E a transposição do São Francisco?

Maio 27, 2009

Depois do alarido da imprensa sobre a polêmica obra de “transposição” (ou integração das bacias, como preferem os mais simpáticos à causa) do Rio São Francisco, nunca mais se ouviu falar no assunto. Alguém sabe em que pé estão as obras?! Recentemente o ex-presidente do Ibama foi chamado pra responder à Justiça por autorizar a transposição. E nenhuma nota foi publicada nos jornais de grande circulação…

Ainda bem que temos a imprensa alternativa e os blogs especializados, vejam aqui um artigo interessante no site do observatório da imprensa. E vejam a seguir a nota que saiu no site “Última Instância”. Quem souber mais detalhes de como anda a tal “transposição”, deixe recado aí nos comentários…

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Ex-presidente do Ibama responderá à Justiça por autorizar transposição
Última instância – 26/05/2009 – 20h30

A Justiça Federal recebeu nesta segunda-feira (25/5) uma ação de improbidade administrativa contra o ex-presidente do Ibama, Marcus Barros. Ele será processado por ter autorizado a emissão da licença de instalação das obras de transposição do rio São Francisco sem a análise dos projetos executivos e a realização de novas audiências públicas, em março de 2007.

A ação foi proposta pelo MPF-DF (Ministério Público Federal no Distrito Federal) em julho do ano passado. O procurador da República Francisco Guilherme Bastos alegou que o ex-presidente do Ibama contrariou o Decreto Presidencial 99.274/1990 e uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) ao emitir a licença precipitadamente. Barros tinha consciência da ilegalidade, pois foi alertado pelo MPF antes da emissão da licença. Na época, garantiu que os projetos executivos já tinham sido analisados, fato desmentido posteriormente.

Ao receber a ação, o juiz federal Alexandre Vidigal afirmou que a divergência nas informações prestadas e a insuficiência dos documentos apresentados pelo ex-presidente do Ibama durante a defesa prévia são elementos suficientes para dar prosseguimento à ação judicial, que entra agora na fase de instrução processual. A decisão foi comemorada pelo procurador da República Francisco Guilherme, autor da ação. “O recebimento da inicial demonstra a consistência dos elementos apresentados pelo MPF”, afirmou.
Na ação, o Ministério Público pede a condenação de Marcus Barros ao pagamento de multa, à perda da função pública, à suspensão dos direitos políticos de três a cinco anos, e à proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios fiscais ou creditícios por cinco anos.


Amyra El Khalili, mais uma boa entrevista

Maio 26, 2009

A Amyra El Khalili, mulher que já foi devidamente mencionada nesse blogue pela importância de sua trajetória de vida e também pela relevância de suas reflexões, veio aqui visitar esse humilde blogue (!) e me indicou mais uma entrevista das boas, dessa vez para o jornal “O Estado de Minas”.

Leiam que a mulher é fera!

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Pacto em favor da paz
Por Dea Januzzi – O Estado de Minas

Diretora de danças étnicas dissemina movimento que prega entendimento entre homens e mulheres

Amyra El Khalili, de 43 anos, nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é de origem palestina. Profissional de danças étnicas, diretora da Cia El Khalili Arabian Dances, com mais de duas décadas de pesquisas sobre ritmos árabes e brasileiros, tem trabalhos premiados no Brasil e no exterior. É idealizadora da oficina Dança pela água em missão de paz, realizada com mulheres de diversas comunidades brasileiras. Foi fundadora do Movimento mulheres pela paz e indicada para as premiações “1.000 mulheres para o Prêmio Nobel da Paz” e “Prêmio Bertha Lutz 2007”. Em entrevista ao caderno Bem Viver, ela fala de sua trajetória de vida e de sua principal prioridade – trabalhar a autoestima feminina.“Tanto a exterior quanto a interior, para que as mulheres conquistem o poder. Para nós, esse trabalho é um ritual traduzido em dança. Seja para o mercado de trabalho, para o empreendedorismo, a economia, o amor, a família, o empoderamento de mulheres é a nossa meta”, diz.

