Lançamento do livro “Por trás da notícia”

Anotem na agenda: o lançamento do livro Por trás da notícia (Summus Editorial), do jornalista Edson Flosi, acontece no dia 13 de março, terça-feira, a partir das 19h, na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista, 509, tel. 0/xx/11/2167-9900. A obra reúne 15 grandes reportagens escritas entre 1968 e 1980, parte delas publicadas na Folha de São Paulo. O professor Edson Flosi dava aulas memoráveis na Faculdade Cásper Líbero – só vim descobrir muito depois a real dimensão das coisas que ele ensinava. O jornalista Claudio Julio Tognolli descreveu Edson Flosi da seguinte forma:

“Quando a ditadura comia solta, sobretudo a partir de 1968, Flosi aprimorou uma técnica marota de avisar aos guerrilheiros urbanos de que eram procurados. Estampava no jornal suas fotos, com a legenda tamanho de pescoços de garrafa de champanhe, gritando “Procurados”. Obvio que a maioria dos insurrectos vermelhos via o jornal e dava no pinote. O estratagema logo foi descoberto pelos homens de verde. Talvez por ser tão assim intimorato, sem medo de nada, Flosi fez-se o jornalista policial mais admirado pelo finado Claudio Abramo. Boa parte de sua vida ele reportou para a Folha de S. Paulo. Até que, em 1990, acometeu-lhe uma síndrome de Teresa Batista Cansada de Guerra. Não alterou um milímetro o seu jeito de ser, só que agora queria ser advogado. O dia D foi uma conversa que travou com o repórter Fausto Macedo, numa praça na zona norte de São Paulo, no começo dos anos 90. “Olhei para o Fausto, ele para mim. Chegamos à conclusão que, das milhares de reportagens, que fizemos contra corruptos, no meu caso por 30 anos, nenhuma havia dado algum resultado. Percebi que, em termos de combate à corrupção, o Brasil era um país falido”.

Ler o livro do Flosi é conhecer uma importante passagem da história da nossa imprensa e também uma oportunidade de resgatar as boas inspirações que ainda movem alguns jornalistas, apesar da hostilidade das modernas redações. ;-)

Capa do livro Por trás da notícia

Rosângela Santos: atleta, negra, medalhista e… patinho feio (?!?)

Rosângela Santos
Rosângela Santos

Neste ano, o portal UOL colocou na sua home page a foto da atleta negra Rosângela Santos que conquistou medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de Guadalajara.  O texto da legenda era “Pan: patinhos feios salvam Brasil com ouros inesperados”, e um link para a reportagem: Patinhos feios salvam o dia do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. A legenda da foto causou indignação entre os internautas – até hoje os comentários estão disponíveis, questionando inclusive o motivo do portal ter mudado a chamada da matéria repentinamente, sem dar explicações aos leitores.

Acredito que o preconceito não foi intencional – a matéria oferece indícios suficientes para entendermos outros sentidos para o texto da chamada. No entanto, a chamada infeliz foi suficiente para atingir os leitores, que estão a cada dia mais atentos aos sinais de racismo que possam aparecer, mesmo que involuntariamente, nos textos jornalísticos.

Esse episódio nos faz pensar sobre algumas coisas: primeiro, como a imprensa retrata as mulheres negras na mídia – será que Rosângela Santos não merecia uma notícia mais bem escrita para guardar de recordação sobre sua carreira? Fiquei imaginando a atleta, depois de conquistar uma medalha de ouro e talvez o melhor tempo de sua vida, ainda ter a sua história contada sob a perspectiva negativa, de um patinho feio. É com essa disposição que a gente conta a história dessas mulheres? Da onde vem essa má vontade? Para a nossa sorte, os jornalistas hoje podem contar com cursos sobre gênero, raça e etnia, ou seja, existem alternativas para quem quer se aperfeiçoar e errar menos.

Em segundo lugar,  nos faz pensar em como a internet está conseguindo causar mudanças antes nunca imaginadas. Os leitores reclamaram na caixa de comentários da matéria e rapidamente os editores do UOL tiveram que modificar a chamada. Nos velhos tempos de jornal impresso, nunca saberíamos quantos leitores reclamariam de um texto com índicios racistas e se os jornalistas estariam dispostos a mudar de atitude diante dessa reivindicação.

A blogueira Lola Aronovich escreveu um artigo mais aprofundado falando sobre esse racismo velado, que vem disfarçado de “feio”. Destaco esse trecho aqui:  “Poucas pessoas assumem que foram e continuam sendo condicionadas a achar que o belo é ter olho claro, cabelo liso e de preferência loiro, traços “finos”, e pele branca com um pouco de bronzeado. A galera que acha sexy os lábios carnudos da Angelina Jolie parece achar horríveis os lábios carnudos de tantos negros. Mas essa gente nunca assume seu racismo. Diz apenas que é uma total coincidência não gostar de negros”.

