Um corpo carbonizado

Se você estvisse numa caminhada ecológica e de repente se deparasse com um corpo carbonizado de uma criança no meio do mato, o que você sentiria? O que você faria? Chamaria a polícia? Certamente você seria ouvido, um inquérito seria aberto, haveria um processo na justiça. Talvez sua história poderia ser contada por um grande veículo de comunicação. Quem sabe? Mas haveria um inquérito, nosso país tem leis que devem ser respeitadas por todos.

Certo?

Em tese deveria ser assim. Mas em certas regiões do Brasil o que existe não é a lei, é a barbárie. Em outubro de 2011, um índio guajajara se deparou com um corpo carbonizado, aparentemente de uma criança de oito anos, na cidade de Arame, região central do Maranhão. Dizem até que ele filmou com um celular, mas as imagens não vieram a público. O fato é que ele procurou uma autoridade competente – a Funai – e esta ainda não pôde verificar a denúncia. Motivo? A Funai informa: “Como é uma região de conflitos, é bastante perigoso andar por lá”. Até hoje, 8 de janeiro de 2012, nada foi esclarecido.

Ou seja, há uma denúncia, há um corpo carbonizado, mas não se apura nada porque a autoridade não consegue sequer chegar ao local perigoso. E sem poder apurar a denúncia, como fazer valer a lei? Os poucos jornais que acolheram a denúncia do índigena que encontrou o corpo carbonizado ainda padeceram do descrédito: “Será que esse corpo existe mesmo? Será que é mesmo de uma criança assassinada?”. Perguntas que ficam entre o excesso de zelo ( sim, jornalismo é verificar, verificar, verificar) ou cinismo puro e simples (assassinatos em conflitos agrários são possíveis num país que já teve Chico Mendes, Dorothy Stang, Maria do Espírito Santo da Silva e José Claudio Ribeiro da Silva e outros tantos outros mortos…)

Sim, eu reconheço que, por princípio, cabe ao acusador o ônus da prova, e toda notícia precisa se checada. Acho válido tudo isso. Mas ao mesmo tempo eu me preocupo muito quando a bandidagem dá xeque-mate nas regras. Qual é o jornalista em sã consciência que vai se meter a entrar numa região em que nem a Funai acha seguro entrar? Ou será que a bandidagem venceu, e nem Funai pode apurar, nem jornalista pode ousar escrever a história sem ferir as próprias regras?

Se você for seguir rigorosamente o princípio de só se publicar uma notícia de um corpo carbonizado ao ver o corpo carbonizado, como faz? Deixa de noticiar? Deixa a bandidagem acreditar que a voz de um indígena não é uma voz, portanto basta deixar uns pistoleiros de tocaia pra atacar o primeiro não-indígena que experimentar conferir o corpo carbonizado?

É ou não é sério, Brasil? Confiamos ou não confiamos em nossos índios nesse contexto de conflito? Ao menos para iniciar uma investigação?

Ouvi de um jornalista que já trabalhou diretamente com indígenas, no Maranhão, há 20 anos, e que hoje acompanha as notícias via entidades não-governamentias e sites alternativos: “Se a Polícia Federal aparecer naquela região haverá uma trégua. Mas assim que a Polícia sair do local, tudo voltará a ser como antes: pistolagem, assassinato, intimidação”. Daí eu perguntei pra essa pessoa o que é que precisa ser feito pra se resolver esse conflito todo. E a pessoa me respondeu, resignadamente: não há o que ser feito.

Quando a bandidagem consegue paralisar até as esperanças das pessoas é porque algo de muito grave está acontecendo. É porque a bandidagem está vencendo! Precisamos urgentemente, em primeiro lugar, recuperar as esperanças, debater soluções, colocar o assunto na roda, encontrar alternativas.

Repudio qualquer ato de indignação covarde, do tipo querer o linchamento dos responsáveis pela morte da criança carbonizada (como fizeram com a mulher que bateu no cachorro até a morte). Mas acredito que o meu papel, por agora, é cobrar, principalmente do governo federal, a imediata apuração dessa denúncia. Em segundo lugar, cobrar um plano urgente pra essas regiões de conflito que não fosse só uma ação militar, mas que também fosse um plano social-ambiental-jurídico-econômico de médio prazo. Um PAC do conflito agrário ou algo do tipo, que pudesse dar conta especificamente das regiões que passam por esses problemas. Em terceiro lugar cobrar das pessoas que não têm nem esperança, que se mobilizem! Que denunciem, que pressionem por uma solução, porque pressionar, a essa altura do campeonato, é um gesto de coragem – mesmo que uma ou outra pessoa apareça para desqualificar esse tipo de ação. Em quarto lugar, e não menos importante: vamos dar crédito para os blogs independentes, jornais comunitários e veículos alternativos no geral – apoiar a diversidade de fontes é importante para dificultar o trabalho da bandidagem.