“A cada guerra ou conflito, quando as pessoas surtarem, mandaremos e-mails com receitas de doces árabes, comida judaica, baiana, goiana. Convidaremos para uma dança coletiva, um poema, um cinema, uma troca de carinhos e de boas palavras”

“É uma longa trajetória até que homens e mulheres possam estar um ao lado do outro no mesmo ritmo, na mesma roda com um pacto de igual para igual, com compromissos e missões”

Você é uma profissional eclética, pois, além de dançarina, também é economista e ambientalista. Como tudo se encaixa em sua história de vida?

Tornei-me economista, porque como artista não conseguia sobreviver dignamente. Na minha cabeça de menina, pensava que se conseguisse convencer que a arte é atitude, muito poderia se ganhar social e economicamente com atividades culturais e artísticas. No meu entendimento, conseguiria financiar as atividades de dança, cinema, teatro, literatura, entre outras. Sempre fui artista, não somente como dançarina étnica, mas fiz cinema, teatro, cenografia, artes plásticas. Sou também poeta e escritora. Fui, desde jovem, muito respeitada por exercer entre os grupos heterogêneos uma liderança de bom senso, profissional e de justiça. Mas, sobretudo, pelo compromisso com o trabalho voluntário. Dona Elisa, minha mãe, é enfermeira-sanitarista e meu pai era palestino refugiado, mascate, como todo beduíno. Filha de pequenos produtores rurais, criada em orfanato, minha mãe ensinou-me a trabalhar desde os 9 anos. Quando pequenina, fui para uma oficina de costura de fundo de quintal. Com apenas 12 anos já era secretária num consultório médico. Aos 16, comecei minha carreira como operadora de commodities numa corretora de mercadorias, vendendo arroz e feijão, para depois tornar-me secretária temporária e substituta de várias secretárias da bolsa de mercadorias e de futuros, até chegar ao status de broker (corretora) nos mercados financeiros e, finalmente, ser professora dessa coisa complexa, que são os mercados futuros e de commodities. O trabalho não me matou, nem fez de mim uma criança complexada. Sempre exerci a atividade artística e cultural paralelamente às profissionais básicas de sobrevivência. Aliás, como faz a maioria dos artistas pobres para se sustentarem neste país. Trabalhei e estudei a vida inteira, cuidei de meus irmãos, ajudei a criá-los e educá-los com a mesma responsabilidade materna.

Onde entra a dança na sua vida?
Desde que fiz uma carreira meteórica nos mercados financeiros, entendi que não poderia jamais esquecer que tenho útero. Não deveria abandonar minha feminilidade, pois estava no meio de um mercado patriarcal, em que predomina a voz de comando eminentemente masculina. O respeito do mundo financeiro me custou alto e muito caro. Paguei com a vida pessoal, tendo que manter um comportamento severo e uma disciplina militar, até que conseguisse me libertar das pressões e assumir uma posição proativa, defendendo a importância do reconhecimento e espaço de poder das mulheres num ambiente machista. A dança é esse resgate. Um eixo de equilíbrio. Trata-se de um pacto tribal de mulheres entre mulheres e para mulheres.

