O Mundo Amanhã: Assange entrevista o líder do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah

É, esse post deveria ter sido publicado às 19h. Mas eu tive uns contratempos. Em todo caso, vamos lá!

Esta é a primeira entrevista de Nasrallah feita em inglês em uma década. Enquanto os conflitos se acirram no Oriente Médio, Assange aborda temas espinhosos como a posição de Hezbollah – visto como grande aliado do regime de Assad – no conflito da Síria. “Somos amigos da Síria, mas não agentes da Síria”, responde o libanês, antes de revelar que o Hezbollah procurou setores da oposição síria para pedir que dialogassem com Assad, sem sucesso.

Impossibilitado de deixar a Inglaterra, onde estava em prisão domiciliar, Assange entrevista Nasrallah através de um videolink na casa onde esteve por mais de 500 dias. Por sua vez, Hassan Nasrallah participa da entrevista na sede do Hezbollah no Líbano, cuja localização exata é mantida em segredo por segurança. É lá que ele trabalha sob constante medo de ser assassinado por diferentes grupos e Estados.

Assista a seguir a entrevista, ou clique aqui para baixar o texto completo.

Comunidade Pataxó Hãhãhãe da TI Caramuru-Paraguaçu denuncia abusos da Polícia Federal

Direto de Salvador (BA): acredito que essa denúncia merece investigação. A nossa imprensa não cobre conflitos de terra entre indígenas e fazendeiros – até quando?

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A comunidade Pataxó Hãhãhãe tomou conhecimento de que o comandante que está conduzindo as operações da Policia Federal na Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu foi o mesmo policial que atirou na perna de um indígena da comunidade Tupinambá de Olivença. O indígena teve que se submeter a operação de amputação de sua perna em razão deste tiro. A operação da Policia Federal na área Tupinambá foi considera pelos indígenas e por todas as organizações indigenistas, assim como de direitos humanos, como abusiva e extremamente autoritária.

Recebemos também a notícia de que a Polícia Federal esteve agora pela tarde em uma das áreas recentemente ocupada da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, onde está instalada a “fazenda” Oriente, acompanhada do “dono” da “fazenda” e seus “funcionários” revistando as coisas dos indígenas sob alegação de que estavam buscando objetos roubados pelos indígenas. Chegaram à área dizendo que os indígenas haviam roubado os pertences dele (o fazendeiro). A polícia os acompanhando deixou o fazendeiro e seus “funcionários” à vontade para revirar as sacolas etc. dos indígenas. A Polícia Federal junto com o fazendeiro obrigaram a indígena Maria Souza Melo que estava na área a assinar um documento do qual ela não tinha nenhum conhecimento do conteúdo, em flagrante infração à lei.

A comunidade Pataxó Hãhãhãe está revoltada diante dos fatos narrados, e considerando que a operação da Policia Federal está criando mais insegurança para a comunidade e aumentando a violência contra os indígenas, solicia a imediata substituição dos policiais federais e de seu comandante.

Salvador, 03 de março de 2012

Samuel Wanderley e Olinda Muniz Wanderley
Correspondentes dos Pataxó Hãhãhãe em Salvador

Uma perdigota

Algumas pessoas acreditam que as denúncias gravadas nesse vídeo não passam de boato – um delírio coletivo numa situação de tragédia, nada mais nada menos do que isso. E pode ser que seja tudo mentira. Mas quem sou eu pra julgar que essas pessoas são mentirosas? Prefiro divulgar o vídeo e pedir apuração das denúncias. Prefiro ser vista como perdigota, como pessimista ou irresponsável a correr o risco de passar pra história como aquela que julgou e desqualificou sumariamente a voz de um ser humano que perdeu uma casa não num alagamento causado por chuvas ou fenômeno da natureza, mas de uma forma perfeitamente evitável. Perfeitamente evitável, essa miséria.

A história das coisas e Belo Monte

“E as pessoas que vivem aqui [no terceiro mundo]? Bem de acordo com estes sujeitos [as pessoas do primeiro mundo], eles [os do terceiro mundo] não são donos desses recursos mesmo que vivam lá há gerações. Não são donos dos meios de produção nem compram muitas coisas. Nesse sistema, quem não possui, nem compra muitas coisas, não tem valor”

Respeito muito quem acredita que a construção de uma hidrelétrica do porte da de Belo Monte é imprenscindível para o Brasil. Pessoas inteligentes vêm defendendo essa causa com números e argumentos técnicos. Tudo isso devidamente sustentado na crença de que o impacto na natureza é inevitável, só que dessa vez haverá compensações satisfatórias aos prejudicados imediatos dessa obra e os benefícios gerados para o país são maiores do que as perdas. Aceito de bom coração quem pensa assim. Acho que é uma postura pragmática, de quem consegue ver desenvolvimento sob a ótica do atual sistema econômico-financeiro mundial.

