Tudo o que você queria saber sobre corrupção e vai continuar sem saber

Em tese todo mundo é contra a corrupção nem que seja pra ser simpático, ganhar votos, parecer uma pessoa bacana…. E se todo mundo é contra a corrupção, todo mundo sabe o que é corrupção. Certo?

Errado. Para o Fantástico, ninguém sabe o que o corrupção.

Então vamos analisar o texto do site da Globo que trata do Fantástico de um domingo qualquer:

“Licitações com cartas marcadas, negociatas, combinações indecorosas de suborno, propinas, truques para escapar da fiscalização. Certamente, você já ouviu falar muito de corrupção. Mas hoje você vai conhecer a cara dela. E do jeito mais deslavado”.

Veja bem: você sempre ouviu falar de corrupção e agora, UAU, você vai conhecer A CARA da corrupção. Sim. A corrupção tem UMA CARA! Eu pensei que fossem várias caras, vários tipos de corrupção, mas agora sei que corrupção tem uma cara e que, puxa, eu preciso conhecer essa cara! Afinal… Pelas palavras do Fantástico:

“Entre quatro paredes, o que a gente paga em impostos e que deveria ser destinado à saúde, à educação e outros serviços vai parar no bolso de empresários inescrupulosos e funcionários públicos corruptos. Uma vergonha”.

Olhem a sutileza da redação: o seu trabalho é pagar imposto. Quer dizer, monitorar, cobrar, sugerir mecanismos de participação e transparência, pensar (!), reivindicar ou qualquer coisa parecida já é sofisticado demais pra você, cidadão de bem afinal tu é homer simpson ou é rebelde/comunista/petralha. Outra sutileza: os empresários  são inescrupulosos,  funcionários públicos são corruptos. É sutil. Pode parecer uma bobagem, mas… Vamos acompanhar o restante do texto, que bate na tecla da “novidade”.

“O Fantástico mostra agora o mundo da propina, da fraude, da corrupção. De um jeito como você nunca viu. E vale a pena você ver: É o seu dinheiro que eles estão roubando. “

É o voyerismo da informação: não basta você saber pelo portal do TCU, pelo Ministério Público, pela Polícia Federal ou o que seja.Você precisa de uma câmera escondida pra ver a cara da corrupção. Afinal, só a TV pode mostrar a corrupção, nenhum outro órgão ou entidade tem credibilidade pra ver esse problema e combatê-lo!

Daí você lê mais um pouco e descobre que na verdade não existe notícia! Explico:  o repórter em questão não “descobriu” possíveis corruptos, mas sim escolheu quatro empresas, sendo que três delas já eram investigadas pelo Ministério Público, por diferentes irregularidades. Em bom português: que denúncia é essa que o Fantástico está fazendo, que até o Ministério Público já está apurando? Como andam essas apurações? O que o Ministério Público tem de concreto e já pode divulgar pra imprensa sem prejudicar sua própria investigação?

É claro que o Fantástico não explicou nada disso, afinal… A pauta não era “as empresas investigadas pelo Ministério Público”, a pauta era “vamos brincar de mostrar a corrupção?”. Quer dizer você tem uma puta pauta matéria super relevante pra fazer, investigar os meandros das investigações que cercam os crimes relacionados à corrupção e tal, mas isso tudo é deixado de lado pra satisfazer a platéia.

Daí que o Fantástico conseguiu filmar a(s) cara (s) da corrupção! UAU! E o circo estava pronto, com as caras dos “empresários safados” e  a declaração de uma fonte da CGU:

“Existe uma noção pré-concebida contra o funcionário público, que ele é o mau, ele é o corrompível. Enquanto que o empresário, o setor privado, é puro, é eficiente, é eficaz. Associada à noção de que a empresa tem que entrar nesse jogo, porque senão ela não leva vantagem porque as outras vão fazer. Isso distorce o mercado, distorce a competição e no longo prazo prejudica todo mundo”

Sério, Fantástico? Cêjura? Engraçado, quer dizer que precisa de um cara da CGU pra chegar a essa brilhante conclusão?

