Chamem a turma do Fora Sarney!

Novembro 12, 2009

Recebi este relato do colega Mylton Severiano, colunista aqui da revista da Fenae Agora (dos empregados da Caixa). Fiquei indignada com o nível de selvageria diante do lançamento de um livro. Ao terminar de ler o relato, pensei: onde está a turma do fora Sarney, pra prestar solidariedade ao nosso querido Mylton Severiano e ao Palmerio Dória?!

Leiam a íntegra do relato. Comentem. Divulguem.

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Os jornalistas abaixo-assinados, Palmerio Dória e Mylton Severiano, denunciam aqui a ação fascistoide de um grupo de jovens, a mando do grupo ligado a José Sarney, em São Luís do Maranhão.

1. Antecedentes. Palmerio, autor do livro Honoráveis Bandidos, da Geração Editorial, e Mylton, co-autor, a convite de jornalistas de São Luís, aceitaram lançar o livro na capital maranhense, ontem, dia 4 de novembro de 2009, às 19 horas. Para começar, nenhuma grande livraria local, ou entidade, aceitou promover o evento, além do que nem sequer aceitam o livro em suas prateleiras. Até que, lembrado o Sindicato dos Bancários, suas portas se nos abriram e para ali ficou marcado o lanç amento. Na antevéspera, mais um ato que lembra métodos fascistas: a empresa responsável pelos outdoors que anunciavam o evento devolveu o dinheiro aos promotores e mandou “raspar” as peças.

2. O clima à nossa chegada, na terça, véspera do ato, começou a ficar “esquisito”, quando na coletiva à imprensa, numa sala do Sindicato, alguns colegas nos perguntaram se a gente não tinha “medo”. Falou-se em “corte de energia” durante o evento, brincou-se com a possibilidade de cada um levar uma vela, e alguns dos colegas não descartaram até atos de violência. À noite, em programa ao vivo na rádio Capital, vários ouvintes nos alertaram para aquelas possibilidades – “ele são capazes de tudo”, “cuidado”.

3. Ontem, quarta, no fim da manhã, uma colega, Jane Lobo, mais realista, aconselhou – e acatamos – a pedir proteção.

4. Veio a noite. O auditório do Sindicato dos Bancários, na Rua do Sol, estava superlotado, havia muita gente em pé. Um ambiente familiar – gestantes, gente idosa, crianças pequenas e grandes, estudantes. Por ali passaram mil pessoas.

5. Iniciada a sessão pelo coordenador Marcos Nogueira, quando Palmerio passa a falar sobre o conteúdo do livro, eis que do nosso lado direito uma vintena de jovens, na maioria rapazes e umas poucas moças, prorrompem em berros, aos poucos distinguimos “Jackson ladrão, envergonha o Maranhão”, “mentira”, “viva Sarney”. As pessoas mais próximas se levantam e se afastam, abrindo um claro. Os baderneiros abriram suas camisas, pondo à mostra uma camiseta em que se lia Navalhada de Bandidos e atrás de grades Jackson Lago, o governador que a família Sarney derrubou num golpe do judiciário. Dentre os baderneiros, um rapaz, possesso, ergueu uma das pesadas cadeiras e a arremessou na direção do palco onde estávamos. Imediatamente uma chuva de objetos voou sobre a mesa – bolas de papel molhado, ovos e até pedras – junto com xingamentos e outros impropérios.

6. Seguiu-se um quebra-quebra, pancadaria, promovida pelos baderneiros.

7. Passada a estupefação, os presentes mais os seguranças providenciados pelo Sindicato passaram a expulsar os baderneiros do local aos tapas e empurrões. Boa parte do público se retirou, preocupada, “eles vão voltar”.

8. Reiniciado o ato, os presentes cantaram Oração Latina, puxada ao violão pelo cantor e compositor Cesar Teixeira. A platéia e políticos, das mais diversas extrações, se deram as mãos durante o canto.

9. Felizmente nenhuma criança se feriu. Uma pessoa das relações de Jackson Lago foi buscar seu carro na rua de trás do Sindicato, Rua dos Afogados, e testemunha: ali havia cinco viaturas da PM, esperando o quê, não se sabe. E, praticamente no mesmo instante, menos de cinco minutos depois, Décio Sá, jornalista “guerrilheiro” dos Sarney, que se encontrava em Fortaleza, já postava em seu blog notícia em que os baderneiros viraram estudantes que protestavam contra o lançamento do l ivro e “foram atingidos por cadeiras, pedras, socos e pontapés e revidavam como podiam”.

10. Enquanto os autores retomavam a sessão, um grupo foi à delegacia de polícia mais próxima registrar B.O., Boletim de Ocorrência. Dissemos que os baderneiros vieram a mando do grupo ligado a José Sarney e eles próprios, desastrados, se encarregaram de deixar prova cabal: uma moça, Ana Paula Ribeiro, tida nos meios estudantis como “estudante profissional”, ao sair correndo deixou cair a bolsa, com sua identidade dentro. A moça trabalha simples mente com Roberto Costa, secretário de Esporte e Juventude da governadora Roseana Sarney.

