A mídia deve dar visibilidade à paz

Calma. Não queremos negar a guerra, a violência ou os fatos. Para se ter paz é preciso ir além da face exposta do conflito; é preciso reconhecer as diferenças, mergulhar nas causas de um problema, encontrar uma solução possível. É preciso acreditar que a paz está em primeiro lugar. Sonhemos e façamos a paz, todos nós, todos os dias.

Compartilho com vocês, meia dúzia de leitores abnegados, uma entrevista muito especial, com um jornalista de verdade, desses que estão em falta. A dica de leitura me foi enviada pela amiga Sandra Flosi. Nós agradecemos!

Atualização 26 de junho: Bernardo Tonasse entrou em contato para avisar que a fonte primária desse material aqui publicado é a Comunidade Segura, e a autora da entrevista é a jornalista Lis Horta Moriconi. Falou Bernardo? Agradeço pela atenção. Volte sempre.

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ENTREVISTA
Jake Lynch

Diretor do Centre for Peace and Conflict Studies (Centro de Estudos de Paz e Conflitos) da Universidade de Sydney, o jornalista australiano Jake Lynch percorreu um longo caminho na sua vida profissional. Trabalhou para a BBC, para o London Independent e a Sky TV; cobriu conflitos no Oriente Médio e no sudeste europeu e asiático, tendo se tornado um ardente defensor do “jornalismo de paz”, um conceito que não é tão simples quanto possa parecer.

“A maior parte do jornalismo que vemos por aí é um jornalismo de guerra. O jornalismo convencional cobre muito mal os conflitos; privilegia a violência, simplifica a complexidade, omite informações sobre iniciativas pacíficas. De fato, o jornalismo convencional alimenta a violência e a guerra, e é por isso que eu o chamo de jornalismo de guerra”, afirma.

O jornalismo de paz, ao contrário, é feito por repórteres que são incentivados a pensar criticamente – não necessariamente para promover a paz, mas ao menos dar uma chance a ela.

Enquanto a mídia tradicional mostra exemplos de jornalismo de guerra na cobertura dos combates entre Israel e o grupo extremista palestino Hamas, Lynch fala sobre dar visibilidade à paz, a criação de um padrão global para cobertura de conflitos, e como superar situações de impasse social quando as manchetes e fontes se repetem sempre e sempre. “Quando tudo o mais falhar”, diz ele, “os jornalistas devem ser criativos”.

Por que você chama o jornalismo feito hoje de ‘jornalismo de guerra’?
A convenção dominante entre a maioria dos jornalistas é recontar uma narrativa de eventos, e não processos. Isso significa que tendemos a ter relatos dos atos violentos, dos confrontos.

E o que está faltando ao jornalismo convencional?
O que não ficamos sabendo – aquilo que vemos muito menos na mídia – é por que as pessoas estão em conflito. Precisamos cobrir os processos que levam a um acontecimento violento e as causas subjacentes ao conflito.

Qual é o problema de se concentrar somente nos eventos?
A cobertura convencional do conflito e da violência resulta em que todas partes envolvidas no conflito – incluindo líderes políticos e formuladores de políticas – acabam, até certo ponto, pensando o tempo todo em como eles vão ser retratados. Por causa disso, o que eles vão fazer, provavelmente, é propor políticas cujo foco também são as respostas violentas…

E qual o papel da mídia nisso tudo?
Está claro que, se a cobertura não revela as causas subjacentes do conflito, então não há nenhum benefício real – do ponto de vista da mídia – em lidar com a questão de uma maneira melhor. Este é apenas um exemplo do que faz o jornalismo de guerra tão receptivo à propaganda de guerra.

Você poderia dar um exemplo específico?
Esta tem sido, na verdade, a ideologia que acompanha a guerra ao terror… A proposição segundo a qual o terrorismo é algo contra o que se pode fazer guerra – de que a guerra é um remédio contra ele – depende da premissa de que o terrorismo simplesmente surge, e que as pessoas que o praticam são ou loucas ou malvadas, e que isso é só o que você precisa saber sobre o assunto.

Quando você começa a investigar como e por que essa forma de violência política consegue ter esse apelo, essa atração em algumas mídias sociais, em uma determinada época e lugar, então você começa a dizer que o que é necessário – como um remédio contra o terrorismo – é justiça, desenvolvimento, um pouco mais de igualdade… Você precisa enfrentar as genuínas injustiças históricas sofridas pelas pessoas.

