O mercado não é bonzinho

O mercado não tem dinheiro pra cobrir o aumento reivindicado pela categoria. O mercado não tem dinheiro pra oferecer descontos aos consumidores. O mercado não tem dinheiro pra pagar direitos trabalhistas. O mercado não tem dinheiro pra pagar licença-maternidade. O mercado não tem dinheiro pra reduzir a jornada das pessoas. O mercado paga mal os professores. O mercado paga mal os médicos.

O mercado é um safado – só acredita na bondade do mercado quem nunca estudou história ou economia.

Mercado nada faz de bom sem a velha pressão social. Que nasce da união das pessoas que se sentem incomodadas e que fazem a maior gritaria sobre a opressão que sentem e sobre a necessidade de se propor regras claras pra se frear os excessos do mercado.

Se você está lendo um texto que “espera” uma mudança vinda da “boa vontade” do mercado, pode ter certeza: é um texto classista.

Esperar a boa vontade do mercado é classista.

Esperar é a nova forma de mandar o movimento social ficar quietinho num canto, sem fazer barulho, porque se você agir, o mercado… vai pegar você!

RÁ!

Movimentos sociais, imprensa e democracia

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Moro em Brasília desde 2004 – e posso dizer que essa cidade mudou a minha percepção política. De esquerda acho que sempre fui, mas não, eu não tinha a menor noção da quantidade de marchas e manifestos que correm quase que semanalmente na Esplanada dos Ministérios. Às vezes nem morando aqui a pessoa se dá conta disso, da efervescência que é a Esplanada e todos os manifestantes que por ali desfilam.

Além de ser jornalista, sou ativista: colaboro com movimentos feministas, LGBTs, causas indígenas e entre outros. Considero isso um dado importante da minha vida pois é “fazendo” o movimento que aprendo coisas que o jornalismo não ensina.

O tempo dos protestos, por exemplo. Nem sempre a imprensa explica para os leitores como é que nasce um protesto: como é que as pessoas se juntam, trocam ideias, se engajam, traçam uma estratégia, escolhem uma data para um protesto acontecer. É uma pena! Teríamos uma democracia mais fortalecida se a imprensa estivesse habituada a mostrar sistematicamente como os movimentos se formam, como as pessoas se engajam na política.

A formação dos movimentos é outro exemplo. A imprensa tem o hábito de procurar o líder dos movimentos – e ultimamente tem aparecido muito movimento horizontal, sem líder, autogestionado, sem grana de terceiros ou partido político para dar suporte. Isso poderia ser melhor abordado pela imprensa, mas por uma série de razões isso acaba ficando em segundo, terceiro plano. E isso poderia ser melhor explicitado pela imprensa – afinal, a forma de um grupo se organizar diz muito sobre as intenções políticas desse grupo.

Em resumo: a minha vida de ativista me faz ver a imprensa com outros olhos.

A imprensa colabora para a democracia quando retrata manifestantes como tais, ou seja, cidadãos descontentes com algum aspecto de sua vida social e política. Toda vez que ela faz isso, está cumprindo com seu papel de informar e fortalecer a cidadania, independentemente das questões partidárias.

Por outro lado, a imprensa pode atuar criminalizando os movimentos sociais, retratando os manifestantes como um vândalos, oferecendo uma desculpa ideológica para justificar ações policiais junto à opinião pública. Sim, a imprensa tem lado! E nas manifestações do Movimento Passe Livre todos puderam constatar a mudança de lado que ocorreu na imprensa – no começo houve uma demonização dos manifestantes, editoriais raivosos, jornalistas chamando ativistas de baderneiros. Depois o tom do discurso ficou mais ameno.

O que me interessa aqui é constatar que houve essa mudança, que o discurso da imprensa não é neutro, nem eterno. Existe lado, a imprensa pode ser questionada pelas pessoas e pode mudar de ideia, a depender da conjuntura política. Criticar a imprensa não é censura! Criticar a imprensa é um exercício democrático.

