A história das coisas e Belo Monte

“E as pessoas que vivem aqui [no terceiro mundo]? Bem de acordo com estes sujeitos [as pessoas do primeiro mundo], eles [os do terceiro mundo] não são donos desses recursos mesmo que vivam lá há gerações. Não são donos dos meios de produção nem compram muitas coisas. Nesse sistema, quem não possui, nem compra muitas coisas, não tem valor”

Respeito muito quem acredita que a construção de uma hidrelétrica do porte da de Belo Monte é imprenscindível para o Brasil. Pessoas inteligentes vêm defendendo essa causa com números e argumentos técnicos. Tudo isso devidamente sustentado na crença de que o impacto na natureza é inevitável, só que dessa vez haverá compensações satisfatórias aos prejudicados imediatos dessa obra e os benefícios gerados para o país são maiores do que as perdas. Aceito de bom coração quem pensa assim. Acho que é uma postura pragmática, de quem consegue ver desenvolvimento sob a ótica do atual sistema econômico-financeiro mundial.

No entanto, peço licença para apresentar outro ponto de vista. E trouxe o vídeo “A história das coisas”, que eu considero uma importante referência e que traduz de forma didática meu atual modo de ver o mundo. É um vídeo que mostra um contexto mais amplo em que uma obra como a de Belo Monte se situa. Acredito que construir grandes hidrelétricas não é a única solução energética disponível para o Brasil. Aceitar esse projeto como único seria como desconsiderar  a diversidade do país, a quantidade enorme de estudos e técnicas que existem para se obter energia e seria, sobretudo, dizer que só é possível desenvolver o Brasil passando por cima daquelas pessoas que sempre viveram ali, mas não são donas dos meios de produção.

Podem me chamar de sonhadora, eu aceito. Porque é isso que eu sou. Eu vejo vídeos como “A história das coisas” e me identifico profundamente. Eu vejo o Brasil ali, cumprindo aquele papel de país de terceiro mundo que investe recursos na produção de coisas, e que coloca as pessoas em segundo, terceiro plano – o custo pessoas é externalizado, não aparece nas planilhas! Vejam a segunda parte do vídeo:

“É por isso que após o 11 de setembro, quando nosso país [no caso os EUA] estava em choque, o presidente Bush poderia ter sugerido fazer luto, rezar, ter esperança. Mas não: ele disse para fazermos compras, compras. Nos tornamos uma nação de consumidores. A nossa principal identidade passou a ser de consumidores, não mães, professores, agricultores, mas consumidores.”

Sonho com um Brasil que invista na criatividade de seus pesquisadores, que mantenha os laboratórios adequadamente equipados e que tenham condições de pensar o Brasil em longo prazo. Sonho com o dia em que os técnicos possam sentar pra discutir COM os ribeirinhos e índigenas sobre soluções viáveis que os incluam de fato. Porque chegar neles e falar ” a gente vai fazer uma hidrelétrica aqui, quanto é que vocês querem pra ir embora com um sorriso no rosto?” não me parece um jeito democrático de se trabalhar.  A falta de diálogo com as comunidades afetadas é gritante – veja o histórico de ações movidas pelo Ministério Público Federal para entender o tamanho do problema.

Sonho demais?

Para não dizerem por aí que vivo apenas de sonhos, tenho plena consciência dos obstáculos impostos pela realidade político-partidária do Brasil. Estou cansada de fazer de conta que o Sarney não tem nenhuma influência política fora do Maranhão. Gostaria muito de acreditar que o fato do partido dele tomar conta do ministério de Minas Energia é só mais um fato diante de tantos outros, e que não existe influência significativa dele na tomada de decisão em se fazer uma hidrelétrica como a de Belo Monte. Gostaria de acreditar que a nossa estrutura política partidária (sobretudo no quesito financiamento de campanha) não tenha nenhum peso na decisão de um governo na hora de se decidir investir em grandes construções no lugar de adotar soluções locais, de pequeno e médio porte, com uso de soluções criativas. Gostaria, mas minha vivência política me tornou desconfiada demais em relação a esses pontos.

Queria deixar uma pergunta pra vocês: e se não fosse o Sarney, e se no Brasil não tivesse minérios, e se nosso país não ocupasse o papel de exportador de bens de baixo valor agregado… Será que Belo Monte ainda seria a solução energética mais adequada de todos os tempos para a nossa população? Essa é a minha dúvida atual. Posso rever meus conceitos, mas já adianto que não abro mão de sonhar com um país que priorize as pessoas, que tenha uma perspectiva de desenvolvimento que não é só financeira, mas também cultural, ética e política.

