Podemos discutir a qualidade da mediação?

Jornalismo é mediação. Mediação jornalística significa que você vai olhar um universo e, a partir dessa observação, vai escolher enfoques, separar o que é do que não é notícia, selecionar, priorizar, hierarquizar e enfim, publicar.

Apesar da mediação jornalística seguir alguns princípios básicos, esse processo não é igual pra todo mundo: cada jornalista vai desenvolver seu próprio jeito de escrever uma notícia, de acordo com o veículo para o qual trabalha, de acordo com a editoria, com sua subjetividade, e entre outros fatores. Em que pese essa diversidade, é sempre saudável discutir coletivamente os critérios de mediação e avaliar as conseqüências sociais do que se publica ou se deixa de publicar.

O que me preocupa é que no Brasil de hoje há uma mediocridade tão grande, da base da pirâmide social até a elite, que as pessoas não conseguem se dar conta de que esse processo de mediação existe. E o pior: não percebem que é necessário que todos possam participar um pouco desse conjunto de critérios que separa o que é noticiável do que não é.

O que existe hoje é a tendência das pessoas quererem acreditar que esse processo é algo pronto e acabado, e por isso, indiscutível. A regra geral é “o jornalismo deve publicar tudo”. Agora imaginem o que é esse tudo? Fofoca, mentira, ofensa, injúria… Tudo é tudo, oras! Daí que criticar a publicação de certos conteúdos agora virou sinônimo de: “censurar a opinião pública”, “cercear a liberdade de expressão”, “impedir uma conduta que é culturalmente aceita”, “falta de senso de humor”, “ser moralista”, “fazer patrulha ideológica”.

Gente! Vamos combinar: querer discutir critérios de noticiabilidade é o que há de mais saudável pra uma democracia! Vamos colocar na roda, vamos pensar juntos!

Será que eu posso, por exemplo, questionar a publicação de um vídeo de um cara que matou 12 crianças dentro de uma sala de aula e depois cometeu suicídio? Posso perguntar sem ser rotulada de censora da opinião pública?

Gostaria de questionar muitas coisas, mas acima de tudo desejo que mais pessoas perguntem e ajudem a ponderar o que é que traz mais benefícios para o coletivo. Gostaria que mais pessoas desconfiassem da ideia de que a liberdade de imprensa é publicar tudo o que cai na mão de um repórter, não importa se nesse tudo existem interesses particulares, pilantragem, mentiras, informações não verificadas. Gostaria, enfim, que as pessoas parassem de rotular de censura o debate sobre a qualidade de mediação da imprensa, que é tão necessário para a vida em sociedade.

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