Poesia! O Amor nos Sertões – fragmentos

agosto 4, 2011

Hoje é dia de poesia. E amanhã também! Acredito no poder que a poesia tem de transformar as pessoas que dela se alimentam. Adoro presentear alguém com livros de poesia ou então com poesias selecionadas para uma determinada ocasião. Um livro de poesia pode ser lido diversas vezes e ser diferente e atual ao mesmo tempo, a cada leitura. Feliz de quem gosta de poesia, feliz de quem ousa fazer poesia!

Mas hoje é dia de uma poesia especial para mim:  faz um ano que o livro “O Amor nos Sertões :  fragmentos” foi lançado em São Paulo. É o livro de estreia do meu pai, que acredito, já era poeta muito antes de eu chegar nesse mundo. Só faltava o livro, pra registrar! Esse livro reúne poesias escritas a partir de 1997, que abordam ampla temática:  memórias, amores, religiosidade e até temas sociais. Eis uma amostra:

Rosa Vermelha Suspensa

Solta no meio da paisagem perdida no mundo,
encarnada,
recortada sobre um fundo de um vale aterrorizante.

Salta o vermelho sanguíneo e explosivo,
sangue jorrando das pétalas superpostas,
salpicando as camisas imaculadas dos passantes,
recobrindo os lírios,
manchando o branco impassível e inocente.

Se você quiser presentear alguém  com o livro “O amor nos sertões: fragmentos” – pode acessar o site da livraria Cultura e encomendar seu exemplar. Como o dia dos pais está chegando, quem sabe não seria um bom presente para o seu pai? Fica a dica! ;)


Receita: kibe de berinjela

agosto 3, 2011

Faz tempo que quero postar receitas. Mas essa vida de mãe, trabalhadora e ativista tem me deixado sem tempo! E eu adoro descorbrir receitas gostosas, leves, práticas e saudáveis. Ok, nem sempre a gente consegue reunir todas essas qualidades num único prato. O fato é que eu adoro comer bem, e fico muito feliz quando posso compartilhar receitas gostosas para o dia-a-dia.

Sempre gostei de comidas árabes. Depois que parei de comer carne, fiquei um tempo sem comer kibe (no geral esse prato é feito com carne moída). Daí que nessas andanças eu descobri que é possível fazer um bom kibe… de berinjela! E por incrível que pareça é uma receita vegana! Bom demais, hein? Anote os ingredientes e vamos pra cozinha!

Kibe assado de berinjela

Ingredientes

1 xícara de trigo pra kibe
2 berinjelas médias ou 3 pequenas ou uma bem grandona
1 xícara de nozes (ou a castanha de sua preferência) picadas grosseiramente
1 xícara do tempero fresco de sua preferência (salsinha, cebolinha, hortelã ou coentro – pode escolher uma erva ou misturar as que você achar melhor)
1 cebola média
Sal, pimenta síria, pimenta do reino, noz moscada a gosto
Azeite a gosto para refogar

Modo de preparo

Primeiro hidrate o trigo pra Kibe com água filtrada fria – deixe de um dia para o outro, de preferência. Pela manhã, deixe o trigo hidratado escorrer lentamente numa peneira. Dizem os sábios que assim o trigo fica mais fácil de ser trabalhado, inclusive se você mudar de ideia e resolver fazer um tabule. Eu já acelerei o processo de hidratação com água morna, mas o kibe fica meio molenga, enfim, vai do seu tempo e da sua vontade de comer kibe. Não desista! Reserve o trigo hidratado e vá para a berinjela.

Lave bem a berinjela e corte em cubinhos. Aproveite que você está com a faca na mão e já corte a cebola e as ervas. Adoro cebolinha e salsinha! Geralmente uso essas duas para esse prato. Tem gente que usa hortelã. Tem gente que usa coentro. Mas enfim, vai do gosto de cada um. Corte a cebola em quadradinhos, mas se tiver sem muita paciência corta no meio e faça meia-luas com cada uma das metades. Aproveite para picar as nozes: minha sugestão é pegar um pano de prato limpo, colocar as nozes lá dentro e bater com um objeto pesado (pode ser um martelo de carne, por exemplo). Só não vá se empolgar porque, né, você não quer uma farinha de nozes, você quer nozes em pedaços que possam ser identificados ao chegarem na boca!! rsrsrsrsrs