Em outras palavras, existem duas alternativas aqui: ou você tem uma guerra ao terror, ou você tem uma estratégia que leva em conta as raízes e causas do problema, tentando resolvê-lo.

Um jornalismo melhor significa dar visibilidade à paz?
Se você está preparado para explorar o contexto de fundo do conflito, então começa a fazer sentido buscar informações sobre iniciativas de paz. Se não há um contexto, para que servem essas iniciativas? Se você leva em consideração uma gama maior de fatores causais, você imediatamente amplia as possibilidades e o escopo das iniciativas de paz no desenrolar da reportagem.

A mídia das Filipinas foi um exemplo que encontrei nesse aspecto; ela também é inventiva ao acompanhar e rapidamente transmitir sugestões de todos os tipos para a paz, vindas de diferentes pessoas.

A mídia britânica também revela pequenas porém significativas manifestações de jornalismo de paz. Na cobertura da crise nuclear com o Irã, a produção foi de cerca de 15% de jornalismo de paz.

Poderia-se pensar que o jornalismo de paz é algo para as publicações especializadas ou de elite, e não para as massas?
Claramente há mais espaço para o jornalismo de paz nos chamados “jornais sérios” do que nos tablóides. Mas isso não quer dizer que não se pode fazer jornalismo de paz na imprensa popular. O Daily Mirror, do Reino Unido, por exemplo, realizou um excelente trabalho nesse sentido, no período que antecedeu a invasão do Iraque.

Obviamente, era um jornal anti-guerra naquela época. Também há uma presença razoável de jornalismo de paz em publicações como o Financial Times, The Economist ou The Spectator Magazine.

Você defende um padrão global para o jornalismo de paz?
Eu estou envolvido em pesquisas para usar o jornalismo de paz no sentido de estabelecer um padrão global para cobertura de conflitos. Isso significa um jornalismo capaz de se encaixar nos procedimentos ISO (International Standardization Organization), que conferem garantias de qualidade.

Empresas de qualquer ramo em qualquer lugar do mundo podem adotar certas práticas, e o grupo local de certificação irá decidir se elas merecem a garantia de qualidade ou não e, quando elas tiverem conseguido uma, poderão usar como um argumento de marketing.

A minha esperança é que consigamos fazer isso – estabelecer esse padrão global – e que as agências e organizações noticiosas em geral comecem a trabalhar no sentido de fazer mais jornalismo de paz. Isso seria um caminho para mudar a estrutura na qual os jornalistas trabalham, abrindo, assim, espaço para jornalistas de paz.

Isso significa que seria possível classificar as reportagens ou séries em termos de como são usadas as fontes, etc…

Primeiramente, quando cobrimos conflitos, devemos encontrar maneiras de incluir o contexto e as circunstâncias, e de oferecer relatos plurais. Não basta apenas limitar a cobertura à descrição e narração do que explodiu em que lugar.

Em segundo lugar, devemos dar espaço para as pessoas que estão propondo, sugerindo, desenvolvendo e defendendo iniciativas de paz de qualquer tipo, não importando se essas pessoas são as nossas fontes usuais ou não.

Pergunte a si mesmo: estou apresentando o conflito como se fosse um grande cabo-de-guerra – dois lados lutando por um mesmo objetivo – ou estou encontrando uma maneira de apresentá-lo como multifacetado, ou seja, um conflito com muitos lados, muitos objetivos, e que pode ter várias divisões internas?

Pode dar um exemplo de iniciativa de jornalismo de paz?
Há uma iniciativa interessante na internet chamada Peace Channel (Canal da Paz), que produz e utiliza uma pequena quantidade de vídeos produzidos por outras empresas mostrando exemplos de jornalismo de paz. Um deles foi o envio de uma equipe de filmagem para o Quênia, meses após a violência eleitoral, onde descobriu-se que um progresso notável havia sido feito para a reconciliação.

O argumento é que, se você faz esse tipo de cobertura, você está fazendo um jornalismo voltado para a paz. E um jornalismo voltado para a paz é um jornalismo melhor e, portanto, merece um reconhecimento global de qualidade.

