No dia 12 de outubro aconteceu em Brasília a segunda onda da popular (e insuspeita) “Marcha contra a corrupção”. Por continuar sem um foco (como já expliquei nesse post, corrupção por si só é um conceito amplo e ingênuo, ineficaz), o evento acabou, novamente, reunindo um balaio de gatos no Eixo Monumental Brasília. Como considero o fenômeno interessante – pelo atual contexto político e pelo uso de redes sociais em sua divulgação, resolvi compartilhar aqui algumas ideias. Mas antes gostaria de pontuar alguns fatos:
Fato 1: o evento foi divulgado nas redes sociais – aqui está o site oficial do movimento: http://www.movimentocontraacorrupcao.org.br , que se diz apartidário e tem todo um discurso genérico, que cabe qualquer coisa, que acaba atraindo a simpatia imediata das pessoas. Guardem essa informação. Vejam o banner que circulou pelas redes sociais como twitter, facebook e afins:

Fato 2: diferentemente de São Paulo, Brasília é famosa pelo caso de corrupção envolvendo Arruda, primeiro governador na história do Brasil que foi encarcerado – e que foi de fato afastado do poder em decorrência das investigações. Também é famosa por não ter punido a Jaqueline Roriz, que foi flagrada recebendo dinheiro do delator do mensalão do DEM e mesmo assim foi absolvida pelos colegas. Ou seja, os corruptos aqui têm NOME, HISTÓRIA e PARTIDO POLÍTICO (ambos estão no campo da direita). Guardem essa informação.
Fato 3: apesar de toda a divulgação frisar o caráter “apartidário” e “apolítico” (sic), os organizadores do movimento pertencem aos partidos identificados com a direita. Guardem essa informação.
Interpretações
Qual é o resultado de um movimento organizado pela direita (ainda que não abertamente), apartidário (em tese poderia servir a uma esquerda que quer punir, por exemplo, Jaqueline Roriz) e num contexto político recente que envolveu figuras famosas da direita? Não vou responder, quero apenas ressaltar a complexidade do fenômeno e dizer que nesse caso eu me reservo nodireito de desconfiar de simplificações rasteiras.
Há uma parte da esquerda que se recusou a participar da Marcha simplesmente por saber da informação de que se tratava de uma marcha organizada pela direita, ainda que o todo o discurso que a sustentasse defendesse o tal “apartidarismo”. Essa esquerda acredita que todas as pessoas da marcharam são ou de direita ou são inocentes úteis que ajudam a direita. Também considera que as pessoas de esquerda que lá estiveram presentes estavam lá simplesmente porque querem “jogar o jogo da direita” – fazer uma vingança, um “suicídio político” gratuito.
Acho essa visão respeitável mas um tanto limitada pois ela se fecha numa redoma, a dos “entendidos”. Quem não compartilha dessa visão política é automaticamente rotulado, tratado sem nenhuma consideração. Se a massa apresenta uma ignorância política, essa esquerda prefere que ela continue na ignorância. Se pessoas de diferentes visões partidárias estiveram ali presentes, essas nuances automaticamente são jogadas no balaio da direita, cometendo injustiças do tipo: e quem foi protestar contra Roriz? Merece ser jogado no balaio da direita?! Mesmo?
Na minha visão a marcha se torna interessante pois ela serve como um termômetro político – tenho sempre a curiosidade de saber o que move um cidadão para protestar numa rua, e mesmo que seja pra servir de massa de manobra pra alguém, se a pessoa saiu de casa é porque alguma coisa muito forte a sensibilizou. Acho curioso como nem sempre quem se sensibilizou se alinhou politicamente a quem organizou a marcha. Isso acontece, creio eu, porque a desintermediação (uso da internet como ferramenta de mobilização política) está cada vez mais presente e organizadores de qualquer que seja a marcha precisam ter em mente que controlam cada vez menos o público que resolve comparecer e os debates surgidos em torno da pauta.
Também acredito que colocar toda a divergência no balaio oposto é uma tática que está a cada dia funcionando menos. Não é que esquerda e direita deixam de existir: mas é que as interpretações sobre o que é esquerda e o que é direita aumentam exponencialmente. E com a internet os interesses passam ser cada vez mais específicos, diversificados, contestados em tempo real! Precisaremos de novas teorias, novas formas de se fazer política – é para isso que caminhamos!
Um exemplo: o protesto dos professores por melhores salários, piso unificado, porcentagem maior do Orçamento Público para educação, e entre outras demandas é, em tese, uma bandeira clássica da esquerda (a educação deve ser pública, os trabalhadores devem ser valorizados). Já fui chamada de “extrema-esquerda que joga o jogo da direita” por defender essa causa. E aí, será que é isso mesmo? Vamos jogar tudo na conta da direita e encerrar o debate?
A Marcha acaba refletindo esse panorama político – fala-se que ela atende interesses de direita (e atende) mas também aproveita-se para calar assuntos espinhosos dentro da própria esquerda: a questão ambiental, as bandeiras dos LGBTs, os salários dos professores… Se algum professor enxergou na marcha um palanque pra defender sua causa, o seu grau de esquerdice foi automaticamente colocado em dúvida.
Se por um lado temos uma situação econômica favorável frente a países de primeiro mundo que hoje enfrentam níveis dedesemprego na casa dos 20%, por outro lado continuamos com problemas que costumavam ser bandeiras históricas dentro da esquerda tradicional e que hoje são demandas sufocadas por uma parte da esquerda (precarização das relações de trabalho, pobres pagam mais impostos do que ricos, precarização das leis ambientais, mortes de mulheres, homossexuais e negros, racismo institucional).