Pronto, o trabalho chato já foi (bem, pra mim é a parte chata, eu gosto é de sentir o cheiro da panela no fogo!). Agoro pegue uma panela, jogue uma quantidade generosa de azeite e refogue primeiro a cebola, depois os temperos (verdes), o sal, depois as pimentas, a noz moscada e talz (se você curtir) e por fim a berinjela. Deixe a berinjela amolecer bem no fogo, com esses temperos. Pode colocar pouca água, só pra não grudar. Após cozinhar bastante e mudar de cor (ficar bem escura) coloque a berinjela no liquidificador ou no mixer, o que você tiver aí mais fácil. Tá vendo porque nem precisava cortar tanto a cebola?!? Talvez no liquidificador você precise jogar um pouco de água pra não travar as lâminas.

—–>Ah! Um detalhe pra você que tem fome e tem pressa: você pode pular toda essa cortação de legume e jogar a berinjela cortada ao meio, na panela de pressão, com pouca água. Em pouco tempo ela estará cozida e se soltará facilmente da casca, caso você não queira comer a casca da berinjela. Mas eu prefiro refogar os cubinhos no azeite, acho que pega melhor o tempero, pelo menos é minha impressão. <—–

Após bater a massa da berinjela, junte-a com o trigo hidratado numa tigela grande. Após dar uma bela misturada, acrescente as castanhas e misture mais um pouco. Após obter uma massa homogênea, coloque um pouco de azeite no fundo de um tabuleiro onde possa caber toda a massa (no geral é um tabuleiro pequeno porque a massa fica toda apertada dentro da fôrma). Após colocar a massa, faça marcas com o garfo ou decore com folhinhas inteiras das ervas, castanhas pela metade, ou como quiser.

Coloque o kibe para assar em forno baixo, por 20 a 40 minutos, ou até secar a massa e criar uma ligeira casquinha por cima. O tempo varia com a hidratação do trigo, as vezes fica uma massa muito molhada, demora mais pra secar. Bom, pelo menos pra mim, que vou fazendo a receita mais ou menos no olho, deu certo. Bom apetite!


Quem tem medo do feminismo?

agosto 2, 2011

Selo Desmitificando o feminismo

Eu mesma nunca fui capaz de saber exatamente o que o feminismo é: apenas sei que as pessoas me chamam de feminista toda vez que expresso sentimentos que me diferenciam de um capacho de porta. Rebecca West, Escritora inglesa, 1892 – 1983

É esperado que os machistas de plantão rejeitem o feminismo. Sim, machistas, no geral homens, têm medo do feminismo, têm medo que uma mulher se torne, aos seus olhos, seres humanos! Machistas têm medo de lavar uma louça, medo de chorar em público, medo de usar uma camisa da cor rosa, medo de ganhar o mesmo salário que a mulher, medo de olhar uma gostosa na rua e não conseguir se comportar como uma pessoa civilizada (sem agressão). Medo de ouvir um não de uma mulher e ter que lidar com essa rejeição.

As mulheres machistas, por outro lado, têm medo da liberdade que o feminismo traz. Sobretudo a liberdade de serem elas mesmas, sem precisarem da aprovação prévia do olhar masculino/machista.  Pensam elas que, se elas não seguirem as regras machistas dos homens, nunca serão amadas por eles. Uma mulher machista no fundo, no fundo, é uma mulher insegura, que coloca as necessidades dos seu parceiro acima das necessidades próprias. A mulher machista quer saber primeiro o que querem os homens (e os outros), para primeiro se adequar a essas vontades e só depois saber o que se passa dentro dela mesma.

Humanismo

Que os machistas tenham medo do feminismo é compreensível. Mas o que me deixa realmente intrigada de queixo caído e olho arregalado é como é que essa palavra – feminismo – vem sendo tão atacada e difamada a ponto de humanistas (!) a rejeitarem. Vejo pessoas bacanas, de bom senso e cheias de feminismos nas atitudes, dizerem até com certo orgulho nos olhos:

 Eu não sou feminista! Sou humanista.

Fico realmente chateada quando escuto essa pérola. Porque mesmo sem querer tenho a impressão de que o interlocutor está me dizendo que o feminismo é desumano. Ou, se não é desumano, é uma luta menor pois já existe o humanismo, que já dá conta da humanidade. Será?

