Tudo o que eu já li sobre Belo Monte e vale a pena compartilhar

A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte está longe, muito longe de ser um consenso entre os brasileiros. E como tenho lido uma avalanche de artigos, textos e vídeos sobre esse tema, resolvi publicar um post organizando um pouco essa bagunça. Não tenho a pretensão de ter a palavra final sobre esse assunto, mas se eu conseguir pelo menos compartilhar links e divagações relevantes, já está bom demais por agora.

1. Quando nasceu o projeto de se construir uma hidrelétrica de Belo Monte?
A ideia de se construir uma hidrelétrica na região de Belo Monte é antiga – data pelo menos de1975 – como pode ser lido nesse artigo. É importante saber desse dado pois o projeto vem sofrendo mudanças técnicas e políticas ao longo dos anos, fica difícil situar o debate atual. Sempre há o risco de se ler uma crítica consistente, só que se referindo a um detalhe do projeto que já foi modificado. E sempre há o risco, por parte do governo, de manipular o debate alegando que certos especialistas não detêm conhecimento sobre o atual projeto.

2. No que consiste o projeto atual?

Segundo fontes governamentais,  a usina hidrelétrica de Belo Monte é um projeto do planejamento energético brasileiro, a ser implantada no rio Xingu, no estado do Pará, região Norte do Brasil. Com a usina, o governo acrescentará pouco mais de 11 mil megawatts (MW) de capacidade instalada à matriz energética nacional. Belo Monte será a segunda maior hidrelétrica do Brasil, atrás apenas da usina Itaipu binacional.

A divulgação do projeto pelo governo está muito fragmentada: uma busca no portal do Ministério de Minas e Energia, por exemplo, rende poucos retornos em relação ao projeto em si. É mais fácil encontrar dados no Blog do Planalto, ainda que sejam  notícias referentes aos projetos sustentáveis na região de Altamira. Também encontramos, no Google, muitas reações do governo, isto é, quando ele se posiciona em resposta às críticas das entidades da sociedade civil organizada, aos grupos de cientistas, especialistas, antropólogos e afins.

Ao contrário da comunicação oficial, dispersa e enfadonha, o Jornal Nacional (da rede Globo) publicou um conjunto de reportagens num tom adoravelmente didático sobre Belo Monte. Mostrou, sim, as vozes das pessoas que moram naquela região e as queixas dos ambientalistas. Mas também pegou super leve com o governo. Na última reportagem da série, a repórter, em alusão ao aniversário de Altamira, classificou Belo Monte como “um presente carregado de polêmicas, um passo ainda incerto rumo ao futuro”. Presente pra mim é uma coisa boa – então eu acho que rolou um otimismo com o governo federal. Mas fiquem a vontade para discordar da minha interpretação, assistam: primeira parte do especial da Globo sobre Belo Monte – pronto, agora aqui a segunda parte e, por fim, a terceira parte 3 do especial da Globo sobre o tema.

3.Existe algum consenso sobre a construção da hidrelétrica Belo Monte ?

Para os tucanos no geral (veja o que escreveu Reinaldo Azevedo que não me deixa mentir) e também muitos petistas – (veja o que registrou Paulo Henrique Amorim e o AlePorto) a construção da usina é inevitável. Em outras palavras: sem a tal hidrelétrica, estaremos fadados ao atraso, faltará energia em nossas casas, chegam a alardear alguns. O consenso entre tucanos e petistas termina aqui.

Tucanos criticam a gestão do projeto – nesse artigo eles chegam a ironizar que a obra começou no carnaval e que isso seria um indício de fracasso. Também é bom lembrar que o Pará, estado onde vai acontecer as obras, é governado pelo PSDB, e vai acompanhar os recursos as obras então, né, num dá pra gente ser ingênuo de achar que eles vão dizer que não querem hidrelétrica ali…

Tirando as pessoas que estão discutindo o assunto por paixões estritamente partidárias, sobra aquela ralé barulhenta que tem ocupado o Google mais que MST em terra improdutiva. Vejam vocês. Caso não estejam felizes com o Google, experimentem o Youtube. Existem pessoas das mais variadas origens intelectuais e políticas que são contra a construção da hidrelétricade Belo Monte em si!

4.Mas por que diabos tem um povo tão insatisfeito com o projeto da hidrelétrica de Belo Monte?

Para algumas pessoas é inviável do ponto de vista técnico – veja o que diz a antropóloga Cecília Mello. Também existem aspectos legais a serem considerados – veja o que diz o Ministério Público Federal do Pará a respeito do assunto. O procurador da república no Para Felício Pontes Jr escreve artigos sobre as violências do projeto.

O Instituto Socioambiental vem promovendo protestos contra a construção da hidrelétrica. O Movimento Xingu Vivo para Sempre também está promovendo seminário internacional sobre Belo Monte. O professor da Unicamp Oswaldo Seva, engenheiro, doutor em Geografia e que estuda projetos de hidrelétricas há 36 anos e o projeto da usina de Belo Monte há 23, escreveu um artigo colocando em evidência as questões índigena, ambiental e orçamentária do projeto.

Entrando no mérito do projeto, a agência de notícias especializada em meio ambiente, Ambiente Já, divulgou artigo que saiu no El Pais, dizendo: “o grande temor dos ambientalistas é que Belo Monte seja apenas a ponta do iceberg, a primeira de uma série de obras que modificariam irreversivelmente o curso e os equilíbrios internos de um dos maiores afluentes do rio Amazonas. Por enquanto, essa alteração do leito do Xingu inundará uma área de mais de 500 hectares e impactará direta ou indiretamente um território de 5 mil quilômetros quadrados“.