Posts relacionados

Tudo o que eu ja li sobre Belo Monte e vale a pena compartilhar
http://amanditas.wordpress.com/2011/09/23/tudo-o-que-eu-ja-li-sobre-belo-monte-e-vale-a-pena-compartilhar/

Belo Monte: notas de um jornalismo deselegante

http://amanditas.wordpress.com/2011/11/19/belo-monte-notas-de-um-jornalismo-deselegante/

Atualização do dia 5 de dezembro de 2012
Na mesma linha desse post, ou seja, reivindicando um modelo que dialogue com ribeirinhos e indígenas, e que procure uma forma diferente de produzir coisas (uma política de desenvolvimento e geração de energia diferente da que está colocada pelo governo na construção de Belo Monte, enfim) temos também os seguintes links:

1. “Passamos há muito o limite da demagogia e andamos, atualmente, na via do deboche escancarado, esquina com cagamos pros direitos humanos” — Eletric Funeral –> http://godotnaovira.wordpress.com/2011/12/01/eletric-funeral/

2. “Não nos preocupamos com a natureza como se fôssemos exteriores a ela, somos natureza.”  — A natureza é mundo –> http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/12/a-natureza-e-mundo.html

3. Um biólogo falando sobre Belo Monte, em vídeo (já que estudantes e artistas podem fazer vídeos, então biólogos também podem!) –> http://www.youtube.com/watch?v=xnitmB22JtQ&feature=youtu.be

 

Belo Monte: notas de um jornalismo deselegante

Hoje me deparei com um texto escrito por um jornalista que é um exemplo triste do que pode produzir a nossa imprensa. O autor se vangloriava de ser mais inteligente do que uma turma de artistas que resolveu colocar a cara pra bater e se posicionar contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte.  Se vangloriava, vejam só, por “saber” usar o google. Ele, um jornalista, estava a um só tempo, criticando a publicidade feita por um grupo de pessoas e aproveitando a ocasião para compartilhar como público seu vasto conhecimento sobre o tema.

Até aqui tudo bem, toda publicidade deve ser questionada. E o bom jornalismo está aí para isso, para contextualizar as informações que são divulgadas no espaço público. A intenção do autor do texto é mais do que legítima – mas entre a intenção e o texto, o leitor ficou no meio do deserto.

Primeiro o autor reclama dos artistas, dizendo que artistas são pessoas comuns “tão ignorantes em assuntos de represas no Pará como quase todo mundo”. Mas o que deveria servir para simplesmente dimensionar a fala de artistas, colocá-las como uma categoria de pessoas que  têm forte dependência da imagem para viver e que estão ali arriscando a pele para defender uma ideia, seja ela qual for, o texto tomou um outro rumo. Dirigiu-se para a desqualificação arrogante, tratando os artistas como se eles fossem estúpidos, e como se eles tivessem a obrigação de oferecerem uma abordagem jornalística daquilo que estavam falando em um vídeo claramente publicitário.

Não, coleguinha. Artistas não têm compromisso com o jornalismo. Artistas têm liberdade de opinião política, apenas isso. Como qualquer outro cidadão desse país, aliás. Artistas não devem ser cobrados pelo trabalho de informar a população sobre uma obra do porte e da complexidade da hidrelétrica de Belo Monte. Se os artistas estão se posicionando baseados em informações falsas, isso pode demonstrar, no mínimo, o  quanto nós, jornalistas, estamos errando na divulgação desses dados.  Pode ser indício de outras coisas também, mas daí a cobrar deles profundidade? Em uma campanha publicitária?

Outra coisa: ao contrário dos artistas, nós, jornalistas, temos compromisso com a informação. Cabia ao autor do texto, jornalista, abordar o tema com seriedade. Usar termos jocosos e dar uma passeada pelo google não torna ninguém jornalista, muito menos um jornalista bom. Ocupar a coluna de um portal não é a mesma coisa que fazer vídeo publicitário.

É aqui que gostaria de deixar algumas perguntas: se o autor passeou no google, porque não se deu ao trabalho de mencionar em seu texto artigos de antropólogos e cientistas que são contrários a Belo Monte? Por que não teve a curiosidade de saber o que pensam os indígenas a respeito? Por que o autor não procurou mencionar as pendências técnicas em torno da obra? Por que o autor sentiu dificuldade de admitir que podem existir outras alternativas a obra? Por que o autor se esqueceu de mencionar as questões judiciais que envolvem a construção da obra? Por que não achou importante mencionar sob o comando de quem está o Ministério que está tocando a obra? Por que não citou empresas que poderão ser diretamente beneficiada por essa usina?

