O Bolsonaro e a liberdade de opinião

Acho lamentável que uma pessoa ofenda a outra em rede de televisão – porque, convenhamos, foi justamente isso o que ocorreu na tão comentada entrevista do programa humorístico CQC com o Bolsonaro. Fiquei matutando se ia ou não abordar o tema, porque, afinal, vale a pena comentar a grosseria alheia?

Mas, se por um lado a grosseria por si só não é material pra um post, por outro lado o Bolsonaro conseguiu, involuntariamente, trazer à tona uma questão que me sinto na obrigação de abordar: o direito à liberdade de opinião.

Afinal, o que é a liberdade de opinião? Cada um tem sua definição e poucas pessoas realmente se dão ao trabalho de pensar no que isso significa, mas posso arriscar que o senso comum diz que “é você dizer o que quiser, absolutamente tudo o que quiser, sem ser censurado por ninguém”.

Então convido você a sair do senso comum e a pensar nas exceções desse pensamento consolidado pelo senso comum. De acordo com a legilação brasileira são crimes  a injúria, a difamação e a calúnia, para começar a conversa. Isso aqui estou dizendo simplesmente para mostrar que esse direito a expressar uma opinião não é absoluto, ele é relativo! Deve ser compreendido em conjunto com outras leis que regem a sociedade brasileira.

Portanto, tome cuidado quando for defender que alguém ofende uma pessoa. Você ainda pode estar sendo conivente com um crime! Aliás, o Bullying do tipo psicológico só acontece onde o agressor encontra na sociedade a condescendência pra perseguir sua vítima, já parou pra pensar? Quando um fulaninho xinga o outro de gordo, por que ninguém interfere? Porque isso é ensinado nas escolas, as pessoas são ensinadas a não interferirem, a “respeitarem” a liberdade dos outros falarem qualquer coisa, inclusive ofender. Porque as escolas no geral deixam rolar as agressões verbais e só interferem, quando o nível de violência passa para o nível físico/corporal, e olhe lá.

Outra questão que cabe ressaltar: a liberdade de opinar é para mostrar uma diversidade. Será que é preciso ofender alguém pra mostrar um ponto de vista? Acredito que para isso existem os jornalistas, para mediar um debate que visa mostrar as mais diferentes opiniões sem, com isso, ofender alguém ou infringir as leis brasileiras.

Entenderam o meu ponto de vista?

Agora vou responder algumas perguntas que me foram enviadas pelo twitter e que podem interessar a outras pessoas.

1. Mas neste caso específico [a “entrevista” do Bolsonaro], A IMPRENSA é q foi procura-lo e ele RESPONDEU o q pensa. Não saiu distribuindo panfletos. Entende?

Amigo, o CQC nunca pode ser considerado imprensa. Nunca! E não é por falta de diploma de jornalista de seus idealizadores: é simplesmente porque a função da imprensa é debater assuntos de interesse público, e deve cumprir outros requisitos que o tal programa de humor, definitivamente, não cumpre. Qual é o interesse público em saber se um político permitiria seu filho namorar uma mulher negra? Percebe como não há interesse público nesse tema? É uma pergunta feita apenas com o intuito de gerar audiência, até porque o Bolsonaro sempre foi polêmico. Pra quem é jornalista e acompanha de verdade, a gente sabe que o Bolsonaro é o que é e se elegeu por ser quem ele é. Ou seja, a personalidade dele não é notícia nem sob o critério da novidade (todos sabem que o Bolsonaro diz coisas assim não só nesse contexto do programa CQC). To aqui procurando algo que faça da entrevista do Bolsonaro uma notícia, mas acho que não se enquadra em nada mesmo!

2.Deve alguém ser responsabilizado por seus pensamentos? Ou por responder? Deveria ele mentir? Ou dizer: “nao posso falar o que penso”?

