Uma feminista no 2 BlogProg: balanço pessoal

Como você já deve saber, participei do segundo Encontro de Blogueiros Progressistas (#2BlogProg) que rolou aqui em Brasília. Até fiz parte da mesa Mulheres na Blogosfera  (leia aqui um resumo interessante sobre isso), mas a realidade é que antes de ser militante eu sou mãe de uma menina que agora tem 11 meses de idade. E só quem é mãe de um bebê tão pequeno sabe o quanto é difícil ser militante e ser mãe ao mesmo tempo. Por isso, eu não pude participar de todo o evento, como eu gostaria. Mas fiquei bem antenada pela movimentação via amigos, twitter, blogs e afins.

Após essa pequena ressalva, vou tecer um balanço feminista e despretensioso: gostei de ver a presença de mulheres nas mesas e na plateia. Já é um dado importante! A presença de mulheres nos espaços políticos deve ser valorizada, principalmente na cultura política brasileira, onde a representação de mulheres é pequena. Também gostei da mesa que eu participei mais ativamente, das mulheres na blogosfera. Apesar de ter acontecido depois da mesa do Zé Dirceu (era pra ser ao mesmo tempo, em outro espaço, mas não rolou) e ter um quórum relativamente baixo, deu pra ter uma dimensão do quanto é necessário fortalecer o feminismo não só na blogosfera, mas nos espaços de poder, nos fóruns e encontros como esses.

Achei ótimo ter recebido lá em casa a Niara , do blog Pimenta com Limão, gente finíssima, que veio direto do Rio Grande do sul para bagunçar o evento. É uma moça corajosa por manter opiniões que quase sempre incomodam uma parcela da esquerda – a presença dela no #2Blogprog foi fundamental. Também adorei conhecer pessoalmente as mulheres que escrevem blogs interessantíssimos, mas incrivelmente pouco citados pela tchurma da Blogosfera dita Progressista (@Bruxa_OD@bete_davis@ticamoreno@karlavanco@CintiaBarenho @babslopes@ro_anna@jufreitascs). Isso sem contar a companhia das deusas @srtabia e @carineroos que eu já conhecia pessoalmente de outros carnavais.

Até agora só falei das coisas bacanas, mas é claro que eu vi coisas ruins também: achei péssimo colocar a figurinha do Zé Dirceu pra concorrer com um monte de mesa de gente menos famosa (inlcuindo a mesa da qual participei, das mulheres blogueiras, mas não só essa, que fique claro). Esse tipo de esvaziamento das mesas já era uma coisa esperada: assim que nós blogueiras batemos o olho na programação percebemos que isso iria acontecer. Foi uma clara demonstração de “acochambramento” da organização – devem ter pensado: “Ah! Vamos jogar esse povo que reclama em mesa autogestionada, a partir das 14h, que depois ninguém pode reclamar que a gente não incluiu as minorias”. Esse foi o jeito que a organização encontrou para INCLUIR (eu coloco em caixa alta, daqui a pouco vocês vão saber o motivo) alguns setores que são marginalizados na dita grande imprensa (ou PIG – Partido da Imprensa Golpista, como alguns gostam de dizer).

Também achei ruim o fato de não terem incluído, na carta final do encontro, nenhum tópico que aborde os direitos humanos. E aí a culpa nem é dos organizadores, acho que isso reflete uma postura dos participantes desse encontro, que votaram pra carta sair desse jeito. Porque a proposta foi feita, foi levada pelas blogueiras, mas foi voto vencido.

Que tipo de blogosfera progressista é essa que não planta, em seus fóruns, a bandeira da diversidade? Que não consegue incluir, de forma transversal, os direitos humanos? A esquerda tem uma mania de achar que, ao democratizar o acesso à comunicação, questões relativas aos direitos humanos (direito à memória, demandas LGBTs, feminismo, acesso à moradia, acesso à terra, acesso à trabalho e renda, equilíbrio ambiental…) se resolvem automagicamente. Meus caros e minhas caras, não é bem assim: não basta democratizar verba publicitária, não basta votar um marco regulatório decente, não basta oferecer internet de graça para todos: é preciso pensar em formas de incentivar a danada da INCLUSÃO das minorias, dos discursos que atualmente não encontram espaço na grande imprensa.

