A vergonha é de quem comete o estupro!

Isabela e Michele

Isabela Pajussara Frazão Monteiro (27 anos) e Michele Domingues da Silva (29 anos) foram estupradas e mortas num crime terrivelmente bárbaro (não consigo classificar de outra forma): foram vítimas de um estupro coletivo oferecido como presente de aniversário de um irmão para o outro. Os dois irmãos que organizaram o evento teriam simulado um assalto, com a ajuda de outros homens, para violentar as mulheres convidadas, usando capuzes e máscaras de carnaval. Seis mulheres foram agredidas e estupradas.

A notícia me deixou muito angustiada. Na verdade, no momento em que eu li a notícia eu não consegui pensar em nada – só me deu vontade de vomitar. Passado o choque inicial, a notícia chamou a minha atenção pelos seguintes fatores:

1. Os estupradores eram “amigos” das vítimas – o que desmitifica aquela história de que só maníacos desconhecidos atacam mulheres nas ruas, num beco, num local de pouca circulação

2. Os estupradores planejaram o estupro, ou seja: vários homens premeditaram o ato. Cai por terra aquela velha desculpa
esfarrapada de que homem só comete estupro porque não consegue conter um impulso sexual “provocado” por alguma atitude/comportamento da vítima.

3. O fato de um “estupro” ser percebido não por um, mas por vários homens, como um “presente” de aniversário – em algum lugar da nossa cultura machista mora a ideia de que o “estupro” é uma espécie de brincadeira, uma contravenção, é como jogar ovo e farinha num aniversariante, é banalizado e entendido como uma atitude bem humorada.

4. A imprensa fez uma cobertura muito fraca sobre o caso, o que me espanta pois é uma história de alto interesse jornalístico para se debater políticas públicas de proteção às mulheres. É o momento ideal para que jornalistas pudessem entrevistar mulheres, sociólogxs, criminalistas, psicólogxs e, enfim, tirar o tema do sensacionalismo lugar-comum e propor ações coletiva de enfrentamento à essa violência tão cruel contra a mulher que é o estupro.

Um passeio pelos portais de notícias brasileiros nos dá a ideia de como as pessoas entendem o estupro: há uma parcela da sociedade que clama simplesmente pela pena de morte para os estupradores – mesmo sabendo que não existe pena de morte na nossa legislação. Há outra parcela que insiste em colocar a culpa na própria mulher, ora questionando as companhias que ela escolhe, ora questionando o tamanho da saia, o tipo da roupa, o local que ela frequenta, etc. Poucos ousam sair desses extremos – poucos procuram entender melhor o problema, saber mais sobre o assunto para melhor lidarem com ele.

Há uma ignorância coletiva que em nada contribui para a transformação da realidade. Afinal, o que podemos fazer para evitar os estupros? Como criar uma sociedade em que homens respeitem as mulheres?

Como evitar?
Não, eu não tenho todas as respostas e acredito que ninguém sozinho as tenha. Também não posso me dar ao luxo de testemunhar esse problema e me esconder nas cavernas. Tenho alguns palpites que gostaria de compartilhar.

Por ter ouvido e lido muitas histórias de mulheres que sofreram abusos sexuais, sei que há um fator de fragilidade que atinge a todas nós, mulheres: é a vergonha. Mesmo para uma mulher madura ciente de seus direitos denunciar um estupro é um ato de coragem, na nossa cultura. O grande número de mensagens nas caixas de comentários dos portais de notícias culpabilizando a mulher pela violência que ela sofreu são indícios de que infelizmente há uma corrente forte de pessoas que compactuam com esse comportamento machista.

Por isso, se eu fosse iniciar qualquer campanha nas escolas, nas igrejas, nos bares, nos teatros, na televisão, nos programas de humor, eu diria o seguinte: a vergonha é toda deles, que cometem o estupro! Cometer estupro é um ato que deveria envergonhar todos os homens, toda a humanidade. Cometer estupro é um ato extremamente covarde e assim deve ser repudiado.