11. Toda a confusão armada pelos baderneiros foi fotografada e filmada por profissionais contratados pelo evento.

12. Mesmo com este ataque fascistoide, Palmerio e Mylton assinaram mais de 500 livros, o que demonstra a sede de informação sobre a família que há meio século governa o Maranhão.

Palmerio Dória e Mylton Severiano

São Luís, 5 de novembro de 2009


Golpe democrático, ditabranda e o pobre herói

Outubro 19, 2009

Vivemos tempos realmente incríveis: os jornais, as TVs, as emissoras de rádio, os blogs e sites publicam a todo instante idéias que num primeiro momento parecem facilmente aceitáveis, mas que no fundo exigem um pouco mais de tempo para nossa reflexão. Vou citar três exemplos que tenho lido com certa freqüência ao longo dos últimos três meses: os termos “golpe democrático” e “ditabranda” e o conceito que vou chamar aqui nesse artigo de “pobre herói”.

O primeiro deles – “golpe democrático” – está sendo citado quando o assunto é Honduras. Um sociólogo pós-graduado, articulista de uma grande revista semanal brasileira (Época) escreveu um artigo no mínimo intrigante sobre como esse brilhante conceito se aplica ao caso de Honduras, dizendo, em resumo, que Micheletti deu um “golpe democrático” ao tirar o presidente eleito “Zelaia” do poder.

Confesso que fiquei sem entender. Quer dizer que no dia que eu discordar politicamente do governador Arruda, aqui em Brasília, eu posso convocar a polícia pra ir até a casa dele, pegar ele de pijama, botar num avião e jogar o cara em alguma cidade da Argentina, e isso será considerado democrático? Nossa, vou fazer isso amanhã mesmo!

Vamos falar sério. Pode a democracia nascer de um golpe? E a assembleia constituinte, serve pra quê? é enfeite? Algum jurista, algum entendedor de teoria do estado ou o que seja pode me dar alguma explicação razoável sobre isso? Eu preciso de uma explicação pois termos como esse “golpe democrático” circulam impunemente pelos jornais como se fosse a coisa mais natural e elementar o do mundo. Azar é o meu que não tenho “inteligência” pra entender desse tema.

No blog do espaço aberto há uma explicação bem interessante de como esse termo simplesmente não pode existir. E se não pode existir, trate-se de uma falácia. E onde há falácia, há fogo: o que não se quer discutir? Por que é tão difícil admitir o fato de que Honduras sofre um golpe de estado? É fato, minha gente. Por que o tal cientista político que escreveu o artigo na Época não defende abertamente o golpe de estado em Honduras? Aqui no Brasil nós somos democráticos, o cara pode defender a opinião que ele quiser, mas por favor, vamos nos basear nos fatos.

A “ditabranda” é outro exemplo de termo que serve para encobrir um fato. O que houve no Brasil foi considerado ditadura e pronto. Não existe régua de medir a brutalidade de uma ditadura. Se é ditadura, é brutal. Pois o jornal Folha de São Paulo chamou de ditabranda a nossa ditadura, atitude que ultrapassa qualquer liberdade opinativa. Se a Folha de São Paulo é a favor da ditadura, vai lá e defende. Se ela considera que torturar, suprimir direito de defesa e coisas desse tipo que ocorreram na ditadura brasileira, são “um mal necessário” vai lá e expressa a opinião. Está no direito dela de opinar livremente nesse país democrático. Mas não inventa ditabranda, porque isso não existiu e nunca vai existir.

Agora vamos ao conceito do “pobre herói”, que é mais sofisticado, sutil. Quem já não leu aquela matéria falando que o desemprego é grande porque as pessoas de baixa renda não são qualificadas? Ou então dizendo que o acesso às universidades públicas ainda é o mais democrático porque o critério é de mérito, entra quem tem capacidade? Ou ainda, dizer que a solução para quem nasce pobre é estudar e trabalhar a vida toda? Tudo isso é verdade, sim. Metade da verdade. A outra metade é a criação do que eu chamo do mito do “pobre herói”, construído e reconstruído todos os dias na imprensa e na vida cotidiana.

Todas essas meias verdades escondem o fato de que nascer filho de um analfabeto, num lugar pobre da periferia, sem água encanada, dividindo um cômodo com tantos outros irmãos, estudar (quando não estiver vendendo bala no farol) naquela beleza de colégio público, e ao mesmo tempo almejar vencer na vida não é viver. É um ato de heroísmo!

Claro que estudar e trabalhar é importante. É óbvio. Mas o que deveria ser mais óbvio é a diferença entre nascer com condição digna (ter uma infância sadia, estudar, se preparar, entrar no mercado de trabalho depois de uma faculdade e outras qualificações devidas) e nascer num lugar sem condição nenhuma, em plena situação de vulnerabilidade social. É uma competição covarde.