Mas o Fantástico é o show da vida, a matéria não podia terminar com esse incrível chavão, tinha que ter uma gracinha:

“Eles [os corruptos] não sabiam que estavam sendo filmados. Mas sabiam bem o que estavam fazendo.”

Moral da história: se não é a Globo pra mostrar pra gente o que é corrupção a gente nunca saberia o que é isso, não é verdade?!?

Quer dizer, a reportagem acabou e você se sente bem informado pois tudo o que você já sabia sobre corrupção se confirmou: a reportagem apenas reiterou uma série de clichês mais ou menos disseminados na população sem apresentar nada de novo do que você já está careca de saber.

Questões que a Globo não aborda – e que poderiam ser exploradas:

- Como os órgãos/instituições/instâncias lidam com denúncias de corrupção? Há eficiência desses órgãos? Como ela é mensurada?
- Que riscos correm as pessoas que denunciam determinados tipos de corrupção?
- Quantas pessoas já foram presas por crimes relacionados à corrupção?
- Como eu faço pra saber quanto de recurso um hospital público recebeu e quanto ele está gastando? Quais dados são abertos, quais são fechados?
- Qual o papel do Ministério Público? Ele está investigando as empresas que foram apontadas na matéria como corruptas, mas como está investigando? Quem denunciou?
- Qual o papel da Polícia Federal? Qual é a dificuldade em se obter dados de crime de colarinho branco no Brasil?
- Qual o papel dos movimentos sociais organizados que lutam para combater os diversos tipos de corrupção ou pra criar mecanismos dêem mais transparência ao uso dos recursos públicos?

Enfim, o Fantástico acha que está informando. E eu não duvido que muita gente termine de assistir à matéria e se sinta plenamente informado com aquilo.

Mas eu acho que Fantástico está, na verdade, deseducando: porque a pessoa tem a sensação de que está informada quando na verdade não está. E isso é mais perigoso do que se supõe! Reiterar lugares-comuns não faz pensar, não mobiliza, não envolve a sociedade, não promove mudanças.

É possível que o Fantástico tenha conseguido a proeza de conscientizar alguém que sempre achou que empresário é santo e funcionário público é que é sempre corrupto… É possível.

Mas será que essa foi a única coisa que se salvou na reportagem inteira, de vários minutos? A única coisa que precisava ser dita sobre corrupção era isso “empresários também corrompem”?

Ok. Desculpem meu desabafo, talvez eu seja mesmo uma criatura muito estressada.

Mês da mulher

Neste mês de março quero registrar algumas coisas sobre a temática da mulher. A primeira delas é que estou lendo um livro fantástico da Ivone Gebara: “Vulnerabilidade, justiça e feminismos“. É uma coletânea de textos com a qual estou me identificando plenamente e que eu só sinto por não ter tido acesso antes. É motivo de felicidade saber que temos uma teóloga feminista tão fantástica entre nós! Um trecho sobre o que ela fala sobre o pluralismo:

Hoje, por isso e por outras razões, estamos sem referências unificadoras ou referências capazes de fazer uma unidade mínima para uma convivência mais ou menos decente entre os diferentes grupos e pessoas. É esta a questão central do pluralismo. Hoje tomamos consciência, mais uma vez e de forma crítica, de que somos plurais e de que nesse pluralismo estaria a razão de nossas discórdias, mesmo se concordamos que esse pluralismo é igualmente a razão de nossa riqueza. Descobrimos que nos falta uma ética comum que possa nos ajudar a renegociar nossa convivência, que nos falta um modus vivendi mais respeitoso de nossos direitos e aspirações. Falta-nos redescobrir caminhos de convivência com o “próximo” e redescobri-lo na sua integridade e originalidade.

