O bullying e a liberdade de opinião

Esse episódio do Bolsonaro me fez pensar em muitas coisas que eu acreditava ser consenso entre as pessoas mais esclarecidas, diplomadas, educadas. Mas pelo que ando lendo por aí, as divergências são maiores do que eu poderia supor. Neste post vou abordar a temática do bullying (ou intimidação, que muitas vezes se dá por meio de palavras), um tema que do meu ponto de vista tem tudo a ver com a questão da liberdade de opinião e de seus limites.

Considero o bullying um tabu dos mais difíceis de se enfrentar. Primeiro, porque antes de ter esse nome o bullying era visto como uma prática normal entre crianças e adolescentes dentro dos muros das escolas e às vezes até entre grupos de adultos em determinas ocasiões sociais (festas, escritórios, jogos de futebol…). A tal prática social que visa discriminar/intimidar/ridicularizar um indíviduo perante outros vem muito misturada a um clima de gozação, brincadeiras e piadinhas, o que confere ao bullying um ar inofensivo, inocente. E quem vai ser o estraga-prazeres que vai criticar/interferir nesse tipo de brincadeira juvenil? Quem vai colocar o limite nesse jogo de agressões disfarçadas de meras opiniões?

Em segundo lugar, como se já não bastasse a embalagem brincalhona desses atos de violência e intimidação, passou a existir com força em nossa cultura a ideia de que o direito de dizer o que se pensa é absoluto, ou, quando muito, sempre maior do que qualquer outro direito que esteja em jogo. Coloquem esse sentimento na conta da ditadura! Esse apego ao direito de dizer o que se pensa, mesmo que prejudique terceiros, é resultado do período em que nada podia ser dito, é a sombra da ditadura. Temos tanto medo da ditadura que quando vemos estamos ali no extremo oposto, falando tudo o que pensamos, sem respeitar o nosso interlocutor – e ainda nos vangloriamos disso, nos achamos as mais democráticas das criaturas! Como se ofender um terceiro fosse uma necessidade democrática das mais urgentes.

Juntando esses dois fatores começamos a entender porque o bullying é um tabu. Tirando o tom de piada e o apego a liberdade irrestrita de opinião, o que sobra para se defender a prática do bullying? Todos sabamos e podemos concordar que o bullying atrapalha nossas vidas: tanto vítimas quanto agressores se sentem angustiados, tristes, deprimidos com tudo isso. Algumas crianças perdem o encanto com a escola por causa do bullying, outras chegam a sofrer violências físicas por isso. Tem gente que vai parar no analista, anos mais tarde, pra poder lidar com esse sofrimento que nem pode ser compartilhado devido a aura de bondade que cerca as mais tristes e solitárias memórias infantis. A realidade é que por mais que os agressores possam sentir algum prazer nessa crueldade, com o tempo nem eles mesmos se sentem bem nesse papel e num determinado momento da vida eles podem reconhecer esse sofrimento com pesar! Não como culpa, mas como algo a ser lamentado: “Puxa, como pude ter sido tão estúpido?”.

Se colocarmos na balança o sofrimento que o bullying carrega é muito maior e mais pesado do que os supostos benefícios em se defender essa prática. Mesmo sabendo disso, por que seguimos com uma vontade louca e inexplicável de deixar o bullying acontecer, de incentivá-lo, de participar dele?

No meu tempo de escola eu não me lembro de nenhum adulto tentar interferir nos casos de bullying que ocorriam o tempo todo nas salas de aula! A regra era simplesmente fazer vista grossa. No máximo aparecia algum adulto quando já era tarde demais, para apartar uma briga quando a violência já estava num nível físico, no tapa na cara, nos socos e pontapés. Achava a falta de interferência de quem cuidava do ambiente escolar o mais grave dos erros pois que tornava a violência algo no mínimo invisível, e no máximo, algo a ser incentivado.

E o que já estamos carecas de saber é que as agressões sempre trazem algum componente de preconceito: seja pela aparência, cor da pele, capacidade intelectual, diferença étnica, de orientação sexual, de ideologia, de classe social, enfim, há uma infinidade de motivos. E isso tudo poderia ser trabalhado didaticamente em sala de aula, mas isso nunca acontece! Seja por causa do tabu já mencionado nesse texto, seja porque há quem acredite que o bullying, por si só, já é suficiente para combater os já elencados preconceitos. Algo mais ou menos assim: “Deixa a molecada se virar na valentia porque o que não mata fortalece o caráter”.

Mas nós sabemos que hoje em dia o bullying mata né? Mata mais o bullying do que colocar limite nessa farra toda, arrisco-me a dizer. Afinal, quem é que morre, quem é que sai prejudicado se um dia os professores passarem a ensinar a molecada a se tratar com respeito? O que é que de tão ruim pode acontecer se o bullying passar a ser repudiado nas escolas?

E fora das escolas? Será que já não está na hora, já não estamos maduros o suficiente para entendermos que é possível brincar, se divertir e fazer piada sem agredir uma pessoa, sem humilhar alguém/ou um grupo de pessoas por uma diferença física, social, étnica, ideológica ou de orientação sexual? Será que podemos cobrar das emissoras de televisão mais respeito pelas pessoas que estão em casa assistindo a programação? Ok, agora podem me chamar de chata, mas eu ainda acredito que o respeito entre as pessoas pode ser uma coisa muito legal e divertida.

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