Calamidade em Águas Claras – Brasília – Planalto Central

Aqui em Águas Claras não existem serras, montanhas  nem mesmo algo que se possa chamar de rio – no máximo alguns córregos e nascentes. Mas tem alagamento! Não, AINDA não morreu ninguém (não que eu saiba, não nas proporções do que ocorre em outras cidades), mas se a gente não cuidar… Vejam este vídeo postado no youtube em novembro de 2010, que mostra uma região bem central, perto de uma universidade e de uma estação de metrô:

O motivo do alagamento não é a fúria da natureza! É a pura e simples falta de planejamento urbano. Pra vocês terem uma ideia, até bem pouco tempo atrás, bem antes desse vídeo aparecer, o local tinha prédios, gente morando, carro circulando, asfalto, mas não tinha, pasmem vocês: bueiro pra escoar água da chuva!

Agora pensem. Pensem numa região que já tinha apartamentos que chegavam a custar mais de 500 mil reais. Sem bueiro na rua! Se é assim na parte “rica”, imaginem vocês como… Ou melhor, não imaginem.

Bom, vocês vão me dizer, depois da primeira chuva o GDF (governo do distrito federal)  foi lá tomar uma providência. E tomou: quebraram o asfalto, fecharam o trânsito, botaram lá a tubulação pra coletar as águas das chuvas, missão cumprida. NOT. Na primeira chuva que cai depois da obra está tudo alagado de  novo! Querem saber o motivo? Eu também quero. Não vou arriscar um palpite pra não parecer indelicada e chamar alguém de incompetente. Então vou só deixar a pergunta mesmo: por que continua alagando?

Já me falaram que o bairro de Águas Claras foi construído onde antes era um parque, com brejo, nascentes, e todas essas coisas que normalmente devem ser protegidas, ou no mínimo consideradas na hora da ocupação. Também já me falaram que inicialmente seria um bairro com mais casas do que prédios (até porque, fora as questões de solo, pensem na densidade populacional, no trânsito), mas quem mora aqui sabe que os prédios proliferaram sem dó. Quase não se vê casas. Eu não duvido nada que muitas construtoras deram um “jetinho” pra fazer prédio onde só podia ter casa. E por “jeitinho”, entenda-se “jeitinho” mesmo, dentro da “lei”, fora do ecologicamente chato e correto.

Na minha quadra 207, por exemplo, estava lá registrado no mapinha da administração regional, que haveria uma “rua de servidão”, ou seja, um acesso para pedestres para a outra quadra, a 206. Afinal, pra que pegar um carro pra ir até a padoca, né? Sem a rua de servidão, a pessoa da quadra 207 fatalmente vai pegar o carro pra ir até a 206 pois a volta é maior, há trechos sem calçada, com lama, enfim, o horror… Pois não é que a construtora de dois prédios vizinhos resolveu ocupar a tal rua de servidão, comprando-a?

Agora eu pergunto: como é que se compra uma rua de servidão? Advogados leitores, me expliquem! Como é que se compra uma rua? Na minha inocente leiguice me parece absurdo uma empresa querer comprar uma rua. Pra mim é muito simples: se é rua, é pública! Se é pública, não deveria estar a venda, não sem no mínimo perguntar pro povo que será diretamente afetado. Alguém venha me iluminar.

Depois também fiquei sabendo que a empresa lá, que comprou a rua de servidão, também tá com problema na justiça por ter construído prédio de 38 andares. E parece que ganhou esse “direito” em primeira instância, mas a administração regional de águas claras recorreu. Vou acompanhar essa disputa, depois eu volto aqui pra dizer quem ganhou a causa.

Bem, eu teria muitas coisas mais pra falar, mas vou encerrar por aqui. Acho que por hoje é o suficiente pra vocês entenderem que a natureza não têm culpa de nada, a gente é que tem que se preparar antes das chuvas, reivindicar uma cidade melhor, se organizar, falar com os vizinhos, bancar o chato, se preciso for, pra mudar as coisas.