uma militância dentro da esquerda que precisa muito aprender a dar valor à preciosidade do fato. Sinto falta disso nas minhas leituras. Por exemplo: se numa manifestação social existem pessoas de x,y,z,w posicionamentos partidários, há sempre uma turma que tende a homogenizar essas diferenças – isto é, mesmo que elas existam de fato, elas são tratadas como uma coisa só. Parece uma bobagem, mas é a tal preciosidade do fato. Repórter bom vai pra rua e tenta identificar quais são aquelas pessoas, o que elas fazem ali, o que as motiva. O que eu vejo nas minhas leituras é gente enquadrando politicamente organizadores de marchas e depreendendo automaticamente o que aconteceu nas ruas a partir somente desse dado, sem precisar pisar numa marcha, sem verificar o que de fato aconteceu entre a intenção de quem organizou e as motivações de quem de fato saiu de casa e fez a marcha acontecer.

Há uma militância dentro da esquerda que é rápida em criticar o PIG (Partido da Imprensa Golpista) quando o método de certa camada da imprensa brasileira consiste em inventar aspas* para um entrevistado (como foi o caso da revista Veja quando fez matéria com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro). Uma parte considerável da imprensa de fato  merece esse puxão de orelha – eu mesma faço esse tipo de crítica de vez em quando, para elevar o nível do debate, para dizer que colocar palavras na boca de alguém é incaceitável num jornal. O que me incomoda é sentir que, quando precisamos fazer essa crítica para dentro da militância, entre os blogueiros, há uma demora grande em se reconhecer essas falhas (quando ocorre), que são avaliadas como uma mero detalhe,  uma coisa praticamente aceitável.

Quanto a mim, sigo acreditando que é possível fazer bom jornalismo de esquerda, sem medo de encarar a realidade das ruas, sem medo de lidar com as críticas e sem medo de enfrentar as contradições de ser uma militante de um partido de esquerda que hoje está no poder. Sigo acreditando que o apego aos fatos deveria ser mais valorizado entre militantes de qualquer partido de esquerda. Que os vídeos do Caco Barcelos sejam fontes de inspiração para aqueles que quiserem obter mais credibilidade na blogosfera.
*Aspas: em jornalismo, coloca-se uma frase entre aspas quando o repórter quer reproduzir ipsis litteris (literalmente) o que um entrevistado pronunciou. Interpretações devem ser colocadas de outras formas.

** Agradeço o apoio do professor Carlos Emilio e da jornalista Letícia Sallorenzo que me ajudaram a obter o vídeo do programa.

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4 comentários sobre ““A gente está descuidando um pouco da preciosidade do fato”

  1. Amanda,

    este trecho vale para mil reflexões:

    “Há uma militância dentro da esquerda que precisa muito aprender a dar valor à preciosidade do fato. Sinto falta disso nas minhas leituras. Por exemplo: se numa manifestação social existem pessoas de x,y,z,w posicionamentos partidários, há sempre uma turma que tende a homogenizar essas diferenças – isto é, mesmo que elas existam de fato, elas são tratadas como uma coisa só. Parece uma bobagem, mas é a tal preciosidade do fato.”

    …e não importa quantas carapuças se enxerguem nesta citação – talvez em algum momento eu seja um carapuça – mas sim, a autocrítica. Em muitos momentos, a mídia alternativa, ou qq coisa que seja chamada, demonstra os vícios que tanto critica na mídia tradicional. E a coisa se agrava quando deriva para panelas e respectivos ataques pessoais. Tomara que tenhamos esta etapa como maturação. Não quero que seja uma repetição de uma história que a esquerda conhece muito bem, que a torna autofágica e dividida até a derrota.

  2. Dos Males, Perfumes e Acácia Videira de Baco

    Não se brinca com paixões
    Gritei ao copo que guardava solene o próximo gole
    Não se apresente em outras magoas
    Amigo desta vida solidão
    Tenha comigo
    Seja em mim o alento de todos os meninos

    Me leve neste deleite a mares calmaria
    Retire deste peito a tal melancolia
    Evite-me a métrica o verso a rima
    E vou contigo neste alivio profano
    Beijo-te nesta pandega

    Busco em desespero o impudico
    Nego a barbárie ética e moral neste copo
    Sei-me contemplativo, embora refratário
    Desculpe-me o grito inicial, puro medo da exação social

    Segue comigo em teu silencio carinhoso
    Beijo-te já a borda
    Amo-te quando limpo e leve me faz Hipérbole
    Me leve mesmo ao sono letárgico, herético

    Copo maldito me fez bêbado, velho e síntese
    Amo-te mais e beijo tua borda
    Não me importam as baianas
    Sou nesta carraspana dono de toda a Bahia

    Sou mesmo livre, quase alegria…

    Paulo Batista 2002

  3. Forro de Caruaru o Grande Abraço do Sertão

    Neste
    Te encontro feliz
    Sou feliz contigo
    Sonho
    Não me oponho

    Banda de pífaro
    Festa de São João
    Um mestre
    Que Vitalino
    Sopra o barro
    Retrata a vida

    A seca se foi
    Tem amor tem pão
    Literatura de cordel
    Sou feliz
    Sonho a luz de teu rosto
    Neste para todos

    Na caatinga tu és flor
    Anjo de asa branca
    Estrela de Ave Maria
    Acabou o gemido
    Toda vida sorri comigo
    A gente não é mais miúda

    Tem forma
    Nome de cheiro bom
    Boca de beijo
    E carinho de mão de tocador
    O hoje é Domingo
    Não tem lida
    O ontem também

    No amanhã
    Acabou a despedida
    É tudo regresso
    O sul vai vazio
    Sem fazedor de casa prédio e avenida
    O norte é abraço

    Acolhida…

    Paulo Batista 1996.\\

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