Dia 20 de novembro é o Dia da Consciência Negra – é dia de pensar no racismo que está escondido dentro de nós, no nosso inconsciente, e que precisa ser desconstruído cotidianamente. Aproveito para parabenizar a nossa atleta Rosângela Santos, que merece uma brilhante comemoração pelo excelente resultado conquistado nos Jogos Panamericanos de Guadalajara. Rosângela, nós temos muito orgulho de você!

* Esse texto faz parte da blogagem coletiva do portal www.blogueirasfeministas.com – leia também os outros posts que também participaram dessa chamada

Algumas palavras sobre a ingênua e necessária Marcha contra a Corrupção

Todo mundo quer combater a corrupção. Difícil encontrar alguém que em sã consciência vá pregar pelo direito de ser corrupto. Pois bem, se a Marcha contra a Corrupção sinaliza alguma coisa, aponta em primeiro lugar uma vontade legítima do povo em reagir a uma série de casos de corrupção que vem sendo amplamente divulgados pelos jornais.

Em Brasília, especificamente, o caso da Jaqueline Roriz é o mais emblemático do momento pois existiam vídeos e provas de que ela estava envolvida em maracutais, mas ela foi absolvida pelos seus colegas parlamentares. Só esse caso já merecia  uma passeata pois a indignação aqui em Brasília, onde moro, é grande e ampla, vai da atendente do café até as camadas ditas esclarecidas. Talvez isso explique porque em Brasília essa marcha juntou tanta gente (dizem alguns jornais que juntou 30 mil pessoas) ao contrário de São Paulo (dizem que não passou de 400 pessoas). Também é bom lembrar que 7 de setembro já junta um volume grande de pessoas na Esplanada dos Ministérios – então, né, quem foi pra um evento pode muito bem ter ficado pro outro, concordam?

Mas divago. Queria dar meu relato pessoal. Antes queria perguntar pra vocês uma coisa: digamos que eu conheço um parente que trabalha na Polícia Federal. Daí eu preciso de um passaporte pra dali, sei lá, dois dias, só que o meu está vencido e há uma fila para ser atendida e que provavelmente pelos meios normais eu não conseguiria ter o meu passaporte. Vocês recorreriam ao parente para obter uma solução mais rápida do que a fila normal? Ou vocês consideram que isso é tráfico de influência? Quase uma corrupção ou uma corrupção completa?

Pois bem, a pessoa que me convidou para ir pra Marcha contra a Corrupção utilizou esse expediente achando inclusive que isso não tinha nenhum problema porque “nesse país as coisas não funcionam então a gente é obrigada a dar um jeito”. Bom. Isso é só um detalhe pra vocês terem uma noção do quanto o conceito de corrupção é amplo. Eu até queria ir na tal Marcha, pra ver qual era, mas não deu, eu precisava passear com a minha filha, que tem pouco mais de um ano, e ela não ia aguentar o calorzão de Brasília.

Mesmo sem ter participado da Marcha, passei pela Esplanada pra poder chegar no clube – então vi, do meu carro, uma parte da Marcha, de relance. E o que eu vi foi um cidadão segurando uma grande bandeira vermelha do PCdoB e entre outras bandeiras que não consegui identificar. Vi muito lixo espalhado nos arredores (saco plástico, copos, latinhas) e muitos carros estacionados em cima dos gramados (será que era do povo que foi pra ver o desfile de 7 de setembro ou do povo da Marcha ou os dois? Não dá pra dizer). Incrível como os fotógrafos da imprensa não registraram nem o lixo, nem os carros sobre o gramado e nem a bandeira do PCdoB (pelo menos na busca geral do google).

Divaguei. Deixa eu voltar.

O que eu queria dizer mesmo, sobre a Marcha contra a corrupção, são duas coisas: primeiro que ela é necessária. Hoje a gente tem exemplos claros e límpidos de corruptos que não sofrem punição e isso ocorre não só de forma isolada, pessoal, mas é uma coisa meio que institucionalizada: não temos mecanismos para punir ou tentar coibir a corrupção. Isso é sim muito grave e as pessoas sentem essa fragilidade do nosso sistema.

A segunda coisa é que a Marcha é absolutamente ingênua. Fico imaginando os corruptos assistindo televisão achando tudo aquilo muito lindo, muito genérico, muito superficial, inócuo. Aquelas carinhas pintadas pedindo “Fora Lula” (A revolução não partirá dovão livre do Masp) não ameaçam em nada o statusquo. Gritam tal qual crianças birrentas: elas sabem o que querem (combater a corrupção) mas não sabem o que fazer para conseguirem alcançar aquele objetivo. Então esperneiam frases feitas e palavras vazias diante de quem sabe fazer política feito gente grande.

