Desescolarizar

A linda da Renata Correa indicou um vídeo que me rendeu muitos insights: uma conversa de quase uma hora com a professora Ana Thomaz.

Ana Thomaz fala da opção que fez de tirar o filho da escola, quando ele ia começar o ensino médio. E explica porque ela achou que a escola não era um lugar para o filho dela. E conta como foi que ela mesma começou a ensiná-lo (seria esse o verbo?) e a aprender com ele. E de como esse processo foi conduzido.

O vídeo não se restringe ao ato em si, de retirar o próprio filho da escola. Ele mostra um pouco de quem é Ana Thomaz, como ela pensa, como ela está no mundo, que experiências ela passou e qual o sentido que ela tem para a vida.

E como ela mesma diz, é um paradoxo: ser professora e rejeitar a escola. É aqui que eu mais me identifiquei com ela: sou jornalista e rejeito o jornal. É um grande alívio perceber que pessoas de outras áreas, outras profissões, também têm dilemas parecidos com os meus.

Só que ela foi longe, muito mais longe do que eu: ela abriu mão da escola e ensinou alguém. Continuou sendo professora, ensinando – e fez isso sem a escola, mas dentro da estrutura que estava ao alcance dela. Ela se colocou esse desafio (que não tem garantia nenhuma de que vai “dar certo”) e está vivendo de acordo com ele. E vivendo bem.

Mas esse é só um dos “insights” – o vídeo bateu o meu recorde de insights por minuto. Ainda estou processando tanta informação. Porque não parece à primeira vista, mas é um vídeo extremamente político. Espero que vocês curtam tanto quanto eu curti. E valeu, Renata Corrêa, pela indicação!

E o desejo de ser mãe, onde fica?

Sou mãe de uma menina linda, querida, desejada, amada. A maternidade tem me tornado cada vez mais feminista pois, longe de ser uma idealização, ser mãe é um ato político.  Não se é mãe sozinha: se é mãe dentro de um contexto social que inclui creche/babá/escola, horários flexíveis no trabalho, tempo para levar a criança ao médico, tomar vacina, passear, conviver com outras crianças. E se a gente olhar friamente para a nossa sociedade, ela é muito cruel para com mães e crianças, mesmo aquelas financeiramente privilegiadas. As cobranças de sucesso são grandes, o individualismo é a regra e os incentivos são mínimos.

Mesmo assim escolhi ser mãe: quis trazer para o mundo uma criança, seguindo o meu desejo de criar um ser humano, por mais que isso soe uma ousadia. Trouxe porque acredito no amor e na vontade de ser feliz. Acredito que ser mãe é um risco diário de se decepionar, se trair, errar – e também o risco de ter frágeis momentos de felicidade e completude. Corro o risco diário de ser recompensada com o sorriso de uma criança no meio de um dia derrotado, em que todo o planejamento foi por água abaixo e você só queria deitar e dormir. Daí você percebe  que aquela gargalhadinha é uma versão deliciosa de um travesseiro que você nunca sonhou que pudesse existir.

Sei que pareço estar divagando, caindo em contradição com o que foi escrito no primeiro parágrafo. Mas saiba você, leitor (a), que essa fofurice toda nasce da vontade. Nasce do desejo genuíno de ser mãe para o que der e vier. Para acordar de madrugada é o mínimo – eu me preparo até para o pior dos pesadelos de uma mãe de primeira viagem que tem bebê em casa: para o caso de minha filha adoecer gravemente ou sofrer algum acidente.

Falo tudo isso para lembrar que o debate sobre o aborto precisa passar por uma séria reflexão do que significa a maternidade e o desejo de ser mãe. Como é que a sociedade tem preparado as nossas mulheres para isso? Será que nós, mulheres, estamos recebendo o suporte necessário? Nem me refiro a questão financeira, que também é importante, mas em relação ao psíquico: será que a sociedade está despertando o desejo de ser mãe nas mulheres ou estamos enlouquecendo a mulherada com tantas obrigações?

Tem gente que acha que proibir o aborto é uma forma de conseguir transformar uma mulher em mãe. Bizarro, não?! Como se ser mãe fosse expiar alguma “culpa”  derivada de sexo inseguro, de uma incompetência por não saber tomar uma pílula ou não saber cobrar do homem o uso da camisinha ou coisa que o valha. Estão conseguindo transformar a maternidade em culpa, em desgosto, em castigo, e não na causa amorosa que deveria ser.