Se o autor do texto queria fazer apenas um panfleto político tão raso quanto o vídeo criticado, para que usar uma coluna jornalística em um portal? Para que se vangloriar dos conhecimentos “jornalísticos” de uma passeada no google? Isso me soa tão patético! É desrespeitoso com os jornalistas profissionais que estão na rua, que estão lá no Pará cobrindo o dia-a-dia dos ribeirinhos, das populações que serão atingidas pelas barragens, do Ministério Público, dos movimentos sociais e ONGs. Esse tipo de jornalismo é deselegante com o público, que merece ao menos um pouco mais de esclarecimento pra poder se situar no debate.

Tudo o que eu já li sobre Belo Monte e vale a pena compartilhar

A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte está longe, muito longe de ser um consenso entre os brasileiros. E como tenho lido uma avalanche de artigos, textos e vídeos sobre esse tema, resolvi publicar um post organizando um pouco essa bagunça. Não tenho a pretensão de ter a palavra final sobre esse assunto, mas se eu conseguir pelo menos compartilhar links e divagações relevantes, já está bom demais por agora.

1. Quando nasceu o projeto de se construir uma hidrelétrica de Belo Monte?
A ideia de se construir uma hidrelétrica na região de Belo Monte é antiga – data pelo menos de1975 – como pode ser lido nesse artigo. É importante saber desse dado pois o projeto vem sofrendo mudanças técnicas e políticas ao longo dos anos, fica difícil situar o debate atual. Sempre há o risco de se ler uma crítica consistente, só que se referindo a um detalhe do projeto que já foi modificado. E sempre há o risco, por parte do governo, de manipular o debate alegando que certos especialistas não detêm conhecimento sobre o atual projeto.

2. No que consiste o projeto atual?

Segundo fontes governamentais,  a usina hidrelétrica de Belo Monte é um projeto do planejamento energético brasileiro, a ser implantada no rio Xingu, no estado do Pará, região Norte do Brasil. Com a usina, o governo acrescentará pouco mais de 11 mil megawatts (MW) de capacidade instalada à matriz energética nacional. Belo Monte será a segunda maior hidrelétrica do Brasil, atrás apenas da usina Itaipu binacional.

A divulgação do projeto pelo governo está muito fragmentada: uma busca no portal do Ministério de Minas e Energia, por exemplo, rende poucos retornos em relação ao projeto em si. É mais fácil encontrar dados no Blog do Planalto, ainda que sejam  notícias referentes aos projetos sustentáveis na região de Altamira. Também encontramos, no Google, muitas reações do governo, isto é, quando ele se posiciona em resposta às críticas das entidades da sociedade civil organizada, aos grupos de cientistas, especialistas, antropólogos e afins.

Ao contrário da comunicação oficial, dispersa e enfadonha, o Jornal Nacional (da rede Globo) publicou um conjunto de reportagens num tom adoravelmente didático sobre Belo Monte. Mostrou, sim, as vozes das pessoas que moram naquela região e as queixas dos ambientalistas. Mas também pegou super leve com o governo. Na última reportagem da série, a repórter, em alusão ao aniversário de Altamira, classificou Belo Monte como “um presente carregado de polêmicas, um passo ainda incerto rumo ao futuro”. Presente pra mim é uma coisa boa – então eu acho que rolou um otimismo com o governo federal. Mas fiquem a vontade para discordar da minha interpretação, assistam: primeira parte do especial da Globo sobre Belo Monte – pronto, agora aqui a segunda parte e, por fim, a terceira parte 3 do especial da Globo sobre o tema.

3.Existe algum consenso sobre a construção da hidrelétrica Belo Monte ?

Para os tucanos no geral (veja o que escreveu Reinaldo Azevedo que não me deixa mentir) e também muitos petistas – (veja o que registrou Paulo Henrique Amorim e o AlePorto) a construção da usina é inevitável. Em outras palavras: sem a tal hidrelétrica, estaremos fadados ao atraso, faltará energia em nossas casas, chegam a alardear alguns. O consenso entre tucanos e petistas termina aqui.

Tucanos criticam a gestão do projeto – nesse artigo eles chegam a ironizar que a obra começou no carnaval e que isso seria um indício de fracasso. Também é bom lembrar que o Pará, estado onde vai acontecer as obras, é governado pelo PSDB, e vai acompanhar os recursos as obras então, né, num dá pra gente ser ingênuo de achar que eles vão dizer que não querem hidrelétrica ali…

Tirando as pessoas que estão discutindo o assunto por paixões estritamente partidárias, sobra aquela ralé barulhenta que tem ocupado o Google mais que MST em terra improdutiva. Vejam vocês. Caso não estejam felizes com o Google, experimentem o Youtube. Existem pessoas das mais variadas origens intelectuais e políticas que são contra a construção da hidrelétricade Belo Monte em si!