A gente precisa começar a inverter essa lógica da nossa cultura que culpabiliza mulheres pelos estupros que sofrem. A mulher não tem culpa de ser mulher, de ser mulher e andar na rua, de ser mulher  e usar saia curta, de ser mulher e participar de uma festa! Homem que estupra é que é responsável por cometer estupro, ele é que precisa abrir mão do comportamento violento dele. A mulher não deve abrir mão de ser livre!

Essa é a minha pequena contribuição para a blogagem coletiva em repúdio ao caso de estupro e assassinato como presente de aniversário. Espero poder ler mais gente falado sobre o tema bem como participar de ações que possam reduzir ou quem sabe erradicar o problema do estupro em nossa sociedade.

Uma perdigota

Algumas pessoas acreditam que as denúncias gravadas nesse vídeo não passam de boato – um delírio coletivo numa situação de tragédia, nada mais nada menos do que isso. E pode ser que seja tudo mentira. Mas quem sou eu pra julgar que essas pessoas são mentirosas? Prefiro divulgar o vídeo e pedir apuração das denúncias. Prefiro ser vista como perdigota, como pessimista ou irresponsável a correr o risco de passar pra história como aquela que julgou e desqualificou sumariamente a voz de um ser humano que perdeu uma casa não num alagamento causado por chuvas ou fenômeno da natureza, mas de uma forma perfeitamente evitável. Perfeitamente evitável, essa miséria.

Pinheirinho: para onde as famílias serão levadas?

Roosevelt Cássio

Roosevelt Cássio

Nunca vi reintegração de posse tranquila – sempre rola algum tipo de tensão, choro, um sentimento amargo de injustiça por mais “dentro da legalidade” que a tal reintegração seja. Mas essa do Pinheirinho, que rolou em plena manhã de domingo, foi especialmente dolorosa – há um histórico jurídico-político no mínimo obscuro a respeito de quem teria a posse do terreno, a legalidade da ação de reintegração está sendo seriamente questionada, os moradores estavam completamente vulneráveis quando a PM chegou, vários relatos de abuso circularam pelas redes sociais, houve tentativas de dificultar o trabalho da imprensa no local do conflito, enfim. A situação é caótica. Chega uma hora em que todos nós precisamos nos solidarizar com esses moradores. Chega uma hora em que a gente precisa rever seriamente os conceitos de “neutralidade” ensinados nas profissões por aí. Chega uma hora em que a gente precisa descer do muro confortável da “neutralidade” e ouvir os moradores do Pinheirinho! Ouvir as queixas pra depois apurar as informações. Solidariedade. Empatia. É isso o que a situação pede.

Para onde as famílias serão levadas? Precisamos cobrar das autoridades uma solução para isso. A especulação imobiliária não pode passar por cima do direito à moradia.

Para saber mais: http://solidariedadepinheirinho.blogspot.com/

Nem filmando

Neste final de semana nós fomos brindados com um caso suspeitíssimo de machismo que foi filmado e divulgado pela TV paga em tempo real, e a reação de incredulidade das pessoas “de bom senso” foi a de sempre: “não houve abuso, não houve nada de concreto”, “não dá pra concluir nada das imagens”. Isso quando não fomos obrigados a ouvir as pérolas dos machistas de plantão: “Estava bêbada, logo pediu por isso”. No domingo a Globo não demonstrou o menor interesse em pedir investigação policial pra apurar o suposto que crime que teria acontecido no programa. Nada. Nadinha de apuração. Estava todo mundo se ajeitando pra botar panos quentes e seguir com o “espetáculo” .

Uma simples apuração, gente. Por que é tão difícil defender a apuração de denúncias mesmo quando a denúncia é baseada em imagens fortíssimas que foram veiculadas ao vivo pela televisão, para milhares de testemunhas? Por que as pessoas de bom senso de plantão não se dignaram a pedir pelo menos a apuração do ocorrido? E se a produção do BBB combinou com os participantes essa vergonhosa cena de violência, que mundo é esse que alavanca ibope com um assunto tão delicado e de forma tão grotesca?