A questão financeira é importante, claro. Mas sozinha não dá conta de resolver alguns problemas que estão no âmbito da comunicação e da cultura: quem vai estabelecer, por exemplo, que tipos de propaganda podem ser feitas voltadas ao público infantil? Quem vai garantir que uma minoria que lute por reforma agrária não seja criminalizada nos meios de comunicação? Quem vai garantir acessibilidade aos que têm alguma deficiência? Quem vai defender LGBTs da violência que nasce dos discursos de ódio em grande escala? Quem vai defender as mulheres dos discursos que criminalizam vítimas de estupro ou que venham a banalizar esse tipo de violência? A democratização da comunicação por si só não resolve esses problemas que ora são potencializados por uma mídia livre de responsabilidades que hoje temos.

É preciso ter liberdade na rede? Sim, é preciso. Mas simplesmente deixar de legislar (como alguns parecem defender) não vai garantir a privacidade na rede, o direito dos blogueiros e ativistas digitais possam de fato exercerem sua liberdade. Nós temos que nos preparar para combater qualquer forma de vigilância na rede, a exemplo do projeto do Azeredo (o AI5 Digital)? Sim, nós temos. Mas temos que ir além, temos que construir um Marco Civil da Internet alinhado com os direitos humanos.

Também queremos, por que não, propor uma agenda de movimentos coletivos: fortalecer a rede, promover blogagens coletivas, somar dentro da divergência. Operar em outra lógica, mais horizontal, mais cooperativa, participativa. Existe muito a se fazer nesse campo, e esse tipo de articulação foi o que menos se fez num evento desse porte (para o meu espanto!). Ninguém pensou em estratégias de comunicação na rede para as defesas das bandeiras que foram acordadas no encontro, e que estão contidas na carta final do evento! Na mesma data estava rolando, por exemplo, a marcha das vadias e marcha da liberdade. Por que esses eventos não foram incorporados ao encontro? E esses eventos foram chamados pela web, tiveram um caráter político e não necessariamente partidarizado.

Bem, acho que sem querer acabei escrevendo que tipo de Encontro de Blogueiros Progressistas eu gostaria de ver lá na Bahia, em 2012: um evento em que a INCLUSÃO seja mais do que uma intenção bonitinha politicamente correta, mas que apareça de forma transversal na organização do evento, nas discussões, nas mesas, nas propostas… Que as feministas tenham um espaço para propor mudanças, bem como as demais minorias também possam trazer suas contribuições, suas propostas de blogagem coletiva, seus pontos em comum.

No próximo encontro a diversidade tem que ser o norte da coisa toda: se não o evento vai ficar eternamente com o apelido de governista. Pode até não ser 100% governista, pode até ser que um participante ou dez ou vinte façam perguntas cabeludas pro ministro das Comunicações que foi convidado para ao evento. Vai continuar com cara de governista enquanto não acordar praquela pegada de independência política que só a inclusão de temas “espinhosos” pode dar. Olha só o tamanho do relatório de atividades dos grupos de trabalho, como ficou grande! Veja como o leque da discussão foi amplo e como a carta final dos blogueiros progressistas ficou pequena diante das demandas dos grupos .

Enfim, eu acho que um encontro que seja genuinamente de blogueiros progressistas tem que se pautar mais pela diversidade da rede (fomentar mais debates sobre demandas dos movimentos sociais) e menos pelos blocos político-partidários que se revezam no poder. Pode convidar os deputados e políticos? Pode e deve, desde que eles tenham algo realmente interessante para contribuir. Em tempo: adorei a participação da Erundina: ela foi um dos pontos mais bonitos do Encontro.

Esse relato está atrasado, eu sei. Mas isso aqui ainda é militância, ainda que tarde! Entendam, é uma mãe de criança pequena quem está escrevendo aqui. E eu não recebo nada por isso. Espero poder escrever com mais rapidez numa próxima ocasião.

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5 comentários sobre “Uma feminista no 2 BlogProg: balanço pessoal

  1. Espero que essa movimentação quase exclusiva das blogueiras em quebrar essa pecha petista-governista desses encontros progressistas surta efeitos concretos.

    “Mesa do Zé Dirceu” em tempos de desvelo de consultorias é triste…

  2. Texto excelente, vizinha. Parabéns.

    Enfim, inclusão não pode ser apenas uma palavra vazia, ela deve ser fomentada e seu texto deixa isto evidente quando demonstra que nada acontece por sí só. Há muito trbalho, muita luta e há também política por trás de tudo isso, e é isso que a blogosfera tem de perceber que está fazendo: política, mesmo que ao modo 2.0. Portanto, não fazer sua parte para ouvir e fazer crescer as reinvindicações das minorias não é nada mais que a velha política que não nos representa.

    Abraços 😉

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