4.Mas por que diabos tem um povo tão insatisfeito com o projeto da hidrelétrica de Belo Monte?

Para algumas pessoas é inviável do ponto de vista técnico – veja o que diz a antropóloga Cecília Mello. Também existem aspectos legais a serem considerados – veja o que diz o Ministério Público Federal do Pará a respeito do assunto. O procurador da república no Para Felício Pontes Jr escreve artigos sobre as violências do projeto.

O Instituto Socioambiental vem promovendo protestos contra a construção da hidrelétrica. O Movimento Xingu Vivo para Sempre também está promovendo seminário internacional sobre Belo Monte. O professor da Unicamp Oswaldo Seva, engenheiro, doutor em Geografia e que estuda projetos de hidrelétricas há 36 anos e o projeto da usina de Belo Monte há 23, escreveu um artigo colocando em evidência as questões índigena, ambiental e orçamentária do projeto.

Entrando no mérito do projeto, a agência de notícias especializada em meio ambiente, Ambiente Já, divulgou artigo que saiu no El Pais, dizendo: “o grande temor dos ambientalistas é que Belo Monte seja apenas a ponta do iceberg, a primeira de uma série de obras que modificariam irreversivelmente o curso e os equilíbrios internos de um dos maiores afluentes do rio Amazonas. Por enquanto, essa alteração do leito do Xingu inundará uma área de mais de 500 hectares e impactará direta ou indiretamente um território de 5 mil quilômetros quadrados“.

A ambientalista Telma Monteiro rebateu vários argumentos daqueles que insistem em dizer que os problemas técnicos do projeto já foram sanados e rebateu um artigo de um defensor de Belo Monte: “Apesar de nos chamar de “ignocentes” (o que seria, para o neologista Cerqueira Leite, uma mistura de “ignorantes” com “inocentes”), muitos dos críticos à obra têm bastante conhecimento da situação e das suas implicações. E também não são inocentes. Sabem que a luta contra a hidrelétrica é inglória e contra forças muito poderosas, capazes até de arrebanhar em suas hordas a opinião de nomes outrora respeitados. As críticas dos ambientalistas “lucientes” (agora neologismo meu, mistura de “lúcidos” com “experientes”) incluem inúmeros aspectos. Por exemplo, para que a usina funcione a contento no futuro, seriam necessárias novas barragens rio acima para regular o fluxo do rio. Foi prometido que isto não será feito, mas quem acreditar nisto será, este sim, um grande ignocente.

Telma também coloca em dúvida um argumento muito propagandeado pelos defensores da hidrelétrica – a de que ela serviria para iluminar casas “que teria como objetivo iluminar 20 milhões de lares e gerar empregos nas indústrias locais. Depois somos nós que somos “ecopalermas” e “ignocentes”… Será que ele sinceramente acredita nesta mentira? A energia de Belo Monte não tem como foco principal a iluminação residencial. O foco são as grandes mineradoras, vorazes por energia, e que geram poucos empregos e muito desmatamento“.

 Telma também exerga que o Brasil pode viver sem a hidrelétrica Belo Monte e elenca algumas soluções possíveis, como a energia eólica, usada na Alemanha, na Espanha e na Dinamarca “Ela pode sim compor uma porção razoável do sistema, o suficiente para dispensarmos esta obra cara, ineficiente e ambientalmente calamitosa. Ah, e o complemento com energia solar, a eliminação de perdas, a repotenciação de usinas? Parece que nosso bom samaritano simplesmente se esqueceu destas possibilidades.

Os antropólogos da Universidade Federal de São Carlos publicaram o Dossiê Belo Monte, que pode ser acessado aqui. São artigos sobre os impactos que grande obras trazem para as populações indígenas.

Bem pessoal. Agradeço pela paciência. Estes eram os links que eu gostaria de compartilhar. Deixei muito da minha opinião na forma como apresentei os links. Futuramente pretendo publicar um artigo mais hmmm poético sobre esse tema que me encanta. Abraços e até lá!

Somos todos reféns da política partidária?

A aprovação do código florestal pelos deputados é marco de uma interessante passagem política: o PT conseguiu mostrar que é refém do próprio PT (Palocci), do PMDB e dos ruralistas. Esse estilo de governar conciliando com gregos e troianos não é inédito: foi desenvolvido por Lula e alcançou alguns êxitos, embora não tenha sido suficiente para contemplar as demandas da esquerda. O que é inédito é o grau de contradição que esse jeitinho de fazer política alcançou: a esquerda abraçando escancaradamente a bancada ruralista!

