Neste ano, o portal UOL colocou na sua home page a foto da atleta negra Rosângela Santos que conquistou medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de Guadalajara. O texto da legenda era “Pan: patinhos feios salvam Brasil com ouros inesperados”, e um link para a reportagem: Patinhos feios salvam o dia do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. A legenda da foto causou indignação entre os internautas – até hoje os comentários estão disponíveis, questionando inclusive o motivo do portal ter mudado a chamada da matéria repentinamente, sem dar explicações aos leitores.
Acredito que o preconceito não foi intencional – a matéria oferece indícios suficientes para entendermos outros sentidos para o texto da chamada. No entanto, a chamada infeliz foi suficiente para atingir os leitores, que estão a cada dia mais atentos aos sinais de racismo que possam aparecer, mesmo que involuntariamente, nos textos jornalísticos.
Esse episódio nos faz pensar sobre algumas coisas: primeiro, como a imprensa retrata as mulheres negras na mídia – será que Rosângela Santos não merecia uma notícia mais bem escrita para guardar de recordação sobre sua carreira? Fiquei imaginando a atleta, depois de conquistar uma medalha de ouro e talvez o melhor tempo de sua vida, ainda ter a sua história contada sob a perspectiva negativa, de um patinho feio. É com essa disposição que a gente conta a história dessas mulheres? Da onde vem essa má vontade? Para a nossa sorte, os jornalistas hoje podem contar com cursos sobre gênero, raça e etnia, ou seja, existem alternativas para quem quer se aperfeiçoar e errar menos.
Em segundo lugar, nos faz pensar em como a internet está conseguindo causar mudanças antes nunca imaginadas. Os leitores reclamaram na caixa de comentários da matéria e rapidamente os editores do UOL tiveram que modificar a chamada. Nos velhos tempos de jornal impresso, nunca saberíamos quantos leitores reclamariam de um texto com índicios racistas e se os jornalistas estariam dispostos a mudar de atitude diante dessa reivindicação.
A blogueira Lola Aronovich escreveu um artigo mais aprofundado falando sobre esse racismo velado, que vem disfarçado de “feio”. Destaco esse trecho aqui: “Poucas pessoas assumem que foram e continuam sendo condicionadas a achar que o belo é ter olho claro, cabelo liso e de preferência loiro, traços “finos”, e pele branca com um pouco de bronzeado. A galera que acha sexy os lábios carnudos da Angelina Jolie parece achar horríveis os lábios carnudos de tantos negros. Mas essa gente nunca assume seu racismo. Diz apenas que é uma total coincidência não gostar de negros”.
Dia 20 de novembro é o Dia da Consciência Negra – é dia de pensar no racismo que está escondido dentro de nós, no nosso inconsciente, e que precisa ser desconstruído cotidianamente. Aproveito para parabenizar a nossa atleta Rosângela Santos, que merece uma brilhante comemoração pelo excelente resultado conquistado nos Jogos Panamericanos de Guadalajara. Rosângela, nós temos muito orgulho de você!
* Esse texto faz parte da blogagem coletiva do portal www.blogueirasfeministas.com – leia também os outros posts que também participaram dessa chamada

Escrito por Amanda 