É você obrigar que toda a pessoa pobre seja um herói para conseguir viver dignamente. E mais: você deixa de discutir políticas públicas, começa a criticar o bolsa família, começa a achar que a pessoa que nasceu pobre nasceu assim por um azar divino, ou porque é preguiçosa e por aí vai um mar de explicações. No final chega-se a uma cultura que só aceita o pobre se ele for herói, isto é, se ele vencer todos os obstáculos que o destino lhe colocou. Ele não pode simplesmente ser gente, tem que ser herói, tem que provar que o sistema está certo, que a melhor política é essa que está aí. E ai de quem se organizar pra pleitear coletivamente por algo melhor.

Podem observar! Comprem aquelas revistas que falam do “candidato ideal” para o “emprego ideal”. Observem como elas colocam no âmbito individual um problema que na maioria das vezes é do coletivo. Precisamos pensar coletivamente em formas de incluir mais pessoas no trabalho, com uma jornada de trabalho reduzida, com mais qualidade de vida para todos.

É hora de questionar a acumulação de dinheiro que não tem lastro no trabalho!

Pensem num empresário, num bem-sucedido empresário. Por mais que ele trabalhe num posto de altíssima complexidade e responsabilidade, 10 horas por dia ou mais, não há o que justifique ela ganhar 100 mil vezes mais pelo seu trabalho do que uma outra pessoa de que exerce um trabalho menos especializado. Como o sistema permite tamanha discrepância na valorização do trabalho?

Permite porque não se discute. Coloca-se o desemprego no âmbito individual. São sempre os trabalhadores que não se esforçam para se encaixar nos empregos gerados, eles é que não têm ambição, que não sabem se comportar numa entrevista de emprego. Ou seja, as causa estruturais nunca são levadas a um debate aberto e público, nunca estão nas novelas, nas artes, nos programas humorísticos, para participação popular.

Encerro esse artigo com uma tinta profética: essas grandes falácias vão cair uma a uma. Questão de tempo. Até lá, façamos a nossa parte: vamos seguir denunciando as falácias pelo território livre da blogosfera.


Mulheres no poder

Agosto 26, 2009

Eu me espantei com um artigo do Marcelo Coelho em que ele tece comentários sobre Lina e Dilma. É bom frisar que eu estou me referindo ao Marcelo, articulista da Folha, não o seu primo literário Paulo Coelho.

;)

Vejam aqui e se espantem também: http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2009-08-16_2009-08-22.html#2009_08-18_13_34_03-10759959-0.

Fiquei chocada tanto pelo conteúdo, como pelo contraste. Afinal o Marcelo Coelho foi meu professor na Faculdade Cásper Líbero e, além disso, os artigos dele, em geral, são muito mais profundos do que esse pedaço de merda texto leviano que ele colocou no mundo.
Ainda bem que ele logo se retratou, depois de receber inúmeras críticas:http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2009-08-16_2009-08-22.html#2009_08-20_02_27_09-10759959-0. Tudo bem, foi uma resposta meio envergonhada, meia boca que só. Mas tudo bem, diante das circunstâncias, está tudo certo.

Afinal, o problema não extamente dele. É nosso, das mulheres. Precisamos nos manifestar com mais intensidade para que idéias sexistas não se propaguem por aí, impunemente. Acabo de descobrir um blog que trata de sexismo na política. Leiam: http://sexismonapolitica.wordpress.com

Aproveitem para ler um dos posts, que eu copio a seguir, na íntegra.

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Conversa de boteco não é jornalismo

Marcelo Coelho deu a largada. Jorge Pontual acaba de pegar o bastão. Quem será o próximo jornalista a fazer piadas de mau gosto com a aparência da (possível) candidata presidencial Dilma Roussef?

Não é este tipo de cobertura que nós queremos ver dos jornalistas brasileiros no ano que vem. Queremos que as candidatas mulheres (possivelmente, haverá três: além de Dilma, tudo indica que Marina Silva concorrerá pelo PV, ao qual acaba de se filiar; Heloísa Helena também pode tentar novamente pelo PSOL) sejam tratadas com a mesma seriedade reservada aos candidatos do sexo masculino — os quais não têm seu sex appeal mensurado tão frequente e escancaradamente.

Num país com participação tão baixa das mulheres na política (entre os motivos, está a equivocada idéia de que mulher “não serve” para isso), a cobertura jornalística enviesada tem a função de reforçar o preconceito. Se os jornalistas preferem fazer chacota da aparência física das candidatas a analisar sua plataforma política, é porque não levam as candidatas a sério. Pior: contribuem para que o leitor/eleitor também não as leve a sério.

Marcelo Coelho e Jorge Pontual não são exatamente símbolos de beleza masculina. Alguém aí receberia com entusiasmo um e-mail com fotos dos dois jornalistas nus? Mesmo assim, eles se acham em posição de julgar a aparência das candidatas e cobrar delas uma mudança nas roupas, no cabelo, na postura. Não fazem o mesmo com os candidatos homens (e um e-mail com fotos de José Serra nu, Jorge Pontual? Você abriria ou não abriria?). Tampouco têm de enfrentar o mesmo escrutínio. Não é preciso ser bonito e gracioso para ser político. Assim como não é preciso ser bonito e gracioso para ser jornalista. É tão difícil perceber que o mesmo deve valer para as mulheres?