No entanto, peço licença para apresentar outro ponto de vista. E trouxe o vídeo “A história das coisas”, que eu considero uma importante referência e que traduz de forma didática meu atual modo de ver o mundo. É um vídeo que mostra um contexto mais amplo em que uma obra como a de Belo Monte se situa. Acredito que construir grandes hidrelétricas não é a única solução energética disponível para o Brasil. Aceitar esse projeto como único seria como desconsiderar  a diversidade do país, a quantidade enorme de estudos e técnicas que existem para se obter energia e seria, sobretudo, dizer que só é possível desenvolver o Brasil passando por cima daquelas pessoas que sempre viveram ali, mas não são donas dos meios de produção.

Podem me chamar de sonhadora, eu aceito. Porque é isso que eu sou. Eu vejo vídeos como “A história das coisas” e me identifico profundamente. Eu vejo o Brasil ali, cumprindo aquele papel de país de terceiro mundo que investe recursos na produção de coisas, e que coloca as pessoas em segundo, terceiro plano – o custo pessoas é externalizado, não aparece nas planilhas! Vejam a segunda parte do vídeo:

“É por isso que após o 11 de setembro, quando nosso país [no caso os EUA] estava em choque, o presidente Bush poderia ter sugerido fazer luto, rezar, ter esperança. Mas não: ele disse para fazermos compras, compras. Nos tornamos uma nação de consumidores. A nossa principal identidade passou a ser de consumidores, não mães, professores, agricultores, mas consumidores.”

Sonho com um Brasil que invista na criatividade de seus pesquisadores, que mantenha os laboratórios adequadamente equipados e que tenham condições de pensar o Brasil em longo prazo. Sonho com o dia em que os técnicos possam sentar pra discutir COM os ribeirinhos e índigenas sobre soluções viáveis que os incluam de fato. Porque chegar neles e falar ” a gente vai fazer uma hidrelétrica aqui, quanto é que vocês querem pra ir embora com um sorriso no rosto?” não me parece um jeito democrático de se trabalhar.  A falta de diálogo com as comunidades afetadas é gritante – veja o histórico de ações movidas pelo Ministério Público Federal para entender o tamanho do problema.

Sonho demais?

Para não dizerem por aí que vivo apenas de sonhos, tenho plena consciência dos obstáculos impostos pela realidade político-partidária do Brasil. Estou cansada de fazer de conta que o Sarney não tem nenhuma influência política fora do Maranhão. Gostaria muito de acreditar que o fato do partido dele tomar conta do ministério de Minas Energia é só mais um fato diante de tantos outros, e que não existe influência significativa dele na tomada de decisão em se fazer uma hidrelétrica como a de Belo Monte. Gostaria de acreditar que a nossa estrutura política partidária (sobretudo no quesito financiamento de campanha) não tenha nenhum peso na decisão de um governo na hora de se decidir investir em grandes construções no lugar de adotar soluções locais, de pequeno e médio porte, com uso de soluções criativas. Gostaria, mas minha vivência política me tornou desconfiada demais em relação a esses pontos.

Queria deixar uma pergunta pra vocês: e se não fosse o Sarney, e se no Brasil não tivesse minérios, e se nosso país não ocupasse o papel de exportador de bens de baixo valor agregado… Será que Belo Monte ainda seria a solução energética mais adequada de todos os tempos para a nossa população? Essa é a minha dúvida atual. Posso rever meus conceitos, mas já adianto que não abro mão de sonhar com um país que priorize as pessoas, que tenha uma perspectiva de desenvolvimento que não é só financeira, mas também cultural, ética e política.

