Blogagem coletiva – maternidade e carreira

Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem de fazer mamadeira todo dia
Além de trabalhar como empacotadeira
nas casas Bahia
Mama África
Tem tanto o que fazer
Além de cuidar neném
Além de fazer denguim
Filhinho tem que entender
Mama África vai e vem
Mas não se afasta de você
Chico César

Afinal, ser mãe é abdicar de uma carreira profissional? Acredito que, em primeiro lugar, não há apenas uma resposta para essa pergunta. É absolutamente natural uma mãe querer ficar com o filho 24h por dia, ainda mais em se tratando de um bebê, um ser indefeso, que ainda está aprendendo a viver do lado de fora da barriga da mãe, dependendo do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses pra ter boa saúde. Também é natural uma mãe querer voltar ao trabalho assim que o bebê se tornar mais independentezinho, afinal, a tendência é o bebê ir criando vida própria, o esperado é ele se socializar, ir pra uma escolhinha, passar uma tarde brincando com os amiguinhos. Enfim, equilibrar carreira profissional e a maternidade tem um componente valioso da disposição e da vontade da mulher, que deve ser sempre respeitada em primeiro lugar.

Em segundo lugar, acho que a pergunta não é suficiente para abordar o cerne da questão. Deveríamos perguntar: o que é que a sociedade deveria oferecer para a mulher trabalhadora que assume a maternidade? Nesse aspecto, acho que precisamos mudar muuuuuitas coisas, começando pela informação. Nem todos estão suficientemente sensibilizados sobre a importância do aleitamento materno exclusivo até os seis meses da criança. Pelos benefícios emocionais e de saúde trazidos pelo aleitamento, acho que a lei que amplia a licença maternidade para 6 meses no Brasil deveria propor uma obrigação para a empresa, e não um direito atrelado a um incentivo fiscal e que pode ser negado à mãe. Para quem não sabe, amamentar é saúde – nenhum leite artificial é capaz de dar ao bebê os nutrientes e “vacinas” que só o leite materno é capaz de proporcionar, sem contar o aspecto emocional. Mesmo que a mãe tenha dificuldades biológicas para dar o seio, penso que a natureza é sábia, e que o prazo de 6 meses é fundamental para a criação de vínculo entre mãe e bebê.

Também acho que as mães deveriam voltar ao trabalho aos poucos. Pra mim (e isso é muito pessoal) está sendo muito difícil ter que desmamar minha filha e imaginar que daqui uma semana vou ficar praticamente 10 horas sem vê-la (sete horas de trabalho, uma de almoço mais o deslocamento de casa trabalho). Por que não podemos criar uma lei que facilitasse esse retorno, que ele fosse feito de forma gradual, que a mãe pudesse trabalhar em horário reduzido até o bebê completar um ano? Pelo menos mãe e criança poderiam ir se acostumando à nova rotina aos poucos – o desmame seria menos traumático, o bebê ficaria menos tempo em creche (ou com a babá), ficaria menos exposto às doenças.

Outro aspecto importantíssimo é a participação do companheiro (a): acho que, se é um casal que cuida de uma criança, o (a) companheiro (a) deveria ter licenças especiais pra ficar com a criança por mais tempo, principalmente após esse período de amamentação. Porque eles precisam participar da vida doméstica com mais afinco. Essas licenças não podem ser encaradas como gastos, precisam ser vistas como um investimento da empresa e do Estado na criança e nas futuras gerações – afinal, como seria um mundo sem crianças?

Acho que ser mãe ou pai não deve ser obrigação, muito pelo contrário: acho que é uma decisão que deve ser fruto do desejo de alguém. E acho que existem pessoas suficientes no mundo com esse desejo para que isso não se torne uma obrigação social. Acho que a diversidade do mundo é necessária e eu apóio quem não quer ter filhos! Da mesma forma acredito que as pessoas que não querem ter filhos também concordam que é importante apoiar aquelas outras que querem tê-los, apoiar na forma da lei, compreender que ter filhos é um tipo de trabalho sim, que pode não ser remunerado, mas que ocupa bastante o tempo, a imaginação e o suor da gente.

Se por um lado ter filhos não deve ser uma obrigação, por outro lado acho que o capitalismo (a sociedade ou o nome que você achar melhor para significar o coletivo) não deve penalizar as pessoas que optam por ser mães ou pais. A gente precisa é propor mais soluções que sejam favoráveis tanto para a maternidade como para a carreira da mãe. A gente precisa tocar no cerne da questão: a gente trabalha é demais e mal ganha pra pagar as contas do mês! Precisamos reivindicar salários mais altos pra que possamos trabalhar menos tempo e assim sobrar mais tempo pra fruir, pra viver, pra cuidar das coisas que nos são verdadeiramente caras.

Acho que é possível sim ter filhos e ter uma carreira profissional de sucesso, acho que essa é uma demanda legítima das mulheres. O que não podemos é deixar que o status quo nos faça optar por uma das duas coisas! Temos que ir pra batalha mesmo, viver e seguir reivindicando, pois nem todas têm o desejo de passar a vida só cuidando dos filhos. As mães que não querem parar de trabalhar precisam saber que trabalhar e ter filho é absolutamente normal, o que não é normal é a nossa jornada de trabalho, que é muito longa, e as condições de trabalho pra quem tem filho, que são precárias.

Também blogaram sobre este tema:

Os dois lados da moeda – Carolina Pombo
Blogueiras Feministas – Mercado de trabalho: o que pode mudar?
A mulher no mercado de trabalho – Tahyz Athayde

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2 comentários sobre “Blogagem coletiva – maternidade e carreira

  1. Por que não podemos criar uma lei que facilitasse esse retorno, que ele fosse feito de forma gradual, que a mãe pudesse trabalhar em horário reduzido até o bebê completar um ano?

    Compactuo plenamente esta ideia! Parabéns pelo post e por nos encorajar. Um beijo,

  2. Penso que a volta ao trabalho poderia ser reduzida em duas horas, tendo a mãe o direito de trabalhar seis ou oito horas corridas e, com isso, chegar em casa mais cedo para o aleitamento materno. Empresas resistem à flexibilização das horas trabalhadas, fazendo com que o trabalhador fique dez exaustivas horas sentado numa cadeira ou numa linha de produção, apenas para bater o cartão. Não é preciso ir muito longe para saber que o significado de trabalho escravo moderno não se resume apenas ao campo, à colheita da cana-de-açúcar ou às confecções de bolivianos: ele está dentro de qualquer empresa. Numa época em que o teletrabalho já é uma realidade, é preciso mostrar que ponto eletrônico é coisa do passado. E que o trabalhador, tem sim, o direito de ter vida própria.

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