Algumas palavras sobre a ingênua e necessária Marcha contra a Corrupção

Todo mundo quer combater a corrupção. Difícil encontrar alguém que em sã consciência vá pregar pelo direito de ser corrupto. Pois bem, se a Marcha contra a Corrupção sinaliza alguma coisa, aponta em primeiro lugar uma vontade legítima do povo em reagir a uma série de casos de corrupção que vem sendo amplamente divulgados pelos jornais.

Em Brasília, especificamente, o caso da Jaqueline Roriz é o mais emblemático do momento pois existiam vídeos e provas de que ela estava envolvida em maracutais, mas ela foi absolvida pelos seus colegas parlamentares. Só esse caso já merecia  uma passeata pois a indignação aqui em Brasília, onde moro, é grande e ampla, vai da atendente do café até as camadas ditas esclarecidas. Talvez isso explique porque em Brasília essa marcha juntou tanta gente (dizem alguns jornais que juntou 30 mil pessoas) ao contrário de São Paulo (dizem que não passou de 400 pessoas). Também é bom lembrar que 7 de setembro já junta um volume grande de pessoas na Esplanada dos Ministérios – então, né, quem foi pra um evento pode muito bem ter ficado pro outro, concordam?

Mas divago. Queria dar meu relato pessoal. Antes queria perguntar pra vocês uma coisa: digamos que eu conheço um parente que trabalha na Polícia Federal. Daí eu preciso de um passaporte pra dali, sei lá, dois dias, só que o meu está vencido e há uma fila para ser atendida e que provavelmente pelos meios normais eu não conseguiria ter o meu passaporte. Vocês recorreriam ao parente para obter uma solução mais rápida do que a fila normal? Ou vocês consideram que isso é tráfico de influência? Quase uma corrupção ou uma corrupção completa?

Pois bem, a pessoa que me convidou para ir pra Marcha contra a Corrupção utilizou esse expediente achando inclusive que isso não tinha nenhum problema porque “nesse país as coisas não funcionam então a gente é obrigada a dar um jeito”. Bom. Isso é só um detalhe pra vocês terem uma noção do quanto o conceito de corrupção é amplo. Eu até queria ir na tal Marcha, pra ver qual era, mas não deu, eu precisava passear com a minha filha, que tem pouco mais de um ano, e ela não ia aguentar o calorzão de Brasília.

Mesmo sem ter participado da Marcha, passei pela Esplanada pra poder chegar no clube – então vi, do meu carro, uma parte da Marcha, de relance. E o que eu vi foi um cidadão segurando uma grande bandeira vermelha do PCdoB e entre outras bandeiras que não consegui identificar. Vi muito lixo espalhado nos arredores (saco plástico, copos, latinhas) e muitos carros estacionados em cima dos gramados (será que era do povo que foi pra ver o desfile de 7 de setembro ou do povo da Marcha ou os dois? Não dá pra dizer). Incrível como os fotógrafos da imprensa não registraram nem o lixo, nem os carros sobre o gramado e nem a bandeira do PCdoB (pelo menos na busca geral do google).

Divaguei. Deixa eu voltar.

O que eu queria dizer mesmo, sobre a Marcha contra a corrupção, são duas coisas: primeiro que ela é necessária. Hoje a gente tem exemplos claros e límpidos de corruptos que não sofrem punição e isso ocorre não só de forma isolada, pessoal, mas é uma coisa meio que institucionalizada: não temos mecanismos para punir ou tentar coibir a corrupção. Isso é sim muito grave e as pessoas sentem essa fragilidade do nosso sistema.

A segunda coisa é que a Marcha é absolutamente ingênua. Fico imaginando os corruptos assistindo televisão achando tudo aquilo muito lindo, muito genérico, muito superficial, inócuo. Aquelas carinhas pintadas pedindo “Fora Lula” (A revolução não partirá dovão livre do Masp) não ameaçam em nada o statusquo. Gritam tal qual crianças birrentas: elas sabem o que querem (combater a corrupção) mas não sabem o que fazer para conseguirem alcançar aquele objetivo. Então esperneiam frases feitas e palavras vazias diante de quem sabe fazer política feito gente grande.

Na hora de botar a cabeça pra funcionar e propor mecanismos que possam punir corruptos e tornar os processos mais transparentes, aí sim, minha gente, eu queria ver. Queria ver juntar na Esplanada e na Av. Paulista, meia dúzia de gatos pingados que conseguirem alcançar um consenso de como lidar com essa situação, com a corrupção que atinge as diversas instâncias governamentais e estatais (viram que eu não estou me referindo só a categoria dos políticos, né? Vamos evitar os preconceitos…).

Vamos ficar de olho – porque o povo já está se sentindo acuado e a coisa mais perigosa é aparecer um líder carismático pra se aproveitar dessa birra e emplacar medidas autoritárias. Mas por agora, eu acho necessário que exista uma marcha como essa, para que uma parcela da esquerda possa sair da letargia. Ah! O texto do Raphael Tsvakko faz uma interessante abordagem sobre a repercussão da Marcha entre as camadas da esquerda governsta, leiam De inocentes úteis a golpistas.

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