O que é o Movimento mulheres pela paz?
É um movimento da mística feminina – essência que o homem também tem –, que nasceu em 8 de março de 2002. Com a participação de homens e mulheres pela paz, formamos uma frente representativa de ação proativa com o Move On na América Latina e a coalizão liderada pelo Bispo Desmond Tutu, da África do Sul. Uma mobilização com a participação de ativistas de 142 países em vigília contra a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Um dia antes da invasão, estávamos conectados com velas acesas e orações, pedindo paz no mundo. E, depois, via internet, nos juntamos ao Movimento mulheres pela paz dos EUa, apoiando a petição on line para a retirada das tropas estadunidenses e de seus aliados do Iraque. O Codepink contabilizou 100 mil assinaturas. Junto com uma carta protesto, elas foram entregues na ONU, em Nova Iorque, em março de 2006. Esse movimento nasceu de uma atitude de mulheres palestinas, judias e brasileiras, depois de várias cisões em nossos grupos pacifistas. Nasceu no momento em que os homens não conseguiam sair da mesma retórica discursiva. A cada guerra ou conflito, quando as pessoas surtarem, perderem a razão na cegueira odiosa, mandaremos e-mails com receitas de doces árabes, comida judaica, baiana, goiana. Convidaremos para uma dança coletiva, um poema, um cinema, uma troca de carinhos e boas palavras. Um gesto suficiente para serenar a mente. Nenhum movimento, porém, se consolida apenas com motes. Essa consolidação só se dá quando seus líderes e integrantes assumem efetivamente a causa, carregam suas bandeiras, assumem a exposição pública com todos os riscos. O nosso “A” da palavra paz ! é um a de @@ (arroba), código internauta. Precisávamos agir o mais rápido possível, com mensagens positivas, desmontando fluxos de informações com mensagens, por exemplo, racistas, preconceituosas, negativas, sites de pedofilia, além de centenas de cyberações em defesa da preservação e conservação ambiental. O movimento foi crescendo informalmente pela internet, sem constituição jurídica e organização engessada, mas transversal, como a palavra movimento. Nas regiões onde atuamos, trabalhamos também, fora da internet, o movimento corporal: a dança pela água em missão de paz.

Qual o papel das mulheres na luta pela paz?
Pensamos sempre na mulher como um ser que dá vida a outros seres, e é responsável por carregar no ventre essas vidas, bem como educar, lavar, passar e cozinhar, além, é claro, de trabalhar fora de casa. Há as que trabalham dentro de casa também, nessa dupla jornada, e ainda convivem com os conflitos de identidade do parceiro, que, muitas vezes, não consegue acompanhar a evolução das mulheres, como profissional remunerada alcançando cargos e salários, como mulher independente financeiramente, e que pode, a qualquer momento, se livrar do paradigma de casamentos por dependência ou imposições sociais. As mulheres também têm tido um papel relevante nas questões ambientais, quando defendem o direito de água para todos. Que é na verdade a defesa do direito à vida. As mulheres têm se movimentado mais rápido que os homens nas questões sociohumanitárias e nas mobilizações ambientais. Tem sido mais fácil sensibilizar as mulheres para a preservação e conservação ambiental devido à própria condição biológica, como gestora da vida, portadora de útero. Entendemos, porém, que a mulher precisa também caminhar ao lado do homem, formando a família. As mulheres devem assumir sua condição de guardiãs das florestas, dos rios, da natureza, do meio ambiente, uma vez que, no dia a dia com as tarefas domésticas, são também as que sofrem com a falta de água, de energia, de alimentos. As mulheres estão revolucionando o mundo como educadoras ambientais, naturalmente que são, por sua formação biológica e capacidade de sentir. Porém, é importante identificar que esses sentimentos não são exclusivos das mulheres, mas também e principalmente dos homens. Homens paridos, criados e educados por mulheres. Talvez seja esse nosso maior desafio. Despertar essa mística dos homens e permitir que eles a sintam, com tanta ou mais intensidade com que a sentimos.

Quais são os maiores obstáculos à disseminação de uma cultura da paz no Brasil?
Nossa realidade é a seguinte: são poucas as pessoas realmente comprometidas com as causas socioambientais, assim como com as questões de direitos humanos, políticos, liberdade de expressão e democratização da informação. Cada qual carrega sua bandeira. E assumir uma causa ou uma missão é algo muito pessoal, íntimo. O que podemos fazer é identificar esses formadores de opinião, apoiá-los, dar-lhes estímulo e força, para que persistam no seu trabalho e se estabeleçam. Não estamos falando de dinheiro, mas de ação, apoio moral e psicológico. Um apoio que se dá sem interesses, maniqueísmos ou segundas intenções. É aquele apoio que fortalece o ser humano para que consiga encontrar soluções, sem destruir-se, degradar-se moralmente. É importante apoiar essas pessoas, pois são elas que carregam, puxam, impulsionam outras. Se elas fraquejam, enfraquecem alguns milhões de dependentes de suas ações, que também precisam de apoio.