A ambientalista Telma Monteiro rebateu vários argumentos daqueles que insistem em dizer que os problemas técnicos do projeto já foram sanados e rebateu um artigo de um defensor de Belo Monte: “Apesar de nos chamar de “ignocentes” (o que seria, para o neologista Cerqueira Leite, uma mistura de “ignorantes” com “inocentes”), muitos dos críticos à obra têm bastante conhecimento da situação e das suas implicações. E também não são inocentes. Sabem que a luta contra a hidrelétrica é inglória e contra forças muito poderosas, capazes até de arrebanhar em suas hordas a opinião de nomes outrora respeitados. As críticas dos ambientalistas “lucientes” (agora neologismo meu, mistura de “lúcidos” com “experientes”) incluem inúmeros aspectos. Por exemplo, para que a usina funcione a contento no futuro, seriam necessárias novas barragens rio acima para regular o fluxo do rio. Foi prometido que isto não será feito, mas quem acreditar nisto será, este sim, um grande ignocente.

Telma também coloca em dúvida um argumento muito propagandeado pelos defensores da hidrelétrica – a de que ela serviria para iluminar casas “que teria como objetivo iluminar 20 milhões de lares e gerar empregos nas indústrias locais. Depois somos nós que somos “ecopalermas” e “ignocentes”… Será que ele sinceramente acredita nesta mentira? A energia de Belo Monte não tem como foco principal a iluminação residencial. O foco são as grandes mineradoras, vorazes por energia, e que geram poucos empregos e muito desmatamento“.

 Telma também exerga que o Brasil pode viver sem a hidrelétrica Belo Monte e elenca algumas soluções possíveis, como a energia eólica, usada na Alemanha, na Espanha e na Dinamarca “Ela pode sim compor uma porção razoável do sistema, o suficiente para dispensarmos esta obra cara, ineficiente e ambientalmente calamitosa. Ah, e o complemento com energia solar, a eliminação de perdas, a repotenciação de usinas? Parece que nosso bom samaritano simplesmente se esqueceu destas possibilidades.

Os antropólogos da Universidade Federal de São Carlos publicaram o Dossiê Belo Monte, que pode ser acessado aqui. São artigos sobre os impactos que grande obras trazem para as populações indígenas.

Bem pessoal. Agradeço pela paciência. Estes eram os links que eu gostaria de compartilhar. Deixei muito da minha opinião na forma como apresentei os links. Futuramente pretendo publicar um artigo mais hmmm poético sobre esse tema que me encanta. Abraços e até lá!

About these ads

7 comentários sobre “Tudo o que eu já li sobre Belo Monte e vale a pena compartilhar

  1. Agradeço a citação no post, mas só gostaria de pontuar que minha opinião sobre essa hidrelétrica nunca foi partidária. Defendi a mudança no projeto de Belo Monte (então Kararao) em 1991, em reunião com o então Secretário Nacional do Meio Ambiente José Lutzenberg. Bem antes, portanto, do partido ao qual sou simpatizante, defender o projeto. saudações.

  2. Vou discordar da sua interpretação do texto do Jornal Nacional. A frase “um presente carregado de polêmicas, um passo ainda incerto rumo ao futuro”, @ repórti tentou fazer um trocadilho, e presente pode significar tanto um regalo, uma coisa boa, quanto os dias atuais. É o trocadilho-clichê sempre nos vendo nos textos telejornalísticos! :o)

    • Pois é! Taí porque deixei em aberto o lance da interpretação… Eu senti que foi um “presente” diplomático, porque a matéria toda é água com açúcar, até quando vai falar das críticas, é uma matéria fofa. Pode reparar que já rolou um bando de manifestaçào do povo de lá enfurecido e não teve nenhuma “ibagem” pra dar conta do clima de tensão que existe ali (pelo menos é isso que o google me mostra, há um clima de tensão). Mas sim, concordo com você, provavelmente foi um tentativa de trocadilho-clichê… ;-)

  3. E depois de ver todos os vídeos do JN (e concluir que eu sei prever a linha de raciocínio de um repórter da globo durante a construção de seu texto ;) ) e ler seu artigo de cabo a rabo, Amanda, digo mais 2 coisinhas:

    1- O texto tá muito bem escrito, mas tem horas em que vc apenas cita e linca os textos que vc leu. Seria legal se esses links viessem com 1 pequeno resumo, tipos: “fulano disse isso e acha que se BMonte for construída, os marcianos irão invadir a Terra. Já o parecer do ministério Público indica que o Papa pode ser abduzido por ETs durante a construção das barragens”

    2- Isto posto, só posso ficar feliz em ver toda essa celeuma (não falo mais a palavra polêmica) em torno desse assunto. Isso indica que somos de fato uma democracia, e todas as vozes es~tao aí para serem ouvidas. Um engenheiro que, durante a ditadura, ousou discordar apenas do traçado da Transamazônica, foi taxado de subversivo e preso. Graças a Deus esses tempos já se passaram.

    Bjoquinhas. Amei o texto!

    • Então… Realmente, você está certa! Quando comecei a escrever o artigo tava com fôlego de comentar cada linkzinho. Daí eu fui perdendo o fôlego na ânsia de parir logo esse filho… No próximo post vou tomar esse cuidado. ;-)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s