Até quando a sociedade vai encarar a maternidade como uma culpa a ser expiada, e não como uma vontade genuína de se criar um ser humano com amor e generosidade? Será que é mantendo uma lei que proíbe o aborto que a sociedade vai conseguir transformar em mãe um a mulher que não deseja ser mãe?!

Em tempo [1]
Não, eu não acho que o aborto é a única solução para o problema das mulheres que não querem ser mães. Mas acho que o tabu e o conservadorismo que povoam esse assunto estão impedindo, por exemplo, que as mulheres sejam decentemente atendidas nos hospitais. E como bem lembrou o Dr. Drauzio Varella, “Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente”. Também acredito que descriminalizar o aborto e legalizar a prática é uma forma de monitorá-lo, de conversar mais com essas mulheres, de saber o que está acontecendo, de efetivamente ajudar a reduzir mortes de mulheres jovens e pobres por esse Brasil.

Em tempo [2]
O tabu e o conservadorismo também são responsáveis pelo comodismo que perpassa as políticas públicas voltadas para as mulheres, as mães e as crianças. Em todos os lados se pensa a mulher como uma missionária, que deve arcar com milhões de responsabilidades e sem receber nenhum apoio moral, financeiro ou que o valha. As profissões tidas como femininas têm as menores remunerações, a jornada de trabalho de homens e de mulheres não permite que exista uma convivência maior entre pais e filhos, as creches públicas são raras, o orçamento para educação é ínfimo, o orçamento para combater violência doméstica contra mulheres é pequeno, as mulheres recebem menos quando executam os mesmos trabalhos dos homens e assim caminha nossa agenda pública. Como proibir o aborto não vem surtindo resultado, convido todos os religiosos a apoiarem as causas das mulheres se eles desejarem de fato dar mais suporte à maternidade. ;-)

*Hoje é dia 28 de setembro,  dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Esse post faz parte da blogagem coletiva organizada pelo site www.blogueirasfeministas.com

Só os publicitários têm liberdade? Regulamentação já!

Quando o assunto é criança todas as famílias se sentem à vontade para participar dos debates. É assim quando o governo resolve baixar uma lei combatendo a palmada dentro de casa ou então quando resolve estabelecer regras em relação ao trabalho infantil. E é bom que seja assim porque estamos numa democracia e todos precisam opinar até que cheguemos perto de um consenso e se possa fazer valer a vontade da maioria, que deve ser respeitada.

No entanto, existe um espaço onde as famílias estão do lado de fora da discussão: a publicidade de produtos infantis. A liberdade que os publicitários têm para vender produtos infantis é quase absoluta. Os publicitários só não são mais livres porque fazem publicidade com três objetivos muito claros: vender, vender e vender. Nada mais importa nesse setor: se vai gerar erotização precoce na criança, as famílias que resolvam. Se vai causar obesidade infantil, as famílias que resolvam. Se vai causar pressão alta nas crianças, a culpa é da família. Se a família não tem o dinheiro pra adquirir o que está sendo anunciado, que procure lidar com a frustração da criança, e assim, automaticamente, toda a responsabilidade passa a ser da família – essa renegada, que nunca sequer foi convidada para participar da produção da peça publicitária em questão.

Como afirma Susan Linn, autora do livro Crianças do consumo – a infância roubada, “o marketing para crianças enfraquece os valores democráticos ao encorajar passividade, conformidade e egoísmo. Ameaça a qualidade do ensino público, inibe a liberdade de expressão e contribui para problemas de saúde pública como obesidade infantil, dependência de tabaco e consumo precoce de álcool”.

Claro que todo empresário é livre pra vender o que quiser e como quiser: mas estamos falando do terreno da publicidade infantil, sobretudo a veiculada na televisão. É aquela que atinge a sensibilidade de uma criança que muitas vezes ainda não possui maturidade para poder decidir uma compra nem mesmo para se defender da publicidade que chega “de graça” em sua casa. Somos bombardeados todos os dias por mensagens que ligam o consumo à felicidade, como é que nossas crianças, que fazem parte das parcelas mais vulneráveis da sociedade, estão recebendo isso?