Como o movimento atua?
Muitas vezes, mulheres ou homens que lideram comunidades são pressionados, intimidados e ameaçados por corruptos, por questões partidárias, políticas, religiosas. Procuramos, de alguma forma, apoiar essas pessoas para que tenham condições de continuar sua missão. Quando é possível, viajamos até a região. Ministramos palestras e cursos, formamos multiplicadores, conversamos com a comunidade, organizamos estratégias. Sabemos que essa pessoa permanecerá ali, quando formos embora. Dá uma sensação estranha. De um lado, satisfação enorme pela chance de poder dizer algo. De outro, a impotência, de querer fazer mais, sem saber exatamente o quê e como. O que fazer então? Tentamos preparar essa pessoa para que possa seguir em frente. Essa é uma das premissas do movimento de mulheres e de homens pela paz. Principalmente se essa pessoa for uma mulher. São elas as mais discriminadas e excluídas no processo de empoderamento socioeconômico. Conquistaram o mercado de trabalho, são a maioria consumidora, mas não foram preparadas para ter poder.

O que é a dança pela água em missão de paz?
No Brasil, estamos conectados com comunidades de todos os continentes. Falamos com os países de língua portuguesa da África, como Cabo Verde, Moçambique, Angola, Timor Leste. Falamos com países de língua espanhola, como Canárias, Bolívia, Uruguai e a própria Espanha. Falamos com países de língua francesa e árabe. Assim, com o nosso jeito brasileiro, vamos falando aqui e acolá. Ou apenas dançando, afinal, o corpo também fala. Aliás, grita. Aí, graças à internet, ouve-se do Oiapoque ao Chuí. É nossa prioridade trabalhar a autoestima feminina. Tanto a exterior quanto a interior, para que as mulheres possam ser empoderadas. Para nós, esse trabalho é um ritual traduzido em dança. Seja para o mercado de trabalho, o empreendedorismo, a economia, o amor, a família, o empoderamento de mulheres é a meta. E, assim, não permitir que sejam tratadas como mais uma consumidora ou uma mulher-commodity (mercadoria).

O que vocês dançam?
São danças étnicas árabes que se encontram com as danças regionais brasileiras. Essa fusão é que chamamos de samba do ventre, daí nasceu a Rede para Difusão da Cultura Árabe-Brasileira Samba do Ventre. Dessa brincadeira de criança, criei a técnica Samba do ventre, cujos direitos autorais foram doados com o objetivo de viabilizar parcerias e investimentos socioeducacionais, a fim de formar crianças e adolescentes vítimas das guerras e da violência urbana e/ou rural para dança, teatro, música, cinema, literatura e artes plásticas, além de laboratórios de comunicação corporal aplicada a treinamentos em recursos humanos. As danças beduínas aplicadas na oficina objetivam resgatar a memória ancestral que todas as mulheres têm de suas relações com o ciclo hidrológico, a partir dos movimentos executados pelas beduínas quando agradeciam os deuses pelo presente que lhes traziam de bons ventos, boas águas e boas colheitas.

Como participar das oficinas?
Estamos em caravana pelo Brasil e pelo exterior com as oficinas, que são gratuitas, abertas ao público e sempre convidamos a comunidade local para participar ou mesmo organizar uma oficina em sua região. É só enviar o e-mail para mulherespelapaz@bece.org.br, com uma proposta, tema, evento. É importante ressaltar que a oficina é exclusivamente para mulheres, sem a presença de homens no recinto de atividades. Somente permitimos a participação deles quando existe um preparo para cultura de paz e um engajamento do grupo masculino nas questões de gênero. Não estamos excluindo os homens, mas preparando as mulheres para acolhê-los em suas feminísticas. Sabemos que esse acolhimento não se dá da noite para o dia. É uma longa trajetória até que homens e mulheres possam estar um ao lado do outro no mesmo ritmo, na mesma roda com um pacto de igual para igual, com compromissos e missões.