Por isso, se você está começando a querer se manifestar nas ruas agora, fica a dica: leia, se informe, se organize, conheça pessoas e instituições que tenham algum tipo de afinidade com você. Isso leva tempo! Não é da noite para o dia que se consegue mudar um país. Acredite! Muita gente tem tentado mudar as coisas, e as coisas mudam sim. Devagar e sempre, a imprensa noticiando ou não.

É importante se reunir e dialogar com as pessoas. Vá para rua sabendo que nem sempre suas reivindicações serão atendidas como num passe de mágica (raramente governantes atendem reivindicações de imediato). Vá para a rua sabendo que nem sempre a polícia vai te tratar bem. Vá para a rua sabendo que a imprensa tem lado – ela pode ouvir suas reivindicações com mais ou menos simpatia. Vá para a rua sabendo que tem gente que ocupa as ruas há mais tempo que você – converse com essas pessoas. Mesmo que elas tenham opiniões diferentes das suas, lembre-se que vocês têm uma coisa em comum: estão ocupando as ruas de um país democrático.

*Esse texto é um compartilhamento de experiências bem pessoais e está aberto a pitacos alheios (desde que educados, ok?). E faz parte da blogagem coletiva pela democracia –>

Desescolarizar

A linda da Renata Correa indicou um vídeo que me rendeu muitos insights: uma conversa de quase uma hora com a professora Ana Thomaz.

Ana Thomaz fala da opção que fez de tirar o filho da escola, quando ele ia começar o ensino médio. E explica porque ela achou que a escola não era um lugar para o filho dela. E conta como foi que ela mesma começou a ensiná-lo (seria esse o verbo?) e a aprender com ele. E de como esse processo foi conduzido.

O vídeo não se restringe ao ato em si, de retirar o próprio filho da escola. Ele mostra um pouco de quem é Ana Thomaz, como ela pensa, como ela está no mundo, que experiências ela passou e qual o sentido que ela tem para a vida.

E como ela mesma diz, é um paradoxo: ser professora e rejeitar a escola. É aqui que eu mais me identifiquei com ela: sou jornalista e rejeito o jornal. É um grande alívio perceber que pessoas de outras áreas, outras profissões, também têm dilemas parecidos com os meus.

Só que ela foi longe, muito mais longe do que eu: ela abriu mão da escola e ensinou alguém. Continuou sendo professora, ensinando – e fez isso sem a escola, mas dentro da estrutura que estava ao alcance dela. Ela se colocou esse desafio (que não tem garantia nenhuma de que vai “dar certo”) e está vivendo de acordo com ele. E vivendo bem.

Mas esse é só um dos “insights” – o vídeo bateu o meu recorde de insights por minuto. Ainda estou processando tanta informação. Porque não parece à primeira vista, mas é um vídeo extremamente político. Espero que vocês curtam tanto quanto eu curti. E valeu, Renata Corrêa, pela indicação!

Histórias que teimam em brotar

Flor no asfalto
Flor no asfalto

Se a gente tirar do ser humano a capacidade de contar e de ouvir histórias, o que é que sobra? Contar e ouvir histórias é como organizar mentalmente nossos sentidos, como encontrar uma bússola no deserto das aparências. Alguns podem dizer que não gostam desse negócio de ficção que o negócio é vida real – mas ainda assim, a vida real a gente traduz é em história, é contando sucessos, angústias, falando da vida alheia, criando segredos.

Segredos. Que necessidade é essa que temos de colocar pedras (ou mesmo asfalto) sobre determinados assuntos? Como se o asfalto impedisse a terra de ser terra, a semente de ser semente, e a vida de procurar luz.

Daí que as verdades sempre vão brotar por esse mundo. Sempre. É com essa certeza que as pessoas vivem, é por essa certeza que as pessoas sobrevivem.