Se nem filmando o machismo a gente consegue combatê-lo, o que fazer para sensibilizar as autoridades?

Pronto, desabafei.

Acabo de ler que a Globo expulsou o participante do programa, sem dar muitas explicações. Espero que exista uma investigação policial adequada sobre o caso e que, se comprovado o crime, que o agressor seja punido de acordo com as leis desse país.

Veja aqui um resumo feminista dessa polêmica que rolou no BBB
.

Mantra na Lei Rouanet


O artista Nando Reis cantou a música “Mantra” em vários shows do projeto “Eu Faço Cultura“, que é produzido com recursos obtidos por intermédio da Lei número 8.313 de 23 de Novembro de 1991, a conhecida Lei Rouanet de Incentivo à Cultura.  Essa música é de inspiriação Hare Krishna, e inclui na íntegra o mantra sagrado dessa religião:

“Hare Krishna Hare Krishna/Krishna Krishna/Hare Hare/Hare Rama/Hare Rama/Rama Rama/Hare Hare”

A wikipedia explica um pouco a natureza sagrada dessas palavras:

Essa composição é denominada maha-mantra, ou seja, o “Grande Canto para a Liberação”. Durante muitos milênios, era conhecido somente na Índia, e apenas pelos brâmanes que estavam em graus muitíssimo avançados de austeridade e erudição. No século XVI, Caitanya Mahaprabhu divulgou o maha-mantra à população em geral, sem fazer distinção de idade, cor, sexo, casta ou religião. E no século XX, o mantra Hare Krishna disseminou-se por todos os continentes graças ao trabalho de Srila Prabhupada. Afinal, Caitanya Mahaprabhu profetizara que um dia até as menores vilas e aldeias ouviriam o cantar de Hare Krishna

Publico esse vídeo para lembrar aos que têm memória curta que a Lei Rouanet nunca vetou projetos culturais ou apresentação de músicas que abordam alguma divindade ou que mencionam diretamente qualquer religião que seja. Portanto, músicas como os afro-sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes nunca seriam vetados pela Lei Rouanet.

Quando o governo decidiu alterar o artigo 31-A da Lei Rouanet no dia 9 de janeiro deste ano ele sabia exatamente o que estava fazendo. Não se trata aqui de melhorar a lei para permitir apoio irrestrito às manifestações culturais religiosas diversas que existem no país porque isso a lei nunca censurou.

Portanto, se alguém vier me dizer que a Lei foi feita com a intenção de incluir música gospel no sentido mais amplo possível que a palavra gospel pode abarcar, eu sinto muito, mas eu me reservo no direito de classificar tal papo como puro sofisma, uma tentativa de tergiversação. Em bom português: colóquio flácido para acalentar bovinos. Lei Rouanet nunca deixou de patrocinar apresentação de músicas de cunho religioso/esotérico.  E ponto.

Se a ideia da Lei não era abarcar todas as religiões (porque na prática isso a Lei já permite), então para que serve a alteração na lei? Pois leiam, é uma mudança curta e clara, não há margem para dúvidas:

Art. 31-A.  Para os efeitos desta Lei, ficam reconhecidos como manifestação cultural a música gospel e os eventos a ela relacionados, exceto aqueles promovidos por igrejas.”

Pesquisando um pouco mais, a gente descobre que a Lei abraçou uma demanda específica pleiteada pelo o ex-deputado Bispo Rodovalho.

Se havia alguma dúvida, agora ficou mais claro: é música Gospel no sentido Bispo Rodovalho da palavra.

E mais não digo. Espero ter contribuído para um debate honesto.

