Nós realmente nos importamos

Junho 27, 2009

“Muitos daqueles que, a princípio, te pareciam parceiros,
vão ficar furiosos quando mostrares que a conveniência, em alguns casos,
é sinônimo de proteção individual e dano coletivo.”
Sonia Hess

Quero compartilhar aqui uma carta que li por acaso, na lista de discussão do Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas. Eu me identifiquei com o tom político da mensagem, que fala do quanto vale a pena se importar, se arriscar por uma causa, lutar, receber apelidos, sofrer. Vale a pena, ainda que os desafios do mundo pareçam problemas impossíveis de serem solucionados.

A autora da carta é Sonia Hess, engenheira química, professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e atualmente está em Florianopolis (SC), onde realiza seu terceiro pós-doutoramento em química, na UFSC. Sonia escreveu a carta para uma amiga que estava desanimada.

Leiam e me digam vocês, se já passaram por algo parecido com o que a cientista relata. A carta está na íntegra, maiúsculas da própria autora. Considerem licença poética a falta de acentos e cuidados gramaticais, pois tudo isso faz parte da emoção.

Sonia, se você passar por aqui saiba que já somos duas. Nós nos importamos!

***

Querida,

como estou sem carro, tenho tido a otima oportunidade de pensar
enquanto caminho 1 km ate o trabalho (o que, em Floripa, consiste em
um grande prazer, na verdade).
Por coincidencia (que nao ha, como ja deves saber), agora pela manha
vim pensando em uma frase super-importante para todos nos, neste
momento: TEMOS QUE TENTAR!!!
Isto ficou martelando na minha cabeca, e agora abro este teu email, o
primeiro que leio hoje.
Entao, vou te contar uma historinha:

– na semana passada, uma jornalista de uma revista de circulacao
nacional me telefonou, pedindo-me para falar sobre os riscos
associados ao uso das mamadeiras plasticas disponiveis no mercado,
atualmente. Eu falei, depois mandei a ela, por email, todas as
informacoes que podia. Ela contou que, antes de me ligar, telefonou
para as grandes universidades e institutos de pesquisa do pais, para
tentar entrevistar algum pesquisador. Ninguem quis falar, sendo que
uns alegaram que nao sabiam o suficiente sobre o assunto e, outros,
que nao gostariam de falar sobre este polemico tema. Ela so conseguiu
a entrevista porque uma pessoa do INCA falou de mim, para ela.
Agora eu te pergunto: quem sou eu? Uma professora com um curriculo bem
mediano e que atua em uma universidade pouco prestigiada. Entao, por que e
que, em todo esta comunidade cientifica brasileira, que tem tantos
bolsistas do CNPq, muito mais capacitados do que eu, sobrei so eu para
falar sobre um assunto fundamental para a saude das criancas? Pois vou te
responder: e porque EU REALMENTE ME IMPORTO COM ISTO!!!

Desde 2002, depois que assisti o filme O FUTURO ROUBADO pela primeira
vez, nao parei mais de estudar sobre os desreguladores endocrinos, e
de dar palestras e entrevistas sobre isto. Se olhares no meu curriculo
Lattes, veras o quanto que falei e escrevi sobre este tema. De que
adiantou tanto esforco? Nao sei, porque nao tenho como conhecer as
mudancas que ocorreram na rotina e no padrao de consumo de cada um que
ouviu o que falei e mostrei. Mas, pelo menos, EU SEI QUE TENTEI e
continuo tentando, com todas as minhas forcas, com toda a minha
capacidade, defender meus semelhantes diante dos riscos presentes no
ambiente;

– la no MS, em 2001, fui chamada para uma reuniao no MPE, para tratar
dos riscos associados a uma usina termeletrica que estava funcionando
com gas natural boliviano. A tal churrasqueira de gas tinha vindo de
El Salvador, onde funcionou por 17 anos. Foi comprada por uma
multinacional e instalada em Campo Grande a preco de ouro. Ate hoje, a
tarifa de energia do MS e uma das mais altas do pais, porque os
consumidores pagam, sem saberem, para aquele trambolhao ficar parado,
esperando para ser ligado quando a falta de chuva diminui a producao de energia nas
hidreletricas. EU TAMBEM ACHO BOM PAGAR PARA ELA FICAR PARADA
PORQUE, QUANDO FUNCIONA, JOGA NO AR 4T/DIA DE VENENOSOS NOx, EM CADA
TURBINA FUNCIONANDO COM GN!!! Pois bem, naquela fatidica reuniao de
2001, o tecnico da empresa comecou a falar que eles monitoravam as
emissoes gasosas da UTE uma vez por ano, e que era suficiente. EU NAO
SEI DE QUE COR EU FIQUEI MAS, COMO ERA A UNICA PESSOA PRESENTE NA
REUNIAO, QUE SABIA O MINIMO DE ESTATISTICA E DE QUIMICA, COMECEI A
CONTESTA-LO, PERGUNTANDO ONDE ELE TINHA APRENDIDO QUE 1 MEDIDA TINHA
ALGUMA SIGNIFICANCIA. Fiquei tao brava com o despeito dele, que sai
bufando da reuniao. A Promotora viu que eu sabia do que estava
falando, e veio correndo atras de mim, dizendo que ia entrar com uma
acao contra a empresa. Bom, foi ai que comecei a minha carreira de
consultora voluntaria do MPE, depois MPF e MPT. Tive que ler muito,
estudar um monte, mas coloquei tudo o que aprendi escancaradamente, em
jornais e pareceres tecnicos (foram 81 artigos publicados em jornais,
ate agora).