As más notícias são as melhores notícias?
Más notícias são apenas notícias. Se algo de ruim acontece, não devemos simplesmente nos habituar com o ocorrido; devemos estar alertas quando acontecer. A questão não é se devemos ou não dar más notícias, mas sim como fazê-lo. Estamos apenas trazendo para as pessoas uma série de problemas, ou nós vamos ouvir pessoas que não darão a percepção de quais as soluções possíveis?

Esse conceito é apropriado para situações além das de guerra, como violência urbana, de gangues etc?

O mesmo critério se aplica. O jornalismo de paz, nessas situações, exploraria a formação social e as oportunidades e obstáculos presentes na vida das pessoas; serviria para o debate sobre as causas subjacentes da violência; iria discutir o grande número de iniciativas comunitárias para mitigar essa violência. Não nos fale dos problemas; diga-nos quais as soluções. O modelo do jornalismo de paz se encaixa muito bem para esse tipo de conflito, da mesma forma que o faz para os conflitos internacionais.

E quando a mídia se prende no mesmo círculo de notícias e fontes?
O que temos nesse caso é uma Peace Building Gap (lacuna na construção da paz), um conceito definido pelo teórico John Paul Lederach. Relacionado ao conceito de Justice Gap, há um segundo conceito, chamado de Interdependence Gap (lacuna de interdependência).

Isso significa que os sociólogos podem concordar sobre a natureza do problema, sobre o que deve ser feito. Mas o que está em jogo é a completa lentidão das instituições. Se esse é o caso, então os jornalistas devem ser mais criativos ao conceber alternativas.

O senhor pode nos dar um exemplo dessa criatividade?
Posso dar dois. Um é a Irlanda do Norte, que enfrentava um longo conflito. Chegou o tempo em que o governo deveria propor conversas sobre a paz – já havia todo tipo de negociações privadas, não-oficiais. Todo mundo estava esperando pelo veredito do maior partido do país, o Ulster Unionist Party (UUP). Eles tinham o futuro da paz nas mãos.

Seus parlamentares estavam divididos. Então, um jornal chamado The Newsletter – lido pela maioria dos partidários do UUP – fez uma pesquisa de opinião com a seguinte pergunta: “Você apoia a entrada do UUP nas negociações de paz?”. O “sim” venceu com 86%. Uma vez feito isso, o partido se juntou às negociações, foi alcançado um acordo de paz, e a situação agora é muito melhor. O jornal encontrou uma maneira de contornar o impasse.

E o outro exemplo?
Em Sydney, Austrália. Nossa administração anterior era cética quanto ao conceito de mudanças climáticas causadas pelo homem. Isso era um problema para os jornais, pois eles eram pressionados pelo público a discutir o tópico.

O Morning Herald teve uma idéia muito interessante para colocar a mudança climática na agenda. Eles fizeram uma campanha para todos na cidade desligarem as luzes por uma hora. Depois disso, publicaram as fotos de antes e depois na primeira página. Isso pôs a mudança climática na agenda pública e se tornou uma das questões nas eleições, contribuindo eventualmente para o fim daquela administração.

Tradução: Bernardo Tonasse
Retirado do site Envolverde: www.envolverde.com.br

Entrevista originalmente publicado no portal Comunidade Segura, autora: Lis Horta Moriconi
Link: http://www.comunidadesegura.org/pt-br/node/41477

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3 comentários sobre “A mídia deve dar visibilidade à paz

  1. Oi, Amanda! O SEU blog é que é bacana! 🙂
    Gostei bastante do que disse o tal Jake Lynch…
    Beijo pra você!
    Jubita’s.

  2. Prezada Amanda,

    Obrigado pelo interesse em publicar o conteúdo do Portal Comunidade Segura. Ficamos muito felizes. Sim, você citou uma fonte que reproduziu o nosso conteúdo e esqueceu de citar a fonte de fato da matéria. Nossas regras de reprodução de conteúdo pedem que a fonte e autor sejam citados (fonte: Comunidade Segura. Autor: Lis Horta Moriconi), com link para a matéria original.

    Certo da sua compreensão,

    Bernardo Tonasse

    Oi Bernardo,

    Em tempos de internet isso acontece! Nem sempre “a fonte da fonte” aparece de forma clara para que a gente possa citar a verdadeira origem. Pois vou atualizar já o post e acrescentar a fonte que você me indicou. Obrigada por avisar.

    Abraços,

    Amanda

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