Desescolarizar

A linda da Renata Correa indicou um vídeo que me rendeu muitos insights: uma conversa de quase uma hora com a professora Ana Thomaz.

Ana Thomaz fala da opção que fez de tirar o filho da escola, quando ele ia começar o ensino médio. E explica porque ela achou que a escola não era um lugar para o filho dela. E conta como foi que ela mesma começou a ensiná-lo (seria esse o verbo?) e a aprender com ele. E de como esse processo foi conduzido.

O vídeo não se restringe ao ato em si, de retirar o próprio filho da escola. Ele mostra um pouco de quem é Ana Thomaz, como ela pensa, como ela está no mundo, que experiências ela passou e qual o sentido que ela tem para a vida.

E como ela mesma diz, é um paradoxo: ser professora e rejeitar a escola. É aqui que eu mais me identifiquei com ela: sou jornalista e rejeito o jornal. É um grande alívio perceber que pessoas de outras áreas, outras profissões, também têm dilemas parecidos com os meus.

Só que ela foi longe, muito mais longe do que eu: ela abriu mão da escola e ensinou alguém. Continuou sendo professora, ensinando – e fez isso sem a escola, mas dentro da estrutura que estava ao alcance dela. Ela se colocou esse desafio (que não tem garantia nenhuma de que vai “dar certo”) e está vivendo de acordo com ele. E vivendo bem.

Mas esse é só um dos “insights” – o vídeo bateu o meu recorde de insights por minuto. Ainda estou processando tanta informação. Porque não parece à primeira vista, mas é um vídeo extremamente político. Espero que vocês curtam tanto quanto eu curti. E valeu, Renata Corrêa, pela indicação!

Mantra na Lei Rouanet


O artista Nando Reis cantou a música “Mantra” em vários shows do projeto “Eu Faço Cultura“, que é produzido com recursos obtidos por intermédio da Lei número 8.313 de 23 de Novembro de 1991, a conhecida Lei Rouanet de Incentivo à Cultura.  Essa música é de inspiriação Hare Krishna, e inclui na íntegra o mantra sagrado dessa religião:

“Hare Krishna Hare Krishna/Krishna Krishna/Hare Hare/Hare Rama/Hare Rama/Rama Rama/Hare Hare”

A wikipedia explica um pouco a natureza sagrada dessas palavras:

Essa composição é denominada maha-mantra, ou seja, o “Grande Canto para a Liberação”. Durante muitos milênios, era conhecido somente na Índia, e apenas pelos brâmanes que estavam em graus muitíssimo avançados de austeridade e erudição. No século XVI, Caitanya Mahaprabhu divulgou o maha-mantra à população em geral, sem fazer distinção de idade, cor, sexo, casta ou religião. E no século XX, o mantra Hare Krishna disseminou-se por todos os continentes graças ao trabalho de Srila Prabhupada. Afinal, Caitanya Mahaprabhu profetizara que um dia até as menores vilas e aldeias ouviriam o cantar de Hare Krishna

Publico esse vídeo para lembrar aos que têm memória curta que a Lei Rouanet nunca vetou projetos culturais ou apresentação de músicas que abordam alguma divindade ou que mencionam diretamente qualquer religião que seja. Portanto, músicas como os afro-sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes nunca seriam vetados pela Lei Rouanet.

Quando o governo decidiu alterar o artigo 31-A da Lei Rouanet no dia 9 de janeiro deste ano ele sabia exatamente o que estava fazendo. Não se trata aqui de melhorar a lei para permitir apoio irrestrito às manifestações culturais religiosas diversas que existem no país porque isso a lei nunca censurou.

Portanto, se alguém vier me dizer que a Lei foi feita com a intenção de incluir música gospel no sentido mais amplo possível que a palavra gospel pode abarcar, eu sinto muito, mas eu me reservo no direito de classificar tal papo como puro sofisma, uma tentativa de tergiversação. Em bom português: colóquio flácido para acalentar bovinos. Lei Rouanet nunca deixou de patrocinar apresentação de músicas de cunho religioso/esotérico.  E ponto.