Shiva

Shiva

Um corpo carbonizado

Se você estvisse numa caminhada ecológica e de repente se deparasse com um corpo carbonizado de uma criança no meio do mato, o que você sentiria? O que você faria? Chamaria a polícia? Certamente você seria ouvido, um inquérito seria aberto, haveria um processo na justiça. Talvez sua história poderia ser contada por um grande veículo de comunicação. Quem sabe? Mas haveria um inquérito, nosso país tem leis que devem ser respeitadas por todos.

Certo?

Em tese deveria ser assim. Mas em certas regiões do Brasil o que existe não é a lei, é a barbárie. Em outubro de 2011, um índio guajajara se deparou com um corpo carbonizado, aparentemente de uma criança de oito anos, na cidade de Arame, região central do Maranhão. Dizem até que ele filmou com um celular, mas as imagens não vieram a público. O fato é que ele procurou uma autoridade competente – a Funai – e esta ainda não pôde verificar a denúncia. Motivo? A Funai informa: “Como é uma região de conflitos, é bastante perigoso andar por lá”. Até hoje, 8 de janeiro de 2012, nada foi esclarecido.

Ou seja, há uma denúncia, há um corpo carbonizado, mas não se apura nada porque a autoridade não consegue sequer chegar ao local perigoso. E sem poder apurar a denúncia, como fazer valer a lei? Os poucos jornais que acolheram a denúncia do índigena que encontrou o corpo carbonizado ainda padeceram do descrédito: “Será que esse corpo existe mesmo? Será que é mesmo de uma criança assassinada?”. Perguntas que ficam entre o excesso de zelo ( sim, jornalismo é verificar, verificar, verificar) ou cinismo puro e simples (assassinatos em conflitos agrários são possíveis num país que já teve Chico Mendes, Dorothy Stang, Maria do Espírito Santo da Silva e José Claudio Ribeiro da Silva e outros tantos outros mortos…)

Sim, eu reconheço que, por princípio, cabe ao acusador o ônus da prova, e toda notícia precisa se checada. Acho válido tudo isso. Mas ao mesmo tempo eu me preocupo muito quando a bandidagem dá xeque-mate nas regras. Qual é o jornalista em sã consciência que vai se meter a entrar numa região em que nem a Funai acha seguro entrar? Ou será que a bandidagem venceu, e nem Funai pode apurar, nem jornalista pode ousar escrever a história sem ferir as próprias regras?

Se você for seguir rigorosamente o princípio de só se publicar uma notícia de um corpo carbonizado ao ver o corpo carbonizado, como faz? Deixa de noticiar? Deixa a bandidagem acreditar que a voz de um indígena não é uma voz, portanto basta deixar uns pistoleiros de tocaia pra atacar o primeiro não-indígena que experimentar conferir o corpo carbonizado?

É ou não é sério, Brasil? Confiamos ou não confiamos em nossos índios nesse contexto de conflito? Ao menos para iniciar uma investigação?

Ouvi de um jornalista que já trabalhou diretamente com indígenas, no Maranhão, há 20 anos, e que hoje acompanha as notícias via entidades não-governamentias e sites alternativos: “Se a Polícia Federal aparecer naquela região haverá uma trégua. Mas assim que a Polícia sair do local, tudo voltará a ser como antes: pistolagem, assassinato, intimidação”. Daí eu perguntei pra essa pessoa o que é que precisa ser feito pra se resolver esse conflito todo. E a pessoa me respondeu, resignadamente: não há o que ser feito.

Quando a bandidagem consegue paralisar até as esperanças das pessoas é porque algo de muito grave está acontecendo. É porque a bandidagem está vencendo! Precisamos urgentemente, em primeiro lugar, recuperar as esperanças, debater soluções, colocar o assunto na roda, encontrar alternativas.