Em segundo lugar, gostaria de registrar que publiquei no portal Blogueiras Feministas uma entrevista com a Olívia Muniz Wanderley, uma indígena Pataxó Hãhãhãe que está denunciando ameaças de estupro na comunidade dela que fica no sul da Bahia. É muito triste que situações como essa ainda aconteçam em regiões de conflito em nosso país. Mais lamentável ainda saber que há uma pendência legal rolando há 20, 30 anos (já nem sei contar mais…) e que talvez os senhores juízes e demais autoridades pouco se impotem com as conseqüências da lentidão desse processo.

Em terceiro lugar gostaria de registrar que é muito difícil falar sobre o dia internacional da mulher (que já passou, foi no dia 8 de março, eu sei…;-P) porque há sim, muita coisa pra comemorar: o fato de eu estar aqui escrevendo foi uma conquista de mulheres muito guerreiras que vieram antes de mim (é sempre bom lembrar que se hoje nós mulheres temos algum resquício de eqüidade ela não caiu do céu, como querem algumas pessoas), o voto da mulher, a mulher presidenta e talz tudo isso é ótimo. Mas aqui no Brasil ainda estamos sendo mal remuneradas (mulheres nas mesmas funções de homens estão recebendo salário inferior), violentadas (mês passado os jornais registraram estupro coletivo, nete mês o caso escandoloso da vez foi o estupro de uma senhora de 72 anos) e sofrendo uma série de preconceitos que só fazem piorar uma situação que já é delicada.

Cada vez mais tendo a acreditar que nós precisamos de uma revolução no campo das ideias: é preciso uma educação que possa desconstruir o machismo que ainda permeia nossas relações. É preciso que exista uma educação para que as pessoas possam repensar suas atitudes, sua própria cultura, seus valores. É preciso discutir piadas sexistas, livros sexistas, programas de televião sexistas, publicidades sexistas e todas as expressões que sustentam o machismo, esse monstro que não escolhe raça, cor, credo, sexo (sim, existem mulheres machistas, infelizmente) situação financeira ou intelctual, e que leva a mulher a uma situação de inferioridade na esfera pública e privada.

Mas tudo isso são palpites. Posso mudar de ideia.

Comunidade Pataxó Hãhãhãe da TI Caramuru-Paraguaçu denuncia abusos da Polícia Federal

Direto de Salvador (BA): acredito que essa denúncia merece investigação. A nossa imprensa não cobre conflitos de terra entre indígenas e fazendeiros – até quando?

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A comunidade Pataxó Hãhãhãe tomou conhecimento de que o comandante que está conduzindo as operações da Policia Federal na Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu foi o mesmo policial que atirou na perna de um indígena da comunidade Tupinambá de Olivença. O indígena teve que se submeter a operação de amputação de sua perna em razão deste tiro. A operação da Policia Federal na área Tupinambá foi considera pelos indígenas e por todas as organizações indigenistas, assim como de direitos humanos, como abusiva e extremamente autoritária.

Recebemos também a notícia de que a Polícia Federal esteve agora pela tarde em uma das áreas recentemente ocupada da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, onde está instalada a “fazenda” Oriente, acompanhada do “dono” da “fazenda” e seus “funcionários” revistando as coisas dos indígenas sob alegação de que estavam buscando objetos roubados pelos indígenas. Chegaram à área dizendo que os indígenas haviam roubado os pertences dele (o fazendeiro). A polícia os acompanhando deixou o fazendeiro e seus “funcionários” à vontade para revirar as sacolas etc. dos indígenas. A Polícia Federal junto com o fazendeiro obrigaram a indígena Maria Souza Melo que estava na área a assinar um documento do qual ela não tinha nenhum conhecimento do conteúdo, em flagrante infração à lei.

A comunidade Pataxó Hãhãhãe está revoltada diante dos fatos narrados, e considerando que a operação da Policia Federal está criando mais insegurança para a comunidade e aumentando a violência contra os indígenas, solicia a imediata substituição dos policiais federais e de seu comandante.

Salvador, 03 de março de 2012

Samuel Wanderley e Olinda Muniz Wanderley
Correspondentes dos Pataxó Hãhãhãe em Salvador