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Tudo o que eu ja li sobre Belo Monte e vale a pena compartilhar
http://amanditas.wordpress.com/2011/09/23/tudo-o-que-eu-ja-li-sobre-belo-monte-e-vale-a-pena-compartilhar/

Belo Monte: notas de um jornalismo deselegante

http://amanditas.wordpress.com/2011/11/19/belo-monte-notas-de-um-jornalismo-deselegante/

Atualização do dia 5 de dezembro de 2012
Na mesma linha desse post, ou seja, reivindicando um modelo que dialogue com ribeirinhos e indígenas, e que procure uma forma diferente de produzir coisas (uma política de desenvolvimento e geração de energia diferente da que está colocada pelo governo na construção de Belo Monte, enfim) temos também os seguintes links:

1. “Passamos há muito o limite da demagogia e andamos, atualmente, na via do deboche escancarado, esquina com cagamos pros direitos humanos” — Eletric Funeral –> http://godotnaovira.wordpress.com/2011/12/01/eletric-funeral/

2. “Não nos preocupamos com a natureza como se fôssemos exteriores a ela, somos natureza.”  — A natureza é mundo –> http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/12/a-natureza-e-mundo.html

3. Um biólogo falando sobre Belo Monte, em vídeo (já que estudantes e artistas podem fazer vídeos, então biólogos também podem!) –> http://www.youtube.com/watch?v=xnitmB22JtQ&feature=youtu.be

 

“A gente está descuidando um pouco da preciosidade do fato”

Caco Barcellos faz parte da minha vida desde a adolescência – se é que se pode tratar alguém assim, com essa intimidade que nasceu da leitura de um livro lido em 1998, ou no vestibular, não sei bem ao certo agora. A memória falha! Só sei que o Rota 66 foi um livro que me fez enxergar como era complexa a profissão que resolvi abraçar. Tenho pelo repórter Caco Barcellos uma admiração grande, pois ele consegue se destacar profissionalmente realizando um trabalho muito bonito, a despeito do ambiente nada acolhedor proporcionado pela Rede Globo.

Quando o blogueiro Eduardo Guimarães publicou um post falando de coisas interessantíssimas que o Caco Barcellos teria dito num programa jornalístico, eu logo procurei no youtube pra saber o que realmente havia falado aquele experiente repórter e em que contexto. Primeira pergunta que me ocorreu: como é que o Caco falou coisas tão polêmicas na Globo e não foi demitido na mesma hora? Depois eu fiquei me perguntando qual seria a tal militância política do Caco.

Foi com esse espírito que eu procurei o vídeo na internet, e percebi que só havia mesmo um trecho muito pequeno disponibilizado pela Globo. Liguei para a emissora, dizendo que precisava de uma cópia do programa na íntegra, para fins educativos  e a emissora me negou esse material. A Globo pediu para eu procurar uma empresa terceirizada parceira deles, que também se negou a atender o meu pedido. Recorri ao último recurso: procurei empresas que trabalham com “clipping” aqui em Brasília, e felizmente uma empresa conseguiu me atender. Foi assim que consegui obter o material que já está no youtube, dividido em 4 vídeos – clique para assistir primeira parte, segunda parte, terceira parte e trecho polêmico.

Foi com alegria que recebi o material: Caco Barcellos deu uma aula de jornalismo em praticamente todas as intervenções que fez no programa. Fez um relato sobre a marcha da corrupção que havia acabado de acontecer no Rio de Janeiro, chamando a atenção para a falta de protesto contra os corruptores. Também mencionou a presença de bombeiros, de moradores que não estavam recebendo a indenização por terem perdido casas nas enchentes, e outras demandas cotidianas. Ele deixou claro as limitações dele como repórter, se abstendo de responder coisas das quais ele não tinha conhecimento – explicou que estava na manifestação mais precoupado em saber porque as pessoas estavam ali.

As colocações são didáticas e diplomáticas. Não perdeu a linha em momento algum: foi bem educado ao falar sobre a Abraji e devolveu elegantemente uma pergunta para a sua colega Cantanhede. Adorei a forma como ele chamou a atenção para a importância dessa coisa que parece tão simples que é contar histórias: “A gente está descuidando um pouco da preciosidade do fato” – ele disse a certa altura do programa (veja no segundo vídeo, perto dos onze minutos). Achei libertador!

Há uma militância dentro da esquerda que precisa muito aprender a dar valor à preciosidade do fato. Sinto falta disso nas minhas leituras. Por exemplo: se numa manifestação social existem pessoas de x,y,z,w posicionamentos partidários, há sempre uma turma que tende a homogenizar essas diferenças – isto é, mesmo que elas existam de fato, elas são tratadas como uma coisa só. Parece uma bobagem, mas é a tal preciosidade do fato. Repórter bom vai pra rua e tenta identificar quais são aquelas pessoas, o que elas fazem ali, o que as motiva. O que eu vejo nas minhas leituras é gente enquadrando politicamente organizadores de marchas e depreendendo automaticamente o que aconteceu nas ruas a partir somente desse dado, sem precisar pisar numa marcha, sem verificar o que de fato aconteceu entre a intenção de quem organizou e as motivações de quem de fato saiu de casa e fez a marcha acontecer.

