E o desejo de ser mãe, onde fica?

Sou mãe de uma menina linda, querida, desejada, amada. A maternidade tem me tornado cada vez mais feminista pois, longe de ser uma idealização, ser mãe é um ato político.  Não se é mãe sozinha: se é mãe dentro de um contexto social que inclui creche/babá/escola, horários flexíveis no trabalho, tempo para levar a criança ao médico, tomar vacina, passear, conviver com outras crianças. E se a gente olhar friamente para a nossa sociedade, ela é muito cruel para com mães e crianças, mesmo aquelas financeiramente privilegiadas. As cobranças de sucesso são grandes, o individualismo é a regra e os incentivos são mínimos.

Mesmo assim escolhi ser mãe: quis trazer para o mundo uma criança, seguindo o meu desejo de criar um ser humano, por mais que isso soe uma ousadia. Trouxe porque acredito no amor e na vontade de ser feliz. Acredito que ser mãe é um risco diário de se decepionar, se trair, errar – e também o risco de ter frágeis momentos de felicidade e completude. Corro o risco diário de ser recompensada com o sorriso de uma criança no meio de um dia derrotado, em que todo o planejamento foi por água abaixo e você só queria deitar e dormir. Daí você percebe  que aquela gargalhadinha é uma versão deliciosa de um travesseiro que você nunca sonhou que pudesse existir.

Sei que pareço estar divagando, caindo em contradição com o que foi escrito no primeiro parágrafo. Mas saiba você, leitor (a), que essa fofurice toda nasce da vontade. Nasce do desejo genuíno de ser mãe para o que der e vier. Para acordar de madrugada é o mínimo – eu me preparo até para o pior dos pesadelos de uma mãe de primeira viagem que tem bebê em casa: para o caso de minha filha adoecer gravemente ou sofrer algum acidente.

Falo tudo isso para lembrar que o debate sobre o aborto precisa passar por uma séria reflexão do que significa a maternidade e o desejo de ser mãe. Como é que a sociedade tem preparado as nossas mulheres para isso? Será que nós, mulheres, estamos recebendo o suporte necessário? Nem me refiro a questão financeira, que também é importante, mas em relação ao psíquico: será que a sociedade está despertando o desejo de ser mãe nas mulheres ou estamos enlouquecendo a mulherada com tantas obrigações?

Tem gente que acha que proibir o aborto é uma forma de conseguir transformar uma mulher em mãe. Bizarro, não?! Como se ser mãe fosse expiar alguma “culpa”  derivada de sexo inseguro, de uma incompetência por não saber tomar uma pílula ou não saber cobrar do homem o uso da camisinha ou coisa que o valha. Estão conseguindo transformar a maternidade em culpa, em desgosto, em castigo, e não na causa amorosa que deveria ser.

Até quando a sociedade vai encarar a maternidade como uma culpa a ser expiada, e não como uma vontade genuína de se criar um ser humano com amor e generosidade? Será que é mantendo uma lei que proíbe o aborto que a sociedade vai conseguir transformar em mãe um a mulher que não deseja ser mãe?!

Em tempo [1]
Não, eu não acho que o aborto é a única solução para o problema das mulheres que não querem ser mães. Mas acho que o tabu e o conservadorismo que povoam esse assunto estão impedindo, por exemplo, que as mulheres sejam decentemente atendidas nos hospitais. E como bem lembrou o Dr. Drauzio Varella, “Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente”. Também acredito que descriminalizar o aborto e legalizar a prática é uma forma de monitorá-lo, de conversar mais com essas mulheres, de saber o que está acontecendo, de efetivamente ajudar a reduzir mortes de mulheres jovens e pobres por esse Brasil.