Na hora de botar a cabeça pra funcionar e propor mecanismos que possam punir corruptos e tornar os processos mais transparentes, aí sim, minha gente, eu queria ver. Queria ver juntar na Esplanada e na Av. Paulista, meia dúzia de gatos pingados que conseguirem alcançar um consenso de como lidar com essa situação, com a corrupção que atinge as diversas instâncias governamentais e estatais (viram que eu não estou me referindo só a categoria dos políticos, né? Vamos evitar os preconceitos…).

Vamos ficar de olho – porque o povo já está se sentindo acuado e a coisa mais perigosa é aparecer um líder carismático pra se aproveitar dessa birra e emplacar medidas autoritárias. Mas por agora, eu acho necessário que exista uma marcha como essa, para que uma parcela da esquerda possa sair da letargia. Ah! O texto do Raphael Tsvakko faz uma interessante abordagem sobre a repercussão da Marcha entre as camadas da esquerda governsta, leiam De inocentes úteis a golpistas.

Podemos discutir a qualidade da mediação?

Jornalismo é mediação. Mediação jornalística significa que você vai olhar um universo e, a partir dessa observação, vai escolher enfoques, separar o que é do que não é notícia, selecionar, priorizar, hierarquizar e enfim, publicar.

Apesar da mediação jornalística seguir alguns princípios básicos, esse processo não é igual pra todo mundo: cada jornalista vai desenvolver seu próprio jeito de escrever uma notícia, de acordo com o veículo para o qual trabalha, de acordo com a editoria, com sua subjetividade, e entre outros fatores. Em que pese essa diversidade, é sempre saudável discutir coletivamente os critérios de mediação e avaliar as conseqüências sociais do que se publica ou se deixa de publicar.

O que me preocupa é que no Brasil de hoje há uma mediocridade tão grande, da base da pirâmide social até a elite, que as pessoas não conseguem se dar conta de que esse processo de mediação existe. E o pior: não percebem que é necessário que todos possam participar um pouco desse conjunto de critérios que separa o que é noticiável do que não é.

O que existe hoje é a tendência das pessoas quererem acreditar que esse processo é algo pronto e acabado, e por isso, indiscutível. A regra geral é “o jornalismo deve publicar tudo”. Agora imaginem o que é esse tudo? Fofoca, mentira, ofensa, injúria… Tudo é tudo, oras! Daí que criticar a publicação de certos conteúdos agora virou sinônimo de: “censurar a opinião pública”, “cercear a liberdade de expressão”, “impedir uma conduta que é culturalmente aceita”, “falta de senso de humor”, “ser moralista”, “fazer patrulha ideológica”.

Gente! Vamos combinar: querer discutir critérios de noticiabilidade é o que há de mais saudável pra uma democracia! Vamos colocar na roda, vamos pensar juntos!

Será que eu posso, por exemplo, questionar a publicação de um vídeo de um cara que matou 12 crianças dentro de uma sala de aula e depois cometeu suicídio? Posso perguntar sem ser rotulada de censora da opinião pública?

Gostaria de questionar muitas coisas, mas acima de tudo desejo que mais pessoas perguntem e ajudem a ponderar o que é que traz mais benefícios para o coletivo. Gostaria que mais pessoas desconfiassem da ideia de que a liberdade de imprensa é publicar tudo o que cai na mão de um repórter, não importa se nesse tudo existem interesses particulares, pilantragem, mentiras, informações não verificadas. Gostaria, enfim, que as pessoas parassem de rotular de censura o debate sobre a qualidade de mediação da imprensa, que é tão necessário para a vida em sociedade.

O Bolsonaro e a liberdade de opinião

Acho lamentável que uma pessoa ofenda a outra em rede de televisão – porque, convenhamos, foi justamente isso o que ocorreu na tão comentada entrevista do programa humorístico CQC com o Bolsonaro. Fiquei matutando se ia ou não abordar o tema, porque, afinal, vale a pena comentar a grosseria alheia?

Mas, se por um lado a grosseria por si só não é material pra um post, por outro lado o Bolsonaro conseguiu, involuntariamente, trazer à tona uma questão que me sinto na obrigação de abordar: o direito à liberdade de opinião.

Afinal, o que é a liberdade de opinião? Cada um tem sua definição e poucas pessoas realmente se dão ao trabalho de pensar no que isso significa, mas posso arriscar que o senso comum diz que “é você dizer o que quiser, absolutamente tudo o que quiser, sem ser censurado por ninguém”.

Então convido você a sair do senso comum e a pensar nas exceções desse pensamento consolidado pelo senso comum. De acordo com a legilação brasileira são crimes  a injúria, a difamação e a calúnia, para começar a conversa. Isso aqui estou dizendo simplesmente para mostrar que esse direito a expressar uma opinião não é absoluto, ele é relativo! Deve ser compreendido em conjunto com outras leis que regem a sociedade brasileira.