Naquela epoca, ainda nao havia legislacao no Brasil para limitar a
emissao de mercurio ou oxidos de nitrogenio em UTEs ou outros
dispositivos de geracao de energia a partir da queima do GN. Por isso,
o processo do MPE contra aquela UTE nao deu em nada. Eles, sequer,
cumpriram com as clausulas do TAC que assinaram, e ninguem cobrou,
porque a pressao politica foi enorme. Em compensacao, acionamos ate a
OAB-MS, que levou o caso a OAB nacional. Ainda guardo a nota que eles
divulgaram em jornais, exigindo que o Ministerio do Meio Ambiente
instituisse legislacao para disciplinar a emissao de poluentes
atmosfericos em UTEs e outros dispositivos, o que so aconteceu em
dez/2006 (CONAMA) e, ainda por cima, com os padroes europeus dos anos
80!!!

DE QUALQUER FORMA, DEPOIS DISTO TUDO, VIREI REFERENCIA PARA OS
PROCURADORES DO MS, que passaram a pedir o meu apoio em todas as acoes
envolvendo UTEs e outros grandes empreendimentos. COMO PARTE DESTA
ARDUA TAREFA, FUI HUMILHADA PUBLICAMENTE EM TRES LAGOAS-MS, ONDE
CONSTRUIRAM UMA UTE em uma area totalmente inadequada; em Corumba-MS,
lutamos juntos (UFMS, EMBRAPA, MPF, ECOA, Ministerio da Saude) e conseguimos
barrar a UTE que queriam construir no centro da cidade; por causa
deste episodio, algum tempo depois, quando tentamos barrar a
siderurgica que o mesmo empresario planejava construir em Corumba, no
dia da audiencia publica, 2 caminhoes de som circularam pela cidade anunciando
que, se os ambientalistas aparecessem naquela audiencia, seriam
recebidos a bala. OBVIAMENTE, FOMOS DERROTADOS. Apesar do MPF ter
conseguido barrar a obra, uma corregedora de SP, magicamente, derrubou
a liminar concedida pelo juiz federal de Corumba. A siderurgica foi
inaugurada no dia da arvore, em 21/09/07 (quase enlouqueci por causa
desta ironia).

Depois disso, aquela empresa levou multas do IBAMA que somaram R$ 29
milhoes, por causa do consumo de carvao de matas nativas do pantanal
(como haviamos previsto no parecer tecnico). No final do ano passado
parou de funcionar, por causa da crise economica mundial;

– tudo o que eu pensava que podia fazer, eu fazia, enquanto morei no
MS. Agora, que sai de la, tenho lido nos jornais locais, diversas
autoridades anunciando a implementacao de medidas que eu,
insistentemente pedi a eles, sem que me dessem qualquer importancia.

Parece que e preciso que muitos fatos negativos se repitam, para que
as pessoas percebam que e necessario mudar!!!

NAO SEI SE NOS ENCONTRAREMOS EM BREVE, MAS TE ESCREVO COM TODA A CERTEZA:
FACA, FACA TUDO MESMO O QUE PUDERES E, ATE MESMO, O QUE TE PARECER
INCONVENIENTE. Nao importa se vai dar resultado, ou nao, ou se vais percebe-los. O
que importa, mesmo, e fazeres, insistentemente, tudo o que podes!!!

VAIS PARECER LOUCA, CHATA, INCONVENIENTE. VAO TE CHAMAR DE XIITA,
ANTIPATICA, CONTRA O PROGRESSO, E MUITOS OUTROS PREDICADOS.

MUITOS DAQUELES QUE, A PRINCIPIO, TE PARECIAM PARCEIROS, VAO FICAR
FURIOSOS QUANDO MOSTRARES QUE A CONVENIENCIA, EM ALGUNS CASOS, E
SINONIMO DE PROTECAO INDIVIDUAL E DANO COLETIVO.

PARA MIM, NADA, NADA MAIS DISTO IMPORTA.
TODOS OS DIAS, ACORDO E VOU DORMIR BUSCANDO UMA UNICA RESPOSTA: O QUE
E QUE EU AINDA NAO FIZ, E O QUE DEVERIA FAZER, PARA AJUDAR MEUS
SEMELHANTES, DIANTE DO ENVENENAMENTO A QUE ESTAO SENDO SUBMETIDOS, SEM
QUE PERCEBAM.

SE ISTO NAO CONDIZ COM A POSTURA DOS HUMANOS DO MEU TEMPO, NAO TEM PROBLEMA.
AFINAL, SEI QUE O NOSSO TEMPO NAO TEM MAIS TEMPO, MESMO!!!


Marcelo Branco: um visionário?

Junho 26, 2009

A décima edição do Fórum Internacional de Software Livre (Fisl) está acontecendo lá em Porto Alegre (RS). Marcelo Branco é um dos papas dessa bagunça aí, e andou dizendo muitas coisas interessantíssimas a respeito dos impactos da internet nas relações políticas. Bagunça? Sim, essa alegre bagunça no coreto do status quo, como eu gosto de dizer. Pra começar, destaco um trecho do que ele andou dizendo por aí:

As novas tecnologias criam condições para desintermediar também as relações políticas. Marcelo não quer fazer projeções para o futuro; mas observa que, hoje, defender uma causa qualquer é uma opção que dispensa adesão a um partido político. Novas redes de mobilização social, em favor de objetivos específicos, vão se multiplicando a cada instante. Ao contrário do que sustenta a crítica conservadora, elas não são apenas virtuais. Produzem efeitos concretos, dos quais há exemplos abundantes: a campanha contra a lei Azeredo (agora, no Brasil); a derrubada do governo Aznar (em 2004, na Espanha); a denúncia da invasão do Líbano por Israel (em 2006); a avalanche em favor de Barack Obama; a persistente mobilização dos iranianos contra o fundamentalismo do governo Ahminejad.