Em tempo [2]
O tabu e o conservadorismo também são responsáveis pelo comodismo que perpassa as políticas públicas voltadas para as mulheres, as mães e as crianças. Em todos os lados se pensa a mulher como uma missionária, que deve arcar com milhões de responsabilidades e sem receber nenhum apoio moral, financeiro ou que o valha. As profissões tidas como femininas têm as menores remunerações, a jornada de trabalho de homens e de mulheres não permite que exista uma convivência maior entre pais e filhos, as creches públicas são raras, o orçamento para educação é ínfimo, o orçamento para combater violência doméstica contra mulheres é pequeno, as mulheres recebem menos quando executam os mesmos trabalhos dos homens e assim caminha nossa agenda pública. Como proibir o aborto não vem surtindo resultado, convido todos os religiosos a apoiarem as causas das mulheres se eles desejarem de fato dar mais suporte à maternidade. ;-)

*Hoje é dia 28 de setembro,  dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Esse post faz parte da blogagem coletiva organizada pelo site www.blogueirasfeministas.com

32 comentários sobre “E o desejo de ser mãe, onde fica?

  1. Pingback: Blogagem Coletiva Pela Descriminalização e Legalização do AbortoBlogueiras Feministas | Blogueiras Feministas

  2. eu penso que descriminalizar e legalizar o aborto seria a forma mais ética e eficaz de evitar o enorme número de abortos e as estatísticas de morte de mulheres que praticam o aborto clandestino. qd nos deparamos com números, desumanizamos o problema que antes de ser jurídico é social. a moralidade deve ser substituída pela sensatez e por uma ética política-social. adorei esse texto. só não consigo encontrar o nome da autora para felicitá-la pela visão lúcida sobre o assunto tratado. e estou de acordo, ser mãe é um ato político pois é uma forma de acreditar no amor entre os homens. ser mãe deve ser uma escolha e não um purgatório para expiar culpas sociais e religiosas.

    um abraço,
    patrícia mc quade

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  4. Aborto legal agora e sempre! O Brasil tem que deixar a lama medieval em que se encontra. Sem o aborto, a criminalidade nunca vai cair. O aborto é um direito da mulher. Quem é contra, é contra a mulher.

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  6. Outro ponto que raramente vejo alguém tocar, é de meios contraceptivos mais práticos que ter uma camisinha ou garantido que lembrar da pílula todos os dias, que seria cirúrgica (ligadura das tubas ou laqueação das trompas) ou mesmo o DIU.

    Eu, por exemplo, decidi ainda antes da primeira menstruação que não quero ter filhos, já estou com 27 anos e nunca mudei de ideia. Porém os ginecologistas insistem que não podem colocar o DIU em mulher que não tem filho nenhum, pois se eu for um dos raríssimos casos que venha a ficar permanentemente estéril, poderei processar o médico e ganhar a causa -.-

    • Concordo com você, Luara. É como se as mulheres não tivessem capacidade de pensar por si sós. Eu vivo a mesma situação, já tenho 38 anos, a cada dia mais convicção de que não quero ser mãe e nunca pude contar com apoio médico para isso da forma como você colocou. E olha que peço desde minha primeira ida ao ginecologista, aos 15 anos…

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  8. Bonito ver uma mãe tratar do assunto com tanta coragem e imparcialidade. Muitas mães caem na pieguice do “o aborto me impediria de ouvir as risadas gostosas dos meus filhos”, sem ponderar todo o contexto que vem junto com essa cena.

    Parabéns!

  9. “Tem gente que acha que proibir o aborto é uma forma de conseguir transformar uma mulher em mãe.”

    A função da criminalização do aborto não é transformar uma mulher em mãe, pelo contrário, é somente evitar a morte de um ser humano inocente, porque a mãe que não quiser ser efetivamente mãe, pode sem NENHUM problema levar seu filho para adoção, sem ter tirado seu direito a vida.

    • Laura,
      As mulheres que não concordam com você (e elas são inúmeras, têm diferentes motivações e razões) e que ultimamente têm contrariado a lei, ou têm dinheiro para realizar esse ato em segurança ou tentam abortar usando agulhas de tricô e métodos desse tipo, o que gera muitas mortes de mulheres. Entendo que você discorde dessas mulheres, mas você concordaria com pena de morte para essas mulheres? Porque é isso o que está acontecendo hoje. E são essas mortes que a descriminalização quer ajudar a diminuir. Esse é o ponto abordado pelo Dráuzio Varella. E é por isso que esse tema é tão sensível entre as feministas. Abraços!