Se a ideia da Lei não era abarcar todas as religiões (porque na prática isso a Lei já permite), então para que serve a alteração na lei? Pois leiam, é uma mudança curta e clara, não há margem para dúvidas:

Art. 31-A.  Para os efeitos desta Lei, ficam reconhecidos como manifestação cultural a música gospel e os eventos a ela relacionados, exceto aqueles promovidos por igrejas.”

Pesquisando um pouco mais, a gente descobre que a Lei abraçou uma demanda específica pleiteada pelo o ex-deputado Bispo Rodovalho.

Se havia alguma dúvida, agora ficou mais claro: é música Gospel no sentido Bispo Rodovalho da palavra.

E mais não digo. Espero ter contribuído para um debate honesto.

Shiva

Shiva

De olho nos banqueiros…

De olho nos banqueiros!

A vida profissional / 3

“Os banqueiros da grande bancaria do mundo, que praticam o terrorismo do dinheiro, podem mais que os reis e os marechais e mais que o próprio Papa de Roma. Eles jamais sujam as mãos. Não matam ninguém: se limitam a aplaudir o espetáculo.

Seus funcionários, os tecnocratas internacionais, mandam em nossos países: eles não são presidentes, nem ministros, nem foram eleitos em nenhuma eleição, mas decidem o nível dos salários e do gasto público, os investimentos e desinvestimentos, os preços, os impostos, os lucros, os subsídios, a hora do nascer do sol e a freqüência das chuvas.

Não cuidam, em troca, dos cárceres, nem das câmaras de tormento, nem dos campos de concentração, nem dos centros de extermínio, embora nesses lugares ocorram as inevitáveis conseqüências de seus atos.

Os tecnocratas reivindicam o privilégio da irresponsabilidade:

— Somos neutros — dizem”.

Eduardo Galeano publicou esse texto no seu “O livro dos abraços”, em 1991.

É ou não é atual?

Já estava na hora de a gente saber o que fazer com essa triste constatação…

Poesia! O Amor nos Sertões – fragmentos

Hoje é dia de poesia. E amanhã também! Acredito no poder que a poesia tem de transformar as pessoas que dela se alimentam. Adoro presentear alguém com livros de poesia ou então com poesias selecionadas para uma determinada ocasião. Um livro de poesia pode ser lido diversas vezes e ser diferente e atual ao mesmo tempo, a cada leitura. Feliz de quem gosta de poesia, feliz de quem ousa fazer poesia!

Mas hoje é dia de uma poesia especial para mim:  faz um ano que o livro “O Amor nos Sertões :  fragmentos” foi lançado em São Paulo. É o livro de estreia do meu pai, que acredito, já era poeta muito antes de eu chegar nesse mundo. Só faltava o livro, pra registrar! Esse livro reúne poesias escritas a partir de 1997, que abordam ampla temática:  memórias, amores, religiosidade e até temas sociais. Eis uma amostra:

Rosa Vermelha Suspensa

Solta no meio da paisagem perdida no mundo,
encarnada,
recortada sobre um fundo de um vale aterrorizante.

Salta o vermelho sanguíneo e explosivo,
sangue jorrando das pétalas superpostas,
salpicando as camisas imaculadas dos passantes,
recobrindo os lírios,
manchando o branco impassível e inocente.

Se você quiser presentear alguém  com o livro “O amor nos sertões: fragmentos” – pode acessar o site da livraria Cultura e encomendar seu exemplar. Como o dia dos pais está chegando, quem sabe não seria um bom presente para o seu pai? Fica a dica! ;)

Receita: kibe de berinjela

Faz tempo que quero postar receitas. Mas essa vida de mãe, trabalhadora e ativista tem me deixado sem tempo! E eu adoro descorbrir receitas gostosas, leves, práticas e saudáveis. Ok, nem sempre a gente consegue reunir todas essas qualidades num único prato. O fato é que eu adoro comer bem, e fico muito feliz quando posso compartilhar receitas gostosas para o dia-a-dia.