Enfim, não é pouca coisa não. Creio que essa moçada do Softwre Livre está na vanguarda política de muitos movimentos libertários, humanitários, democráticos e tudo o mais que ainda estão para surgir por aí. Confiram a entrevista na íntegra, publicada originalmente no blog Trezentos.

***
Controle da internet, capitalismo e esquerda
Por Antônio Martins

Para Marcelo Branco, coordenador-geral do FISL-10, uma grande disputa pelo sentido do século 21 começou há pouco, com as tentativas de restringir e vigiar o uso da rede. Nesta nova batalha, as grandes empresas estão divididas; e os partidos e sindicatos, sem rumo

Corpo esguio, pele morena, cabelos longos, cacheados e grisalhos, o gaúcho Marcelo Branco é talvez a figura mais procurada para entrevistas nos corredores da PUC-RS, onde se desenvolve o Fórum Internacional do Software Livre (FISL10). Há alguns meses, este personagem carismático, que não tira do pescoço a kaffieh palestina, assumiu a coordenação geral da Associação do Software Livre (ASL), a ONG que organiza o evento. Mais um ponto na trilha de quem foi sindicalista e líder da luta contra a privatização da Telebrás (no início dos anos 1990); militou no PT gaúcho, integrou o governo do Estado e ajudou a conceber (há dez anos) o I FISL; mudou-se para a Espanha, colaborou com Manuel Castells e coordenou diversos projetos regionais de implantação de programas de computador abertos.

Em 24 de junho, dia da abertura do Fórum, Marcelo reservou quase uma hora para uma conversa pouco convencional com a equipe da Agência FISL. Não tratou dos números do evento, mas do futuro do planeta. Expôs sua visão particular sobre a emergência das redes e da internet; a importância da batalha por mantê-la livre, neutra e sem vigilância; o desconforto que esta disputa entre os grupos sociais e forças políticas que dominaram o cenário no século passado. O áudio da entrevista (55m, em cinco partes), está aqui. Veja abaixo os pontos principais:

Os sentidos da internet
A possibilidade de desintermediar as relações sociais pode abrir uma nova etapa civilizatória – mas seu sentido ainda é incerto. Os espaços para a articulação direta entre os seres humanos, sem as condições impostas pelo capital, estão se multiplicando. Há muito tempo falávamos em associações produtivas diretas entre trabalhadores, mas não havia meios tecnológicos para fazê-lo com rapidez e em grande escala. Estes meios são oferecidos agora pela internet: o site da Rede Brasileira de Economia Solidária, por exemplo, permite localizar, comprar ou trocar, após alguns cliques, centenas de itens produzidos por cooperativas.

A desnecessidade do capital aparece de forma ainda mais nítida em setores como a antiga indústria cultural, ou do copyright. Há alguns anos, uma banda de músicos que quisesse tornar-se conhecida precisava dos serviços de uma gravadora para ter acesso a estúdios, prensar discos, levá-los às lojas, fazer publicidade. Hoje, todos estes papéis podem (e são, em muitos casos) realizados pelos próprios músicos – inclusive porque a digitalização afundou os preços dos equipamentos.

Porém, sozinhas, estas condições não asseguram o surgimento de uma sociedade melhor. A condição democrática não é algo explícito, ou necessário, na rede. A internet pode ser usada igualmente para controle social – assim como, no século passado, algumas experiências políticas libertadoras degeneraram em Estados policiais. É por isso que na disputa pelos rumos da rede tem enorme importância na própria definição do sentido do século 21. Não por acaso, o tema central do FISL deste ano é “Liberdade. Contra o controle e a vigilância na internet”

A disputa pelo controle da rede
Os últimos anos foram marcados por enormes avanços democratizadores. Desde que a internet passou da fase pontocom para a 2.0, tem sucesso as iniciativas que promovem o compartilhamento, a desmercantilização, a colaboração. Estamos vivendo o início da época das redes sociais, que multiplica a potência e autonomia dos grupos articulados e capazes de gerar inteligência coletiva.

Há cerca de um ano, no entanto, começou um contra-ataque. Alguns de seus símbolos são a lei de restrição à internet na França (aprovada por proposta e pressão do governo Sarkozy mas derrubada em seguida pelo tribunal constitucional), o processo contra o grupo sueco Pirate Bay, cujo site facilita a troca de arquivos digitalizados e, no Brasil, o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo.

É um ataque violento e combinado. Nele, estão envolvidos três agentes fundamentais: a) empresas dominantes em setores onde o capital está se tornando rapidamente obsoleto (como a indústria fonográfica e cinematográfica). Seu poder econômico está minguando, mas conservam enorme capacidade de articulação política e em especial de lobbyng. b) os segmentos dos Estados mais ligados à repressão, controle social e vigilância. São eles que procuram associar troca de arquivos digitais com “terrorismo”. Fato emblemático: a Convenção de Budapeste, onde se armou a ofensiva desencadeada agora contra a liberdade na rede, foi firmada dois meses após os atentados de 11 de setembro de 2001, num momento político marcado pelo medo. O Brasil não está entre os cerca de 40 países signatários; c) a velha mídia, que ideologicamente não consegue conceber relações sociais pós-capitalistas, e cujos interesses oligopolítisticos são diretamente afetados pela emergência da blogosfera.

Direita e esquerda desconcertadas, diante da desintermediação
Marcelo orgulha-se de seu passado como sindicalista e militante do PT. “Não espere nada de quem se diz esquerdista arrependido”, diz ele. Considera que, no século passado, os caminhos da transformação social estavam entrelaçados com os da representação política e sindical.