      • Tudo bem, mas aí você vai estar trocando a morte da mãe que escolheu abortar pela do seu filho que não teve escolha. Escolheu abortar sim, porque ela poderia ter prevenido e ainda poderia botar seu filho pra adoção depois. Eu sou contra o aborto por isso. Pra mim, isso nem é um assunto feminista, porque a lei em nenhum momento é contra a mulher, mas, sim pra proteger outra vida, a do seu filho. Se existem milhões de mlheres que não concordam comigo, tudo bem, abortem do jeito que tiverem , mas mesmo que aborto fosse liberado, e feito em um clínica com todo cuidado médido, o risco pra mãe ainda existe, e a morte dessas mulheres ocorreriam da mesma forma. E ainda, a lei libera o aborto pra casos de estupro e risco de vida da mãe, então, acho que hoje em dia, com toda a informação, sabendo que aborto e crime e ainda traz risco de vida a mulher, porque fazer? É muito egoísmo achar que é anti feminismo não deixar uma mulher decidir sobre sua vida, já que ela está decidindo MATAR seu filho.

      • Laura eu não estou escolhendo nada. Os fetos já estão morrendo com suas mães juntos- ou isso não é um dado da realidade para você? A realidade mostra isso: um alto número de morte de mulheres em decorrência de tentativas de aborto com métodos questionáveis. Isso num país onde a lei criminaliza o aborto. Em tese a criminalização serviria para impedir o aborto, mas o fato é que ela não impede. Existem estudos sociológicos apontando que a lei não é um fator determinante para uma mulher deixar de abortar. Os fatores são outros como por exemplo, renda, situação familiar, financeira, crença, entre outros. Independente de sua opinião ou da lei, mulheres querem abortar e arriscam suas vidas por isso. Como Dr.Drauzio Varella apontou, para as mulheres ricas abortar não é um problema, mas sim é um problema para as mulheres pobres, pois elas morrem tentando. Daí, Laura, a sua conta não fecha – nem as mulheres deixam de abortar, e além de perderem o feto, perdem a própria vida. A luta é feminista porque o principal efeito da descriminalização recai sobre a vida da mulheres. O feto é geradopor um homem e uma mulher, mas quando o homem desiste da paternidade, ele nunca é criminalizado. A mulher, além de ser penalizada, ainda corre risco de vida. Em todos os países em que houve a descriminalização o número de morte materna diminuiu. Pense nesse dado! Se você ainda achar que essas mulheres merecem pena de morte porque querem abortar, daí vou parar de argumentar. Porque há quem pense assim, e se for esse o caso eu paro imediatamente de argumentar.