Procuram-se escritoras de textos teatrais

Maio 19, 2009

Procuram-se escritoras de Brasília (DF) para participarem de uma oficina de textos dramáticos para teatro. Vagas limitadas! Envie um e-mail para evaluna_sp@yahoo.com.br, com o assunto: “Projeto drama” e aguarde a programação da oficina.


Manifesto pela liberdade na internet!

Maio 12, 2009

Está chegando a hora de mais um manifesto! Que o senador Azeredo se prepare pois os internautas não vão permitir que a liberdade na internet seja tolhida por uma lei mal escrita e de intenção duvidosa. Viva o código aberto! Salve a liberdade de conhecimento!

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Somalia é o lugar mais perigoso do mundo?

Maio 11, 2009

Eduardo Galeano escreveu um artigo que revela a violência silenciosa de Wall Street em oposição aos mortos de fome que assaltam navios na Somália. O texto foi publicado na Carta Maior, com tradução do Emir Sader.

Aos questionamentos do Galeano eu acrescento, humildemente: o que será pior, chorar pelos mortos atingidos pela gripe incurável H1N1 ou chorar por aqueles que morrem de doenças facilmente curáveis, por simples falta de atendimento?

Atulização às 17h31: o Azenha também pergunta: Por que a gripe suína, que não matou ninguém no Brasil, merece mais cobertura que mais de 40 mortos pelas enchente no Nordeste?

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Desculpem a moléstia
Eduardo Galeano

Quero compartilhar com vocês algumas perguntas, moscas que zumbem na minha cabeça:

O zapatista do Iraque, o que jogou os sapatos contra Bush, foi condenado a três anos de prisão. Não merecia, na verdade, uma condecoração?

Quem é o terrorista? O zapatista ou o zapateado? Não é culpado de terrorismo o serial killer que, mentindo, inventou a guerra do Iraque, assassinou a um montão de gente, legalizou a tortura e mandou aplicá-la?

São culpados os habitantes de Atenco, no México, ou os indígenas mapuches do Chile, ou os kekchies da Guatemala, ou os camponeses sem terra do Brasil, todos acusados de terrorismo por defender seu direito à terra? Se sagrada é a terra, mesmo se a lei não o diga, não são sagrados também os que a defendem?

Segundo a revista Foreign Policy, a Somalia é o lugar mais perigoso do mundo. Mas quem são os piratas? Os mortos de fome que assaltam navios ou os especuladores de Wall Street, que há anos assaltam o mundo e agora recebem multimilionárias recompensas por suas atividades?

Porque o mundo premia os que o saqueiam?

Por que a justiça é cega de um único olho? Wal Mart, a empresa mais poderosa de todas, proíbe os sindicatos. McDonald’s, também. Por que estas empresa violam, com delinqüente impunidade, a lei internacional? Será que é por que no mundo do nosso tempo o trabalho vale menos do que o lixo e valem menos ainda os direitos dos trabalhadores?

Quem são os justos e quem são os injustos? Se a justiça internacional realmente existe, por que não julga nunca aos poderosos? Não são presos os autores dos mais ferozes massacres? Será que é porque são eles que têm as chaves das prisões?

Por que são intocáveis as cinco potências que tem direito de veto nas Nações Unidas? Esse direito tem origem divina? Velam pela paz os que fazem o negócio da guerra? É justo que a paz mundial esteja a cargo das cinco potências que são as cinco principais produtoras de armas? Sem desprezar aos narcotraficantes, este também não é um caso de “crime organizado”?

Mas não demandam castigo contra os senhores do mundo os clamores dos que exigem, em todos os lugares, a pena de morte. Só faltava isso. Os clamores clamam contra os assassinos que usam navalhas, não contra os que usam mísseis.

E a gente se pergunta: já que esses justiceiros estão tão loucos de vontade de matar, por que não exigem a pena de morte contra a injustiça social? É justo um mundo em que a cada minuto destina três milhões de dólares aos gastos militares, enquanto a cada minuto morrem quinze crianças por fome ou doença curável? Contra quem se arma, até os dentes, a chamada comunidade internacional? Contra a pobreza ou contra os pobres?

