E o desejo de ser mãe, onde fica?

setembro 28, 2011

Sou mãe de uma menina linda, querida, desejada, amada. A maternidade tem me tornado cada vez mais feminista pois, longe de ser uma idealização, ser mãe é um ato político.  Não se é mãe sozinha: se é mãe dentro de um contexto social que inclui creche/babá/escola, horários flexíveis no trabalho, tempo para levar a criança ao médico, tomar vacina, passear, conviver com outras crianças. E se a gente olhar friamente para a nossa sociedade, ela é muito cruel para com mães e crianças, mesmo aquelas financeiramente privilegiadas. As cobranças de sucesso são grandes, o individualismo é a regra e os incentivos são mínimos.

Mesmo assim escolhi ser mãe: quis trazer para o mundo uma criança, seguindo o meu desejo de criar um ser humano, por mais que isso soe uma ousadia. Trouxe porque acredito no amor e na vontade de ser feliz. Acredito que ser mãe é um risco diário de se decepionar, se trair, errar – e também o risco de ter frágeis momentos de felicidade e completude. Corro o risco diário de ser recompensada com o sorriso de uma criança no meio de um dia derrotado, em que todo o planejamento foi por água abaixo e você só queria deitar e dormir. Daí você percebe  que aquela gargalhadinha é uma versão deliciosa de um travesseiro que você nunca sonhou que pudesse existir.

Sei que pareço estar divagando, caindo em contradição com o que foi escrito no primeiro parágrafo. Mas saiba você, leitor (a), que essa fofurice toda nasce da vontade. Nasce do desejo genuíno de ser mãe para o que der e vier. Para acordar de madrugada é o mínimo – eu me preparo até para o pior dos pesadelos de uma mãe de primeira viagem que tem bebê em casa: para o caso de minha filha adoecer gravemente ou sofrer algum acidente.

Falo tudo isso para lembrar que o debate sobre o aborto precisa passar por uma séria reflexão do que significa a maternidade e o desejo de ser mãe. Como é que a sociedade tem preparado as nossas mulheres para isso? Será que nós, mulheres, estamos recebendo o suporte necessário? Nem me refiro a questão financeira, que também é importante, mas em relação ao psíquico: será que a sociedade está despertando o desejo de ser mãe nas mulheres ou estamos enlouquecendo a mulherada com tantas obrigações?

Tem gente que acha que proibir o aborto é uma forma de conseguir transformar uma mulher em mãe. Bizarro, não?! Como se ser mãe fosse expiar alguma “culpa”  derivada de sexo inseguro, de uma incompetência por não saber tomar uma pílula ou não saber cobrar do homem o uso da camisinha ou coisa que o valha. Estão conseguindo transformar a maternidade em culpa, em desgosto, em castigo, e não na causa amorosa que deveria ser.

Até quando a sociedade vai encarar a maternidade como uma culpa a ser expiada, e não como uma vontade genuína de se criar um ser humano com amor e generosidade? Será que é mantendo uma lei que proíbe o aborto que a sociedade vai conseguir transformar em mãe um a mulher que não deseja ser mãe?!

Em tempo [1]
Não, eu não acho que o aborto é a única solução para o problema das mulheres que não querem ser mães. Mas acho que o tabu e o conservadorismo que povoam esse assunto estão impedindo, por exemplo, que as mulheres sejam decentemente atendidas nos hospitais. E como bem lembrou o Dr. Drauzio Varella, “Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente”. Também acredito que descriminalizar o aborto e legalizar a prática é uma forma de monitorá-lo, de conversar mais com essas mulheres, de saber o que está acontecendo, de efetivamente ajudar a reduzir mortes de mulheres jovens e pobres por esse Brasil.

Em tempo [2]
O tabu e o conservadorismo também são responsáveis pelo comodismo que perpassa as políticas públicas voltadas para as mulheres, as mães e as crianças. Em todos os lados se pensa a mulher como uma missionária, que deve arcar com milhões de responsabilidades e sem receber nenhum apoio moral, financeiro ou que o valha. As profissões tidas como femininas têm as menores remunerações, a jornada de trabalho de homens e de mulheres não permite que exista uma convivência maior entre pais e filhos, as creches públicas são raras, o orçamento para educação é ínfimo, o orçamento para combater violência doméstica contra mulheres é pequeno, as mulheres recebem menos quando executam os mesmos trabalhos dos homens e assim caminha nossa agenda pública. Como proibir o aborto não vem surtindo resultado, convido todos os religiosos a apoiarem as causas das mulheres se eles desejarem de fato dar mais suporte à maternidade. ;-)

*Hoje é dia 28 de setembro,  dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Esse post faz parte da blogagem coletiva organizada pelo site www.blogueirasfeministas.com


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