Um pouco de poesia

Fevereiro 25, 2009

Para inaugurar a seção “poesia”, escolhi uma do Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro, que conheci por acaso, na voz da cantora Maria Bethânia. O título é “Poema do Menino Jesus”.

É longo e vale cada verso… Boa leitura.

***
Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
“Se é que ele as criou, do que duvido.” -
“Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.”
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

… … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

… … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

… … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro


Carnaval

Fevereiro 24, 2009

Carnaval é…

- Acordar às 13h e tomar café com pão amanhecido
- Cuidar dos bichinhos de estimação
- Arrumar tralhas (gaveta, conta)
- Tomar outro café às 19h
- Tomar chá de camomila às 2h pra ver se o sono aparece
- Tomar guaraná Jesus às 2h40 só porque abriu a geladeira
- Publicar um videozinho e escrever um postizinho antes de dormir


Jarbas Vasconcelos ri da nossa cara

Fevereiro 20, 2009

Jarbas Vasconcelos e o Almanaque da Abril devem agora estar rindo muito da nossa cara. A entrevista que este senador do PMDB concedeu ao picadeiro da revista de maior circulação nacional caiu na boca de alguns colonistas como uma grande “bomba”. Bomba? Pra mim esses dois – Veja e Jarbas – estão é rindo muito de nossa cara.

Vejamos o que está publicado nas páginas amarelas da Veja, logo no início… Jarbas diz que “a maioria dos integrantes do seu partido (PMDB) só pensa em corrupção e que a eleição de José Sarney à presidência do Congresso é um retrocesso”.

Eu pergunto: quem nesse Brasilzão-de-meu-deus diria que Sarney na presidência do Congresso foi um avanço!? Foi o mico do ano! Qual a novidade disso? E outra, o que o Jarbas Vasconcelos está fazendo lá no antro da corrupção, o PMDB? Rezando por aquelas pobres almas corruptas? Por que não largou a merda dessa vida!? Por que não foi vender flores?

A cada linha da entrevista de Jarbas à Veja meu fígado reagia com uma pontada. Meu Deus, como pode um discurso soar tão cínico?

Vamos lá. Veja teve a pachorra de perguntar: Para que o PMDB quer cargos? Ao que o nobre senador respondeu: Para fazer negócios, ganhar comissões.

Ahn sim. Quer dizer que só o PMDB quer cargo pra fazer negócios e ganhar comissões? Quer dizer que nenhum partido ali quer o cargo pra isso? Nunca quis? É uma maldade única e exclusiva do PMDB? Quer dizer que nem petistas nem tucanos nunca quiseram ter cargo pra negociar?

Depois de tomar um grande gole de água, pra apaziguar o fígado, continuo a ler a entrevista, já incrédula entre o ar blazé com que ele se referia à popularidade do Lula no estado de Pernambuco. Depois, é claro, criticou o Bolsa Família. Até aqui normal, afinal, são opiniões de quem nunca foi ver o bolsa família de perto, nunca teve um parente ou conhecido precisando desse auxílio. Ou seja, acredito que nesse ponto ele foi absolutamente sincero.

O meu fígado voltou a sentir pontadas com a declaração de Jarbas de que hoje a classe política toda é medíocre. Governo e oposição.

Qual a novidade desse discurso? Você vai em qualquer boteco tem alguém falando exatamente isso, que político é tudo igual, não presta. E provavelmente alguém dizia isso até na época de Getúlio… Quiçá nos tempos de Jesus Cristo…

Depois veio aquele bom mocismo de dizer que a corrupção é o câncer da nossa política, que não vai acabar de uma hora pra outra e tudo o mais. Temos então mais uma pérola do discurso vazio. Aquela velha metralhadora giratória que joga a culpa pra galera, afinal a corrupção é dos outros. Como se jogar o barro na parede, indiscriminadamente, o livrasse de viver junto aos corruptos. Como se ele tivesse lá no meio, contrariado da vida, tendo que aturar os corruptos, como quem atura crianças malcriadas.