“Como eu já afirmei publicamente em outras ocasiões, durante muito tempo, no meu período de exílio, fui perseguido pelo fantasma das torturas. Depois de muito esforço consegui perdoar os torturadores e também os que me denunciaram. A partir daí os pesadelos desapareceram. Foi um processo terapêutico para mim, uma forma que encontrei de vencê-los. Já disse também que há situações em que o perdão é mais importante para quem perdoa do que para quem é perdoado. Mas isso, em minha opinião, só faz sentido no âmbito subjetivo, nas relações interpessoais. No âmbito político, essas pessoas têm que ser responsabilizadas judicialmente porque seus crimes não foram somente contra os presos políticos individualmente, mas principalmente contra a sociedade brasileira. E a sociedade tem o direito e a obrigação de responsabilizá-los judicialmente.” – Anivaldo Padilha

As verdades vão continuar brotando aqui e ali. Resta saber quando é que o Estado brasileiro vai continuar se prestando a esse papel desumano de tentar escondê-las.

Este texto faz parte da VII Blogagem Coletiva do #desarquivandoBR

O Mundo Amanhã – comunista x sionista

O intelectual superstar Slavoj Žižek é conhecido por suas contribuições à teoria da psicanálise, à crítica cultural e à política, na qual sempre se engajou para além das discussões acadêmicas – ele foi candidato à presidência da Eslovênia nos anos 90. Cultuado pela jovem vanguarda intelectual europeia, esse notório provocador se define como leninista mas também como lacaniano. Já David Horowitz é um soldado linha dura do pensamento conservador americano – e um sionista sem o menor pudor. Nos anos 60 e 70, foi uma liderança de esquerda na cidade californiana de Berkeley. Depois de colaborar com os Panteras Negras, começou seu caminho sem volta para a direita. Hoje, seu instituto faz campanhas contra influências islâmicas e de esquerda na mídia, na academia e na política.

Este encontro entre mentes tão diferentes é, no mínimo, acalorado. “Você é um apoiador da coisa mais próxima que temos do nazismo”, diz Horowitz. “Você apoia os palestinos. Eu não vejo como diferenciar os palestinos, que querem matar os judeus, dos nazistas”.

Irritado, o esloveno dispara: “Desculpe, você já foi à Cisjordânia?”.

Em alguns momentos, Assange tem que segurar o exaltado Žižek, embora seu adversário esteja em outro continente.

“Nós, totalitários das antigas, deveríamos, nos juntar  e nos livrar deste liberal aqui!” brinca Žižek para Horowitz, referindo-se a Assange.

O tom da conversa varia entre o antagônico e o bem humorado; os três falam de personalidades que vão de Stalin a Obama, do conflito entre Israel e Palestina, do desejo da liberdade ao Estado de vigilância,– passando, é claro, pelo trabalho o WikiLeaks, considerado “perigoso” por Horowitz.

No final, Žižek conclui: “Isso foi uma loucura!”.

Clique aqui para baixar a entrevista completa.

O Mundo Amanhã: Assange entrevista o líder do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah

É, esse post deveria ter sido publicado às 19h. Mas eu tive uns contratempos. Em todo caso, vamos lá!

Esta é a primeira entrevista de Nasrallah feita em inglês em uma década. Enquanto os conflitos se acirram no Oriente Médio, Assange aborda temas espinhosos como a posição de Hezbollah – visto como grande aliado do regime de Assad – no conflito da Síria. “Somos amigos da Síria, mas não agentes da Síria”, responde o libanês, antes de revelar que o Hezbollah procurou setores da oposição síria para pedir que dialogassem com Assad, sem sucesso.

Impossibilitado de deixar a Inglaterra, onde estava em prisão domiciliar, Assange entrevista Nasrallah através de um videolink na casa onde esteve por mais de 500 dias. Por sua vez, Hassan Nasrallah participa da entrevista na sede do Hezbollah no Líbano, cuja localização exata é mantida em segredo por segurança. É lá que ele trabalha sob constante medo de ser assassinado por diferentes grupos e Estados.

Assista a seguir a entrevista, ou clique aqui para baixar o texto completo.