      • Oi, Laura.
        Espero que você me permita discordar um pouco. Quando falamos em aborto no Brasil estamos falando, na maior parte das vezes, de mulheres e adolescentes que não têm condições financeiras para bancar o procedimento assistido em uma clínica e, como disse a Amanda, acabam recorrendo a métodos muito perigosos que põem em risco suas próprias vidas. Você acredita, realmente, que uma adolescente de 13 ou 14 anos, muitas vezes pobre e sem informação, tem condição psicológica, financeira e emocional de carregar até o fim uma gravidez para depois entregar seu filho à adoção? Veja que, quase sempre, essa gravidez é indesejada – a criança será gerada sem qualquer amparo emocional de sua genitora. Outra coisa a ser levada em conta é que quando surge a notícia da gravidez, outras consequências funestas, principalmente em famílias conservadoras ou religiosas é que a filha “se perdeu” e não é mais “moça de família” e acabam sendo expulsas de casa e indo parar nas ruas. De que maneira essa mulher pode levar a cabo uma gravidez quando fica totalmente desamparada pela família? Então a “vida inocente” que está em jogo é mais importante do que a vida que a sustenta?
        Outra coisa importante a observar sobre o aborto é em qual fase da gestação ela poderia ser interrompida sem que isso caracterizasse, como me parece ser o seu pensamento, um assassinato? Há vários debates a respeito e o que tenho visto como sendo consenso é que esse período deve corresponder à fase embrionária, antes que o embrião se transforme em feto, o que significa dizer que seu sistema nervoso está efetivamente se desenvolvendo.
        Mas outra questão ainda mais básica sobre esse assunto é que nossas crianças e adolescentes não são educadas para uma vida sexual responsável. Quando repetimos comportamentos cristalizados e aceitos como lugar-comum (homens precisam exercer sua maturidade sexual desde cedo e mulheres devem ser recatadas e manter-se virgens até o casamento – uma equação que nunca pode fechar), impedimos as pessoas, homens e mulheres, de compreender suas responsabilidades, direitos e limites sexuais. Não isonomia no tratamento que a sociedade em geral dá aos comportamentos sexuais de homens e mulheres. Os primeiros detêm a primazia do prazer pelo prazer que às segundas é totalmente negada.
        Para não me estender muito, reflita nessas condições que coloquei (talvez não muito claramente pela limitação do espaço) e procure não emitir um juízo de valor tão definitivo sobre todas as mulheres que abortam. Posso concordar com você que algumas delas (poucas) talvez não tenham razão ou necessidade de abortar, mas infelizmente essa não é a realidade para uma grande maioria das mulheres. Em tempo: se tivéssemos uma educação eficiente, distribuição de renda igualitária, direitos constitucionais efetivamente garantidos (saúde, educação, trabalho), eu seria totalmente contra o aborto. Mas nas condições em que vivem tantas pessoas hoje, no Brasil, prefiro refletir e relativizar.
        Abraços

      • CONCORDO TOTALMENTE COM LAURA.

        E a principal frase: ” Tudo bem, mas aí você vai estar trocando a morte da mãe que escolheu abortar pela do seu filho que não teve escolha.”

        Só digo isso.

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  12. Eu acho que tem gente que pensa que se o aborto for descriminalizado, tropas federais vão tirar mulheres prestes a parir de suas casas e serão levadas a açougues onde os pobres bebês indefesos serão mortos.

    Peraí! Ôoo, gente, vamos pensar um pouco?? Um aglomerado de células não pode ser considerado um ser humano. E a vida da mulher?? E todo o psicológico dessa mulher que não quer levar adiante essa gravidez e que corre um sério risco de ter uma infecção, ficar estéril e de morrer se o procedimento for mal feito?? E a família dela, pois a maioria já tem filhos? Ninguém pensa nessas crianças, elas que se danem??

    Ser contra o aborto é uma posição pessoal, mas querer que as mulheres morram, considerá-las putas e vagabundas é ser um sádico cruel que não pensa na saúde pública nem no direito de decidir sobre seu próprio corpo.

    Hoje, eu Sybylla, não faria um aborto, mas eu nunca estive em uma posição de desespero, sem condições de levar adiante uma gravidez e gostaria que o meu governo me desse a opção segura de interrompê-la sem colocar minha vida e minha fertilidade em risco. Isso é ser dona de seu corpo, isso é decidir por si e pela sociedade, isso é pensar no futuro.

    Descriminalização do aborto já! Procedimento seguro para todas!

  13. quer abortar???entao use o seu dinheiro para pagar, nao o meu. Nao pago imposto para matar criancas. Seja no Brasil, nos EUA ou onse quer que eu esteja morando.

  14. Bom,

    Diferente da maioria que comentou, eu sou contra a legalização do aborto.

    Eu não acredito em benefícios para sociedade com tal solução. Vou enumerar alguns motivos para justificar meu ponto de vista, mesmo como leigo acho que vale apena opinar. =]

    A saúde pública hoje em dia não tem estrutura para suportar a demanda de abortos que seriam solicitados. Nós não temos dentista, pediatra, ginecologista, etc. Como suportar tal demanda? Com convênios particulares onde só quem tem grana poderia pagar?