Sempre gostei de comidas árabes. Depois que parei de comer carne, fiquei um tempo sem comer kibe (no geral esse prato é feito com carne moída). Daí que nessas andanças eu descobri que é possível fazer um bom kibe… de berinjela! E por incrível que pareça é uma receita vegana! Bom demais, hein? Anote os ingredientes e vamos pra cozinha!

Kibe assado de berinjela

Ingredientes

1 xícara de trigo pra kibe
2 berinjelas médias ou 3 pequenas ou uma bem grandona
1 xícara de nozes (ou a castanha de sua preferência) picadas grosseiramente
1 xícara do tempero fresco de sua preferência (salsinha, cebolinha, hortelã ou coentro – pode escolher uma erva ou misturar as que você achar melhor)
1 cebola média
Sal, pimenta síria, pimenta do reino, noz moscada a gosto
Azeite a gosto para refogar

Modo de preparo

Primeiro hidrate o trigo pra Kibe com água filtrada fria – deixe de um dia para o outro, de preferência. Pela manhã, deixe o trigo hidratado escorrer lentamente numa peneira. Dizem os sábios que assim o trigo fica mais fácil de ser trabalhado, inclusive se você mudar de ideia e resolver fazer um tabule. Eu já acelerei o processo de hidratação com água morna, mas o kibe fica meio molenga, enfim, vai do seu tempo e da sua vontade de comer kibe. Não desista! Reserve o trigo hidratado e vá para a berinjela.

Lave bem a berinjela e corte em cubinhos. Aproveite que você está com a faca na mão e já corte a cebola e as ervas. Adoro cebolinha e salsinha! Geralmente uso essas duas para esse prato. Tem gente que usa hortelã. Tem gente que usa coentro. Mas enfim, vai do gosto de cada um. Corte a cebola em quadradinhos, mas se tiver sem muita paciência corta no meio e faça meia-luas com cada uma das metades. Aproveite para picar as nozes: minha sugestão é pegar um pano de prato limpo, colocar as nozes lá dentro e bater com um objeto pesado (pode ser um martelo de carne, por exemplo). Só não vá se empolgar porque, né, você não quer uma farinha de nozes, você quer nozes em pedaços que possam ser identificados ao chegarem na boca!! rsrsrsrsrs

Pronto, o trabalho chato já foi (bem, pra mim é a parte chata, eu gosto é de sentir o cheiro da panela no fogo!). Agoro pegue uma panela, jogue uma quantidade generosa de azeite e refogue primeiro a cebola, depois os temperos (verdes), o sal, depois as pimentas, a noz moscada e talz (se você curtir) e por fim a berinjela. Deixe a berinjela amolecer bem no fogo, com esses temperos. Pode colocar pouca água, só pra não grudar. Após cozinhar bastante e mudar de cor (ficar bem escura) coloque a berinjela no liquidificador ou no mixer, o que você tiver aí mais fácil. Tá vendo porque nem precisava cortar tanto a cebola?!? Talvez no liquidificador você precise jogar um pouco de água pra não travar as lâminas.

—–>Ah! Um detalhe pra você que tem fome e tem pressa: você pode pular toda essa cortação de legume e jogar a berinjela cortada ao meio, na panela de pressão, com pouca água. Em pouco tempo ela estará cozida e se soltará facilmente da casca, caso você não queira comer a casca da berinjela. Mas eu prefiro refogar os cubinhos no azeite, acho que pega melhor o tempero, pelo menos é minha impressão. <—–

Após bater a massa da berinjela, junte-a com o trigo hidratado numa tigela grande. Após dar uma bela misturada, acrescente as castanhas e misture mais um pouco. Após obter uma massa homogênea, coloque um pouco de azeite no fundo de um tabuleiro onde possa caber toda a massa (no geral é um tabuleiro pequeno porque a massa fica toda apertada dentro da fôrma). Após colocar a massa, faça marcas com o garfo ou decore com folhinhas inteiras das ervas, castanhas pela metade, ou como quiser.