A cereja do bolo é o final da entrevista, quando a máscara cai: ele diz que não tem nenhuma vontade de disputar cargos. Em seguida, diz que vai se empenhar na candidatura do Serra.

Agora vem cá, depois de posar de desiludido com a política, de falar que nem governo nem oposição presta, ele chega ao fim de uma entrevista e se coloca abertamente a favor de Serra?!?!?!?! E o repórter da revista Veja publica, sem ao menos contestar?!?!?!

Afinal o Serra não é da oposição? O senador não caiu em contradição com o que disse nos primeiros parágrafos!?!

Veja e Jarbas Vasconcelos estão rindo da gente. Gargalhando. Vendendo revistas pra caramba. Amealhando votos de leitores incautos.

Mas eu sou parte daquela parte cética da platéia. Nós já somos pelo menos três: o Emerson Luis já publicou sua indignação sobre o assunto e o Nassif já descontrui a entrevista, com a clareza e precisão do jornalista sensível e experiente que ele é. Um dia eu chego lá, por enquanto vou escrevendo com o fígado mesmo…

E você? Que achou desse espetáculo todo? Lamentável, não?


Vítima

Fevereiro 15, 2009

O caso da brasileira atacada na Suiça é um clássico exemplo de jornalismo de espetáculo. Ninguém quis se preocupar realmente com a menina. Parece-me que a saúde da mulher é a última coisa que importa para os urubus da imprensa, da polícia e dos palpiteiros em geral.

Fico com a avaliação do pai da moça: “Em qualquer circunstância, a minha filha é vítima (…) Ou é vítima de graves distúrbios psicológicos ou da agressão, que desde o início ela sustenta e [de que] não tenho motivos ainda para duvidar.”

Vale lembrar

Sabemos que na Suiça há um movimento de pessoas que ostentam a xenofobia como bandeira política. Basta olharmos a propaganda do SVP (Partido Popular Suíço) em 2007, que não deixa margem para dúvidas quanto ao tratamento que se clama para os estrangeiros naquele país. Vejam abaixo: uma ovelha negra é expulsa a coices do país por outras brancas e o texto: “Pela expulsão de estrangeiros criminosos. Criar Segurança”. Acho que dentro desse contexto, a Suiça deveria ter a obrigação moral de, no mínimo, admitir que existem SIIIIMMMMM movimentos que rejeitam estrangeiros, e que a hipótese da moça ter sido atacada por skinheads é provável SIMMMMM, tão provável quanto qualquer outra que eles queiram investigar.

Vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

Campanha do Partido Popular Suiço


Atacada em Zurique

Fevereiro 14, 2009

Quando olhei a notícia da mulher brasileira que foi atacada em Zurique o que mais me chamou a atenção foram as fotos, a precisão dos cortes. Os golpes desferidos pela navalha (ou estilete) formavam a sigla de um partido político, sem dúvida. E quem quer que tenha feito o serviço, o fez com muito esmero, sabia o que estava fazendo.

Daí a vítima passou a ser acusada, em um piscar de olhos, com base em um laudo produzido por um Instituo de Medicina Forense. Em outras palavras, ao invés de atendimento e conforto, convocaram um médico para provar que ela estava mentindo e que ela mesma teria se cortado… Ou seja, ela deixou de ser paciente.

Espanta-me a velocidade com que se fabricam provas. É impressionante como um Instituto de Medicina expõe a vida de uma paciente. Sim. Ali ela estava na condição de uma paciente, será que o caso não poderia correr em sigilo?

Por tudo isso quero deixar registrada minha solidariedade a Paula Oliveira, que de vítima passou a ser acusada e se transformou no alvo de toda a sorte de especulações. Paula Oliveira virou o “judas” do jornalismo mais baixo, o especulativo, que não hesita em assassinar reputações ou comprar teses de autoridades.

É preferível soltar um criminoso a condenar um inocente. Pelo menos assim penso eu, que procuro ter um mínimo de responsabilidade pelas coisas que publico. Creio que Paula Oliveira merece nosso apoio e solidariedade.