    Ou seja, a legalização do aborto não acabaria com abortos ilegais.

    A idéia de que a mulher faz o que quiser com o seu corpo é egoísta e prepotente. Um feto não é parte do corpo de uma mulher, é um ser independete gerado por duas pessoas. Como se procederia em casos no qual o homem desejaria o filho por exemplo?

    Outro ponto a se observar é que os nossos filhos de fato não são nossos, eles são do Estado. Tanto é que quando você não cuida deles de forma correta o Estado nos tira o direito de educá-los.

    Há números que comprovam que o aborto não faz tão bem psicologicamente para a mulher quanto algumas pessoas defendem, isso é muito questionável para se usar como base de algum argumento.

    Além do que com essa alternativa poderia surgir atitudes ainda mais agressivas a mulher como por ex coibir uma gravidez. Imagine você um cara rico que paga para a sua empregada abortar um “bastardo” gerado pelo seu filho… Ou pior! sob a condição de morte…

    Entre outro argumentos que eu poderia citar.

    Eu acredito que quando um CASAL não deseja um filho ele tem o direito de colocá-lo em uma instituição para adoção. Isso é o mais correto a se fazer do meu ponto de vista.

    Bjuuus

    End Fernandes

    • Oi End, tudo bem? Vamos aos seus argumentos: o aborto foi descriminalizado na África do Sul, país com situação até pior do que a do Brasil. Lá o número de mortes tem diminuído – não tanto quanto nos países desenvolvidos, mas sim, diminuem. Essa dado muda a sua perspectiva? Veja mais dados do IPAS.

      Em relação ao argumento de que a mulher faz o que quiser com o corpo é prepotente por que? Acaso você considera a mulher uma pessoa por si só indigna de confiança? Se por um lado são homem e mulher que fazem o feto, por outro lado quem o carrega por 9 meses é a mulher. E quem corre risco de vida durante a gestação ou parto é somente a mulher. Concorda? Já parou pra pensar nessa pequenina diferença?
      Que a mulher corre risco de vida pra gerar um filho de um homem?

      Se você acha pouco pra depositar alguma confiança na mulher, tenho mais algumas considerações a fazer: estatisticamente são as mulheres que tomam conta das crianças e trabalham fora. As mulheres têm prioridade como beneficiárias de programas sociais como Bolsa Família pois elas culturalmente cuidam não só de crianças como de idosos e outros membros necessitados da família. Dinheiro na mão de mulher é, ao contrário do que está no imaginário das pessoas, é bem gasto. Socialmente elas são mais confiáveis do que os homens. As mulheres, mesmo ganhando menos quando ocupam as mesmas funções de homens, são aquelas que alimentam seus filhos e os colocam para estudar. Mães saem de casa para trabalhar e são avós que tomam contas de seus filhos, por exemplo. Homens tomando conta de crianças ou envolvidos em serviços e trabalhos que não têm remuneração ou de remuneração inferior são raros. E tudo isso não é dito só por feministas: o Fórum Econômico Mundial sabe que investir em mulher gera desenvolvimento social.

      Enfim, você ainda acha arrogância colocar na mão da mulher a decisão sobre ter ou não ter filhos?

      Os filhos são do Estado… Olha, eu ia até responder, mas você acabou de dizer que os filhos eram do casal. E agora? São do Estado ou são do casal? Decida-se. Ou melhor, defina como é essa relação de posse e de obrigação. O Estado brasileiro não obriga casais a terem filhos nem limita o número de filhos por casal como ocorre em alguns países… O Estado legisla em favor de seus cidadãos e o aspecto jurídico que envolve o aborto tem se mostrado questionável devido ao número de mortes de mulheres. E o Estado me garante o direito de rever leis, principalmente uma lei que veio lá da década de 40, quando nem existia estudos com células tronco e outros dilemas éticos da ciência.

      Sim eu concordo que o aborto não faz bem psicologicamente – eu diria que não faz bem pra ninguém. Mas o que é melhor, abortar e permanecer vivo se tratando em relação ao aborto ou morrer tentando um aborto clandestino?