É verdade que o Lula já tinha abraçado uns camaradas detestáveis? É verdade. Mas depois de 8 anos tendo que encarar essas manobras altamente questionáveis, qual resultado conseguimos? O resultado é esse aí: o PT refém de tudo, sem margem de manobra e sem direito a espernear. Sim, sempre aparece um militante governista pra dizer: aguarde e confie, tem que articular (não me pergunte o que vem a ser esse articular, porque, né, como se nesse tempo todo não tivesse rolado conversa de bastidor), espernear atrapalha o jogo.

Oi? Espernear atrapalha o quê? Vamos olhar como está esse jogo…

A correlação de forças do nosso querido Congresso Nacional está levando o PT cada vez mais para o centro, de tal forma que a esquerda vai desaparecendo. A Dilma já entrou sem peão nesse jogo, fazendo aliança com o PMDB durante a eleição. E já perdeu vários cavalos, torres e bipos pelos corredores do congresso, enquanto os mesmos grupinhos de direita de sempre não perdem um peão sequer nesse xadrez. Daqui a pouco a Dilma tá jogando só com o rei e a rainha!

Aliás, é de se perguntar, o que é o rei e a rainha para um partido de esquerda como o PT, que se presta até a ajudar a bancada ruralista? O PT precisa é de terapia! rsrsrs Tá com transtorno de identidade!

O que muito dos blogueiros governistas não querem enxergar é que não existe articulação possível por dentro do Congresso – o apoio às causas de esquerda ali é muito, muito restrito. E eu não to aqui falando de radicalismo, eu estou falando das causas mais básicas e elementares da esquerda! O jogo político (não falo de corrupção, mas de de métodos que eu não usaria para fazer política ) está claramente engessando qualquer ação mais identificada com as causas da esquerda festiva, esclarecida e esperneante.

Tá, mas se a solução não está lá, está onde?

Está aqui, na blogosfera! Aqui nós da esquerda festiva, esclarecida e esperneante podemos nos expressar sem medo de ser feliz, sem precisar retribuir favor de quem quer que seja. A gente precisa aproveitar melhor essa liberdade para expressar nossas ideias e alcançar uma união com pessoas que expressem pensamentos semelhantes aos nossos. A partir do momento que rolar essa identificação genuína (não estou dizendo que não há influências/divergências entre blogueiros, mas que elas são em muito menor escala do que as que existem na política partidária do congresso) dá pra disputar algum tipo de poder mais pra frente.

Acho importante a gente se organizar, resgatar essa liberdade pra mudar esse cenário no congresso (assim, organiza aqui fora pra desorganizar lá dentro, se é que vocês me entendem). Não estou dizendo que de uma hora pra outra teremos força pra barrar uma lei que nos prejudica: estou dizendo que a gente precisa se apropriar dessa ferramenta, que é a internet e suas redes sociais, para fazer política de uma outra forma, mais independente. Precisamos semear os debates, emitir opiniões, estimular a nossa diversidade, pra chegarmos a um consenso por aqui, com nossas consciências tranquilas, sem se contaminar com as pressões que sobram no congresso. Afinal, nós não estamos na blogosfera pra representar políticos, nós somos os caras que botaram os políticos lá pra governar! Parece ridículo, mas é isso mesmo: nós é que temos que dizer o que queremos. Cabe a nós dizer o que é possível! Não podemos nos comportar como reféns da política partidária!

A blogosfera é livre! E é território da diversidade. Vamos estimular as pessoas a se expressarem, a discordarem do que está colocado aí. Depois que cada um colocar sua ideia, daí podemos verificar em que pontos nós estamos de acordo e aí sim, estabelecer uma agenda de lutas e compromissos. Essa é a minha contribuição ao debate, a caixa de comentários está aberta para quem quiser dar mais ideias ou sugestões para reagirmos diante desse quadro.

Agora que a eleição passou…

Agora que a eleição passou vamos botar as boas críticas na mesa? Só não vale me chamar de direitista, nem insinuar que eu “faço a esquerda que a direita gosta”. Agora é hora de ser povo, não de ser partido político. Vamos exercer nosso papel de cidadão!

Política econômica
E essa política econômica, vai continuar beneficiando só os banqueiros até quando? É a Selic, é o cassino internacional (pronto, agora to parecendo militante do PSTU, rs). Mas na boa: vamos discutir uma saída política decente pro nosso país, na área econômica? Aqui parece que rola uma ditadura do Banco Central! Os caras se acomodaram com a “inflação controlada”, como se isso bastasse. Nada mais importa? Não se permite pensar em algo diferente, como se saquear o país e privilegiar apenas aquela velha minoria de sempre fosse algo inevitável. Será que é inevitável mesmo? Será que nossos economistas são tão ruins assim que só conseguem criar planos que desvalorizem os trabalhadores daqui?