Política não é concurso de beleza. Conversa de boteco não é jornalismo. A opinião de Jorge e Marcelo sobre o sex appeal das possíveis candidatas em nada interessa à cobertura das eleições. Se os dois transportam um assunto de tamanha irrelevância para o campo do jornalismo* é porque estão acostumados a viver numa sociedade machista, onde os homens são encorajados a expressar verbalmente o seu desejo sexual, onde e quando quiserem, mesmo que isto desrespeite a mulher analisada. Fazer uma avaliação pública e desrespeitosa do sex appeal de alguém é tratar esta pessoa como se fosse pedaço de carne primeiro, indivíduo depois.

Suponho que Marcelo e Jorge se achem muito diferentes do homem chucro que suga o ar e diz “essa eu chuparia todinha”, quando passa uma mulher na rua. Suponho que se achem muito diferentes dos humoristas do Pânico, que grudam adesivos de “vou” ou “não vou” nas mulheres na praia. Mas o que estão fazendo é basicamente a mesma coisa. E, bem, não sei quanto a vocês, mas o noticiário é o último lugar onde eu espero ver um “vou/ não vou”.

O leitor/eleitor brasileiro merece uma cobertura séria. Merece jornalistas que façam jornalismo e não conversa de boteco. Merece que tod@s @s candidat@s sejam tratad@s igualmente. Cobremos deles exatamente o que merecemos, então.

* pode-se argumentar que Marcelo e Jorge fizeram suas declarações no blog e no Twitter, portanto elas não seriam jornalismo. Devemos frisar, no entanto, que os dois são reconhecidos por seu trabalho como jornalistas e é daí que vem a sua credibilidade. É daí que vem a necessidade de uma crítica. O blog do Marcelo Coelho é hospedado no portal da Folha de S.Paulo. O Twitter de Pontual também se pretende jornalístico, pelo menos na maior parte do tempo.


Cotas para negros: já mudou de opinião?

Agosto 6, 2009

Bem no início da discussão sobre as cotas para negross eu pensava que essa medida era paliativa para o grave problema do racismo, tão entranhado na nossa cultura. Mas esse posicionamento durou bem pouco. Lembro-me como se fosse hoje a conversa que tive com uma assistente social que trabalhava no Seppir naquela época; ela me explicou, entre outras coisas, a força das cotas como medida afirmativa. A cota é necessária para reconhecer as diferenças, afirmar que existe racismo, e que sim, as cotas são necessárias até que alcancemos um mínimo de justiça social para um grupo que historicamente foi excluído de políticas públicas.

Mesmo convencida da necessidade das cotas, sempre tive dificuldade em defender essa política. Não que faltasse argumentos – é que existem argumentos bons para os dois lados. O que diferencia um ou outro posicionamento é uma dose de sensibilidade, de vivência, de olhar em volta. Creio.

Recentemente o amigo Luís Vieira me enviou um e-mail que fala dessa sensibilidade, dessa vivência. O artigo foi escrito por um juiz federal, mestre em Direito. Leiam a seguir.

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As cotas para negros: por que mudei de opinião.

William Douglas, juiz federal (RJ), mestre em Direito (UGF), especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ), professor e escritor, caucasiano e de olhos azuis.

Roberto Lyra, Promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, ao lado de Alcântara Machado e Nelson Hungria, recomendava aos colegas de Ministério Público que “antes de se pedir a prisão de alguém deveria se passar um dia na cadeia”. Gênio, visionário e à frente de seu tempo, Lyra informava que apenas a experiência viva permite compreender bem uma situação.

Quem procurar meus artigos, verá que no início era contra as cotas para negros, defendendo – com boas razões, eu creio – que seria mais razoável e menos complicado reservá-las apenas para os oriundos de escolas públicas. Escrevo hoje para dizer que não penso mais assim. As cotas para negros também devem existir. E digo mais: a urgência de sua consolidação e aperfeiçoamento é extraordinária.

Embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos. A Constituição da República é pródiga em planos de igualdade, de correção de injustiças, de construção de uma sociedade mais justa. Quem quiser, nela encontrará todos os fundamentos que precisa. A Constituição de 1988 pode ser usada como se queira, mas me parece evidente que a sua intenção é, de fato, tornar esse país melhor e mais decente. Desde sempre as leis reservaram privilégios para os abastados, não sendo de se exasperarem as classes dominantes se, umas poucas vezes ao menos, sesmarias, capitanias hereditárias, cartórios e financiamentos se dirigirem aos mais necessitados.

Não me valerei de argumentos técnicos nem jurídicos dado que ambos os lados os têm em boa monta, e o valor pessoal e a competência dos contendores desse assunto comprovam que há gente de bem, capaz, bem intencionada, honesta e com bons fundamentos dos dois lados da cerca: os que querem as cotas para negros, e os que a rejeitam, todos com bons argumentos.

Por isso, em texto simples, quero deixar clara minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor, “guru dos concursos” e qualquer outro adjetivo a que me proponha: as cotas para negros devem ser mantidas e aperfeiçoadas. E meu melhor argumento para isso é o aquele que me convenceu a trocar de lado: “passar um dia na cadeia”. Professor de técnicas de estudo, há nove anos venho fazendo palestras gratuitas sobre como passar no vestibular para a EDUCAFRO, pré-vestibular para negros e carentes.

Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular “para negros”, aceitei convite para aulas como voluntário naquela ONG por entender que isso seria uma contribuição que poderia ajudar, ou seja, aulas, doação de livros, incentivo. Sempre foi complicado chegar lá e dizer minha antiga opinião contra cotas para negros, mas fazia minha parte com as aulas e livros. E nessa convivência fui descobrindo que se ser pobre é um problema, ser pobre e negro é um problema maior ainda.

Meu pai foi lavrador até seus 19 anos, minha mãe operária de “chão de fábrica”, fui pobre quando menino, remediado quando adolescente. Nada foi fácil, e não cheguei a juiz federal, a 350.000 livros vendidos e a fazer palestras para mais de 750.000 pessoas por um caminho curto, nem fácil. Sei o que é não ter dinheiro, nem portas, nem espaço. Mas tive heróis que me abriram a picada nesse matagal onde passei. E conheço outros heróis, negros, que chegaram longe, como Benedito Gonçalves, Ministro do STJ, Angelina Siqueira, juíza federal. Conheço vários heróis, negros, do Supremo à portaria de meu prédio.

Apenas não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro desse país. Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos num colégio onde não há um aluno negro sequer, onde há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola esse ano, escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado. Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de Ballet. A outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas. A filha da empregada, que ajudo quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa. Toda menina é uma princesa, mas há poucas das princesas negras com vestidos compatíveis, e armários, e escolas compatíveis, nesse país imenso. A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Sua Justiça. Sei que Deus espera que eu, seu filho, ajude nesse assunto. E se não cresse em Deus como creio, saberia que com ou sem um ser divino nessa história, esse assunto não está bem resolvido. O assunto demanda de todos nós uma posição consistente, uma que não se prenda apenas à teorias e comece a resolver logo os fatos do cotidiano: faltam quartos e escolas boas para as princesas negras, e também para os príncipes dessa cor de pele.

Não que tenha nada contra o bem estar da minha menina: os avós e os pais dela deram (e dão) muito duro para ela ter isso. Apenas não acho justo nem honesto que lá na frente, daqui a uma década de desigualdade, ambas sejam exigidas da mesma forma. Eu direi para minha filha que a sua similar mais pobre deve ter alguma contrapartida para entrar na faculdade. Não seria igualdade nem honesto tratar as duas da mesma forma só ao completarem quinze anos, mas sim uma desmesurada e cruel maldade, para não escolher palavras mais adequadas.

Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É quase como não fazer nada e dizer que tudo se resolverá um dia, aos poucos. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais igualitários. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: vamos enfrentar o problema no ensino fundamental, médio, cotas, universidade, distribuição de renda, tributação mais justa e assim por diante. Não podemos adiar nada, nem aguardar nem um pouco.

Foi vendo meninos e meninas negros, e negros e pobres, tentando uma chance, sofrendo, brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas agruras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos jurídicos, embora eu os conheça, foi passar não um, mas vários “dias na cadeia”. Na cadeia deles, os pobres, lugar de onde vieram meus pais, de um lugar que experimentei um pouco só quando mais moço. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido.

Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem faze-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena. Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia “na cadeia”. Um dia de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio.

Se você é contra as cotas para negros, eu o respeito. Aliás, também fui contra por muito tempo. Mas peço uma reflexão nessa semana: na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que freqüenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida). Se há poucos negros ao seu redor, me perdoe, mas você precisa “passar um dia na cadeia” antes de firmar uma posição coerente não com as teorias (elas servem pra tudo), mas com a realidade desse país. Com nossa realidade urgente. Nada me convenceu, amigos, senão a realidade, senão os meninos e meninas querendo estudar ao invés de qualquer outra coisa, querendo vencer, querendo uma chance.

Ah, sim, “os negros vão atrapalhar a universidade, baixar seu nível”, conheço esse argumento e ele sempre me preocupou, confesso. Mas os cotistas já mostraram que sua média de notas é maior, e menor a média de faltas do que as de quem nunca precisou das cotas. Curiosamente, negros ricos e não cotistas faltam mais às aulas do que negros pobres que precisaram das cotas. A explicação é simples: apesar de tudo a menos por tanto tempo, e talvez por isso, eles se agarram com tanta fé e garra ao pouco que lhe dão, que suas notas são melhores do que a média de quem não teve tanta dificuldade para pavimentar seu chão. Somos todos humanos, e todos frágeis e toscos: apenas precisamos dar chance para todos.

Precisamos confirmar as cotas para negros e para os oriundos da escola pública. Temos que podemos considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles uma oportunidade de igualdade, uma contrapartida para caminharem com seus co-irmãos de raça (humana) e seus concidadãos, de um país que se quer solidário, igualitário, plural e democrático. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a políticas afirmativas de uma nova realidade.