O Projeto Criança e Consumo estuda os impactos da publicidade infantil – veja uma pequena amostra do que já foi detectado pelo Brasil:

Crianças cujas famílias dependem de cestas básicas e que não saem de casa sem passar batom. Que acham que a maior felicidade do mundo é ter cabelos longos e loiros iguais aos da Barbie. Meninas que vestem microssaias e ficam grávidas na adolescência. Meninos que insultam mulheres e tomam cerveja. Mães que, depois de muito choro e muita insistência dos filhos, gastam todo seu dinheiro para comprar um boneco Power Ranger.

Os impactos negativos da publicidade infantil existem, mas em que espaço público esse debate é feito? Se você quiser reclamar de uma propaganda infantil deve recorrer ao Conar, que é o Conselho de Autorregulação Publicitária. Ou seja, continuam sendo os publicitários a avaliar se sua queixa é digna de atenção ou não! Daí que, quando eles são acionados, eles podem simplesmente ignorar a queixa, como neste caso aqui, em que a sociedade civil organizada reclamou sobre o uso de um brinquedo como brinde de um lanche gorduroso. O Ministério Público e outros órgãos governamentais até podem ser acionados, em certos casos, mas esses mecanismos estão muito longe de funcionarem como espaço de discussão sobre material publicitário voltado para crianças, menos ainda de participação popular.

Sobram estudos e argumentos que justificam a necessidade dos cidadãos reivindicarem projetos de lei que possam discutir a regulamentação da publicidade no país. É preciso criar fóruns, conselhos ou outros mecanismos que permitam uma maior participação das famílias no que se refere à publicidade infantil. Afinal, os pais são sim responsáveis por seus filhos, mas não são onipresentes! Todos os mecanismos que possam minimizar as consequências da publicidade infantil são de grande ajuda para os pais e para a sociedade. Portanto, pais conscientes pedem regulamentação da publicidade já!

Furar ou não furar as orelhas da minha filha?

Depois de olhar a minha filha com atenção, a pediatra avaliou que ela estava em boa forma, ganhando peso, crescendo dentro do esperado, com a pele boa, bons reflexos. Mas antes de passar a guia com a nova dieta da minha filhota, ela me repreendeu:

- Não vai colocar brincos na orelha da sua filha, mãe?! As pessoas vão achar que ela é menino…

Confesso que achei essa observação – que veio em tom de reprimenda, quero ressaltar – um tanto fora de lugar. Desde quando médicos se arvoram a recomendar furos em orelhas de crianças de pouco mais de 5 meses de vida? Será que tal procedimento cura gripe? Resfriado? É vacina pra alguma doença? Na hora eu pensei em um milhão de coisas, mas resolvi ficar na minha, deixei passar.

Mas chegando em casa me bateu um negócio no coração: mas por que diabos as mulheres têm que passar por esse ritual desde bebê, essa coisa de passar por uma dor de furar orelha pra mostrar pra sociedade que ela é feminina? Já não basta o guarda-roupa dela ser metade rosa, uma boa parte roxa e, em se tratando de saias, as demais cores?

Meu lado feminista me diz que não preciso fazer ela sentir dor pra simples satisfação da sociedade, me parece tão desnecessário. Mas eu queria fazer uma enquete aqui, entre meus leitores: furar ou não furar as orelhas da minha filha de 5 meses?

Blogagem coletiva – maternidade e carreira

Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem de fazer mamadeira todo dia
Além de trabalhar como empacotadeira
nas casas Bahia
Mama África
Tem tanto o que fazer
Além de cuidar neném
Além de fazer denguim
Filhinho tem que entender
Mama África vai e vem
Mas não se afasta de você
Chico César

Afinal, ser mãe é abdicar de uma carreira profissional? Acredito que, em primeiro lugar, não há apenas uma resposta para essa pergunta. É absolutamente natural uma mãe querer ficar com o filho 24h por dia, ainda mais em se tratando de um bebê, um ser indefeso, que ainda está aprendendo a viver do lado de fora da barriga da mãe, dependendo do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses pra ter boa saúde. Também é natural uma mãe querer voltar ao trabalho assim que o bebê se tornar mais independentezinho, afinal, a tendência é o bebê ir criando vida própria, o esperado é ele se socializar, ir pra uma escolhinha, passar uma tarde brincando com os amiguinhos. Enfim, equilibrar carreira profissional e a maternidade tem um componente valioso da disposição e da vontade da mulher, que deve ser sempre respeitada em primeiro lugar.

