A velha mulher velha

Deve ser a memória, que não me deixa raciocinar. Logo cedo é assim. Hoje, ou ontem, mas foi comigo que aconteceu, a chaleira lá, apitando, meu olho tava bem aberto já, mesmo assim, pronto. Salguei o café. Acabou meu paladar. Não vai dar tempo de fazer outro. Fazer o quê?

É assim que uma pessoa não muito séria sai de casa de manhã. Chave, reunião, ligação, relógio, a lista tava toda na minha cabeça, eu ia passando os itens um por um, só faltava o carro não pegar. E não pegou. Parei no acostamento, sabe lá Deus como, não sabia bem o que fazer, que seguro, eu lá renovei o contrato? A pessoa troca açúcar por sal e você quer que ela lembre de renovar o seguro do negócio que nunca veio a usar? Tenha piedade dessa pessoa.

Eu pensava em piedade, piedade, piedade, e, ah, e em mais alguma coisa que não vou lembrar, só sei que a velha tava lá me olhando. Era uma senhora bem velha, eu fugiria de uma pessoa assim, se tivesse que passar por ela numa calçada. Eu viraria a cabeça, pra não ter que ver, passava bem longe pra não correr o risco daquela mulher velha tossir ou espirrar sem querer em cima da minha pessoa.

E a velha continuou me olhando, não disse nada, eu também não ousei dizer palavra. Nem pensar em nada, não consegui. Nem pensei que ela poderia ser ambulante, nem vendedora de farol, nem deficiente, nem sei lá, essas figuras de rua de cidade grande. Estranhamente não pensei nada, só olhei a velha, a velha mulher velha, e bota velha nessa mulher. Simplesmente caí no limbo, não tive medo, não me senti mal, também não senti o prazer que se sente ao se reencontrar pessoas queridas.

Fiquei ali, parada, olhando aquela velha mulher velha. Esperei não sei quanto tempo, até a mulher bater de leve no vidro, pedindo pra eu abrir.

– Teria um cigarro?

Eu poderia dizer simplesmente que eu não tinha, porque eu não fumava, e, a bem da verdade, eu detestava cigarro. Mas de repente minha memória funcionou perfeitamente e eu me lembrei que meu carona havia deixado uma carteira de cigarro no porta-luvas, por precaução, pra quando a gente pegava trânsito. Ofereci a ela o maço todo.

– Só um,  moça. Vamos?

Hesitei. Comecei a pensar no episódio do café da manhã quando a velha mulher velha me cortou.

– Açúcar, filha. Você precisa de açúcar. Vamos?

Estranhamente me senti feliz com o convite. Larguei o carro com a porta aberta. E fui com a velha mulher velha buscar alguma coisa que fizesse sentido praquele dia.

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