Mas depois eu respiro fundo e penso: ih, deve ser culpa daquele povo que distorce o feminismo – daí começam a dizer que feminista não pinta unha, que feminista não casa, que feminista mata criancinha, que feminista obriga a mulher a trabalhar fora de casa, que feminista quer competir com os homens e dominá-los. Enfim, qualquer generalização sensacionalista sobre mulheres merece esse rótulo, feminismo. Injustamente!

Então, quando você ver alguém comentando sobre um bando de mulheres rindo num programa de tv porque um cara teve seu pênis decepado pela esposa, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém citando apenas Valerie Solanas como a única feminista verdadeira, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém repetindo que as feministas não aceitam que mulheres façam sexo em determinadas posições sexuais, saiba que isso não é feminismo.

Outra explicação para os humanistas não se acharem feministas pode ser a seguinte:  eles devem entender que as conquistas feministas como o voto feminino, o direito à licença maternidade, e entre outras com as quais normalmente as pessoas se identificam já são suficientes. Se esse é o caso, é preciso primeiro fazer uma justiça histórica: foi o movimento feminista (e não humanista) que batalhou por essas conquistas. E segundo, dizer que ainda estamos engantinhando no caminho da igualdade de direitos entre homens e mulheres: hoje é o movimento feminista que vem debatendo , denunciando e enfrentando questões como o tráfico de mulheres, a violência doméstica, o estupro, as práticas sexistas que naturalizam a violência contra a mulher, a igualdade de salários entre homens e mulheres que realizam o mesmo trabalho e outras lutas que os movimentos humanistas podem até apoiar, mas não lideram.

Atualização do dia 6 de agosto de 2011: leiam aqui uma carta de uma mulher explicando como os comportamentos machistas estão espalhados mesmo dentro de círculos humanistas/céticos, locais onde nós normalmente esperamos encontrar pessoas mais esclarecidas quanto ao feminismo – o relato é estarrecedor.

Feminilidade

Outra pérola que escuto é essa aqui:

Eu não sou feminista! Sou feminina.

Adotar uma postura feminista não tira a feminilidade de alguém. O que muda é que a gente começa sim a repensar a questão da feminilidade: somos femininas para nós ou somos femininas para suprir as expectativas dos outros? O feminismo devolve a feminilidade para as mãos das mulheres – ou seja, você quer pintar a unha? Se você gosta, pinte. Se você o faz porque do contrário você vai perder um emprego, aí é uma pressão social que seu colega homem não passa. Se você gosta de salto alto, ótimo, mas se te obrigarem a ter um problema no pé pela obrigação de usar sapatos com salto alto, aí é uma questão a ser discutida. Homem pode chorar em público? O feminismo também trabalha para que essa não seja uma regra compulsória para todos os homens, para que os homens possam chorar sossegados sem que isso seja tido como uma coisa de mulherzinha (e por que essa expressão é tão negativa?!). Portanto, aprendemos outra lição: não existe um feminismo, um líder a ser seguido. Existem feminismos, no plural, para o bem de todos, homens e mulheres.

E por ser um movimento plural, onde cabem muitas interpretações, é fácil você discordar de uma feminista em especial e achar que está discordando do movimento todo. Portanto se você encontrar uma feminista dizendo que mulher tem que tomar pílula pra suspender a menstruação pela vida inteira porque isso traz muitas vantagens, não se preocupe: é apenas UMA feminista. Você vai encontrar duas outras feministas dizendo justamente o oposto, que você possa menstruar em paz, porque o corpo é seu, a feminilidade é sua. O importante para o feminismo é discutir, debater, trazer a tona questões que estão rigidamente colocadas pela sociedade e que podem limitar a sua experiência como mulher (e até como homem) no mundo.

Se você chegou até aqui deve ter percebido que o feminismo é, em resumo, isso que a socióloga Bila Sorj falou por aí:

“Diferentemente dos demais movimentos políticos como o fascismo, o nacionalismo e o comunismo, o feminismo promoveu uma formidável mudança de comportamentos orientada para a promoção de mais liberdade e igualdade entre os sexos, sem aspirar à tomada do poder, sem utilizar a força e sem derramar uma gota de sangue”.

E o feminismo continua discutindo as liberdades das mulheres e transformando a sociedade até hoje.

Então, me diga: você ainda tem medo do feminismo?


Obs. Esse artigo faz parte da blogagem coletiva #mitosfeminismo – veja aqui outros posts que fazem parte desse movimento.


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