Se você não concorda, respeito, mas só se você passar um dia conosco “na cadeia”. Vendo e sentindo o que você verá e sentirá naquele meio, ou você sairá concordando conosco, ou ao menos sem tanta convicção contra o que estamos querendo: igualdade de oportunidades, ou ao menos uma chance. Não para minha filha, ou a sua, elas não precisarão ser heroínas e nós já conseguimos para elas uma estrada. Queremos um caminho para passar quem não está tendo chance alguma, ao menos chance honesta. Daqui a alguns poucos anos, se vierem as cotas, a realidade será outra. Uma melhor. E queremos você conosco nessa história.
Não creio que esse mundo seja seguro para minha filha, que tem tudo, se ele não for ao menos um pouco mais justo para com os filhos dos outros, que talvez não tenham tido minha sorte. Talvez seus filhos tenham tudo, mas tudo não basta se os filhos dos outros não tiverem alguma coisa. Seja como for, por ideal, egoísmo (de proteger o mundo onde vão morar nossos filhos), ou por passar alguns dias por ano “na cadeia” com meninos pobres, negros, amarelos, pardos, brancos, é que aposto meus olhos azuis dizendo que precisamos das cotas, agora.

E, claro, financiar os meninos pobres, negros, pardos, amarelos e brancos, para que estudem e pelo conhecimento mudem sua história, e a do nosso país comum pois, afinal de contas, moraremos todos naquilo que estamos construindo.

Então, como diria Roberto Lyra, em uma de suas falas, “O sol nascerá para todos. Todos dirão – nós – e não – eu. E amarão ao próximo por amor próprio. Cada um repetirá: possuo o que dei. Curvemo-nos ante a aurora da verdade dita pela beleza, da justiça expressa pelo amor.”

Justiça expressa pelo amor e pela experiência, não pelas teses. As cotas são justas, honestas, solidárias, necessárias. E, mais que tudo, urgentes. Ou fique a favor, ou pelo menos visite a cadeia.


Brasília, esse quadrado

Julho 8, 2009

Migrantes. Por todos os lados. Sotaques. O céu é maravilhosamente azul nesse quadrado do Goiás.

A seca, as cigarras, os bicho-grilos, a umidade do ar nas cores das gramas, os homens de terno, as moças de salto, as grandes distâncias, as pequenas salas comerciais que abrigam famílias inteiras, as jaqueiras, as mangueiras, os bastidores do poder, os deslizes privados, as fofocas injustas, os calangos, os candangos, os jovens que se atiram das janelas, os pais dos jovens que tocam fogo nos outros pais, as crianças da rodoviária, os estrangeiros, os místicos, os templos, os que chegam de nave espacial.

Tudo isso não se encontra em Brasília. Mas venha. Venha tomar um sol com a gente!


Golpe de estado é feio!

Julho 6, 2009

Está rolando um golpe de estado em Honduras. Motivo? O presidente democraticamente eleito Manuel Zelaya queria consultar o povo pra saber se poderia mudar a constituição pra permitir uma reeleição.

Há os que condenam a atitude de Zelaya porque a legislação de Honduras não permite sequer a consulta (plebiscito) sobre a reeleição para presidente. Há também os que condenam o golpe de estado, por vários motivos, mas principalmente porque, pela Virgem da Conceição, um golpe de estado é sempre um golpe na democracia. É ou não é? Ou será que já inventaram um golpe de estado de essência democrática?!?!

Enquanto leio as notícias sobre Honduras no site do Azenha recordo-me da reeleição à brasileira que sofremos por essas bandas.

Recordar é viver: a tal emenda que permitiu a reeleição para presidente aqui no Brasil foi aprovada em 1997, quando Fernando Henrique Cardoso (FHC) estava em seu primeiro mandato. O processo pra conseguir a aprovação da emenda foi bastante conturbado, com denúncias de compras de votos e pedido de CPI (ou CPMI? Que seja). Na época, FHC negava por tudo quanto é mais sagrado ter comprado aqueles votos que permitiram a emenda que, é óbvio, lhe interessava. Mas haviam fortes indícios de que os votos foram, sim, comprados, suspeitas amplamente noticiadas pela imprensa, principalmente pela Folha de São Paulo.

As denúncias foram acolhidas pela Comissão de Constituição e Justiça e mais tarde foram até abordadas pela CPI do Mensalão.

É claro que não se conseguiu comprovar a efetiva compra de votos diretamente por FHC. Daí ele se reelegeu calma e tranquilamente, sem golpe de estado, sem ninguém nem pra lhe meter o dedo na cara, chamar de “seusociologozinhoantidemocráticodemerda”.

E assim nasceu a nossa pacífica emenda constituicional de reeleição para presidente, com um tempero todo brasileiro, com cheiro e gosto de pizza.

Será que nós temos moral pra ensinar alguma coisa aos hondurenhos?!?

Ok. São situações diferentes, problemas de distintas proporções e blá blá blá, eu sei. Eu sei. Não dá pra comparar um país com o outro, uma história com a outra, banana com laranja.

Enfim. Do alto da minha insanidade mental declaro que sou a favor de Manuel Zelaya e contra o golpe de estado que está rolando por lá. Ademais, do ponto de vista estético, eu diria que se comprar uma reeleição é feio, dar golpe de estado é mais feio ainda.

