Verônica

Verônica nasceu prematura, quase não vingou. Mas o peito magro de sua jovem mãe de periferia se encheu de alegria quando o médico falou que era menina e que ainda havia esperança. Bastava esse sopro.

Cresceu no meio da molecada, sendo zuada pelo cabelo duro, pela baixa estatura, menina mirrada, quem diria, aquela quatro olhos duma figa arranjou logo emprego de caixa de supermercado. Daí pro escritório de contabilidade, menina ajuizada que só, foi trabalho de dia, estudos de noite, casa pra arrumar, roupa pra lavar, tia pra cuidar, janta pra fazer, unha pra pintar, e comer, e cagar, e de vez em quando passar manteiga no pão, passar um café, passar frio, passar sem aquela música, sem aquele tênis, sem aquele guarda-roupa, sem o mocinho da novela, sem muita folga.

Passar. Apenas passar. Verônica pede passagem. E ela passa. No vestibular.

E como passa essa menina, sem a menor vergonha, sem o menor disfarce, passa os anos se formando, se vestindo, se pintando, se virando. Até quando, Verônica? Esteja pronta para o mercado, para vender sua boa alma pra sociedade, para esquecer seu passado, para contar aos curiosos sobre as viagens que você não fez, as férias que você não passou e as noites que você não dormiu.

Era esse seu sonho, Verônica? Escalar a pirâmide social na raça, sem um canivete na boca, sem um cajado na mão? Sem um ombro amigo, um afago, um amparo lá de cima? Chegar aqui em cima assim, tão calejada? Tão cansada!

Cansada de quê, escrava?

Tem que mostrar sua raça. Tem que provar que merece. Tem que agradecer a privação. Tem que colocar o caráter à prova. Tem que servir – com perfeição – aos que lhe são indiferentes. Tem que esperar os desejos. Tem que acordar cedo, dormir tarde, e sonhar, quem sabe, talvez…

Nasceu pobre, Verônica, tem mais é que se fuder. Esse é o sonho ridículo que eles sonharam pra você.

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