Repudio qualquer ato de indignação covarde, do tipo querer o linchamento dos responsáveis pela morte da criança carbonizada (como fizeram com a mulher que bateu no cachorro até a morte). Mas acredito que o meu papel, por agora, é cobrar, principalmente do governo federal, a imediata apuração dessa denúncia. Em segundo lugar, cobrar um plano urgente pra essas regiões de conflito que não fosse só uma ação militar, mas que também fosse um plano social-ambiental-jurídico-econômico de médio prazo. Um PAC do conflito agrário ou algo do tipo, que pudesse dar conta especificamente das regiões que passam por esses problemas. Em terceiro lugar cobrar das pessoas que não têm nem esperança, que se mobilizem! Que denunciem, que pressionem por uma solução, porque pressionar, a essa altura do campeonato, é um gesto de coragem – mesmo que uma ou outra pessoa apareça para desqualificar esse tipo de ação. Em quarto lugar, e não menos importante: vamos dar crédito para os blogs independentes, jornais comunitários e veículos alternativos no geral – apoiar a diversidade de fontes é importante para dificultar o trabalho da bandidagem.

Vlado Herzog – Uma história para ser lembrada

Charge sobre a tortura

Neste dia de blogagem coletiva creio ser suficiente divulgar o testemunho do jornalista Sérgio Gomes da Silva sobre a tortura e assassinato do também jornalista Vladimir Herzog (leia após essa breve introdução). Porque tortura não é uma questão ideólogica de esquerda ou direita, tortura é crime contra a humanidade e o Brasil está devendo esse acerto de contas com seu passado. O país que não reconhece a tortura que cometeu contra seus cidadãos deixa a porta aberta para que a tortura retorne sob as mais ridículas justificativas. A ferida continua aberta – precisamos cicatrizar essa nossa história – veja aqui o que as entidades de direitos humanos estão cobrando.  E que a Comissão da Verdade não seja apenas uma farsa. O que a vida quer da gente é coragem, coragem presidenta Dilma! Coragem para que esse triste capítulo de nossa história não se repita.

Prisão, tortura e morte – relatos dos companheiros de Vlado na prisão por Sérgio Gomes

Preso alguns dias antes de Vladimir Herzog, no mesmo Doi-Codi do “Tutóia Hilton”, o já repórter, mas ainda estudante, Sérgio Gomes da Silva chegou a ouvir os gritos que acompanharam a tortura fatal de Vlado. Tendo ele próprio, antes e depois, sido vítima de sessões de tortura, nos mesmos ambientes e sob os mesmos tacões que vitimaram Vlado, Sérgio pensa hoje que é capaz, lembrando o que sofreu, de reconstituir o martírio e a morte do hoje jornalista-símbolo da luta pela liberdade, VIado Herzog.

Sérgio Gomes, hoje (1992) professor universitário e ativo combatente da imprensa sindical, não relembra esses momentos por querer – foi obrigado a relembrá-los em seu depoimento na Polícia de São Paulo, que reabriu o processo da morte de Vlado.

A pedido de Unidade, Sérgio recompôs para o jornalista e professor José Carlos Rocha alguns trechos do que disse ao delegado.

Eu tentei me livrar pelo suicídio, a Vlado ninguém pôde salvar

Naquele dia 25 de outubro de 1975, a equipe de torturadores era dirigida pelo capitão Ramiro. Eram três equipes no Doi-Codi, cada um em plantão de 24 horas, com 48 de folga. O capitão Ramiro tinha um estilo diferente das duas outras equipes. Andava sempre munido de um sarrafo e sabia exatamente onde bater, nos cotovelos, nos joelhos, nos tornozelos – nas articulações. Ele conhecia muito bem a anatomia humana e desmontava uma pessoa com poucos golpes e sem barulho.Tinha prazer especial em amarar as pessoas na chamada cadeira do dragão, que é uma espécie de troninho, de metal, molhado, onde os braços e as pernas, são imobilizados, amarra-se um fio elétrico no pênis, outro na orelha e aí, em seguida, com uma maquininha, um dínamo, chamada de “pimentinha”, iam dando choques. Não é um choque que queima, não sei te dizer se é amperagem ou voltagem. Depois de encapuzar a pessoa, o capitão Ramiro jogava amoníaco sobre a parte frontal do capuz e apertava aqui na parte abaixo do queixo, de tal maneira que a pessoa ficava com aquele capuz bem colado no rosto.