Há uma militância dentro da esquerda que é rápida em criticar o PIG (Partido da Imprensa Golpista) quando o método de certa camada da imprensa brasileira consiste em inventar aspas* para um entrevistado (como foi o caso da revista Veja quando fez matéria com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro). Uma parte considerável da imprensa de fato  merece esse puxão de orelha – eu mesma faço esse tipo de crítica de vez em quando, para elevar o nível do debate, para dizer que colocar palavras na boca de alguém é incaceitável num jornal. O que me incomoda é sentir que, quando precisamos fazer essa crítica para dentro da militância, entre os blogueiros, há uma demora grande em se reconhecer essas falhas (quando ocorre), que são avaliadas como uma mero detalhe,  uma coisa praticamente aceitável.

Quanto a mim, sigo acreditando que é possível fazer bom jornalismo de esquerda, sem medo de encarar a realidade das ruas, sem medo de lidar com as críticas e sem medo de enfrentar as contradições de ser uma militante de um partido de esquerda que hoje está no poder. Sigo acreditando que o apego aos fatos deveria ser mais valorizado entre militantes de qualquer partido de esquerda. Que os vídeos do Caco Barcelos sejam fontes de inspiração para aqueles que quiserem obter mais credibilidade na blogosfera.
*Aspas: em jornalismo, coloca-se uma frase entre aspas quando o repórter quer reproduzir ipsis litteris (literalmente) o que um entrevistado pronunciou. Interpretações devem ser colocadas de outras formas.

** Agradeço o apoio do professor Carlos Emilio e da jornalista Letícia Sallorenzo que me ajudaram a obter o vídeo do programa.

Fatos e pitacos sobre a Marcha do dia 12 em Brasília

No dia 12 de outubro aconteceu em Brasília a segunda onda da popular (e insuspeita) “Marcha contra a corrupção”. Por continuar sem um foco (como já expliquei nesse post, corrupção por si só é um conceito amplo e ingênuo, ineficaz), o evento acabou, novamente, reunindo um balaio de gatos no Eixo Monumental Brasília. Como considero o fenômeno interessante – pelo atual contexto político e pelo uso de redes sociais em sua divulgação, resolvi compartilhar aqui algumas ideias. Mas antes gostaria de pontuar alguns fatos:

Fato 1: o evento foi divulgado nas redes sociais – aqui está o site oficial do movimento: http://www.movimentocontraacorrupcao.org.br , que se diz apartidário e tem todo um discurso genérico, que cabe qualquer coisa, que acaba atraindo a simpatia imediata das pessoas. Guardem essa informação. Vejam o banner que circulou pelas redes sociais como twitter, facebook e afins:

Banner do movimento contra a corrupção

Fato 2: diferentemente de São Paulo, Brasília é famosa pelo caso de corrupção envolvendo Arruda, primeiro governador na história do Brasil que foi encarcerado – e que foi de fato afastado do poder em decorrência das investigações. Também é famosa por não ter punido a Jaqueline Roriz, que foi flagrada recebendo dinheiro do delator do mensalão do DEM e mesmo assim foi absolvida pelos colegas. Ou seja, os corruptos aqui têm NOME, HISTÓRIA e PARTIDO POLÍTICO (ambos estão no campo da direita). Guardem essa informação.

Fato 3: apesar de toda a divulgação frisar o caráter “apartidário” e “apolítico” (sic), os organizadores do movimento pertencem aos partidos identificados com a direita. Guardem essa informação.

Interpretações

Qual é o resultado de um movimento organizado pela direita (ainda que não abertamente), apartidário (em tese poderia servir a uma esquerda que quer punir, por exemplo, Jaqueline Roriz) e num contexto político recente que envolveu figuras famosas da direita? Não vou responder, quero apenas ressaltar a complexidade do fenômeno e dizer que nesse caso eu me reservo nodireito de desconfiar de simplificações rasteiras.