Quem comemora o Risco-país?

Fevereiro 10, 2009

Reza a lenda que o Risco-país indica aos investidores internacionais qual é a capacidade que as empresas e governo de um país têm, em dado período, de arcar com suas dívidas. Assim, se as chances de um país honrar seus compromissos são excelentes, os especuladores internacionais trazem a grana, fazem suas aplicações, uma parte da bufunfa chega ao bolso dos trabalhadores, outra parte vai pra previdência, outra se perde no caminho, e outra retorna ao bolso de seus investidores, com sorte, multiplicada.

Então os jornais, as empresas, os investidores e os incautos no geral comemoram o triplo A (capacidade excepcional de honrar seus compromissos financeiros) como quem acredita no horóscopo quando ele diz que, para os nascidos em tal dia do mês, o tempo é positivo para aplicações financeiras. Para muitos o triplo A sinaliza que, naquele país, a crise está distante, que há uma estabilidade econômica no ar que todos se beneficiam dessa bem-aventurança.

Contrariando a corrente dos que acreditam cegamente nesse índice, a assistente social Elisabete Borgianni defendeu, no final de 2008, a tese de doutorado “Risco-País e Investment Grade: contribuições do Serviço Social para sua desmistificação”.

Na extensa pesquisa, ela faz uma verdadeira desconstrução do índice. Em primeiro lugar, ela parte do princípio de defender a centralidade da discussão social em qualquer análise que se queira econômica. Elisabete Borgianni discorre longamente sobre o que é o “ser social”. Ela procura sua matriz de pensamento basicamente em Marx e Lukács, além de outros pesquisadores de destaque do serviço social brasileiro. Creio que essa primeira parte da tese é leitura obrigatória entre economistas e jornalistas da área econômica.

Após expor seu ponto de vista teórico, Elisabete Borgianni prossegue para a análise dos critérios utilizados pelas agências de risco que criam essas classificações. O “risco político” é um desses critérios e que sofre duros questionamentos da pesquisadora.

Nesse ponto, Elisabete Borgianni questiona a falta de precisão nos conceitos adotados pelas agências. O que elas entendem por pressão popular, pergunta a pesquisadora. Na seqüência, ela cita o caso Equador, que, em 2005, passava por pressões populares para a melhoria de aposentadorias. O governo do Equador apontou, então, que tais mudanças poderiam desequilibrar as contas nacionais e aumentar o Risco-país. Ao mesmo tempo, ela cita os EUA que, por “pressão popular” autorizou a invasão do Iraque e do Afeganistão. E o risco-país do EUA nunca sofreu abalos por esse tipo de pressão popular, e tem seus riscos considerados entre os mais baixos do mundo (pelo menos tinham, na época em que a tese foi defendida, antes da recente crise financeira mundial).

Em um terceiro momento, a pesquisadora demonstra que, em nome do tal Risco-país, os governantes tendem a diminuir seus investimentos nas áreas sociais, de previdência, e em outras que realmente interessam à grande maioria das pessoas que dependem exclusivamente do trabalho para sobreviver. Ou seja: para atingir o tal Investment Grade, o Brasil precisou tirar recursos da política social, principalmente da seguridade social através do superávit primário.

Será que nós, pobres mortais, devemos mesmo comemorar o tal triplo A?
Não quero aqui esgotar o tema tão profundamente dissecado por Elisabete Borgianni. Mas quero ressaltar a importância desses pesquisadores que tentam, de alguma forma, nos alertar para as armadilhas dos índices com que nos deparamos diariamente. Quero suscitar também, outro debate trazido pela pesquisadora: qual índice seria apropriado para atrair investimentos e, ao mesmo tempo, colaborar para os valores democráticos, humanos e sociais? Será que pra obter um investimento é preciso massacrar uma nação inteira de trabalhadores, desempregados crônicos, desassistidos?

A tese de doutorado da Elisabete Borgianni está publicada no site da PUC de São Paulo:
http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=7705