Contudo, destaca uma transição delicada. As novas tecnologias criam condições para desintermediar também as relações políticas. Marcelo não quer fazer projeções para o futuro; mas observa que, hoje, defender uma causa qualquer é uma opção que dispensa adesão a um partido político. Novas redes de mobilização social, em favor de objetivos específicos, vão se multiplicando a cada instante. Ao contrário do que sustenta a crítica conservadora, elas não são apenas virtuais. Produzem efeitos concretos, dos quais há exemplos abundantes: a campanha contra a lei Azeredo (agora, no Brasil); a derrubada do governo Aznar (em 2004, na Espanha); a denúncia da invasão do Líbano por Israel (em 2006); a avalanche em favor de Barack Obama; a persistente mobilização dos iranianos contra o fundamentalismo do governo Ahminejad.

No universo político e sindical da esquerda, muitos resistem a compreender esta transformação. Insistem em intermediar o que se pode fazer autonomamente. Esta resistência conservadora está na origem das críticas endereçadas a novidades políticas como o Fórum Social Mundial – taxado de “anárquico”, “sem rumo” ou “diverso demais” por setores da esquerda.

O curioso é que as redes provocam desorientação semelhante também no terreno do capital. Grandes empresas (como a Google) nascem e se agigantam num piscar de olhos, porque são sensíveis ao desejo de comunicação e des-hierarquização presente na sociedade. Outras vão se adaptando à mudança (Oracle, Sun, UOL e Itautec estão presentes e atuantes no FISL10). Mas setores como a indústria do copyleft atacam com virulência a nova lógica.

Democratização das Comunicações
Marcelo está particularmente preocupado com a luta pela democratização da mídia. Teme que oportunidades se percam. Refere-se, no Brasil, à Conferência Nacional de Comunicação (1 a 4 de dezembro).

Ele pensa que duas posturas são ineficazes ou insuficientes. A primeira é denunciar o conteúdo da mídia de massas (como se fosse possível esperar dela profundidade ou posturas democráticas). A segunda é supervalorizar as concessões públicas do espaço radioelétrico, hoje dominadas por alguns grandes grupos, em associação com famílias oligárquicas ou caciques políticos regionais. Estes pontos, de enorme importância no século passado, estão perdendo sentido aceleradamente. Se até os grupos de mídia mais contemporâneos (e em especial o público…) estão migrando para a internet, que efeito terá, em dez ou quinze anos, redistribuir os canais de rádio ou as estações de TV?

Marcelo vislumbra uma agenda alternativa. Nela, as batalhas que marcaram a luta pela democracia midiática nas décadas anteriores não desaparecem (“assim como não podemos nos esquecer das propostas anti-feudais, como a reforma agrária”). Mas o centro da disputa migra para a difusão da cultura digital. Livre circulação de conhecimento e bens imateriais na rede. Acesso público e gratuito à internet, em banda larga. Formação conceitual, técnica e tecnológica para uso das novas mídias. Políticas públicas novas, para realidades, demandas e desejos inéditos.

Importante em todo o mundo, incorporar esta pauta seria ainda mais decisivo no Brasil, julga o coordenador-geral da ASL. “Fomos colonizados e subalternos durante todo o período industrial. Mas alguns de nossos traços culturais – entre eles a criatividade, a diversidade e capacidade de comunicação – podem fazer de nós um ator destacado nas lutas pela democracia e igualdade no século 21”, arremata ele.


A sociedade do espetáculo

Junho 24, 2009

Fiquei indignada com a notícia publicada no dia 17 de junho no site do STJ que levou praticamente uma semana pra começar a aparecer, timidamente, na mídia, enquanto outros espetáculos sobre o nada (grampos sem prova, “spams” que ganham capa de jornal) se multiplicam com um estardalhaço injustificável.

Por que as notícias realmente relevantes passam despercebidas? E por que os espetáculos têm tanto espaço?

Não tenho resposta para essas perguntas. Mas vejo a realidade, leio blogs e converso muito com militantes dos mais diversos movimentos sociais. Vejo – e isso é empírico – que muitas reivindicações de movimentos sociais e/ou sindicais merecem ser elevadas a categoria de notícia (ou pelo menos compor uma das vozes na notícia) e, assim, deveriam ter espaço em páginas de jornal, em matérias jornalísticas de rádio e TV. No entanto, há algo que impede essa participação, e não é só a barreira da linha editorial ou da vontade do dono do veículo: é mais do que isso. É o tal do espetáculo, desconfio.

A necessidade do espetáculo é tamanha, que as entidades freqüentemente reúnem milhões de pessoas, pintam caras, acendem velas, param o trânsito, ocupam terras, fazem panfleto, criam banners, faixas, cartazes, enfim, usam todos os truques da publicidade. Toda a publicidade que não seria necessária se os assuntos fossem devidamente tratados na esfera pública, com seriedade e serenidade.

Usar ou não usar o show para atingir o público?
Ok, vamos usar o show. Porque as versões têm que aparecer, as informações devem circular, custe o que custar. Mas e quando o show diminui uma causa? E quando o show dá tão certo (como show) que acaba até prejudicando a causa?! Daí que estudantes viram vagabundos, agricultores sem terra viram baderneiros, ecologistas viram ecochatos, cientistas viram criaturas excêntricas, sociólogos viram alienígenas, jornalistas viram cozinheiros (!), juízes se tornam pequenos ditadores, desempregados se tornam pessoas sem caráter, crianças se tornam bandidas desde o nascimento, e por aí vai… Toda a sorte de preconceitos pode brotar de uma publicidade deseperada!