Ao mesmo tempo, Ramiro dava porradas, gritos, choques elétricos e jogava amoníaco no capuz – a pessoa ia respirando esse amoníaco. À medida que o choque elétrico se dá, se você estiver expirando, você não consegue inspirar, e se você estiver inspirando, não consegue expirar. Então, como os choques são dados aos trancos, você vai ficando com a respiração completamente descontrolada e esse amoníaco entra pelas suas narinas, invade o cérebro como se fosse uma batalha de espadas, uma coisa maluca, cortando seu cérebro de todo jeito – e você ali imobilizado, levando choques, porrada, gritos. Tudo isso (…)…arma uma situação que é como se fosse surreal, você já não tem mais noção de se é com você mesmo que está acontecendo, começa a ficar confuso, não há saída para aquilo, você está amarrado.”

Entre a loucura e a morte

“Fui submetido a isso muitas vezes e percebi em mim que a qualquer momento morreria, a qualquer momento podia ter um derrame, um colapso, a coisa ia se desagregar. Sentia essa proximidade. Você vai ficando completamente fora de si. É uma coisa que até precisaria ser vista por médicos neurologistas, para saber o que acontece, porque eu soube depois que, frente a situações-limite, como esta, de dores muito agudas e aflições muito intensas, o cérebro dá um tipo de descarga e mata o indivíduo para salvá-lo do enlouquecimento. Se a pessoa sofre um acidente de automóvel e tem esmagamento da coluna, por exemplo, que dizem ser a mais terrível das dores, o sujeito morre de dor, morre para fugir dessa dor, que é tão lancinante que a pessoa vai enlouquecer. Então, antes de enlouquecer, a pessoa se salva morrendo”.

A morte como alternativa

“Eu senti isso. Tanto é que, numa dessas ocasiões, depois de passar por uma dessas sessões do capitão Ramiro, me desamarraram, me tiram o capuz, me deixaram lá, eu vomitei bílis, vomitei uma coisa como se fosse placenta, eu estava todo erodido, me lembro que abriram a porta do lugar onde estava, trouxeram uma pessoa, que não sei quem é, que tinha sido recentemente presa, e lhe disseram:

“Olha, é melhor colaborar senão vai acontecer com você a mesma coisa que está acontecendo com esse cara aí, que já está no fim”. Isto me deixou com uma mistura de cagaço e humilhação, porque eu estava sendo usado a essa altura já como exemplo do estrago que se pode fazer com um ser humano”.

“Depois de vários dias eu tinha emagrecido bem, estava todo arrebentado, minha condição era usada para produzir pavor nos outros”.

“Estou ali e vejo sobre um banquinho, um vidro de amoníaco, o vidro que o capitão Ramiro usava. Então fico olhando para aquele vidro e resolvo me suicidar, porque a coisa tinha passado do que parecia suportável, eu ia enlouquecer. Pego o vidro e tento tirar a tampa de plástico, dessas que tem como se fosse um biquinho de peito para dentro, cuja borda de plástico praticamente adere ao gargalo. Você tem de ter uma unha muito boa para conseguir separar esse plástico, que tem uma certa pressãozinha que resiste, ou então você tem de tirar com o dente. Eu estava com a boca toda fodida, então estava tentando tirar com o dente e com a mão, torcendo para que engolir o amoníaco daquele vidro fosse suficiente para me matar logo. Estou nessa tentativa desesperada para me matar quando entram o capitão Ramiro de novo e o seu grupo, me arrancam aquele vidro, me reamarram na cadeira do dragão e, aí começa outra sessão indescritível, coisa maluca”.

