Rosângela Santos: atleta, negra, medalhista e… patinho feio (?!?)

novembro 22, 2011
Rosângela Santos

Rosângela Santos

Neste ano, o portal UOL colocou na sua home page a foto da atleta negra Rosângela Santos que conquistou medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de Guadalajara.  O texto da legenda era “Pan: patinhos feios salvam Brasil com ouros inesperados”, e um link para a reportagem: Patinhos feios salvam o dia do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. A legenda da foto causou indignação entre os internautas – até hoje os comentários estão disponíveis, questionando inclusive o motivo do portal ter mudado a chamada da matéria repentinamente, sem dar explicações aos leitores.

Acredito que o preconceito não foi intencional – a matéria oferece indícios suficientes para entendermos outros sentidos para o texto da chamada. No entanto, a chamada infeliz foi suficiente para atingir os leitores, que estão a cada dia mais atentos aos sinais de racismo que possam aparecer, mesmo que involuntariamente, nos textos jornalísticos.

Esse episódio nos faz pensar sobre algumas coisas: primeiro, como a imprensa retrata as mulheres negras na mídia – será que Rosângela Santos não merecia uma notícia mais bem escrita para guardar de recordação sobre sua carreira? Fiquei imaginando a atleta, depois de conquistar uma medalha de ouro e talvez o melhor tempo de sua vida, ainda ter a sua história contada sob a perspectiva negativa, de um patinho feio. É com essa disposição que a gente conta a história dessas mulheres? Da onde vem essa má vontade? Para a nossa sorte, os jornalistas hoje podem contar com cursos sobre gênero, raça e etnia, ou seja, existem alternativas para quem quer se aperfeiçoar e errar menos.

Em segundo lugar,  nos faz pensar em como a internet está conseguindo causar mudanças antes nunca imaginadas. Os leitores reclamaram na caixa de comentários da matéria e rapidamente os editores do UOL tiveram que modificar a chamada. Nos velhos tempos de jornal impresso, nunca saberíamos quantos leitores reclamariam de um texto com índicios racistas e se os jornalistas estariam dispostos a mudar de atitude diante dessa reivindicação.

A blogueira Lola Aronovich escreveu um artigo mais aprofundado falando sobre esse racismo velado, que vem disfarçado de “feio”. Destaco esse trecho aqui:  “Poucas pessoas assumem que foram e continuam sendo condicionadas a achar que o belo é ter olho claro, cabelo liso e de preferência loiro, traços “finos”, e pele branca com um pouco de bronzeado. A galera que acha sexy os lábios carnudos da Angelina Jolie parece achar horríveis os lábios carnudos de tantos negros. Mas essa gente nunca assume seu racismo. Diz apenas que é uma total coincidência não gostar de negros”.

Dia 20 de novembro é o Dia da Consciência Negra – é dia de pensar no racismo que está escondido dentro de nós, no nosso inconsciente, e que precisa ser desconstruído cotidianamente. Aproveito para parabenizar a nossa atleta Rosângela Santos, que merece uma brilhante comemoração pelo excelente resultado conquistado nos Jogos Panamericanos de Guadalajara. Rosângela, nós temos muito orgulho de você!

* Esse texto faz parte da blogagem coletiva do portal www.blogueirasfeministas.com – leia também os outros posts que também participaram dessa chamada


Belo Monte: notas de um jornalismo deselegante

novembro 19, 2011

Hoje me deparei com um texto escrito por um jornalista que é um exemplo triste do que pode produzir a nossa imprensa. O autor se vangloriava de ser mais inteligente do que uma turma de artistas que resolveu colocar a cara pra bater e se posicionar contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte.  Se vangloriava, vejam só, por “saber” usar o google. Ele, um jornalista, estava a um só tempo, criticando a publicidade feita por um grupo de pessoas e aproveitando a ocasião para compartilhar como público seu vasto conhecimento sobre o tema.

Até aqui tudo bem, toda publicidade deve ser questionada. E o bom jornalismo está aí para isso, para contextualizar as informações que são divulgadas no espaço público. A intenção do autor do texto é mais do que legítima – mas entre a intenção e o texto, o leitor ficou no meio do deserto.

Primeiro o autor reclama dos artistas, dizendo que artistas são pessoas comuns “tão ignorantes em assuntos de represas no Pará como quase todo mundo”. Mas o que deveria servir para simplesmente dimensionar a fala de artistas, colocá-las como uma categoria de pessoas que  têm forte dependência da imagem para viver e que estão ali arriscando a pele para defender uma ideia, seja ela qual for, o texto tomou um outro rumo. Dirigiu-se para a desqualificação arrogante, tratando os artistas como se eles fossem estúpidos, e como se eles tivessem a obrigação de oferecerem uma abordagem jornalística daquilo que estavam falando em um vídeo claramente publicitário.

Não, coleguinha. Artistas não têm compromisso com o jornalismo. Artistas têm liberdade de opinião política, apenas isso. Como qualquer outro cidadão desse país, aliás. Artistas não devem ser cobrados pelo trabalho de informar a população sobre uma obra do porte e da complexidade da hidrelétrica de Belo Monte. Se os artistas estão se posicionando baseados em informações falsas, isso pode demonstrar, no mínimo, o  quanto nós, jornalistas, estamos errando na divulgação desses dados.  Pode ser indício de outras coisas também, mas daí a cobrar deles profundidade? Em uma campanha publicitária?

Outra coisa: ao contrário dos artistas, nós, jornalistas, temos compromisso com a informação. Cabia ao autor do texto, jornalista, abordar o tema com seriedade. Usar termos jocosos e dar uma passeada pelo google não torna ninguém jornalista, muito menos um jornalista bom. Ocupar a coluna de um portal não é a mesma coisa que fazer vídeo publicitário.

É aqui que gostaria de deixar algumas perguntas: se o autor passeou no google, porque não se deu ao trabalho de mencionar em seu texto artigos de antropólogos e cientistas que são contrários a Belo Monte? Por que não teve a curiosidade de saber o que pensam os indígenas a respeito? Por que o autor não procurou mencionar as pendências técnicas em torno da obra? Por que o autor sentiu dificuldade de admitir que podem existir outras alternativas a obra? Por que o autor se esqueceu de mencionar as questões judiciais que envolvem a construção da obra? Por que não achou importante mencionar sob o comando de quem está o Ministério que está tocando a obra? Por que não citou empresas que poderão ser diretamente beneficiada por essa usina?

Se o autor do texto queria fazer apenas um panfleto político tão raso quanto o vídeo criticado, para que usar uma coluna jornalística em um portal? Para que se vangloriar dos conhecimentos “jornalísticos” de uma passeada no google? Isso me soa tão patético! É desrespeitoso com os jornalistas profissionais que estão na rua, que estão lá no Pará cobrindo o dia-a-dia dos ribeirinhos, das populações que serão atingidas pelas barragens, do Ministério Público, dos movimentos sociais e ONGs. Esse tipo de jornalismo é deselegante com o público, que merece ao menos um pouco mais de esclarecimento pra poder se situar no debate.


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