Respostas?
Repito: não tenho resposta para essas situações todas que citei acima. Não mesmo. Apenas listei algumas percepções, sem nenhuma pretensão intelectual. Coloco aqui, nesse humilde blog, a título de reflexão. Porque perguntas, simples perguntas, são bem vindas nessa tal sociedade do espetáculo.

Ok, um texto mais acadêmico…
Se é pra ter uma visão mais acadêmica sobre esse tema, recomendo o artigo do jornalista e professor da ECA, Eugênio Bucci, publicado hoje no site do Observatório da Imprensa. Pode não ser exatamente a resposta para os problemas que descrevi acima. Mas traz uma importante reflexão a respeito do livro “A sociedade do espetáculo” (Guy Debord) e o episódio dos policiais que entraram na USP para “conter” um ato político.

O espetáculo da “mídia”, para a “mídia” – e pelos contestadores
Por Eugênio Bucci em 23/6/2009

Sempre que pipoca uma greve alguém se lembra do nome dele. Sempre que a juventude vai protestar contra a globalização nesses encontros de cúpula em que os presidentes das principais economias do mundo se juntam para falar em público sobre o que já foi combinado ou para desconversar em privado sobre o que ninguém sabe como resolver, alguém se lembra dele. Quando há um piquete mais barulhento também. Principalmente quando há uma ocupação, dessas que dão direito a colchonete nas salas mais solenes das mais circunspectas repartições, aí sim é que o pessoal fala muito dele.

Ele é o francês Guy Debord (1931-1994), autor de um livro espantosamente ambicioso e, não obstante, monumental, de fato: A sociedade do espetáculo, lançado em 1967 em Paris e publicado em português pela Contraponto, em 1997. Para alguns, a obra antecipou o maio de 68. Para outros, como Jean-Jacques Pauvert, ela anteviu nada menos que o século XXI.

A partir da década de 50, esse personagem misterioso e polêmico liderou o “situacionismo”, ou, melhor, a Internacional Situacionista (I.S.). Tudo o que a I.S. queria era precipitar situações em que as distinções entre a vida e a arte desaparecessem, deixando em seu rastro a abertura para ações revolucionárias. Os situacionistas operavam as fissuras da vida cotidiana, pois aí é que nasceriam as energias da ruptura com o capitalismo e com a ordem por ele imposta. Consta que, no início dos anos 60, a Internacional Situacionista se dissolveu, mas sobre isso ainda pairam controvérsias. Que não importam agora.

O que importa mais, no momento, é entender um pouco mais desse sujeito. Para tanto, se me permitem, eu vou explicar. Por isso, preparem-se, senhoras e senhores, para alguns parágrafos de densidade inóspita.

Acreditar para entender

Poucos levaram tão longe como Guy Debord a tese de que um capitalismo totalizante e anti-humano havia se instaurado no planeta feito praga em casca de laranja. Poucos falaram de modo tão peremptório e perfurante – ainda que num tom meio paranóico. Até mesmo clinicamente. Mesmo assim, tenho Debord como um gênio. Ele viu, antes de muitos, que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos”.

Em seu estilo aforístico, o autor não deixou muito espaço para divergências. É um texto estranho o dele, estranho mesmo na tradição marxista. Mais que Adorno, bem mais, ele reclama a fé, mais que a inteligência, daqueles a quem se dirige. Você só entende o que ele escreve se, antes de procurar decifrá-lo, aceitar acreditar nele. E só poderá superá-lo com algum proveito – ou seja, só poderá ir além do que ele foi, subir a altitudes que ele não alcançou – se topar viajar ao menos por um trajeto pelas mãos dele, conduzido por ele. Talvez por esse jeito de discurso iniciático, Debord encontrou muita rejeição entre intelectuais franceses. Com todos os efeitos e para todos os efeitos, ele realmente nunca foi o que pode se chamar de “científico” ou de “acadêmico”. Mas que ele diz algumas verdades, das mais complexas, isso ele diz.

E então? Que história é essa de “imensa acumulação de espetáculos”? Não se trata exatamente da produção industrial e globalizada de imagens, de videoclipes, de games em altíssima definição, de outdoors digitais do tamanho do céu (nós veremos isso já, também). A acumulação de espetáculos é mais que uma saraivada de imagens. É o próprio capitalismo transfigurado em entretenimento, qualquer que seja a área econômica para a qual você olhe. Pode ser a área dos bancos, a agricultura familiar ou o agronegócio, pode ser o camelódromo de uma rua central de qualquer metrópole. Tudo, aos olhos de Debord, oferece bugigangas dotadas de uma poderosa dimensão estética. Tudo integra a grande usina do entretenimento mundial.

Da indústria cultural ao capital que virou imagem

Se Adorno e Horkheimer perceberam que a indústria cultural transformara a produção das chamadas obras de arte em bens de consumo fabricados – como se fossem pasta de dente ou capacete de motociclista –, se eles perceberam que não havia mais diferenças importantes entre a fabricação de um sucesso musical ou cinematográfico e uma botina de plástico ou um pote de margarina, Debord percebeu algo superior e mais sombrio.

Os dois primeiros, expoentes da Escola de Frankfurt, viram que entre a indústria cultural e as demais indústrias (a farmacêutica, a automobilística, a bélica) havia apenas e tão somente um sinal de equivalência. Tanto assim que os gerentes de uma poderiam migrar para outra sem o menor problema. Todas funcionavam nas mesmas bases, todas eram indústrias capitalistas.