Que a paz se restabeleça em Honduras.


Nós realmente nos importamos

Junho 27, 2009

“Muitos daqueles que, a princípio, te pareciam parceiros,
vão ficar furiosos quando mostrares que a conveniência, em alguns casos,
é sinônimo de proteção individual e dano coletivo.”
Sonia Hess

Quero compartilhar aqui uma carta que li por acaso, na lista de discussão do Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas. Eu me identifiquei com o tom político da mensagem, que fala do quanto vale a pena se importar, se arriscar por uma causa, lutar, receber apelidos, sofrer. Vale a pena, ainda que os desafios do mundo pareçam problemas impossíveis de serem solucionados.

A autora da carta é Sonia Hess, engenheira química, professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e atualmente está em Florianopolis (SC), onde realiza seu terceiro pós-doutoramento em química, na UFSC. Sonia escreveu a carta para uma amiga que estava desanimada.

Leiam e me digam vocês, se já passaram por algo parecido com o que a cientista relata. A carta está na íntegra, maiúsculas da própria autora. Considerem licença poética a falta de acentos e cuidados gramaticais, pois tudo isso faz parte da emoção.

Sonia, se você passar por aqui saiba que já somos duas. Nós nos importamos!

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Querida,

como estou sem carro, tenho tido a otima oportunidade de pensar
enquanto caminho 1 km ate o trabalho (o que, em Floripa, consiste em
um grande prazer, na verdade).
Por coincidencia (que nao ha, como ja deves saber), agora pela manha
vim pensando em uma frase super-importante para todos nos, neste
momento: TEMOS QUE TENTAR!!!
Isto ficou martelando na minha cabeca, e agora abro este teu email, o
primeiro que leio hoje.
Entao, vou te contar uma historinha:

– na semana passada, uma jornalista de uma revista de circulacao
nacional me telefonou, pedindo-me para falar sobre os riscos
associados ao uso das mamadeiras plasticas disponiveis no mercado,
atualmente. Eu falei, depois mandei a ela, por email, todas as
informacoes que podia. Ela contou que, antes de me ligar, telefonou
para as grandes universidades e institutos de pesquisa do pais, para
tentar entrevistar algum pesquisador. Ninguem quis falar, sendo que
uns alegaram que nao sabiam o suficiente sobre o assunto e, outros,
que nao gostariam de falar sobre este polemico tema. Ela so conseguiu
a entrevista porque uma pessoa do INCA falou de mim, para ela.
Agora eu te pergunto: quem sou eu? Uma professora com um curriculo bem
mediano e que atua em uma universidade pouco prestigiada. Entao, por que e
que, em todo esta comunidade cientifica brasileira, que tem tantos
bolsistas do CNPq, muito mais capacitados do que eu, sobrei so eu para
falar sobre um assunto fundamental para a saude das criancas? Pois vou te
responder: e porque EU REALMENTE ME IMPORTO COM ISTO!!!

Desde 2002, depois que assisti o filme O FUTURO ROUBADO pela primeira
vez, nao parei mais de estudar sobre os desreguladores endocrinos, e
de dar palestras e entrevistas sobre isto. Se olhares no meu curriculo
Lattes, veras o quanto que falei e escrevi sobre este tema. De que
adiantou tanto esforco? Nao sei, porque nao tenho como conhecer as
mudancas que ocorreram na rotina e no padrao de consumo de cada um que
ouviu o que falei e mostrei. Mas, pelo menos, EU SEI QUE TENTEI e
continuo tentando, com todas as minhas forcas, com toda a minha
capacidade, defender meus semelhantes diante dos riscos presentes no
ambiente;

– la no MS, em 2001, fui chamada para uma reuniao no MPE, para tratar
dos riscos associados a uma usina termeletrica que estava funcionando
com gas natural boliviano. A tal churrasqueira de gas tinha vindo de
El Salvador, onde funcionou por 17 anos. Foi comprada por uma
multinacional e instalada em Campo Grande a preco de ouro. Ate hoje, a
tarifa de energia do MS e uma das mais altas do pais, porque os
consumidores pagam, sem saberem, para aquele trambolhao ficar parado,
esperando para ser ligado quando a falta de chuva diminui a producao de energia nas
hidreletricas. EU TAMBEM ACHO BOM PAGAR PARA ELA FICAR PARADA
PORQUE, QUANDO FUNCIONA, JOGA NO AR 4T/DIA DE VENENOSOS NOx, EM CADA
TURBINA FUNCIONANDO COM GN!!! Pois bem, naquela fatidica reuniao de
2001, o tecnico da empresa comecou a falar que eles monitoravam as
emissoes gasosas da UTE uma vez por ano, e que era suficiente. EU NAO
SEI DE QUE COR EU FIQUEI MAS, COMO ERA A UNICA PESSOA PRESENTE NA
REUNIAO, QUE SABIA O MINIMO DE ESTATISTICA E DE QUIMICA, COMECEI A
CONTESTA-LO, PERGUNTANDO ONDE ELE TINHA APRENDIDO QUE 1 MEDIDA TINHA
ALGUMA SIGNIFICANCIA. Fiquei tao brava com o despeito dele, que sai
bufando da reuniao. A Promotora viu que eu sabia do que estava
falando, e veio correndo atras de mim, dizendo que ia entrar com uma
acao contra a empresa. Bom, foi ai que comecei a minha carreira de
consultora voluntaria do MPE, depois MPF e MPT. Tive que ler muito,
estudar um monte, mas coloquei tudo o que aprendi escancaradamente, em
jornais e pareceres tecnicos (foram 81 artigos publicados em jornais,
ate agora).