Portanto, tome cuidado quando for defender que alguém ofende uma pessoa. Você ainda pode estar sendo conivente com um crime! Aliás, o Bullying do tipo psicológico só acontece onde o agressor encontra na sociedade a condescendência pra perseguir sua vítima, já parou pra pensar? Quando um fulaninho xinga o outro de gordo, por que ninguém interfere? Porque isso é ensinado nas escolas, as pessoas são ensinadas a não interferirem, a “respeitarem” a liberdade dos outros falarem qualquer coisa, inclusive ofender. Porque as escolas no geral deixam rolar as agressões verbais e só interferem, quando o nível de violência passa para o nível físico/corporal, e olhe lá.

Outra questão que cabe ressaltar: a liberdade de opinar é para mostrar uma diversidade. Será que é preciso ofender alguém pra mostrar um ponto de vista? Acredito que para isso existem os jornalistas, para mediar um debate que visa mostrar as mais diferentes opiniões sem, com isso, ofender alguém ou infringir as leis brasileiras.

Entenderam o meu ponto de vista?

Agora vou responder algumas perguntas que me foram enviadas pelo twitter e que podem interessar a outras pessoas.

1. Mas neste caso específico [a "entrevista" do Bolsonaro], A IMPRENSA é q foi procura-lo e ele RESPONDEU o q pensa. Não saiu distribuindo panfletos. Entende?

Amigo, o CQC nunca pode ser considerado imprensa. Nunca! E não é por falta de diploma de jornalista de seus idealizadores: é simplesmente porque a função da imprensa é debater assuntos de interesse público, e deve cumprir outros requisitos que o tal programa de humor, definitivamente, não cumpre. Qual é o interesse público em saber se um político permitiria seu filho namorar uma mulher negra? Percebe como não há interesse público nesse tema? É uma pergunta feita apenas com o intuito de gerar audiência, até porque o Bolsonaro sempre foi polêmico. Pra quem é jornalista e acompanha de verdade, a gente sabe que o Bolsonaro é o que é e se elegeu por ser quem ele é. Ou seja, a personalidade dele não é notícia nem sob o critério da novidade (todos sabem que o Bolsonaro diz coisas assim não só nesse contexto do programa CQC). To aqui procurando algo que faça da entrevista do Bolsonaro uma notícia, mas acho que não se enquadra em nada mesmo!

2.Deve alguém ser responsabilizado por seus pensamentos? Ou por responder? Deveria ele mentir? Ou dizer: “nao posso falar o que penso”?

Amigo, os seus pensamentos são seus! Não existem leis que punem pensamentos, graças a Deus. Também não existe lei obrigando ninguém a falar, muito menos participar de um programa de TV. Agora, se você aceitou participar de um programa de televisão, supõe-se que você tenha a responsabilidade de fazer bom uso de uma fala que será gravada, mediada e distribuída por um canal que, além de tudo, é uma concessão pública. O Bolsonaro é político, ele tem mais do que a obrigação de saber que o que ele diz na esfera pública será sim discutido pelo público. E sim, se o que vem na cabeça dele diante de uma simples pergunta é uma ofensa ele deveria pensar melhor e tentar dizer algo de forma a respeitar as leis que já existem e devem ser cumpridas por todos.

3. Mais: será q CALAR a homofobia nao terá um efeito reverso de tentar EDUCAR contra a homofobia? A agenda positiva nao seria mais efetiva?

Pessoalmente acredito que repreender alguém ou fazer alguém se RESPONSABILIZAR pelo que diz é não só cumprir uma lei, mas altamente educativo. Precisamos ensinar aos nossos jovens e adultos que é possível sim debater as mais diferentes ideias sem que para isso seja necessário agredir ou ofender uma pessoa. Devemos ensinar nossos jovens a fazerem o bom debate, a falarem com educação e respeito. Se o que a pessoa tem a dizer é uma agressão, prefiro que ela se cale! Sem dúvida! Eu já sofri bullying, meu amigo, e não tenha dúvidas, prefiro que meus agressores pensassem tudo ao meu respeito e não me dissessem nada! Que ficassem calados e parassem de me perseguir! E prefiro que mais pessoas tenham a  coragem de interferir quando alguém agride verbalmente uma outra pessoa. Acho que interferir, nesse caso, não é uma censura, é um ato de solidariedade à vítima da agressão.

Enfim pessoal, é isso. Espero que vocês não me considerem uma ditadora por escrever tudo isso aí que vocês leram. Mas se ainda assim vocês acham a minha postura ditatorial, a caixa de comentários está aí, aberta ao bom diálogo.