Lançamento do livro “Por trás da notícia”

fevereiro 23, 2012

Anotem na agenda: o lançamento do livro Por trás da notícia (Summus Editorial), do jornalista Edson Flosi, acontece no dia 13 de março, terça-feira, a partir das 19h, na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista, 509, tel. 0/xx/11/2167-9900. A obra reúne 15 grandes reportagens escritas entre 1968 e 1980, parte delas publicadas na Folha de São Paulo. O professor Edson Flosi dava aulas memoráveis na Faculdade Cásper Líbero – só vim descobrir muito depois a real dimensão das coisas que ele ensinava. O jornalista Claudio Julio Tognolli descreveu Edson Flosi da seguinte forma:

“Quando a ditadura comia solta, sobretudo a partir de 1968, Flosi aprimorou uma técnica marota de avisar aos guerrilheiros urbanos de que eram procurados. Estampava no jornal suas fotos, com a legenda tamanho de pescoços de garrafa de champanhe, gritando “Procurados”. Obvio que a maioria dos insurrectos vermelhos via o jornal e dava no pinote. O estratagema logo foi descoberto pelos homens de verde. Talvez por ser tão assim intimorato, sem medo de nada, Flosi fez-se o jornalista policial mais admirado pelo finado Claudio Abramo. Boa parte de sua vida ele reportou para a Folha de S. Paulo. Até que, em 1990, acometeu-lhe uma síndrome de Teresa Batista Cansada de Guerra. Não alterou um milímetro o seu jeito de ser, só que agora queria ser advogado. O dia D foi uma conversa que travou com o repórter Fausto Macedo, numa praça na zona norte de São Paulo, no começo dos anos 90. “Olhei para o Fausto, ele para mim. Chegamos à conclusão que, das milhares de reportagens, que fizemos contra corruptos, no meu caso por 30 anos, nenhuma havia dado algum resultado. Percebi que, em termos de combate à corrupção, o Brasil era um país falido”.

Ler o livro do Flosi é conhecer uma importante passagem da história da nossa imprensa e também uma oportunidade de resgatar as boas inspirações que ainda movem alguns jornalistas, apesar da hostilidade das modernas redações. ;-)

Capa do livro Por trás da notícia


A vergonha é de quem comete o estupro!

fevereiro 17, 2012

Isabela e Michele

Isabela Pajussara Frazão Monteiro (27 anos) e Michele Domingues da Silva (29 anos) foram estupradas e mortas num crime terrivelmente bárbaro (não consigo classificar de outra forma): foram vítimas de um estupro coletivo oferecido como presente de aniversário de um irmão para o outro. Os dois irmãos que organizaram o evento teriam simulado um assalto, com a ajuda de outros homens, para violentar as mulheres convidadas, usando capuzes e máscaras de carnaval. Seis mulheres foram agredidas e estupradas.

A notícia me deixou muito angustiada. Na verdade, no momento em que eu li a notícia eu não consegui pensar em nada – só me deu vontade de vomitar. Passado o choque inicial, a notícia chamou a minha atenção pelos seguintes fatores:

1. Os estupradores eram “amigos” das vítimas – o que desmitifica aquela história de que só maníacos desconhecidos atacam mulheres nas ruas, num beco, num local de pouca circulação

2. Os estupradores planejaram o estupro, ou seja: vários homens premeditaram o ato. Cai por terra aquela velha desculpa
esfarrapada de que homem só comete estupro porque não consegue conter um impulso sexual “provocado” por alguma atitude/comportamento da vítima.

3. O fato de um “estupro” ser percebido não por um, mas por vários homens, como um “presente” de aniversário – em algum lugar da nossa cultura machista mora a ideia de que o “estupro” é uma espécie de brincadeira, uma contravenção, é como jogar ovo e farinha num aniversariante, é banalizado e entendido como uma atitude bem humorada.

4. A imprensa fez uma cobertura muito fraca sobre o caso, o que me espanta pois é uma história de alto interesse jornalístico para se debater políticas públicas de proteção às mulheres. É o momento ideal para que jornalistas pudessem entrevistar mulheres, sociólogxs, criminalistas, psicólogxs e, enfim, tirar o tema do sensacionalismo lugar-comum e propor ações coletiva de enfrentamento à essa violência tão cruel contra a mulher que é o estupro.

Um passeio pelos portais de notícias brasileiros nos dá a ideia de como as pessoas entendem o estupro: há uma parcela da sociedade que clama simplesmente pela pena de morte para os estupradores – mesmo sabendo que não existe pena de morte na nossa legislação. Há outra parcela que insiste em colocar a culpa na própria mulher, ora questionando as companhias que ela escolhe, ora questionando o tamanho da saia, o tipo da roupa, o local que ela frequenta, etc. Poucos ousam sair desses extremos – poucos procuram entender melhor o problema, saber mais sobre o assunto para melhor lidarem com ele.

Há uma ignorância coletiva que em nada contribui para a transformação da realidade. Afinal, o que podemos fazer para evitar os estupros? Como criar uma sociedade em que homens respeitem as mulheres?

Como evitar?
Não, eu não tenho todas as respostas e acredito que ninguém sozinho as tenha. Também não posso me dar ao luxo de testemunhar esse problema e me esconder nas cavernas. Tenho alguns palpites que gostaria de compartilhar.

Por ter ouvido e lido muitas histórias de mulheres que sofreram abusos sexuais, sei que há um fator de fragilidade que atinge a todas nós, mulheres: é a vergonha. Mesmo para uma mulher madura ciente de seus direitos denunciar um estupro é um ato de coragem, na nossa cultura. O grande número de mensagens nas caixas de comentários dos portais de notícias culpabilizando a mulher pela violência que ela sofreu são indícios de que infelizmente há uma corrente forte de pessoas que compactuam com esse comportamento machista.

Por isso, se eu fosse iniciar qualquer campanha nas escolas, nas igrejas, nos bares, nos teatros, na televisão, nos programas de humor, eu diria o seguinte: a vergonha é toda deles, que cometem o estupro! Cometer estupro é um ato que deveria envergonhar todos os homens, toda a humanidade. Cometer estupro é um ato extremamente covarde e assim deve ser repudiado.

A gente precisa começar a inverter essa lógica da nossa cultura que culpabiliza mulheres pelos estupros que sofrem. A mulher não tem culpa de ser mulher, de ser mulher e andar na rua, de ser mulher  e usar saia curta, de ser mulher e participar de uma festa! Homem que estupra é que é responsável por cometer estupro, ele é que precisa abrir mão do comportamento violento dele. A mulher não deve abrir mão de ser livre!

Essa é a minha pequena contribuição para a blogagem coletiva em repúdio ao caso de estupro e assassinato como presente de aniversário. Espero poder ler mais gente falado sobre o tema bem como participar de ações que possam reduzir ou quem sabe erradicar o problema do estupro em nossa sociedade.


Uma perdigota

fevereiro 1, 2012

Algumas pessoas acreditam que as denúncias gravadas nesse vídeo não passam de boato – um delírio coletivo numa situação de tragédia, nada mais nada menos do que isso. E pode ser que seja tudo mentira. Mas quem sou eu pra julgar que essas pessoas são mentirosas? Prefiro divulgar o vídeo e pedir apuração das denúncias. Prefiro ser vista como perdigota, como pessimista ou irresponsável a correr o risco de passar pra história como aquela que julgou e desqualificou sumariamente a voz de um ser humano que perdeu uma casa não num alagamento causado por chuvas ou fenômeno da natureza, mas de uma forma perfeitamente evitável. Perfeitamente evitável, essa miséria.


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