Em segundo lugar, acho que a pergunta não é suficiente para abordar o cerne da questão. Deveríamos perguntar: o que é que a sociedade deveria oferecer para a mulher trabalhadora que assume a maternidade? Nesse aspecto, acho que precisamos mudar muuuuuitas coisas, começando pela informação. Nem todos estão suficientemente sensibilizados sobre a importância do aleitamento materno exclusivo até os seis meses da criança. Pelos benefícios emocionais e de saúde trazidos pelo aleitamento, acho que a lei que amplia a licença maternidade para 6 meses no Brasil deveria propor uma obrigação para a empresa, e não um direito atrelado a um incentivo fiscal e que pode ser negado à mãe. Para quem não sabe, amamentar é saúde – nenhum leite artificial é capaz de dar ao bebê os nutrientes e “vacinas” que só o leite materno é capaz de proporcionar, sem contar o aspecto emocional. Mesmo que a mãe tenha dificuldades biológicas para dar o seio, penso que a natureza é sábia, e que o prazo de 6 meses é fundamental para a criação de vínculo entre mãe e bebê.

Também acho que as mães deveriam voltar ao trabalho aos poucos. Pra mim (e isso é muito pessoal) está sendo muito difícil ter que desmamar minha filha e imaginar que daqui uma semana vou ficar praticamente 10 horas sem vê-la (sete horas de trabalho, uma de almoço mais o deslocamento de casa trabalho). Por que não podemos criar uma lei que facilitasse esse retorno, que ele fosse feito de forma gradual, que a mãe pudesse trabalhar em horário reduzido até o bebê completar um ano? Pelo menos mãe e criança poderiam ir se acostumando à nova rotina aos poucos – o desmame seria menos traumático, o bebê ficaria menos tempo em creche (ou com a babá), ficaria menos exposto às doenças.

Outro aspecto importantíssimo é a participação do companheiro (a): acho que, se é um casal que cuida de uma criança, o (a) companheiro (a) deveria ter licenças especiais pra ficar com a criança por mais tempo, principalmente após esse período de amamentação. Porque eles precisam participar da vida doméstica com mais afinco. Essas licenças não podem ser encaradas como gastos, precisam ser vistas como um investimento da empresa e do Estado na criança e nas futuras gerações – afinal, como seria um mundo sem crianças?

Acho que ser mãe ou pai não deve ser obrigação, muito pelo contrário: acho que é uma decisão que deve ser fruto do desejo de alguém. E acho que existem pessoas suficientes no mundo com esse desejo para que isso não se torne uma obrigação social. Acho que a diversidade do mundo é necessária e eu apóio quem não quer ter filhos! Da mesma forma acredito que as pessoas que não querem ter filhos também concordam que é importante apoiar aquelas outras que querem tê-los, apoiar na forma da lei, compreender que ter filhos é um tipo de trabalho sim, que pode não ser remunerado, mas que ocupa bastante o tempo, a imaginação e o suor da gente.

Se por um lado ter filhos não deve ser uma obrigação, por outro lado acho que o capitalismo (a sociedade ou o nome que você achar melhor para significar o coletivo) não deve penalizar as pessoas que optam por ser mães ou pais. A gente precisa é propor mais soluções que sejam favoráveis tanto para a maternidade como para a carreira da mãe. A gente precisa tocar no cerne da questão: a gente trabalha é demais e mal ganha pra pagar as contas do mês! Precisamos reivindicar salários mais altos pra que possamos trabalhar menos tempo e assim sobrar mais tempo pra fruir, pra viver, pra cuidar das coisas que nos são verdadeiramente caras.

Acho que é possível sim ter filhos e ter uma carreira profissional de sucesso, acho que essa é uma demanda legítima das mulheres. O que não podemos é deixar que o status quo nos faça optar por uma das duas coisas! Temos que ir pra batalha mesmo, viver e seguir reivindicando, pois nem todas têm o desejo de passar a vida só cuidando dos filhos. As mães que não querem parar de trabalhar precisam saber que trabalhar e ter filho é absolutamente normal, o que não é normal é a nossa jornada de trabalho, que é muito longa, e as condições de trabalho pra quem tem filho, que são precárias.

Também blogaram sobre este tema:

- Os dois lados da moeda – Carolina Pombo
Blogueiras Feministas – Mercado de trabalho: o que pode mudar?
A mulher no mercado de trabalho – Tahyz Athayde