Porque os adeptos fervorosos da pena de morte não exigem a pena de morte contra os valores da sociedade de consumo, que cotidianamente atentam contra a segurança pública? Ou por acaso não convida ao crime o bombardeio de publicidade que aturde a milhões e milhões de jovens desempregados ou mal pagos, repetindo para eles dia e noite que ser é ter, ter um automóvel, ter sapatos de marca, ter, ter, e que não tem, não é?

E por que não se implanta a pena de morte contra a pena de morte? O mundo está organizado a serviço da morte. Ou não fabrica a morte a industria militar, que devora a maior parte dos nossos recursos e boa parte das nossas energias? Os senhores do mundo só condenam a violência quando são outros os que a exercem. E este monopólio da violência se traduz em um fato inexplicável para os extraterrestres e também insuportável para os terrestres que ainda queremos, contra toda evidência, sobreviver: os humanos somos os únicos especializados no extermínio mútuo e desenvolvemos uma tecnologia da destruição que está aniquilando, de passagem, ao planeta e a todos os seus habitantes.

Esta tecnologia se alimenta do medo. É o medo que fabrica os inimigos que justificam o desperdício militar e policial. E em vias de implantar a pena de morte, que tal se condenamos à morte o medo? Não seria saudável acabar com essa ditadura universal dos assustadores profissionais? Os semeadores de pânico nos condenam à solidão, nos proíbem a solidariedade: salve-se quem puder, destruam-se uns aos outros, o próximo é sempre um perigo que se aproxima, olho, cuidado, esse cara vai te roubar, aquele vai te violar, este carrinho de nenê esconde bomba muçulmana e se essa mulher te olha, essa vizinha de aspecto inocente, certamente vai te contagiar com a gripe Porcina.

No mundo de cabeça para baixo, dão medo até os mais elementares atos de justiça e de bom senso. Quando o presidente Evo Morales começou a refundação da Bolívia, para que esse país de maioria indígena, deixasse de ter vergonha de olhar no espelho, provocou pânico. Este desafio era catastrófico do ponto de vista da ordem racista tradicional, que dizia que era a unida ordem possível. Evo era, trazia o caos e a violência e por sua culpa a unidade nacional ia explodir em pedaços. E quando o presidente equatoriano Rafael Correa anunciou que se negava a pagar as dívidas não legítimas, a noticia produziu terror no mundo financeiro e o Equador foi ameaçado com terríveis castigos, por estar dando um tão mau exemplo. Se as ditaduras militares e os políticos ladrões foram sempre mimado pelos bancos internacionais, não nos acostumamos já a aceitar como fatalidade do destino que o povo pague o garrote que o golpeia e a cobiça que o saqueia?

Mas será que se divorciaram para sempre o bom senso e a justiça? Não nasceram para andar juntos, bem pegadinhos, o bom senso e a justiça?
Não é de bom senso, e também de justiça, esse lema das feministas que dizem que se nós, os machos, ficássemos grávidos, o aborto seria livre? Por que não se legaliza o direito ao aborto? Será porque então deixaria de ser o privilegio das mulheres que podem paga-lo e dos médicos que podem cobrá-lo?

O mesmo acontece com outro escandaloso caso de negação da justiça e do bom senso: por que não se legalizam as drogas? Por acaso não se trata, como no caso do aborto, uma questão de saúde publica? E o país que tem mais drogados, que autoridade moral tem, que autoridade moral tem para condenar aos que abastecem sua demanda? E por que os grandes meios de comunicação, tão consagrados à guerra contra o flagelo da droga, não dizem nunca que ela provêm do Afeganistão quase toda a heroína que se consome no mundo? Quem manda no Afeganistão? Não é esse um país ocupado militarmente pelo pais messiânico que se atribui a missão de salvar a todos nós?