E a taxação das grandes fortunas? É um projeto de lei que deveria ser prioridade dos nossos congressistas. Acho incrível o silêncio da mídia sobre esse tema tão urgente e, ao mesmo tempo, tão prosaico. Parece tão simples, tão fácil de construir um consenso sobre isso – é simples pensar que os muito-muito ricos paguem mais impostos do que os pobres (e aqui eu incluo a classe média como pobre! veja bem, a taxação de grandes fortunas é pra quem tem grande fortuna mesmo).Que conspiração é essa que existe nesse país pra esse tema nunca entrar na pauta de nenhum jornal/programa jornalístico/engraçaralho do momento? Por que o nosso congresso não se move nessa direção com a mesma paixão (real e sincera) com que foi votada aquela lei (fajuta) da ficha limpa?

Parecem temas distintos, mas ambos estão interligados: afinal, quando é que a gente vai criar um consenso sobre o assalto que as elites fazem à população desse país? Ou vocês acreditam mesmo que a classe média se beneficia dessa conjuntura? Que nada. A classe média está de saco cheio disso aí também. É só você informar e esclarecer adequadamente essa parcela da população que logo todos vamos chegar a essa conclusão: basta! Basta de favorecer os mesmos grupos obscenamente ricos. Não precisa ser socialista pra criticar esse estado de coisas. Basta ter um pouco de bom senso pra se indignar com essas discrepâncias.

Reforma agrária
Minha gente, o Lula ficou 8 anos no poder e nada, nada andou em termos de reforma agrária. Quando é que vai rolar uma reforma agrária de verdade por essas bandas? Será que falta mesmo capital político pra isso? Quem, em tempos atuais, é contra a reforma agrária? Até empresário que lida com monocultura pra exportação deveria ser a favor da reforma agrária. Por uma visão estratégica de negócio, nossos empresários deveriam investir em peso em agricultura orgânica e ecológica. Esse é o diferencial de mercado do momento, essa é a tendência mundial, aumentar o consumo de orgânicos! É mais saudável! É viável! E o Brasil vai seguir campeão no uso de agrotóxico assim, sem ninguém falar nada, sem ter uma reportagem de peso na televisão? A gente vai continuar indo na feira comprar comida achando que tá levando pra casa verdura fresca quando na verdade há uma grande probabilidade daqueles legumes terem tomado uma lufada de veneno da plantação vizinha?!

Gente, a Monsanto é apenas uma empresa. Ela pode comercializar sua tecnologia, mas o Brasil é maior do que isso! A gente não pode simplesmente se entregar apenas a ela, cadê a livre concorrência? Onde estão os nossos pesquisadores? Precisamos desiludir a classe média. A classe média formadora de opinião deveria ser devidamente informada sobre essas coisas. A gente devia trabalhar pro consenso, qual é a dificuldade de formar um consenso sobre o uso do nosso solo pra uma agricultura de ponta, com técnicas agroecológicas e tudo o mais? Qual é a dificuldade de fazer com que o povo que trabalha na terra, em agricultura familiar, seja reconhecido? E a valorização dos nossos produtos?

Minorias que são maiorias
Vamos abrir os arquivos da ditadura né? Já passou da hora. É uma dívida que o país tem com as futuras gerações. Vamos esclarecer nosso passado obscuro, afinal, “o sol é o melhor desinfetante”. Que todos saibam o que aconteceu para que tempos obscuros como aqueles nunca mais voltem. Vamos fazer políticas para as mulheres! Caramba, elas têm mais escolaridade e mesmo assim ainda ganham menos que os homens com a mesma função. Se isso não é desigualdade, o que é? E o combate ao racismo? E o combate à homofobia? E as leis de inclusão para pessoas com deficiência? Se você somar cada um desses grupinhos verá que é uma multidão! E as demandas dessa multidão não trazem prejuízos para o todo. O que você perde por defender essa galera? Nada. Ao contrário: você ganha respeito, dignidade, civilidade. Todos querem viver num país livre de preconceito, ok?

E por falar em país livre de preconceito, quando é que vão legislar sobre os meio de comunicação? Esses meios que por vezes jogam água no moinho dos preconceitos, impunemente. Quando é que a gente vai ter um debate sereno sobre a liberdade de comunicação?

