Quem comemora o Risco-país?

Reza a lenda que o Risco-país indica aos investidores internacionais qual é a capacidade que as empresas e governo de um país têm, em dado período, de arcar com suas dívidas. Assim, se as chances de um país honrar seus compromissos são excelentes, os especuladores internacionais trazem a grana, fazem suas aplicações, uma parte da bufunfa chega ao bolso dos trabalhadores, outra parte vai pra previdência, outra se perde no caminho, e outra retorna ao bolso de seus investidores, com sorte, multiplicada.

Então os jornais, as empresas, os investidores e os incautos no geral comemoram o triplo A (capacidade excepcional de honrar seus compromissos financeiros) como quem acredita no horóscopo quando ele diz que, para os nascidos em tal dia do mês, o tempo é positivo para aplicações financeiras. Para muitos o triplo A sinaliza que, naquele país, a crise está distante, que há uma estabilidade econômica no ar que todos se beneficiam dessa bem-aventurança.

Contrariando a corrente dos que acreditam cegamente nesse índice, a assistente social Elisabete Borgianni defendeu, no final de 2008, a tese de doutorado “Risco-País e Investment Grade: contribuições do Serviço Social para sua desmistificação”.

Na extensa pesquisa, ela faz uma verdadeira desconstrução do índice. Em primeiro lugar, ela parte do princípio de defender a centralidade da discussão social em qualquer análise que se queira econômica. Elisabete Borgianni discorre longamente sobre o que é o “ser social”. Ela procura sua matriz de pensamento basicamente em Marx e Lukács, além de outros pesquisadores de destaque do serviço social brasileiro. Creio que essa primeira parte da tese é leitura obrigatória entre economistas e jornalistas da área econômica.

Após expor seu ponto de vista teórico, Elisabete Borgianni prossegue para a análise dos critérios utilizados pelas agências de risco que criam essas classificações. O “risco político” é um desses critérios e que sofre duros questionamentos da pesquisadora.

Nesse ponto, Elisabete Borgianni questiona a falta de precisão nos conceitos adotados pelas agências. O que elas entendem por pressão popular, pergunta a pesquisadora. Na seqüência, ela cita o caso Equador, que, em 2005, passava por pressões populares para a melhoria de aposentadorias. O governo do Equador apontou, então, que tais mudanças poderiam desequilibrar as contas nacionais e aumentar o Risco-país. Ao mesmo tempo, ela cita os EUA que, por “pressão popular” autorizou a invasão do Iraque e do Afeganistão. E o risco-país do EUA nunca sofreu abalos por esse tipo de pressão popular, e tem seus riscos considerados entre os mais baixos do mundo (pelo menos tinham, na época em que a tese foi defendida, antes da recente crise financeira mundial).

Em um terceiro momento, a pesquisadora demonstra que, em nome do tal Risco-país, os governantes tendem a diminuir seus investimentos nas áreas sociais, de previdência, e em outras que realmente interessam à grande maioria das pessoas que dependem exclusivamente do trabalho para sobreviver. Ou seja: para atingir o tal Investment Grade, o Brasil precisou tirar recursos da política social, principalmente da seguridade social através do superávit primário.

Será que nós, pobres mortais, devemos mesmo comemorar o tal triplo A?
Não quero aqui esgotar o tema tão profundamente dissecado por Elisabete Borgianni. Mas quero ressaltar a importância desses pesquisadores que tentam, de alguma forma, nos alertar para as armadilhas dos índices com que nos deparamos diariamente. Quero suscitar também, outro debate trazido pela pesquisadora: qual índice seria apropriado para atrair investimentos e, ao mesmo tempo, colaborar para os valores democráticos, humanos e sociais? Será que pra obter um investimento é preciso massacrar uma nação inteira de trabalhadores, desempregados crônicos, desassistidos?

A tese de doutorado da Elisabete Borgianni está publicada no site da PUC de São Paulo:
http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=7705

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