Por que não se legalizam as drogas pura e simplesmente? Não será porque elas dão o melhor pretexto para as invasões militares, além de brindar os mais suculentos lucros aos bancos que de noite trabalham como lavanderias?

Agora o mundo está triste porque se vendem menos carros. Uma das conseqüências da crise mundial é a queda da próspera indústria automobilística. Se tivéssemos algum resto de bom senso e um pouquinho de sentido de justiça, não teríamos que celebrar essa boa noticia? Ou por acaso a diminuição de automóveis não é uma boa noticia, do ponto de vista da natureza, que estará um pouquinho menos envenenada e dos pedestres, que morrerão um pouco menos?

Segundo Lewis Carroll, a Rainha explicou a Alice como funciona a justiça no país das maravilhas:

- Ai você tem – disse a Rainha. Está preso cumprindo sua condenação; mas o processo só vai começar na segunda-feira. E, claro, o crime será cometido no final.

Em El Salvador, o arcebispo Oscar Arnulfo Romero comprovou que a justiça, como a serpente, só morde aos descalços. Ele morreu baleado, por denunciar que no seu país os descalços nasciam condenados de atenção pelo delito de nascimento.

O resultado das recentes eleições em El Salvador não é de alguma forma uma homenagem. Uma homenagem ao arcebispo Romero e aos milhares que como ele morreram lutando por uma justiça justa no reino da injustiça?
Às vezes acabam mal as historias da História, mas ela, a História, não acaba. Quando diz adeus, está dizendo até logo.

Tradução: Emir Sader


Ato fora Gilmar Mendes e as novas mídias

Maio 7, 2009

Na noite do dia 6 de maio a Praça dos Três Poderes se iluminou em Brasília: cerca de 300 pessoas acenderam mais de 5 mil velas em protesto contra a escuridão do judiciário brasileiro, provocada e mantida pelo autoritarismo do excelentíssimo ministro Gilmar Mendes. O ato “Fora Gilmar” foi amplamente divulgado em blogs, redes de relacionamento e sites alternativos. A maioria das pessoas que participaram da manifestação ficaram sabendo do evento por esses canais.

Essa utilização das novas mídias para a realização de protestos revela a um só tempo a força e a fragilidade da internet. Se por um lado as 300 pessoas ali presentes estavam bem informadas sobre a manifestação, por outro só a internet não foi capaz de atingir outros milhares de brasileiros que certamente também engrossariam o protesto, se soubessem que ele iria acontecer.

Durante o ato, uma rede de blogueiros exibiu ao vivo o protesto. Vídeos e fotografias do ato já estão se multiplicando na internet: a grande imprensa não poderá mais ignorar protestos desse teor. Aos poucos a internet vai ocupando seu espaço – é questão de tempo para que as novas mídias tornem protestos como o “Fora Gilmar Mendes” cada vez mais acessíveis.

Veja a seguir um vídeo sobre o ato “Fora Gilmar Mendes”.

Em tempo:

1. O protesto não foi promovido pelo PSOL e sim por uma articulação de entidades e de pessoas físicas que se irmanam na vontade de tirar o Gilmar Mendes do STF. Sim, haviam militantes do PSOL no ato, assim como haviam católicos, vegetarianos, ciclistas, petistas, crianças… O problema é que os militantes do PSOL têm essa carência, essa necessidade de querer aparecer mais do que os católicos, frentistas, açougueiros, petistas e crianças em geral.

2. A idéia é continuar promovendo protestos. Este blog vai acompanhar essa movimentação pela saída do Ministro Gilmar Mendes.


Vamos?

Maio 6, 2009

Hoje, dia 6 de maio de 2009, será realizado o ato “Fora Gilmar Mendes” em frente ao Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, a partir das 19h. Eu vou. Vamos? Saiba mais sobre a manifestação pelo blog: www.saiagilmar.blogspot.com. Se você não puder comparecer, espalhe o banner e escreva posts! Mas não deixe de dar sua contribuição ao protesto!

Saia Gilmar! E não volte ao STF.

Saia Gilmar! E não volte ao STF.