      Sim, um cara rico querendo que sua empregada aborte… To aqui pensando… Se isso já não ocorre com a lei atual, já que a mulher vai para um hospital público com complicações de um aborto provocado por um cidadão aí e as pessoas estão sempre preocupadas em fazer um julgamento moral “ah, ela tentou abortar, que vagabunda” – nem imaginam que ela possa estar grávida e ser vítima de violência doméstica… Porque o preconceito não deixa ver que cada mulher tem uma história…

      Adoção? Decida-se: ou o Estado não tem dinheiro para hospitais e clínicas de aborto (como você descreveu no primeiro argumento) ou o Estado não tem dinheiro para criar crianças que foram geradas “irresponsavelmente”. Qual dos dois você acha que consome mais recursos públicos uma criança até os 18 anos ou um procedimento no SUS? Aliás, se o Estado não tem dinheiro, então isso nem está em discussão né?

      End, eu acho que seu argumento é de fundo religioso. E eu respeito. Se você não quer abortar, não aborte. Seja feliz. A descriminalização não vai trazer prejuízos para você. E fica a dica: procure transar com uma mulher digna de sua confiança e ela não irá abortar um filho seu. O Estado ainda te dá o direito de escolher com qual mulher você quer transar, então faça bom uso da sua liberdade. Camisinha estourada e pílula de farinha pode acontecer com qualquer um mas eu vou rezar pra isso não acontecer com você. Bom sorte! Beijos

      Amanda

    • Você esquece que uma mulher que opta pelo aborto não quer evitar apenas um filho, ela quer evitar uma gravidez.
      Dar para adoção? É digno e humano obrigá-la a carregar algo indesejado por NOVE meses? Como se os lares que acolhem crianças no Brasil fossem maravilhosos… tsc, tsc.

      • Eu assisti no último domingo o “Cansático” e tal
        e vi a reportagem sobre direção e há muitos que defender que, quando se dirige embreagado se assume o risco de matar as pessoas, independente da pessoa ser bom motorista, ou não. Eu penso que no aborto é a mesma coisa, se o sexo foi feito com o consentimento dos dois eles assumiram a responsabilidade de que esse ato, mesmo que por acidente, viesse a gerar um bebe. Então, eu penso que não há por que legalizar o aborto. Já em caso de estupro é diferente, pois não há consentimento, aí sim, sou a favor do aborto.

  15. Pingback: Aborto legal, livre e gratuito já! « Cirandeiras

  16. Olá Amanda, hoje estava pesquisando material para compor meu artigo sobre “O mal estar na maternidade” quando tive a grata surpresa de descobri seu blog, e para não repetir suas palavras e de algumas pessoas que postaram acima, sobre maternidade e abordo, prefiro dizer que esse blog foi o melhor presente que ganhei nesse ano de 2001! É raro encontrar pessoas lúcidas criticando o que já é um dado, se expondo com coragem e inteligência sobre a questão da maternidade e do aborto.
    Estou escrevendo sobre algo mais polemico, mais criminoso e mais chocante do que o aborto, A AMBIVALENCIA AFETIVA DAS MÃES, pois em nossa cultura quando parimos o que se espera é que imediatamente passamos a amar incondicionalmente nosso filho pq a mãe é tida no imaginário social como uma santa assexuada, generosa,serena, protetora, a própria imagem de Maria!
    Encontrei algumas pesquisas que provaram que algumas mulheres desenvolveram depressão pós parto grave por não se identificarem com esse modelo de “ideal de mãe”. Uma mãe não pode nunca sentir-se cansada de ser mãe – parece que assim ela esta amaldiçoando o filho, então a culpa ainda silencia muitas mulheres.

    • Oi Ana Karine! Que bom que gostou do post. Se for publicar algo sobre essa ambivalência afetiva das mães, me avise pra eu divulgar no meu twitter. Me pareceu um assunto muito importante. Abraços

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