Ah. Acho que esse é o único assunto em que eu reconheço: dificílimo conseguir algum consenso. Afinal, discutir comunicação significa discutir poder e todo mundo tem medo de mexer no status quo. Todo mundo acha que a atual liberdade é tão sagrada que qualquer coisa pra melhorá-la é percebida como uma ameça, como uma volta a um padrão de censura. As pessoas têm sérias dificuldades intelectuais de dar um salto para uma comunicação mais complexa, em que as pessoas sejam livres para se comunicarem mas principalmente para se responsabilizarem pelo que dizem. E é isso o que está faltando hoje. Gente que se responsabiliza pelo que diz.

Bem. O post ficou imenso. Tudo bem! O intuito era desabafar mesmo. Parabéns se você chegou até aqui. Talvez eu volte para destrinchar melhor esses tópicos. O ideal seria eu lincar as matérias que andei lendo sobre esses temas, mas to sem tempo agora. Enfim. Comenta aí! Agora vou nessa. Abraços.

Calamidade em Águas Claras – Brasília – Planalto Central

Aqui em Águas Claras não existem serras, montanhas  nem mesmo algo que se possa chamar de rio – no máximo alguns córregos e nascentes. Mas tem alagamento! Não, AINDA não morreu ninguém (não que eu saiba, não nas proporções do que ocorre em outras cidades), mas se a gente não cuidar… Vejam este vídeo postado no youtube em novembro de 2010, que mostra uma região bem central, perto de uma universidade e de uma estação de metrô:

O motivo do alagamento não é a fúria da natureza! É a pura e simples falta de planejamento urbano. Pra vocês terem uma ideia, até bem pouco tempo atrás, bem antes desse vídeo aparecer, o local tinha prédios, gente morando, carro circulando, asfalto, mas não tinha, pasmem vocês: bueiro pra escoar água da chuva!

Agora pensem. Pensem numa região que já tinha apartamentos que chegavam a custar mais de 500 mil reais. Sem bueiro na rua! Se é assim na parte “rica”, imaginem vocês como… Ou melhor, não imaginem.

Bom, vocês vão me dizer, depois da primeira chuva o GDF (governo do distrito federal)  foi lá tomar uma providência. E tomou: quebraram o asfalto, fecharam o trânsito, botaram lá a tubulação pra coletar as águas das chuvas, missão cumprida. NOT. Na primeira chuva que cai depois da obra está tudo alagado de  novo! Querem saber o motivo? Eu também quero. Não vou arriscar um palpite pra não parecer indelicada e chamar alguém de incompetente. Então vou só deixar a pergunta mesmo: por que continua alagando?

Já me falaram que o bairro de Águas Claras foi construído onde antes era um parque, com brejo, nascentes, e todas essas coisas que normalmente devem ser protegidas, ou no mínimo consideradas na hora da ocupação. Também já me falaram que inicialmente seria um bairro com mais casas do que prédios (até porque, fora as questões de solo, pensem na densidade populacional, no trânsito), mas quem mora aqui sabe que os prédios proliferaram sem dó. Quase não se vê casas. Eu não duvido nada que muitas construtoras deram um “jetinho” pra fazer prédio onde só podia ter casa. E por “jeitinho”, entenda-se “jeitinho” mesmo, dentro da “lei”, fora do ecologicamente chato e correto.

Na minha quadra 207, por exemplo, estava lá registrado no mapinha da administração regional, que haveria uma “rua de servidão”, ou seja, um acesso para pedestres para a outra quadra, a 206. Afinal, pra que pegar um carro pra ir até a padoca, né? Sem a rua de servidão, a pessoa da quadra 207 fatalmente vai pegar o carro pra ir até a 206 pois a volta é maior, há trechos sem calçada, com lama, enfim, o horror… Pois não é que a construtora de dois prédios vizinhos resolveu ocupar a tal rua de servidão, comprando-a?

Agora eu pergunto: como é que se compra uma rua de servidão? Advogados leitores, me expliquem! Como é que se compra uma rua? Na minha inocente leiguice me parece absurdo uma empresa querer comprar uma rua. Pra mim é muito simples: se é rua, é pública! Se é pública, não deveria estar a venda, não sem no mínimo perguntar pro povo que será diretamente afetado. Alguém venha me iluminar.

Depois também fiquei sabendo que a empresa lá, que comprou a rua de servidão, também tá com problema na justiça por ter construído prédio de 38 andares. E parece que ganhou esse “direito” em primeira instância, mas a administração regional de águas claras recorreu. Vou acompanhar essa disputa, depois eu volto aqui pra dizer quem ganhou a causa.

Bem, eu teria muitas coisas mais pra falar, mas vou encerrar por aqui. Acho que por hoje é o suficiente pra vocês entenderem que a natureza não têm culpa de nada, a gente é que tem que se preparar antes das chuvas, reivindicar uma cidade melhor, se organizar, falar com os vizinhos, bancar o chato, se preciso for, pra mudar as coisas.