Na manhã do dia 25

“Então, eu tinha passado por isso várias vezes. E lá naquela cela solitária, com o ouvido na janelinha, eu podia ouvir os gritos: “Quem são os jornalistas? Quem são os jornalistas? “Pô, o que é que podia ser? Não tinha idéia de que fosse o Vlado, não tinha a menor idéia. Pelo tipo de luta, pelo tipo de grito, pelo tipo de porrada, sabia que estava sendo feito com alguém exatamente aquilo pelo que eu tinha passado e sabia o que podia acontecer”.

“Algum tempo depois, um grande silêncio. Mais um pouco de tempo e há um remanejamento, deslocam-se pessoas de um lado para outro dentro daquelas instalações lá na delegacia, desse ambiente onde eles tinham gente presa. Mais tarde sou informado por um médico chamado David Rumell que tinham apagado um cara, não sabia ainda quem era. Só venho a saber de quem se trata no dia seguinte, quando o Paulo Sérgio Markun, que foi um dos dois jornalistas que teve direito de ir ver o corpo, se encontra comigo numa das salas e me diz que tinham matado o Vlado”.

“Foi de manhã, lá pela hora do almoço há uma azáfama, uma correria. Ele foi torturado durante toda a manhã e lá pela hora do almoço se dá o tal silêncio. A pessoa pára de ser torturada e em seguida há uma azáfama, uma correria, a gente percebe que tem alguma coisa estranha acontecendo. Eles tinham acabado de matar o Vlado.”

Suicídio que não houve

“Sobre a hipótese de suicídio, inclusive a foto que eles divulgaram, tenho a dizer que eu estive preso numa daquelas celas. Por esse tempo todo fiquei preso em praticamente todas as celas ali. Não há nenhuma possibilidade de suicídio. Ninguém ficava com cinto, ninguém podia ficar com cinto. Depois da morte do Vlado, eles fazem justamente o remanejamento das pessoas dentro do Doi-Codi, para deslocar o corpo, montar a farsa, bater as fotografias. A cela onde eles tiraram a foto do Vlado era uma das celas que estava toda ocupada por pessoas presas. Quer dizer, o Vlado jamais esteve preso numa dessas salas que correspondiam às celas da delegacia. Ele foi torturado lá dentro, na sala especial onde ficava a cadeira do dragão. As pessoas não eram torturadas nas celas, eram torturadas lá dentro. Então o Vlado nunca esteve no lugar onde dizem que ele se suicidou. Ele estava sendo torturado daquela maneira que eu descrevi de forma simples e eu tenho para mim que ele morreu disso, de derrame, de colapso, pois foi uma longa sessão de terrível tortura. Não sei se é possível, se a religião judaica admite que se faça a exumação do corpo, porque, se fizerem certamente encontrarão traços de amoníaco”.

“Quanto a esse depoimento do japonês chamado Paulo, que se suicidou agora, que disse ter sido o Vlado morto de madrugada, não pelo capitão Ramiro, mas por outro, e que foi afogado numa lata com água e enxofre, isso é alucinação. O Vlado não foi assassinado de madrugada e eu não vi ninguém ser torturado ou afogado em água com enxofre. Isso não era o que se fazia ali”.

“Então, eu afirmo: o Vlado não se suicidou. O Vlado foi assassinado, sob o comando da equipe dirigida pelo capitão Ramiro. Na manhã do dia 25 de outubro ele foi submetido à tortura, amarrado à cadeira do dragão, sob choques elétricos, possivelmente um fio amarrado ao sexo e outro à orelha, levando porrada de ripa nas articulações; e sendo asfixiado com amoníaco que era derramado sobre o capuz de lonita que se usava para impedir que os presos vissem os torturadores”.

* Sérgio Gomes da Silva é jornalista.
Depoimento publicado no Jornal Unidade de outubro de 1992.
Fonte: http://www.vladimirherzog.org/vlado/index/depoimentos

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Desarquivando o Brasil.