Avaliação de quem esteve na Marcha em Brasília
Meu amigo Rômulo, que é filiado ao PSB (partido de esquerda), participou das duas marchas em Brasília. Compartilhei com ele essa minha angústia de ver que há um discurso da esquerda governista que coloca a manifestação toda como coisa da direita e pronto, assunto encerrado. E não está conseguindo enxergar os outros atores que acabam procurando esse palco para manifestar seus descontentamentos como os professores, os ambientalistas, os LGBTs, os revoltados contra o Arruda, enfim. As pessoas que estão nas causas da esquerda são minoria nessas marchas – mas elas existem! Preoucupa-me essa invisibilidade, esse debate interditado.
Eis o que ele me respondeu (grifos meus):
“Bom, isso é uma preocupação que está me consumindo nesses dias.
Há os dois extremos. A galera dos partidos que não podem ir para a marcha pois será hostilizada (partidos notoriamente com o rabo preso) e tenta minimizar o processo. Por outro lado, parte dos “organizadores” está criando um monstro. Para você ter uma ideia, parece que o dono do escritório de advocacia que está defendendo o Arruda teve uns belos minutos para falar de cima do carro de som. O que me preocupa nisso? Que esse movimento escape das garras de um partido e caia nas garras de gente “sem partido” que, de repente, passa a ter partido.
Não sei se te contei. O Movimento Ficha Limpa do DF que antes da campanha era “apartidário” e estava “sabatinando” candidatos para apoiar, acabou por apoiar um camarada do partido do Roriz. Organizei um debate de candidatos na UnB e convidei o cara que estava sendo apoiado pelo Ficha Limpa (nem sabia o partido). Eis que o cara defende o Roriz durante todo o debate. Fiquei pasmo… Compreende o meu receio?
Aí, durante o evento dessa quarta, a galera de cima do carro de som – a maioria muito pueril ainda nas reflexões políticas – começa a puxar uma hostilização contra uma bandeira que eles acharam que era de partido. Isso num espaço público, no Eixo Monumental, num feriado. Aí alguém explica “não, não é a Eliana Pedrosa, é a Eliana Calmon”. O carinha de cima do carro de som fala: então pode levantar que a gente é a favor. Ora bolas, quem é ele para permitir ou deixar de permitir alguém levantar uma faixa ou uma bandeira de partido, usar uma camiseta, compreende? Ele não é dono do espaço público. É um autoritarismo travestido. O cara que vai para a rua com a bandeira ou camisa do seu partido, voluntariamente, provavelmente está lutando dentro do seu partido contra a corrupção. Esse pessoal tem de entender isso. Não precisa se filiar, mas precisa saber que tem gente partidária que está lutando a mesma luta e, o mais importante, que há partidos mais ou menos comprometidos com essa luta.Hostilizar partidos é colocar tudo no mesmo saco PSOL e PSB na mesma lata que DEM e PR, por exemplo. É que não estarei aqui no dia 15 (nem sei se terá outra), mas seria ótimo tentarmos organizar umas pautas mais concretas – como a corrupção cotidiana, o movimento GLBT, os professores (na primeira marcha o carro de som era do Sindicato da UnB, emprestado. Aí o cara da UnB pegou o microfone para explicar a situação da UnB, o indicativo de greve, etc. o cara da “organização”, desceu do caminhão e começou a falar para o público embaixo: “isso aí não tem nada a ver com o movimento, isso aí não é com a gente”. Achei falta de respeito e um despolitização gravíssima…). No próximo em que eu estiver, eu irei com a camisa do meu PSB tranquilamente. Se houver hostilização, farei tranquilamente esse debate. E seria ótimo que outros grupos (sejam partidos ou não) também começassem a levar as suas bandeiras concretas. Acho que o movimento iria crescer ao invés de diminuir (ouvi o seguinte comentário – se não fosse camisa preta as pessoas não viriam, o que imediatamente me levanta o questionamento: elas não tem nenhuma pauta política? Pois se não tem, tem algo errado. E se têm, levemos para as ruas.).Nessa quarta, a monotonia dos participantes era notória. Nem se compara, por exemplo, com a marcha das vadias, que tinham um ponto claro de pauta. Compreendo o que você diz quando os politizados são minoria, mas precisamos fazer dessa posição que você descreve maioria nessas passeatas. Atualmente, a maioria é composta por pessoas que pouca ou nenhuma clareza tem sobre porque está ali…
Assim, a minha posição não é simples. Estou dizendo algo totalmente diferente do pessoal do carro de som. Estou dizendo que a massa amorfa não vai a lugar nenhum. Prefiro a profusão de bandeiras, cada uma com a sua clareza, do que uma unidade artificial, baseada na semi-ignorância…
Vamos organizar a profusão de bandeiras?!”
Em São Paulo – O blogueiro Eduardo Guimarães fez um relato interessante sobre o perfil dos participantes da Marcha que ocorreu em São Paulo. Também fez questão de publicar a repercussão de seu post. Achei curioso que ele não tenha encontrado nenhuma criatura de esquerda. A Maria_Fro encontrou um cidadão aparentemente de esquerda (criticava a corrupção do governador de São Paulo) e que não aparceu nem na matéria do Eduardo e nem nas reportagens da Rede Globo. Se não apareceu nem no site do Edu e nem na Globo, será que esse cidadão de esquerda na marcha de Sampa realmente existiu?