Quem tem medo do feminismo?

Selo Desmitificando o feminismo

Eu mesma nunca fui capaz de saber exatamente o que o feminismo é: apenas sei que as pessoas me chamam de feminista toda vez que expresso sentimentos que me diferenciam de um capacho de porta. Rebecca West, Escritora inglesa, 1892 – 1983

É esperado que os machistas de plantão rejeitem o feminismo. Sim, machistas, no geral homens, têm medo do feminismo, têm medo que uma mulher se torne, aos seus olhos, seres humanos! Machistas têm medo de lavar uma louça, medo de chorar em público, medo de usar uma camisa da cor rosa, medo de ganhar o mesmo salário que a mulher, medo de olhar uma gostosa na rua e não conseguir se comportar como uma pessoa civilizada (sem agressão). Medo de ouvir um não de uma mulher e ter que lidar com essa rejeição.

As mulheres machistas, por outro lado, têm medo da liberdade que o feminismo traz. Sobretudo a liberdade de serem elas mesmas, sem precisarem da aprovação prévia do olhar masculino/machista.  Pensam elas que, se elas não seguirem as regras machistas dos homens, nunca serão amadas por eles. Uma mulher machista no fundo, no fundo, é uma mulher insegura, que coloca as necessidades dos seu parceiro acima das necessidades próprias. A mulher machista quer saber primeiro o que querem os homens (e os outros), para primeiro se adequar a essas vontades e só depois saber o que se passa dentro dela mesma.

Humanismo

Que os machistas tenham medo do feminismo é compreensível. Mas o que me deixa realmente intrigada de queixo caído e olho arregalado é como é que essa palavra – feminismo – vem sendo tão atacada e difamada a ponto de humanistas (!) a rejeitarem. Vejo pessoas bacanas, de bom senso e cheias de feminismos nas atitudes, dizerem até com certo orgulho nos olhos:

 Eu não sou feminista! Sou humanista.

Fico realmente chateada quando escuto essa pérola. Porque mesmo sem querer tenho a impressão de que o interlocutor está me dizendo que o feminismo é desumano. Ou, se não é desumano, é uma luta menor pois já existe o humanismo, que já dá conta da humanidade. Será?

Mas depois eu respiro fundo e penso: ih, deve ser culpa daquele povo que distorce o feminismo – daí começam a dizer que feminista não pinta unha, que feminista não casa, que feminista mata criancinha, que feminista obriga a mulher a trabalhar fora de casa, que feminista quer competir com os homens e dominá-los. Enfim, qualquer generalização sensacionalista sobre mulheres merece esse rótulo, feminismo. Injustamente!

Então, quando você ver alguém comentando sobre um bando de mulheres rindo num programa de tv porque um cara teve seu pênis decepado pela esposa, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém citando apenas Valerie Solanas como a única feminista verdadeira, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém repetindo que as feministas não aceitam que mulheres façam sexo em determinadas posições sexuais, saiba que isso não é feminismo.

Outra explicação para os humanistas não se acharem feministas pode ser a seguinte:  eles devem entender que as conquistas feministas como o voto feminino, o direito à licença maternidade, e entre outras com as quais normalmente as pessoas se identificam já são suficientes. Se esse é o caso, é preciso primeiro fazer uma justiça histórica: foi o movimento feminista (e não humanista) que batalhou por essas conquistas. E segundo, dizer que ainda estamos engantinhando no caminho da igualdade de direitos entre homens e mulheres: hoje é o movimento feminista que vem debatendo , denunciando e enfrentando questões como o tráfico de mulheres, a violência doméstica, o estupro, as práticas sexistas que naturalizam a violência contra a mulher, a igualdade de salários entre homens e mulheres que realizam o mesmo trabalho e outras lutas que os movimentos humanistas podem até apoiar, mas não lideram.

Atualização do dia 6 de agosto de 2011: leiam aqui uma carta de uma mulher explicando como os comportamentos machistas estão espalhados mesmo dentro de círculos humanistas/céticos, locais onde nós normalmente esperamos encontrar pessoas mais esclarecidas quanto ao feminismo – o relato é estarrecedor.

Feminilidade

Outra pérola que escuto é essa aqui:

Eu não sou feminista! Sou feminina.