Há uma parte da esquerda que se recusou a participar da Marcha simplesmente por saber da informação de que se tratava de uma marcha organizada pela direita, ainda que o todo o discurso que a sustentasse defendesse o tal “apartidarismo”. Essa esquerda acredita que todas as pessoas da marcharam são ou de direita ou são  inocentes úteis que ajudam a  direita. Também considera que as pessoas de esquerda que lá estiveram presentes estavam lá simplesmente porque querem “jogar o jogo da direita” – fazer uma vingança, um “suicídio  político” gratuito.

Acho essa visão respeitável mas um tanto limitada pois ela se fecha numa redoma, a dos “entendidos”. Quem não compartilha dessa visão política é automaticamente rotulado, tratado sem nenhuma consideração. Se a massa apresenta uma ignorância política, essa esquerda prefere que ela continue na ignorância. Se pessoas de diferentes visões partidárias estiveram ali presentes, essas nuances automaticamente são jogadas no balaio da direita, cometendo injustiças do tipo:  e quem foi protestar contra Roriz?  Merece ser jogado no balaio da direita?! Mesmo?

Na minha visão a marcha se torna interessante pois ela serve como um termômetro político  – tenho sempre a curiosidade de saber o que move um cidadão para protestar numa rua, e mesmo que seja pra servir de massa de manobra pra alguém, se a pessoa saiu de casa é porque alguma coisa muito forte a sensibilizou. Acho curioso como nem sempre quem se sensibilizou se alinhou politicamente a quem organizou a marcha. Isso acontece, creio eu, porque a desintermediação (uso da internet como ferramenta de mobilização política)  está cada vez mais presente  e organizadores de qualquer que seja a marcha precisam ter em mente que controlam cada vez menos o público que resolve comparecer e os debates surgidos em torno da pauta.

Também acredito que colocar toda a divergência no balaio oposto é uma tática que está a cada dia funcionando menos. Não é que esquerda e direita deixam de existir: mas é que as interpretações sobre o que é esquerda e o que é direita aumentam exponencialmente. E com a internet os interesses passam ser cada vez mais específicos, diversificados, contestados em tempo real! Precisaremos de novas teorias, novas formas de se fazer política – é para isso que caminhamos!

Um exemplo: o protesto dos professores por melhores salários, piso unificado, porcentagem maior do Orçamento Público para educação, e entre outras demandas é, em tese, uma bandeira clássica da esquerda (a educação deve ser pública, os trabalhadores devem ser valorizados). Já fui chamada de “extrema-esquerda que joga o jogo da direita” por defender essa causa. E aí, será que é isso mesmo? Vamos jogar tudo na conta da direita e encerrar o debate?

A Marcha acaba refletindo esse panorama político – fala-se que ela atende interesses de direita (e atende) mas também aproveita-se para calar assuntos espinhosos dentro da própria esquerda: a questão ambiental, as bandeiras dos LGBTs, os salários dos professores… Se algum professor enxergou na marcha um palanque pra defender sua causa, o seu grau de esquerdice foi automaticamente colocado em dúvida.

Se por um lado temos uma situação econômica favorável frente a países de primeiro mundo que hoje enfrentam níveis dedesemprego na casa dos 20%, por outro lado continuamos com problemas que costumavam ser bandeiras históricas dentro da esquerda tradicional e que hoje são demandas sufocadas por uma parte da esquerda (precarização das relações de trabalho, pobres pagam mais impostos do que ricos, precarização das leis ambientais, mortes de mulheres, homossexuais e negros, racismo institucional).

Avaliação de quem esteve na Marcha em Brasília

Meu amigo Rômulo, que é filiado ao PSB (partido de esquerda),  participou das duas marchas em Brasília. Compartilhei com ele essa minha angústia de ver que há um discurso da esquerda governista que coloca a manifestação toda como coisa da direita e pronto, assunto encerrado. E não está conseguindo enxergar os outros atores que acabam procurando esse palco para manifestar seus descontentamentos como os professores, os ambientalistas, os LGBTs, os revoltados contra o Arruda, enfim. As pessoas que estão nas causas da esquerda são minoria nessas marchas – mas elas existem!  Preoucupa-me essa invisibilidade, esse debate interditado.

Eis o que ele me respondeu (grifos meus):

“Bom, isso é uma preocupação que está me consumindo nesses dias.