Amigo, os seus pensamentos são seus! Não existem leis que punem pensamentos, graças a Deus. Também não existe lei obrigando ninguém a falar, muito menos participar de um programa de TV. Agora, se você aceitou participar de um programa de televisão, supõe-se que você tenha a responsabilidade de fazer bom uso de uma fala que será gravada, mediada e distribuída por um canal que, além de tudo, é uma concessão pública. O Bolsonaro é político, ele tem mais do que a obrigação de saber que o que ele diz na esfera pública será sim discutido pelo público. E sim, se o que vem na cabeça dele diante de uma simples pergunta é uma ofensa ele deveria pensar melhor e tentar dizer algo de forma a respeitar as leis que já existem e devem ser cumpridas por todos.

3. Mais: será q CALAR a homofobia nao terá um efeito reverso de tentar EDUCAR contra a homofobia? A agenda positiva nao seria mais efetiva?

Pessoalmente acredito que repreender alguém ou fazer alguém se RESPONSABILIZAR pelo que diz é não só cumprir uma lei, mas altamente educativo. Precisamos ensinar aos nossos jovens e adultos que é possível sim debater as mais diferentes ideias sem que para isso seja necessário agredir ou ofender uma pessoa. Devemos ensinar nossos jovens a fazerem o bom debate, a falarem com educação e respeito. Se o que a pessoa tem a dizer é uma agressão, prefiro que ela se cale! Sem dúvida! Eu já sofri bullying, meu amigo, e não tenha dúvidas, prefiro que meus agressores pensassem tudo ao meu respeito e não me dissessem nada! Que ficassem calados e parassem de me perseguir! E prefiro que mais pessoas tenham a  coragem de interferir quando alguém agride verbalmente uma outra pessoa. Acho que interferir, nesse caso, não é uma censura, é um ato de solidariedade à vítima da agressão.

Enfim pessoal, é isso. Espero que vocês não me considerem uma ditadora por escrever tudo isso aí que vocês leram. Mas se ainda assim vocês acham a minha postura ditatorial, a caixa de comentários está aí, aberta ao bom diálogo.

Anúncios

5 comentários sobre “O Bolsonaro e a liberdade de opinião

  1. CQC conseguiu, a custa do preconceito e do racismo, emplacar o Bolsonaro na mídia por quase uma semana. Ponto pra eles, que vão aumentar o merchandising no programa e ganhar mais dinheiro. Enquanto isso, a sociedade se empobrece pela falta de rigidez em relação ao tema. E pior, faz vista grossa, ao dizer que se trata de mera opinião “da fonte”. Ótimo texto, Amanda.

  2. Amanda,

    Eu defendo o direito de Bolsonaro falar o que quiser. Inclusive calúnias, injúrias e difamações. Mas também gostaria muito que arcasse com as consequências, é claro. Especialmente por ser um deputado.

    Abraço!

    • Querido Fernando,
      O ponto é o seguinte: você está me dizendo que seria a favor de alguém roubar, matar e torturar desde que arque com as conseqüências? Por que as pessoas têm tanta dificuldade de entender que a lei que trata da comunicação é para ser cumprida por todos? Por que a necessidade de um ser humano manifestar verbalmente um preconceito está acima do direito de um outro ser humano não ser verbalmente agredido? Não precisa responder, é só uma pergunta para pensar!P

  3. “…vale a pena comentar a grosseria alheia?”

    Não entendo porquê desta desinteligência em querer enquadrar o cara por racismo, homofobia, etc.
    Bolsonaro já se retratou, explicando que pensou que a Gil havia perguntado: “o que ele faria se um filho dele se casasse com uma negra como ela”. Por isso ele respondeu que não aprova promiscuidade. Se você não sabe o que é promiscuidade, procure no dicionário.

    Esse assunto já está encerrado e só está rendendo ibope mesmo para políticos rivais e meia dúzia de abestalhados, como alguns de vocês, que nem da comunidade negra ou gay são.

  4. “O seu comentário aguarda moderação.”

    Comentário aguardando moderação é como nos tempos da ditadura onde se escolhia o que poderia ou não ser publicado.

    Pense nisso antes de atirar pedras nos outros, como fizeste com o Bolsonaro!

Os comentários estão desativados.