Naquela epoca, ainda nao havia legislacao no Brasil para limitar a
emissao de mercurio ou oxidos de nitrogenio em UTEs ou outros
dispositivos de geracao de energia a partir da queima do GN. Por isso,
o processo do MPE contra aquela UTE nao deu em nada. Eles, sequer,
cumpriram com as clausulas do TAC que assinaram, e ninguem cobrou,
porque a pressao politica foi enorme. Em compensacao, acionamos ate a
OAB-MS, que levou o caso a OAB nacional. Ainda guardo a nota que eles
divulgaram em jornais, exigindo que o Ministerio do Meio Ambiente
instituisse legislacao para disciplinar a emissao de poluentes
atmosfericos em UTEs e outros dispositivos, o que so aconteceu em
dez/2006 (CONAMA) e, ainda por cima, com os padroes europeus dos anos
80!!!

DE QUALQUER FORMA, DEPOIS DISTO TUDO, VIREI REFERENCIA PARA OS
PROCURADORES DO MS, que passaram a pedir o meu apoio em todas as acoes
envolvendo UTEs e outros grandes empreendimentos. COMO PARTE DESTA
ARDUA TAREFA, FUI HUMILHADA PUBLICAMENTE EM TRES LAGOAS-MS, ONDE
CONSTRUIRAM UMA UTE em uma area totalmente inadequada; em Corumba-MS,
lutamos juntos (UFMS, EMBRAPA, MPF, ECOA, Ministerio da Saude) e conseguimos
barrar a UTE que queriam construir no centro da cidade; por causa
deste episodio, algum tempo depois, quando tentamos barrar a
siderurgica que o mesmo empresario planejava construir em Corumba, no
dia da audiencia publica, 2 caminhoes de som circularam pela cidade anunciando
que, se os ambientalistas aparecessem naquela audiencia, seriam
recebidos a bala. OBVIAMENTE, FOMOS DERROTADOS. Apesar do MPF ter
conseguido barrar a obra, uma corregedora de SP, magicamente, derrubou
a liminar concedida pelo juiz federal de Corumba. A siderurgica foi
inaugurada no dia da arvore, em 21/09/07 (quase enlouqueci por causa
desta ironia).

Depois disso, aquela empresa levou multas do IBAMA que somaram R$ 29
milhoes, por causa do consumo de carvao de matas nativas do pantanal
(como haviamos previsto no parecer tecnico). No final do ano passado
parou de funcionar, por causa da crise economica mundial;

– tudo o que eu pensava que podia fazer, eu fazia, enquanto morei no
MS. Agora, que sai de la, tenho lido nos jornais locais, diversas
autoridades anunciando a implementacao de medidas que eu,
insistentemente pedi a eles, sem que me dessem qualquer importancia.

Parece que e preciso que muitos fatos negativos se repitam, para que
as pessoas percebam que e necessario mudar!!!

NAO SEI SE NOS ENCONTRAREMOS EM BREVE, MAS TE ESCREVO COM TODA A CERTEZA:
FACA, FACA TUDO MESMO O QUE PUDERES E, ATE MESMO, O QUE TE PARECER
INCONVENIENTE. Nao importa se vai dar resultado, ou nao, ou se vais percebe-los. O
que importa, mesmo, e fazeres, insistentemente, tudo o que podes!!!

VAIS PARECER LOUCA, CHATA, INCONVENIENTE. VAO TE CHAMAR DE XIITA,
ANTIPATICA, CONTRA O PROGRESSO, E MUITOS OUTROS PREDICADOS.

MUITOS DAQUELES QUE, A PRINCIPIO, TE PARECIAM PARCEIROS, VAO FICAR
FURIOSOS QUANDO MOSTRARES QUE A CONVENIENCIA, EM ALGUNS CASOS, E
SINONIMO DE PROTECAO INDIVIDUAL E DANO COLETIVO.

PARA MIM, NADA, NADA MAIS DISTO IMPORTA.
TODOS OS DIAS, ACORDO E VOU DORMIR BUSCANDO UMA UNICA RESPOSTA: O QUE
E QUE EU AINDA NAO FIZ, E O QUE DEVERIA FAZER, PARA AJUDAR MEUS
SEMELHANTES, DIANTE DO ENVENENAMENTO A QUE ESTAO SENDO SUBMETIDOS, SEM
QUE PERCEBAM.

SE ISTO NAO CONDIZ COM A POSTURA DOS HUMANOS DO MEU TEMPO, NAO TEM PROBLEMA.
AFINAL, SEI QUE O NOSSO TEMPO NAO TEM MAIS TEMPO, MESMO!!!