O pensador francês – de escola nenhuma, por favor – notou que, em sua época, a década de 60, todas as indústrias, absolutamente todas, convergiam para o espetáculo. Ele notou que as mercadorias circulavam como imagem, não mais como coisas corpóreas, embora ele não tenha usado essa expressão. Um carro, um par de tênis, uma droga estupefaciente, um lápis, o silicone de cirurgia plástica, o café da Colômbia, tudo circula como imagem. Ou, em outros termos: é a imagem quem preside a circulação de todos os bens, não apenas dos bens ditos culturais. Isso significa que todas as mercadorias se apresentam como se fossem bens culturais, como se fossem, numa palavra, “arte”, como se tivessem respostas estéticas para as angústias dos humanos desumanizados.

Assim como todas as indústrias, também a ciência, a guerra, a política e a religião passam a se realizar como se fossem imagem. Sim, sim, eu sei que o nobre leitor até admite concordar com o que poderíamos chamar de “espetacularização” (com o perdão do termo esdrúxulo) da política, mas recusará a espetacularização da religião. Peço apenas que esse leitor olhe para o vertiginoso crescimento – econômico, sobretudo – das religiões da era da TV, as religiões que são um teleshopping de Deus a prestação. Preste atenção a isso e depois jure por Deus que não é exatamente isso o que acontece: religiões espetaculares e espetacularizantes. Ultralucrativas. A guerra, ela também, se põe como espetáculo. A ciência idem. Ou você nunca foi à NASA? Ou nunca viu o filme do Al Gore? Ou ainda acha que as pesquisas com células tronco se resolvem apenas nos laboratórios e nos tribunais, sem ter que passar por manifestações glamourosas diante dos holofotes?

Naturalmente, aquilo que converge para o espetáculo, passa pela imagem. Tanto que Debord já avisou: “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”. Mais, muito mais que isso, ele proclama: “O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem”. Essa condição, contudo, ou, mais que essa condição, essa situação, para prestarmos uma homenagem vocabular aos situacionistas dos anos 50, não admite lado de fora, isto é, ninguém escapa ao quadro de determinações descrito por Debord. Ninguém fica de fora. Nem ele mesmo. O espetáculo engole toda forma de atividade social. Isso significa que ele engole também as manifestações políticas antiglobalização. Aí é que mora o problema desse modismo dos espetáculos contestatórios que invocam o nome de Guy Debord, que corre o risco de virar um novo Che Guevara, um “Che Guevara Cabeção”, na camiseta dos manifestantes mais joviais.

O infantilismo esquerdóide da era do espetáculo

Poderíamos variar o subtítulo acima: “O esquerdismo infantilóide do espetáculo”. Daria na mesma. Voltemos ao suposto profeta dos neorrebeldes. O que ele ensina, categoricamente? O seguinte: “Não é possível fazer uma oposição abstrata entre o espetáculo e a atividade social efetiva”. Ou seja, a atividade social não passa por fora dos marcos do espetáculo, ele é sua linguagem, ou, de forma bem explícita, o espetáculo é a linguagem da atividade social. Nos parâmetros de Debord, ele é a única linguagem. Fora dela, portanto, a atividade social inexiste. O que, aliás, encontra ampla sustentação nos fatos. Foi como espetáculo (melodramático) que o MST entrou para o debate do grande público brasileiro: foi com a novela O Rei do Gado, lá se vão muitos anos. Foi como espetáculo que os tais cara pintadas tomaram as ruas para pedir a demissão de Collor. É como espetáculo que a greve da USP finalmente conseguiu aparecer com destaque nos jornais: foi quando a PM entrou no campus jogando bombas de gás para todo lado. Foi um ato deplorável do ponto de vista ético e político, um aviltamento do ambiente democrático, mas, do ponto de vista do espetáculo, foi um impulso formidável para a visibilidade de um movimento que, até o dia anterior, quase não incomodava ninguém.

Na gramática perversa do espetáculo, os grevistas tiveram seu dia de aventura inebriante contra as forças malignas, vivenciaram seu êxtase teatral, sua catarse libertária. Glorificaram-se como alvo da força bruta que, de resto, hoje em dia, é bruta pero no mucho. É quase inócua, no caso, pois, ela também é teatral.

Eis como esses movimentos se transformam em notícia. Não mais pelas idéias que carregam, ou pelos programas que postulam, mas pelas imagens que rendem ao consumo geral de gozo de uma platéia insaciável. O gozo da platéia encontra seu equivalente – necessário – no gozo dos protagonistas. Brigar com a tropa de choque virou uma espécie de item de consumo do entretenimento globalizado, um tipo de esporte radical para quem busca tardes emocionantes antes do jantar.

O mundo das manifestações políticas vai se convertendo num imenso parque temático, um parque vazio de significados e pleno de representações, de imagens e de fulgurações. Nesse parque temático que muda de lugar como um circo mambembe, temos – assim como o sambódromo, que tem um lugar geográfico bem fixo – uma infinidade de outros “ódromos”, que vão mudando de lugar feito uma turnê dos Rolling Sotnes: passeatódromos, invasódromos, ocupaçódromos. Não é mais a tal da “mídia” que é espetacular. São os agentes dos tais movimentos sociais que, alfabetizados pela indústria que culmina com o entretenimento, aprenderam a encenar o “acúmulo de espetáculos” de que nos falou Guy Debord. Eles não são “contra”o espetáculo da “mídia” – são seus funcionários. Com todo o respeito.