É a natureza!

Eu poderia estar aqui falando das vítimas das chuvas. Dos sobreviventes das enchentes. Da casa que caiu. Do cachorro que foi salvo. Da lama que escorregou do alto do morro e cobriu vidas. Mas não! Eu to aqui mesmo é pra falar da precariedade do jornalismo vigente nesse país. Esse jornalismo que mata a longo prazo, devagarinho e sutil, sem ninguém perceber.

Tá bom, agora eu fui dramática, mas como não carregar nas tintas? Fico com calafrios quando leio nas entrelinhas de jornais de grande circulação e de telejornais, que o grande culpado da tragédia é a *natureza*. E o discurso se repete nas ruas: “É a natureza”, entre os crédulos, afinal, jornalista tem fé pública, saiu na TV, é verdade.

O jornalismo rasteiro brasileiro usa a tática manjada de encontrar um inimigo estrangeiro, um *outro*, um alienígena, a *natureza*, para não ter que falar de quem é a responsabilidade sobre esse caos. A *natureza*, essa estrangeira, que não é nem trabalhadora, nem empresária, nem vereadora, nem prefeita, nem governadora, nem presidenta, ela é a culpada. Ela é o bode expiatório!

Vale perguntar: a chuva também construiu a casa lá no pé daquela serra? A chuva assoreou o rio? A chuva colocou garrafa de plástico na boca do bueiro? Foi a *natureza* que fez tudo isso?

Agora vamos ao conteúdo omitido pelos grandes jornais: existem causas políticas e econômicas muito bem identificadas que no mínimo criam as condições para que ocorram as enchentes. Existe a especulação imobiliária, que torna inviável o custo da moradia, obrigando as pessoas de baixa renda a construírem seus lares onde há risco de desabamento/enchente. Existem empresários defensores do livre mercado acima de qualquer coisa, que pagam seus políticos pra defender a construção desenfreada de prédios e casas, alterando o plano diretor sem levar em conta as consequências humanas e ecológicas. Existe a falta de saneamento básico, a dificuldade de os governos administrarem recursos hídricos, a falta de limpeza nos rios, falta de políticas públicas pra habitação para pessoas de baixa renda, falta de respeito com os cidadãos, enfim. Uma infinidade de fatores humanos que geram a tragédia, para além da natureza.

Por outro lado, existem inúmeras soluções sendo pensadas e criadas por aí, mas que nunca recebem a devida atenção por contrariar a lógica da imprensa. Pra que discutir moradia em abril, depois das chuvas, né? Pra que discutir plano diretor, orçamento público? Pra que discutir coleta seletiva, né? Pra que fazer um jornalismo para ajudar as pessoas a evitarem tragédias?! Não é pra isso que serve a liberdade de imprensa, também?

Os jornais esperam a tragédia acontecer pra abordar um tema, e mesmo assim conseguem é falar das coisas apenas o suficiente para manter o status quo, ou seja: as pessoas dentro de suas casas, com medo da natureza!

Para citar alguns exemplos de soluções que estão sendo pensadas, recomendo a leitura de artigos de duas mulheres que manjam muito desses temas acima elencados, Ermínia Maricato (leiam aqui um artigo dela publicado originalmente em 2010) e Raquel Rolnik (leiam aqui o blog dela). Até o google (ou terá sido o twitter?) me apresentou uma jovem jornalista, Gisele Brito, que publicou matéria na Folha Universal dizendo o primordial, o que deveria estar em todos os jornais: sim, prevenir as enchentes é possível!

A questão é, ou os grandes jornais se interessam verdadeiramente em ser palco da democracia, e passam a abordar a prevenção das enchentes ao longo do ano, de forma ampla, serena, cotidiana, de modo que as pessoas possam realmente se prevenir das tragédias *naturais*. Ou a gente vai ser obrigado a assistir, entra ano e sai ano, mais e mais mortes por desabamento e enchente. Afinal, até o mau jornalismo é culpado por essa tragédia! Esse mau jornalismo que insiste em colocar a *natureza* no banco dos réus e sem direito à defesa.

Atualização às 21h20: vale visitar o site que reúne fotos e textos sobre as enchentes no Rio de Janeiro desde 1711 – clique aqui.

Atualização no dia 14 de janeiro: vale ler o artigo do Laurindo Leal Filho – Quantas vidas não poderiam ter sido salvas se, em vez colocar no ar o Ratinho ou o Big Brother, as emissoras tivessem avisado à população de que fortes chuvas estavam previstas para a serra fluminense na noite anterior à tragédia, com instruções dos poderes públicos sobre como agir – clique aqui para ver o texto no site da Carta Maior