Golpe democrático, ditabranda e o pobre herói

Vivemos tempos realmente incríveis: os jornais, as TVs, as emissoras de rádio, os blogs e sites publicam a todo instante idéias que num primeiro momento parecem facilmente aceitáveis, mas que no fundo exigem um pouco mais de tempo para nossa reflexão. Vou citar três exemplos que tenho lido com certa freqüência ao longo dos últimos três meses: os termos “golpe democrático” e “ditabranda” e o conceito que vou chamar aqui nesse artigo de “pobre herói”.

O primeiro deles – “golpe democrático” – está sendo citado quando o assunto é Honduras. Um sociólogo pós-graduado, articulista de uma grande revista semanal brasileira (Época) escreveu um artigo no mínimo intrigante sobre como esse brilhante conceito se aplica ao caso de Honduras, dizendo, em resumo, que Micheletti deu um “golpe democrático” ao tirar o presidente eleito “Zelaia” do poder.

Confesso que fiquei sem entender. Quer dizer que no dia que eu discordar politicamente do governador Arruda, aqui em Brasília, eu posso convocar a polícia pra ir até a casa dele, pegar ele de pijama, botar num avião e jogar o cara em alguma cidade da Argentina, e isso será considerado democrático? Nossa, vou fazer isso amanhã mesmo!

Vamos falar sério. Pode a democracia nascer de um golpe? E a assembleia constituinte, serve pra quê? é enfeite? Algum jurista, algum entendedor de teoria do estado ou o que seja pode me dar alguma explicação razoável sobre isso? Eu preciso de uma explicação pois termos como esse “golpe democrático” circulam impunemente pelos jornais como se fosse a coisa mais natural e elementar o do mundo. Azar é o meu que não tenho “inteligência” pra entender desse tema.

No blog do espaço aberto há uma explicação bem interessante de como esse termo simplesmente não pode existir. E se não pode existir, trate-se de uma falácia. E onde há falácia, há fogo: o que não se quer discutir? Por que é tão difícil admitir o fato de que Honduras sofre um golpe de estado? É fato, minha gente. Por que o tal cientista político que escreveu o artigo na Época não defende abertamente o golpe de estado em Honduras? Aqui no Brasil nós somos democráticos, o cara pode defender a opinião que ele quiser, mas por favor, vamos nos basear nos fatos.

A “ditabranda” é outro exemplo de termo que serve para encobrir um fato. O que houve no Brasil foi considerado ditadura e pronto. Não existe régua de medir a brutalidade de uma ditadura. Se é ditadura, é brutal. Pois o jornal Folha de São Paulo chamou de ditabranda a nossa ditadura, atitude que ultrapassa qualquer liberdade opinativa. Se a Folha de São Paulo é a favor da ditadura, vai lá e defende. Se ela considera que torturar, suprimir direito de defesa e coisas desse tipo que ocorreram na ditadura brasileira, são “um mal necessário” vai lá e expressa a opinião. Está no direito dela de opinar livremente nesse país democrático. Mas não inventa ditabranda, porque isso não existiu e nunca vai existir.

Agora vamos ao conceito do “pobre herói”, que é mais sofisticado, sutil. Quem já não leu aquela matéria falando que o desemprego é grande porque as pessoas de baixa renda não são qualificadas? Ou então dizendo que o acesso às universidades públicas ainda é o mais democrático porque o critério é de mérito, entra quem tem capacidade? Ou ainda, dizer que a solução para quem nasce pobre é estudar e trabalhar a vida toda? Tudo isso é verdade, sim. Metade da verdade. A outra metade é a criação do que eu chamo do mito do “pobre herói”, construído e reconstruído todos os dias na imprensa e na vida cotidiana.

Todas essas meias verdades escondem o fato de que nascer filho de um analfabeto, num lugar pobre da periferia, sem água encanada, dividindo um cômodo com tantos outros irmãos, estudar (quando não estiver vendendo bala no farol) naquela beleza de colégio público, e ao mesmo tempo almejar vencer na vida não é viver. É um ato de heroísmo!

Claro que estudar e trabalhar é importante. É óbvio. Mas o que deveria ser mais óbvio é a diferença entre nascer com condição digna (ter uma infância sadia, estudar, se preparar, entrar no mercado de trabalho depois de uma faculdade e outras qualificações devidas) e nascer num lugar sem condição nenhuma, em plena situação de vulnerabilidade social. É uma competição covarde.

É você obrigar que toda a pessoa pobre seja um herói para conseguir viver dignamente. E mais: você deixa de discutir políticas públicas, começa a criticar o bolsa família, começa a achar que a pessoa que nasceu pobre nasceu assim por um azar divino, ou porque é preguiçosa e por aí vai um mar de explicações. No final chega-se a uma cultura que só aceita o pobre se ele for herói, isto é, se ele vencer todos os obstáculos que o destino lhe colocou. Ele não pode simplesmente ser gente, tem que ser herói, tem que provar que o sistema está certo, que a melhor política é essa que está aí. E ai de quem se organizar pra pleitear coletivamente por algo melhor.

Podem observar! Comprem aquelas revistas que falam do “candidato ideal” para o “emprego ideal”. Observem como elas colocam no âmbito individual um problema que na maioria das vezes é do coletivo. Precisamos pensar coletivamente em formas de incluir mais pessoas no trabalho, com uma jornada de trabalho reduzida, com mais qualidade de vida para todos.

É hora de questionar a acumulação de dinheiro que não tem lastro no trabalho!

Pensem num empresário, num bem-sucedido empresário. Por mais que ele trabalhe num posto de altíssima complexidade e responsabilidade, 10 horas por dia ou mais, não há o que justifique ela ganhar 100 mil vezes mais pelo seu trabalho do que uma outra pessoa de que exerce um trabalho menos especializado. Como o sistema permite tamanha discrepância na valorização do trabalho?

Permite porque não se discute. Coloca-se o desemprego no âmbito individual. São sempre os trabalhadores que não se esforçam para se encaixar nos empregos gerados, eles é que não têm ambição, que não sabem se comportar numa entrevista de emprego. Ou seja, as causa estruturais nunca são levadas a um debate aberto e público, nunca estão nas novelas, nas artes, nos programas humorísticos, para participação popular.

Encerro esse artigo com uma tinta profética: essas grandes falácias vão cair uma a uma. Questão de tempo. Até lá, façamos a nossa parte: vamos seguir denunciando as falácias pelo território livre da blogosfera.

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