Adotar uma postura feminista não tira a feminilidade de alguém. O que muda é que a gente começa sim a repensar a questão da feminilidade: somos femininas para nós ou somos femininas para suprir as expectativas dos outros? O feminismo devolve a feminilidade para as mãos das mulheres – ou seja, você quer pintar a unha? Se você gosta, pinte. Se você o faz porque do contrário você vai perder um emprego, aí é uma pressão social que seu colega homem não passa. Se você gosta de salto alto, ótimo, mas se te obrigarem a ter um problema no pé pela obrigação de usar sapatos com salto alto, aí é uma questão a ser discutida. Homem pode chorar em público? O feminismo também trabalha para que essa não seja uma regra compulsória para todos os homens, para que os homens possam chorar sossegados sem que isso seja tido como uma coisa de mulherzinha (e por que essa expressão é tão negativa?!). Portanto, aprendemos outra lição: não existe um feminismo, um líder a ser seguido. Existem feminismos, no plural, para o bem de todos, homens e mulheres.

E por ser um movimento plural, onde cabem muitas interpretações, é fácil você discordar de uma feminista em especial e achar que está discordando do movimento todo. Portanto se você encontrar uma feminista dizendo que mulher tem que tomar pílula pra suspender a menstruação pela vida inteira porque isso traz muitas vantagens, não se preocupe: é apenas UMA feminista. Você vai encontrar duas outras feministas dizendo justamente o oposto, que você possa menstruar em paz, porque o corpo é seu, a feminilidade é sua. O importante para o feminismo é discutir, debater, trazer a tona questões que estão rigidamente colocadas pela sociedade e que podem limitar a sua experiência como mulher (e até como homem) no mundo.

Se você chegou até aqui deve ter percebido que o feminismo é, em resumo, isso que a socióloga Bila Sorj falou por aí:

“Diferentemente dos demais movimentos políticos como o fascismo, o nacionalismo e o comunismo, o feminismo promoveu uma formidável mudança de comportamentos orientada para a promoção de mais liberdade e igualdade entre os sexos, sem aspirar à tomada do poder, sem utilizar a força e sem derramar uma gota de sangue”.

E o feminismo continua discutindo as liberdades das mulheres e transformando a sociedade até hoje.

Então, me diga: você ainda tem medo do feminismo?


Obs. Esse artigo faz parte da blogagem coletiva #mitosfeminismo – veja aqui outros posts que fazem parte desse movimento.

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3 comentários sobre “Quem tem medo do feminismo?

  1. Pelo visto,aqui no Brasil reina esta idéia de adaptar a luta feminista á mistica feminina,sem analizar os processos históricos que criaram esta diferença( conceito de feminilidade)..além do mais,é graças a este pacifismo exagerado que as violências contra nós ainda são racionalizadas.Afinal,.se um estuprador,assasino de mulheres,pedófilo,agressor doméstica tem que ser “entendido” e “ir para um psicócolo”,como vamos ter estas violências erradicadas?

    O texto é muito superficial e sem embasamento histórico.A luta de resistência nossa levou muitas para as fogueiras,muitas foram violentadas e sim,tiveram que reagir violentamente.A falta de lideres dá a impressão que os nossos direitos foram conquistados “do nada”,diferente do movimento negro,que celebra Zumbi dentre outros,reconhendo o quanto foi importante os negros se organizarem e lutarem.

    Finalizando,é pór essas e mais outras que o feminismo é levado na piada no Brasil: falta de seriedade das que se dizem feministas.

    • Olá pessoa!
      Em primeiro lugar eu gostaria que você se identificasse, “tuxedosam” é um apelido que sinceramente não me diz nada! Fico muito pouco à vontade para aprovar um comentário ou mesmo responder a um comentário de uma pessoa que por algum motivo não quis se identificar como homem ou mulher, por exemplo. Mas tudo bem, vamos lá… Em segundo gostaria de dizer que acho louvável você cobrar um aprofundamento sobre o feminismo mas realmente eu não tenho nenhum diploma nessa área. Tenho apenas a certeza de que o feminismo diz respeito a todas as mulheres, independentemente do grau de conhecimento teórico que elas possam vir a ter. Esse artigo não tem pretensão acadêmica, tem apenas a vontade de debater algumas ideias que estão se cristalizando no senso comum a respeito do feminismo. Realmente eu não sei da onde surgiram essas ideias, só sei que elas precisam ser descontruídas. Se você quiser ajudar nessa descontrução, publique um texto e eu colocarei um link aqui no meu blog, redirecionando para as suas ideias aprofundadas, que, aliás, eu gostaria muito de conhecer. Abraços

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