Coloque o kibe para assar em forno baixo, por 20 a 40 minutos, ou até secar a massa e criar uma ligeira casquinha por cima. O tempo varia com a hidratação do trigo, as vezes fica uma massa muito molhada, demora mais pra secar. Bom, pelo menos pra mim, que vou fazendo a receita mais ou menos no olho, deu certo. Bom apetite!

Campanha: Sejamos gays. Juntos

Vamos aderir ao Projeto Eu Sou Gay?

Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta na pequena cidade de Tarumã, Goiás, no último dia 6. O fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, um de 17 e outro de 13 anos, estão detidos e são acusados do assassinato. Segundo o delegado, o crime é de homofobia. Adriele era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas. E ainda que essa suspeita não se prove verdade, é preciso dizer algo.

Eu conhecia Adriele Camacho de Almeida. E você conhecia também. Porque Adriele somos nós. Assim, com sua morte, morremos um pouco. A menina que aos 16 anos foi, segundo testemunhas, ameaçada de morte e assassinada por namorar uma outra menina, é aquela carta de amor que você teve vergonha de entregar, é o sorriso discreto que veio depois daquele olhar cruzado, é o telefonema que não queríamos desligar. É cada vez mais difícil acreditar, mas tudo indica que Adriele foi vítima de um crime de ódio porque, vulnerável como todos nós, estava amando.

Sem conseguir entender mais nada depois de uma semana de “Bolsonaros”, me perguntei o que era possível ser feito. O que, se Adriele e tantos outros já morreram? Sim, porque estamos falando de um país que acaba de registrar um aumento de mais de 30% em assassinatos de homossexuais, entre gays, lésbicas e travestis.

E me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão, todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual.

Ser gay é uma questão de posicionamento e atitude diante desse mundo tão miseravelmente cheio de raiva.

Ser gay é ter o seu direito negado. É ser interrompido. Quantos de nós não nos reconhecemos assim?

Quero então compartilhar essa ideia com todos.

Sejamos gays.

Independente de idade, sexo, cor, religião e, sobretudo, independente de orientação sexual, é hora de passar a seguinte mensagem pra fora da janela: #EUSOUGAY

Para que sejamos vistos e ouvidos é simples:

1) Basta que cada um de vocês, sozinhos ou acompanhados da família, namorado, namorada, marido, mulher, amigo, amiga, presidente, presidenta, tirem uma foto com um cartaz, folha, post-it, o que for mais conveniente, com a seguinte mensagem estampada: #EUSOUGAY

2) Enviar essa foto para o mail projetoeusougay@gmail.com

3) E só :-)

Todas essas imagens serão usadas em uma vídeo-montagem será divulgada pelo You Tube e, se tudo der certo, por festivais, fóruns, palestras, mesas-redondas e no monitor de várias pessoas que tomam a todos nós que amamos por seres invisíveis.

A edição desse vídeo será feita pelo Daniel Ribeiro, diretor de curtas que, além de lindos de morrer, são super premiados: Café com Leite e Eu Não Quero Voltar Sozinho.

Quanto à minha pessoa, me chamo Carol Almeida, sou jornalista e espero por um mundo melhor, sempre.

As fotos podem ser enviadas até o dia 1º de maio.

Como diria uma canção de ninar da banda Belle & Sebastian: ”Faça algo bonito enquanto você pode. Não adormeça.” Não vamos adormecer. Vamos acordar. Acordar Adriele.

— Convido a todos os blogueiros de plantão a dar um Ctrl C + Ctrl V neste texto e saírem replicando essa iniciativa —

Mais informações: http://projetoeusougay.wordpress.com/2011/04/12/sejamos-gays-juntos/