A dona insônia

Tenho que vencer a insônia, essa senhora que rouba meu sono à noite. Escuto músicas de lugares distantes. Um carro acelera no sinal vermelho. A buzina abre um pesado portão. Tudo isso essa senhora me diz. Ela me quer acordada. E eu, aceito.

Penso que a vida é generosa comigo. Tenho sempre muito em que pensar. Cabeça cheia de sonho. É como se de repente, à noite, eu acordasse apenas para sentir.

Sentir-me. Elevar ao quadrado o amor e subtrair as interferências de medo. Pronto. Já me traí, já estou pensando de novo.

Sentir-me. Ah. Sinto a insônia, essa senhora que me acompanha nas últimas noites e que me pede algo menos que pensamento. Sinto calor. E ouço o galo cantando em algum quintal dessa madrugada tão minha.

Sinto meu estômago trabalhar. Sinto minha boca levemente seca. Meus olhos, levemente cansados. Meus pés, alegremente descalços. Minhas mãos digitam, digitam, digitam a alma, como Penélope a tecer e destecer o manto, a espera de Ulisses.

Sinto saudade. Uma saudade imensa dessas que só se sente por uma pessoa. É um sentimento muito novo. Muito delicado. Pode sumir com o sono e com a noite. Pode passar despercebido. Pode ser desperdiçado.

Assim, de noite, é que a dona insônia me ajuda a cultivar essa plantação de saudade. Antes que alguma praga de desilusão leve tudo embora, antes mesmo da colheita…

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