Nós não morremos com a ditadura

Primeiro vamos nos acalmar: este artigo não é escrito para agradar a esquerda, nem pra fazer coro com uma ideologia vermelha. Também não é feito por uma especialista em política, nem em sociologia. Esse artigo não quer discutir o certo, nem o justo.

Esse artigo quer simplesmente existir, tornar visível uma situação que alguns querem esconder. Quebrar um tabu? Talvez.

Feita essa introdução, vamos aos fatos: o que é que aconteceu no Brasil nas décadas de 1960 e 1970, nos períodos tidos como mais violentos da ditadura? Já estamos em 2011 e infelizmente só temos algumas pistas que compõem essa resposta.

Algumas pessoas passaram esse período caladas e seguras em suas casas. Sim. É preciso registrar isso: teve muita gente que se enquadrou no regime e aqui não cabe nenhum juízo de valor. Quero apenas destacar a existência dessas pessoas que sobreviveram ao “regime” e estão aí, vivendo, se aposentando, quiçá com os filhos criados. E o principal: o “regime” não tirou delas o direito de elas contarem hoje suas próprias histórias.

Mas nem todas as pessoas que viveram naquela época têm hoje esse direito. Algumas passaram momentos de terror e pânico por conta do tal “regime de exceção” e perderam para a ditadura seus pais, filhos, irmãos, maridos, esposas.
Querer fazer de conta que essas famílias não foram prejudicadas é o mesmo que querer tapar o sol com a peneira: por mais que as pessoas tenham sido assassinadas e enterradas pelo “regime” em locais desconhecidos, as famílias dessas pessoas estão aí, vivas, respirando o mesmo ar que nós respiramos.

Essas famílias atingidas pelo “regime” não podem ser ignoradas, tratadas como se tivessem morrido juntamente com o “regime”. As famílias não acabaram: elas estão aí, querendo ter o que parece ser um privilégio: o direito de contar suas próprias histórias.

Simples, não? Será que é difícil de enxergar a dor de uma família que não sabe até hoje o paradeiro de um parente?

E é nosso dever estar ao lado dessas famílias e dizer: “Nós não morremos com a ditadura”. Abrir os arquivos da ditadura é uma questão de respeito a essas famílias, de respeito a nossa história e à democracia. Continuar escondendo esses arquivos é perpetuar uma crueldade que há muito já devia ter terminado. Está na hora da gente se somar a essas famílias e cobrar do governo uma providência para estancar de vez essa violência.

Obs. Esse artigo faz parte da Blogagem coletiva Desarquivando o Brasil – iniciativa da Niara de Oliveira – www.pimentacomlimao.wordpress.com

Anúncios

4 comentários sobre “Nós não morremos com a ditadura

  1. […] Amanditas is clear [pt] about the rights of victims and their families: Essas famílias atingidas pelo “regime” não podem ser ignoradas, tratadas como se tivessem morrido juntamente com o “regime”. As famílias não acabaram: elas estão aí, querendo ter o que parece ser um privilégio: o direito de contar suas próprias histórias. These families affected by the “regime” cannot be ignored, treated as if they had died along with the “regime”. The families have not stopped: they are there, wanting to have what appears to be a privilege: the right to tell their own stories. […]

  2. […] Amanditas is clear [pt] about the rights of victims and their families: Essas famílias atingidas pelo “regime” não podem ser ignoradas, tratadas como se tivessem morrido juntamente com o “regime”. As famílias não acabaram: elas estão aí, querendo ter o que parece ser um privilégio: o direito de contar suas próprias histórias. These families affected by the “regime” cannot be ignored, treated as if they had died along with the “regime”. The families have not stopped: they are there, wanting to have what appears to be a privilege: the right to tell their own stories. […]

Os comentários estão desativados.