O déficit democrático

Guy Debord viu muita coisa, é verdade, mas não entendeu a ideologia, não entendeu o inconsciente, não entendeu principalmente a democracia. Essa é outra discussão, mas eu não a farei aqui. Digo apenas que a solução que ele propõe para superar o quadro que descreve, de um capital catapultado a espetáculo opressivo e ingovernável, é uma solução ridiculamente soviética, que faz lembrar a palavra de ordem de Lênin, em 1917, defendendo “todo o poder aos sovietes”. Debord foi interessante como diagnóstico – e inútil como receita. Tomá-lo por profeta das causas fáceis e aventurosas o desmerece, tende a reduzi-lo a um guia de autoajuda dos revolucionários-das-horas-vagas. O que há de carnavalesco nos movimentos sociais não precisa de teoria. Precisaria apenas de algum comedimento – e de uma crítica menos narcisista.


Sobre o blog da Petrobras

Junho 10, 2009

O jornalista Kennedy Alencar andou dizendo umas bobagens sobre o blog da Petrobras. Bobagens que eu esto vendo na boca de muito jornalista da grande imprensa por aí! Por isso vou publicar aqui uma carta aberta, para os colegas que estão tristes e acabrunhados diante dessa medida absolutamente normal da Petrobras de lançar um blog próprio, com as perguntas e respostas enviadas por jornalistas. Afinal, qualquer pessoa ou empresa pode ter um blog, certo? Afinal, vejam aí a resposta que eu enviei pro camarada…

*****
Kennedy Alencar,

Adorei a iniciativa da Petrobras, que lançou um blog para divulgar ao público as questões de interesse público que todo jornalista deveria abordar.

Acho que o blog beneficia os bons jornalistas, aqueles que não têm nada a temer, que não distorcem as informações, e que procuram, em mais de uma fonte, elementos para desenvolver uma boa matéria. Boas matérias são raras na imprensa de hoje. As reportagens estão massificadas, com pouca apuração, muita fofoca, e que atendem a interesses impublicáveis.

O tipo de jornalismo espúrio que pega resposta de um órgão, distorce e mancheta, vai acabar. Aquela competição infantil que ocorre entre veículos no estilo “quem pega a declaração de fulano primeiro” vai acabar. A internet vai interferir no modo se de se fazer jornalismo, cedo ou tarde. Afinal, desde quando a fonte deve se curvar aos interesses mercadológicos da imprensa? Ou será que a queda de um avião vai ter que esperar o horário de fechamento? A notícia vai ter que esperar a boa vontade das empresas de comunicação (jornais) pra acontecer?

Lamento profundamente seu anacronismo, pra não dizer preguiça. Preguiça de fazer bom jornalismo diante de assessorias que simplesmente cumprem com o papel de divulgar informações de interesse público.

Abraços,

Amanda Vieira
De Brasília


O desmonte da política ambiental

Junho 5, 2009

Apóio integralmente a nota “Nota pública contra o desmonte da política ambiental brasileira” publicada no www.viomundo.com.br pois é disso que nossos políticos bem intencionados precisam, de apoio. Está aí o importante papel dos blogueiros, apoiar a corrente de idéias que não sofrem a pressão de ter que agradar governo ou oposição.

Sem esse apoio de blogueiros e de cidadãos que manifestem pensamento crítico não adianta a gente ter uma Marina Silva ou qualquer outra figura de credibilidade lá no poder porque a barra lá é pesada, e as decisões que deveriam ser julgados pelo mérito acabam sendo julgadas por acomodações partidárias, troca de favores, enfim, tudo isso que já se sabe.

Daí a importância da sociedade civil que precisa estar sempre vigilante e unida, pra balançar essa “acomodação” de poderes entre governo e oposição sempre que o interesse público estiver ameaçãda. É preciso fazer com que a a proteção ao meio ambiente esteja acima dos interesses comerciais ou partidários. Divulguem o manifesto no twitter, no orkut ou mesmo na sua empresa.

O desmonte da política ambiental brasileira

Nota pública contra o desmonte da política ambiental brasileira

As organizações da sociedade civil abaixo assinadas vêm a público manifestar, durante a semana do meio ambiente, sua extrema preocupação com os rumos da política socioambiental brasileira e afirmar, com pesar, que esta não é uma ocasião para se comemorar. É sim momento de repúdio à tentativa de desmonte do arcabouço legal e administrativo de proteção ao meio ambiente arduamente construído pela sociedade nas últimas décadas. Recentes medidas dos poderes Executivo e Legislativo, já aprovadas ou em processo de aprovação, demonstram claramente que a lógica do crescimento econômico a qualquer custo vem solapando o compromisso político de se construir um modelo de desenvolvimento socialmente justo, ambientalmente adequado e economicamente sustentável.

1. Já em novembro de 2008 o Governo Federal cedeu pela primeira vez à pressão do lobby da insustentabilidade ao modificar o decreto que exigia o cumprimento da legislação florestal (Decreto 6514/08) menos de cinco meses após sua edição.

2. Pouco mais de um mês depois, revogou uma legislação da década de 1990 que protegia as cavernas brasileiras para colocar em seu lugar um decreto que põe em risco a maior parte de nosso patrimônio espeleológico. A justificativa foi que a proteção das cavernas, que são bens públicos, vinha impedindo o desenvolvimento de atividades econômicas como mineração e hidrelétricas.

3. Com a chegada da crise econômica mundial, ao mesmo tempo em que contingenciava grande parte do já decadente orçamento do Ministério do Meio Ambiente (hoje menor do que 1% do orçamento federal), o governo baixava impostos para a produção de veículos automotores. Fazia isso sem qualquer exigência de melhora nos padrões de consumo de combustível ou apoio equivalente ao desenvolvimento do transporte público, indo na contramão da história e contradizendo o anúncio feito meses antes de que nosso País adotaria um plano nacional de redução de emissões de gases de efeito estufa.