Há os dois extremos. A galera dos partidos que não podem ir para a marcha pois será hostilizada (partidos notoriamente com o rabo preso) e tenta minimizar o processo. Por outro lado, parte dos “organizadores” está criando um monstro. Para você ter uma ideia, parece que o dono do escritório de advocacia que está defendendo o Arruda teve uns belos minutos para falar de cima do carro de som. O que me preocupa nisso? Que esse movimento escape das garras de um partido e caia nas garras de gente “sem partido” que, de repente, passa a ter partido.

Não sei se te contei. O Movimento Ficha Limpa do DF que antes da campanha era “apartidário” e estava “sabatinando” candidatos para apoiar, acabou por apoiar um camarada do partido do Roriz. Organizei um debate de candidatos na UnB e convidei o cara que estava sendo apoiado pelo Ficha Limpa (nem sabia o partido). Eis que o cara defende o Roriz durante todo o debate. Fiquei pasmo… Compreende o meu receio?

Aí, durante o evento dessa quarta, a galera de cima do carro de som – a maioria muito pueril ainda nas reflexões políticas – começa a puxar uma hostilização contra uma bandeira que eles acharam que era de partido. Isso num espaço público, no Eixo Monumental, num feriado. Aí alguém explica “não, não é a Eliana Pedrosa, é a Eliana Calmon”. O carinha de cima do carro de som fala: então pode levantar que a gente é a favor. Ora bolas, quem é ele para permitir ou deixar de permitir alguém levantar uma faixa ou uma bandeira de partido, usar uma camiseta, compreende? Ele não é dono do espaço público. É um autoritarismo travestido. O cara que vai para a rua com a bandeira ou camisa do seu partido, voluntariamente, provavelmente está lutando dentro do seu partido contra a corrupção. Esse pessoal tem de entender isso. Não precisa se filiar, mas precisa saber que tem gente partidária que está lutando a mesma luta e, o mais importante, que há partidos mais ou menos comprometidos com essa luta.Hostilizar partidos é colocar tudo no mesmo saco PSOL e PSB na mesma lata que DEM e PR, por exemplo. É que não estarei aqui no dia 15 (nem sei se terá outra), mas seria ótimo tentarmos organizar umas pautas mais concretas – como a corrupção cotidiana, o movimento GLBT, os professores (na primeira marcha o carro de som era do Sindicato da UnB, emprestado. Aí o cara da UnB pegou o microfone para explicar a situação da UnB, o indicativo de greve, etc. o cara da “organização”, desceu do caminhão e começou a falar para o público embaixo: “isso aí não tem nada a ver com o movimento, isso aí não é com a gente”. Achei falta de respeito e um despolitização gravíssima…). No próximo em que eu estiver, eu irei com a camisa do meu PSB tranquilamente. Se houver hostilização, farei tranquilamente esse debate. E seria ótimo que outros grupos (sejam partidos ou não) também começassem a levar as suas bandeiras concretas. Acho que o movimento iria crescer ao invés de diminuir (ouvi o seguinte comentário – se não fosse camisa preta as pessoas não viriam, o que imediatamente me levanta o questionamento: elas não tem nenhuma pauta política? Pois se não tem, tem algo errado. E se têm, levemos para as ruas.).Nessa quarta, a monotonia dos participantes era notória. Nem se compara, por exemplo, com a marcha das vadias, que tinham um ponto claro de pauta. Compreendo o que você diz quando os politizados são minoria, mas precisamos fazer dessa posição que você descreve maioria nessas passeatas. Atualmente, a maioria é composta por pessoas que pouca ou nenhuma clareza tem sobre porque está ali…
Assim, a minha posição não é simples. Estou dizendo algo totalmente diferente do pessoal do carro de som. Estou dizendo que a massa amorfa não vai a lugar nenhum. Prefiro a profusão de bandeiras, cada uma com a sua clareza, do que uma unidade artificial, baseada na semi-ignorância

Vamos organizar a profusão de bandeiras?!”

Em São Paulo – O blogueiro Eduardo Guimarães fez um relato interessante sobre o perfil dos participantes da Marcha que ocorreu em São Paulo. Também fez questão de publicar a repercussão de seu post. Achei curioso que ele não tenha encontrado nenhuma criatura de esquerda. A Maria_Fro encontrou um cidadão aparentemente de esquerda (criticava a corrupção do governador de São Paulo)  e que não aparceu nem na matéria do Eduardo e nem nas reportagens da Rede Globo. Se não apareceu nem no site do Edu e nem na Globo, será que esse cidadão de esquerda na marcha de Sampa realmente existiu? ;-)