Querido Pondé,
Gostaria de lhe agradecer pelo seu poder de síntese claramente demonstrado em seu mais recente artigo. Graças a ele mulheres como eu podem responder de uma vez só a uma série de platitudes que vem sendo manifestadas de forma diluída por homens e mulheres dos mais diferentes perfis econômicos, sociais e culturais.
Pensar na mulher como objeto de prazer é uma ideia tão velha quanto a profissão mais velha do mundo. Sugerir que há alguma filosofia superior nesse pensamento tão antigo e corriqueiro equivale a dizer que vivemos num mundo repleto de filósofos. Por favor, não é que eu seja uma pessoa pessimista, mas convenhamos: faltam filósofos no mundo! Mas sobretudo faltam antropólogos: será que é tão difícil encarar a mulher como um ser humano dotado de vontades e desejos singulares?
Lamento lhe informar, caro Pondé, mas tratar mulher como objeto (de prazer) não é uma das formas mais profundas de amor que um homem pode sentir por uma mulher. Se realmente levarmos a sério essa sua teoria, chegaremos à conclusão de que as putas são as mulheres mais profundamente amadas do mundo, a julgar pela atividade que escolheram para ganhar a vida. Desconfio que elas, mesmo com a “profissão” que escolheram, também têm necessidades de serem amadas profundamente em toda a sua essência e plenitude, para além da questão de serem objetos de alguém.
Pondé, eu confesso que não entendi suas referências às pessoas que tomam banho depressa e aos ciclistas mal educados. O que elas têm em comum com as mulheres que você queria elogiar? Ah! Você descobriu que essa gente politicamente correta também é ser humano? Sim, pessoas politicamente corretas erram, não perdem sua humanidade por defenderem o que defendem. Se o prazer delas é abraçar o planeta, em que isso lhe incomoda? Em que abraçar o planeta lhe diminui?
Querido, o seu conceito de solidão está ultrapassado. Uma mulher sozinha, por exemplo, é muito mais feliz sozinha do que acompanhada pelo senhor – não se sinta ofendido, mas é que gosto não se discute, e eu realmente não curto o seu estilo. Se por acaso o senhor encontrar uma mulher sozinha na rua e supor que ela, coitada, tenha necessidade de ser seu objeto, pense bem antes de partir para a ação. Por que haja filosofia e advogado no mundo pra te livrar do crime de estupro! Mulheres têm o direito de se recusarem a ser objetos de quaisquer homens. Mulheres têm todo o direito de andarem sozinhas pela vida, se assim elas desejarem. E têm esse direito de andarem sozinhas sem terem suas escolhas questionadas por articulistas que escrevem em jornais de grande circulação!
Saiba, meu querido, que homens não perdem a masculinidade por considerar mulheres como seres humanos. Mas perdem a humanidade quando insistem em reduzir mulheres a meros objetos. Casos de violência contra mulheres acontecem justamente quando um homem tenta fazer com que uma mulher seja seu objeto. E essas mulheres sofrem duplamente: primeiro com as marcas da violência física e psicológica. Segundo, porque as violências mais sórdidas vêm embaladas num discurso bem construído de amor, fazendo com que as mulheres tenham dificuldade de romper com esse ciclo que chama de amor uma relação construída na desigualdade.
Por fim, saiba: o amor, meu bem, só é possível entre seres humanos. Homens e mulheres têm a capacidade de amar – para isso é preciso coragem. Coragem pra enfrentar qualquer tipo de rótulo social que venha tentar estabelecer uma hierarquia entre homens e mulheres. Coragem para que o nosso amor próprio seja maior do que a vergonha de denunciar casos de abuso. Coragem para amar sem reservas, sem medo do ridículo, sem medo de parecer demasiado humano.
Faço votos que um dia você possa amar de verdade uma mulher não para que ela se torne mais importante do que você, ou para que ela esteja acima de você: mas para que você receba as bençãos de quem se humaniza por dentro.
Abraços,
Uma mulher qualquer, que até poderia ser um homem.
*Também assinam esse recado:
Carlos Emilio
Marcos Faria
Paulo Rená
Srta. Bia