4. Em fevereiro deste ano uma das medidas mais graves veio à tona: a MP 458 que, a título de regularizar as posses de pequenos agricultores ocupantes de terras públicas federais na Amazônia, abriu a possibilidade de se legalizar a situação de uma grande quantidade de grileiros, incentivando, assim, o assalto ao patrimônio público, a concentração fundiária e o avanço do desmatamento ilegal. Ontem (03/06) a MP 458 foi aprovada pelo Senado Federal.

5. Enquanto essa medida era discutida – e piorada – na Câmara dos Deputados, uma outra MP (452) trouxe, de contrabando, uma regra que acaba com o licenciamento ambiental para ampliação ou revitalização de rodovias, destruindo um dos principais instrumentos da política ambiental brasileira e feita sob medida para se possibilitar abrir a BR 319 no coração da floresta amazônica, com motivos por motivos político-eleitorais. Essa MP caiu por decurso de prazo, mas a intenção por trás dela é a mesma que guia a crescente politização dos licenciamentos ambientais de grandes obras a cargo do Ibama, cuja diretoria reiteradamente vem desconhecendo os pareceres técnicos que recomendam a não concessão de licenças para determinados empreendimentos.

6. Diante desse clima de desmonte da legislação ambiental, a bancada ruralista do Congresso Nacional, com o apoio explícito do Ministro da Agricultura, se animou a propor a revogação tácita do Código Florestal, pressionando pela diminuição da reserva legal na Amazônia e pela anistia a todas as ocupações ilegais em áreas de preservação permanente. Essa movimentação já gerou o seu primeiro produto: a aprovação do chamado Código Ambiental de Santa Catarina, que diminui a proteção às florestas que preservam os rios e encostas, justamente as que, se estivessem conservadas, poderiam ter evitado parte significativa da catástrofe ocorrida no Vale do Itajaí no final do ano passado.

7. A última medida aprovada nesse sentido foi o Decreto 6848, que, ao estipular um teto para a compensação ambiental de grandes empreendimentos, contraria decisão do Supremo Tribunal Federal, que vincula o pagamento ao grau dos impactos ambientais, e rasga um dos pontos principais da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, assinada pelo País em 1992, e que determina que aquele que causa a degradação deve ser responsável, integralmente, pelos custos sociais dela derivados (princípio do poluidor-pagador). Agora, independentemente do prejuízo imposto à sociedade, o empreendedor não terá que desembolsar mais do que 0,5% do valor da obra, o que desincentiva a adoção de tecnologias mais limpas, porém mais caras.

8. Não fosse pouco, há um ano não são criadas unidades de conservação, e várias propostas de criação, apesar de prontas e justificadas na sua importância ecológica e social, se encontram paralisadas na Casa Civil por supostamente interferirem em futuras obras de infra-estrutura, como é o caso das RESEX Renascer (PA), Montanha-Mangabal (PA), do Baixo Rio Branco-Jauaperi (RR/AM), do Refúgio de Vida Silvestre do Rio Tibagi (PR) e do Refúgio de Vida Silvestre do Rio Pelotas (SC/RS).

Diante de tudo isso, e de outras propostas em gestação, não podemos ficar calados, e muito menos comemorar. Esse conjunto de medidas, se não for revertido, jogará por terra os tênues esforços dos últimos anos para tirar o País do caminho da insustentabilidade e da dilapidação dos recursos naturais em prol de um crescimento econômico ilusório e imediatista, que não considera a necessidade de se manter as bases para que ele possa efetivamente gerar bem-estar e se perpetuar no tempo.

Queremos andar para frente, e não para trás. Há um conjunto de iniciativas importantes, que poderiam efetivamente introduzir a variável ambiental em nosso modelo de desenvolvimento, mas que não recebem a devida prioridade política, seja por parte do Executivo ou do Legislativo federal. Há anos aguarda votação pela Câmara dos Deputados o projeto do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal (FPE) Verde, que premia financeiramente os estados que possuam unidades de conservação ou terras indígenas. Nessa mesma fila estão dezenas de outros projetos, como o que institui a possibilidade de incentivo fiscal a projetos ambientais, o que cria o marco legal para as fontes de energia alternativa, o que cria um sistema de pagamento por serviços ambientais, dentre tantos que poderiam fazer a diferença, mas que ficam obscurecidos entre uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e outra. E enquanto o BNDES ainda tem em sua carteira preferencial os tradicionais projetos de grande impacto ambiental, os pequenos projetos sustentáveis não têm a mesma facilidade e os bancos públicos não conseguem implementar sequer uma linha de crédito facilitada para recuperação ambiental em imóveis rurais.

Nesse dia 5 de junho, dia do meio ambiente, convocamos todos os cidadãos brasileiros a refletirem sobre as opções que estão sendo tomadas por nossas autoridades nesse momento, e para se manifestarem veementemente contra o retrocesso na política ambiental e a favor de um desenvolvimento justo e responsável.

Brasil, 04 de junho de 2009.

Assinam:

Amigos da Terra / Amazônia Brasileira

Associação Movimento Ecológico Carijós – AMECA

Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida – APREMAVI

Conservação Internacional Brasil

Fundação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional – FASE

Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – FBOMS

Fórum das ONGs Ambientalistas do Distrito Federal e Entorno

Greenpeace

Grupo Ambiental da Bahia – GAMBA

Grupo Pau Campeche

Grupo de Trabalho Amazônico – GTA

Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – IMAZON

Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC

Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM

Instituto Socioambiental – ISA

Instituto Terra Azul

Mater Natura

Movimento de Olho na Justiça – MOJUS

Rede de ONGs da Mata Atlântica

Sociedade Brasileira de Espeleologia

Via Campesina Brasil

WWF Brasil


Concrete Jungle

Junho 1, 2009

Viciei na Céu cantando essa música do Bob Marley